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ENSINO DE FÍSICA NAS ESCOLAS DO CAMPO: APONTAMENTOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DO CURRÍCULO

Franciele Franco Dias, André Ary Leonel

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVII
Ano
2018
Data
30/08/2018
Linha de pesquisa
Co-18 Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ENSINO DE FÍSICA NAS ESCOLAS DO CAMPO: APONTAMENTOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DO CURRÍCULO

## PHYSICS EDUCATION IN FIELD SCHOOLS: NOTES ON CURRICULUM CONSTRUCTION

## Franciele Franco Dias , André Ary Leonel 1 2

1 Universidade Federal de Santa Maria/ PPG Educação Matemática e Ensino de Física/ francielefdias@gmail.com

2 Universidade Federal de Santa Catarina/Departamento de Metodologia de Ensino/ aryfsc@gmail.com

## Resumo

O presente trabalho, derivado de uma pesquisa mais ampla que tem como objetivo apresentar elementos teóricos e práticos que podem balizar a organização de estratégias didático-metodológicas ancoradas na articulação Freire-CTS visando contribuir com o processo de ensino-aprendizagem de Física nas escolas do campo, pretende apresentar e discutir elementos referentes a construção do currículo e planejamento pedagógico da componente curricular Física no contexto do campo. A pesquisa foi de cunho qualitativo, tendo os dados coletados por meio de levantamento bibliográfico nas atas dos principais eventos na área de ensino de Física/Ciências, entrevistas semiestruturadas com as diretoras e os professores de Física das duas escolas do campo de um município da região central do estado do Rio Grande do Sul, análise dos Projetos Político Pedagógicos dessas escolas e entrevista semiestruturada com a Assessora das Escolas do Campo da Coordenadoria Regional de Educação a qual as escolas fazem parte. Para a análise dos dados utilizou-se a Análise de Conteúdo e os resultados apresentados indicam uma evolução ao se considerar a construção de uma política específica para as escolas do campo nos últimos anos, mas um número extremamente reduzido de trabalhos referente às práticas desenvolvidas no Ensino Médio destas escolas, mais especificamente nas aulas de Física. Salienta-se ainda que o planejamento pedagógico e curricular da componente curricular Física nas escolas pesquisadas parece não contemplar aspectos relacionados a cultura e aos saberes locais.

Palavras-chave : Ensino de Física; Educação do Campo; Ensino Médio; Currículo.

## Abstract

This work is a part of a broader study that has the objective of presenting practical and theoretical elements that may delimit the organization of didacticmethodological strategies anchored in the Freire-CTS articulation, with the further aim of contributing to the Physics teaching-learning process in field schools. Here, we intend to present and discuss the elements that regard the construction of the curriculum and pedagogical planning of the Physics curricular component within the rural context. The research was qualitative in nature and the data were collected through a bibliographic review of the minutes of the main events in the area of Physics/Sciences teaching; semistructured interviews with the principals and Physics

teachers of the two field schools of a municipality in the central region of Rio Grande do Sul State; analysis of the Political-Pedagogical Projects of these schools; and a semistructured interview with the Advisor for Field Schools of the Regional Education Coordination body that oversees these two schools. To analyze the data, we used Content Analysis. The results provided indicate an evolution when considering the construction of a specific policy for field schools in these last years. There is, however, an extremely small number of works that regard the development of these practices at the High School level in these schools, more specifically in Physics classes. It is also noteworthy that the pedagogical and curricular planning of the Physics curricular component in the researched schools seems not to contemplate aspects related to local knowledge and culture.

Keywords : Physics Teaching; Rural Education; High School; Curriculum.

## Introdução

- O ensino de Física vem, nos últimos anos, recebendo diversas críticas por seu caráter essencialmente livresco e descontextualizado e, embora sejam apresentadas novas possibilidades tanto em discursos oficiais como em propostas curriculares para que esse ensino cumpra seu papel de contribuir com a formação crítica dos estudantes, o que predomina em muitas escolas ainda é o ensino propedêutico (ZANETIC, 2009).

Dessa forma, faz-se necessária a busca por uma escola e especialmente por um ensino que permita ao aluno ser sujeito na construção do conhecimento e envolver-se em ações coletivas em que os conhecimentos das disciplinas sejam apresentados como estratégias de pensamento (PERNAMBUCO, 2009).

Nessa perspectiva, ao se pensar o contexto das escolas do campo e suas especificidades e particularidades, defende-se que a educação neste espaço precisa relacionar-se com a construção e afirmação dos valores, da cultura e da identidade dos povos do campo, bem como contemplar a realidade da escola, conhecendo o local e as expectativas da comunidade (ARROYO; CALDART; MOLINA, 2004; SASSI, 2014).

Portanto, o currículo de Física nas escolas do campo deve ser pensado de forma a considerar competências e habilidades relacionadas ao desenvolvimento das diversas atividades de natureza social, cultural e produtiva do campo (LIMA, 2013).

Nesse sentido, esse trabalho é derivado de uma pesquisa maior intitulada 'Ensino de Física a partir da articulação Freire-CTS: lançando um olhar sobre as Escolas do Campo', a qual tem como objetivo apresentar elementos teóricos e práticos que podem balizar a organização de estratégias didático-metodológicas ancoradas na articulação Freire-CTS visando contribuir com o processo de ensinoaprendizagem de Física nas escolas do campo.

- O objetivo aqui é apresentar e discutir uma parte dos resultados da pesquisa que se referem aos aspectos levados em consideração para a construção dos currículos e planejamentos pedagógicos da componente curricular Física no contexto investigado.

## Referencial Teórico

A concepção de Escola do Campo emerge da necessidade de uma escola direcionada aos interesses, anseios e ao desenvolvimento sociocultural e econômico dos povos do campo (FERNANDES; CERIOLI; CALDART, 2004).

Nesse sentido, no que se refere ao currículo das escolas do campo, Santos e Almeida (2012, p. 139) destacam que

Durante séculos, não houve a preocupação, por parte dos responsáveis pelo sistema do ensino público, com o currículo escolar do campo, principalmente nos municípios afastados dos grandes centros urbanos, onde não havia escola. Esse fato inviabilizava a possibilidade de se poder pensar uma escola do campo como um espaço de educação próprio para aqueles que vivem no e do campo.

Na mesma perspectiva, Lima (2013) salienta que o currículo das escolas do campo deve ser pensado de forma a contemplar competências e habilidades relacionadas ao desenvolvimento das diversas atividades de natureza social, cultural e produtiva do campo e, portanto, os projetos educativos dessas escolas precisam estar de acordo com os projetos de desenvolvimento das comunidades em que essas escolas estão situadas, a fim de que os estudantes do campo atuem como sujeitos na construção de projetos voltados à transformação social e a busca por novos saberes.

No que se refere ao currículo específico de Física, Zanetic (1989) argumenta sobre a necessidade de que este contemple um mínimo de conhecimento básico para que o indivíduo possa auto-educar-se continuamente e, que o ensino de Física contribua com a formação crítica dos estudantes, auxiliando-os na conscientização de seu papel na sociedade e no seu meio.

No entanto, os saberes escolares, assim como a pertinência do que se ensina na escola e a formação que ela oferece, vêm sendo cada vez mais colocados em questão (RICARDO, 2010).

Mais que em outras áreas, no caso do ensino de Ciências de modo geral, e da Física em particular, isso se torna evidente, pois ao mesmo tempo em que os alunos convivem com acontecimentos sociais significativos estreitamente relacionados com as Ciências, e a Tecnologia e seus produtos, recebem na escola um ensino de Ciências que se mostra distante dos debates atuais (idem, p. 29).

Em se tratando das escolas do campo, este distanciamento entre a Física abordada em sala de aula e a Física envolvida no convívio dos alunos pode ser ainda maior, tendo em vista que muitos dos professores tomam o livro didático como única referência e este não traz, por si só, nenhum compromisso com o contexto do campo. Para Ricardo (2010) a ideia de um ensino de Física contextualizado está cada vez mais presente no discurso dos educadores, mas isso não significa que seja uma prática recorrente nas escolas.

Assim, como já foi exposto, faz parte do escopo deste trabalho investigar quais aspectos têm sido levados em consideração para a construção dos currículos e planejamentos pedagógicos para o processo de ensino-aprendizagem de Física nas escolas do campo.

## Metodologia

A pesquisa realizada foi de natureza qualitativa (LÜDKE; ANDRÉ, 1986) e os dados foram analisados a partir dos pressupostos na Análise de Conteúdo (BARDIN, 1977), que visa obter indicadores, sejam eles quantitativos ou não, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção ou recepção das mensagens e o seu processo ocorre a partir de três polos cronológicos, quais sejam: (i) a pré-análise, (ii) a exploração do material e (iii) o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. (BARDIN, 1977).

Nesse sentido, foram analisados os seguintes elementos:

- - Trabalhos publicados nas atas dos principais eventos na área de ensino de Ciências/Física no Brasil buscando realizar um levantamento de metodologias e/ou estratégias que têm balizado as aulas de Física em escolas do campo. Foi considerado um recorte temporal de 14 anos, do ano de 2002 a 2016 e os eventos analisados foram: Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC), Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) e Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (EPEF), sendo selecionado um total de nove trabalhos (OLIVEIRA; ARAÚJO, 2007; BOTEGA et al., 2011; BARRETO; MILTÃO, 2011; SANTANA; MILTÃO, 2011; CARDOSO; MILTÃO, 2011; BARRETO; MILTÃO, 2013; BARBOSA; MILTÃO, 2015; SANTANA; MILTÃO, 2015; BARBOSA; MILTÃO; FERREIRA, 2016);
- - Projetos Político Pedagógicos das duas escolas do campo de Ensino Médio de um município localizado na região central do estado do RS;
- - Entrevistas com os professores de Física e diretores atuantes nas duas escolas do campo do município, bem como com a Assessora das Escolas do Campo da Coordenadoria Regional de Educação (CRE) a qual as escolas são vinculadas. As entrevistas foram gravadas e transcritas e buscaram perceber que elementos balizam o ensino de Física, a construção do currículo, a relação dos professores e diretoras com o meio rural, os aspectos norteadores para o trabalho pedagógico, que orientações recebem e a oferta de formação continuada nas escolas do campo.
- A fim de manter o anonimato dos entrevistados, a Assessora das Escolas do Campo será chamada de A, as diretoras de D1 e D2, sendo D1 a diretora da escola E1 e D2 a diretora da escola E2, os professores de P1 e P2, seguindo a mesma lógica das diretoras.
- A partir da análise desses elementos emergiram três dimensões, quais sejam: (i) Educação no Campo ou Educação do Campo?, (ii) Estratégias didáticometodológicas para o ensino de Física e (iii) Desafios e possibilidades para o trabalho docente. No entanto, cabe salientar, que no decorrer desse trabalho será discutida apenas a dimensão (i)Educação no Campo ou Educação do Campo.

## Resultados e Discussão

As Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (BRASIL, 2012, p. 34), no Artigo 5º, sinalizam que as propostas pedagógicas das escolas do campo

- [...] contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia.

## No mesmo sentido, Lima (2013, p. 609-610) afirma que

[...] os projetos educativos devem estar em sintonia com os projetos de desenvolvimento das comunidades, para que os conhecimentos e saberes produzidos na sala de aula possibilitem que os alunos atuem de forma ativa nos projetos de transformação social e na produção de novos saberes sociais, culturais e tecnológicos voltados para o desenvolvimento que utilize de forma sustentável os potenciais culturais, ambientais, organizativos e produtivos de cada região.

Porém, a escola E1 apesar de estar localizada no campo não parece se reconhecer como sendo uma Escola do Campo, uma vez que o único trecho no PPP em que é mencionado o contexto da escola é o seguinte:

Somos uma escola rural com características urbanas. (PPP1).

## O mesmo fica evidente na fala da diretora da escola:

A gente é uma Escola do Campo por se localizar em uma região afastada da cidade, mas a nossa metodologia, todo o nosso trabalho é igual a de uma escola na cidade. (D1).

Nesse sentido, Santos e Almeida (2012) destacam que a Escola do Campo não pode ser vista como um modelo menor ou distorcido da escola urbana, necessitando o desenvolvimento de dimensões sociopolíticas e culturais vinculadas a questão agrária.

Os autores supracitados sinalizam para a necessária ressignificação do currículo das escolas do campo por parte de docentes, discentes e pessoas do campo de forma que este currículo seja próprio para cada Escola do Campo.

Por outro lado, diferente do PPP da escola E1, o documento norteador da escola E2 trás em diferentes trechos menções ao fato da escola ser do campo, a exemplo do seguinte:

A escola da zona rural deve ser um espaço público de pesquisa, estudos direcionados para o mundo do trabalho e articulação de experiências e, bem como para o desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável. (PPP2).

No que se refere ao planejamento pedagógico, D2 salientou que ocorre em conjunto e levando em consideração a realidade dos estudantes:

Em reunião os professores fazem o planejamento, levando em consideração a realidade dos alunos, para isso são elaborados questionários para os alunos. (D2).

Vasconcellos (2009) defende que por mais que sejam disponibilizadas orientações em propostas gerais, a exemplo dos PCN, é necessário que a escola elabore o seu currículo, levando em consideração as orientações como também a realidade na qual se encontra inserida.

No entanto, P2 salienta que a lógica de seleção dos conteúdos é guiada pelas orientações contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais:

Os conteúdos são selecionados de acordo com os PCN, até porque os planos de estudo tem que passar pelo crivo da coordenadoria de educação, então tu tem que te guiar pelos PCNEM para que eles sejam aprovados pela coordenadoria, então não há nenhuma diferença entre uma escola do campo e uma e uma escola urbana. (P2).

Portanto, parece que não são levadas em consideração para o planejamento pedagógico da Física, as especificidades e particularidades do campo, não sendo contempladas as orientações presentes nas Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (DIAS; LEONEL, 2017).

- P1 também parece, em sua fala, evidenciar que a falta de formação específica na disciplina na qual trabalha compromete o planejamento e que aspectos relacionados ao local são inseridos apenas em atividades pontuais:

[...] como sou professora de Matemática, [...] não fui eu que preparei o conteúdo programático, já era o que o antigo professor de Física utilizava, aí eu só dei seguimento, eu não modifiquei nada.[...]. Às vezes eu faço algum projeto, alguma coisa extra dentro do conteúdo, mas eu não coloco no planejamento, são coisas que surgem ao longo do ano. (P1).

Cabe salientar que ambos os professores apontam não serem ofertadas cursos de formação continuada voltada as especificidades do campo outro fator que pode comprometer o trabalho desenvolvido no âmbito dessas escolas:

Os cursos que a gente tem são na própria escola, ninguém vem ofertar nada sobre escola de campo. (P1).

Nunca foi oferecida formação específica para escolas do campo, já atuei como coordenador pedagógico em uma das escolas e até foi uma falha não ter oferecido aos professores uma formação específica, é até uma deficiência nesse meio. (P2).

Por outro lado, a Assessora das Escolas do Campo enfatizou que existem formações e que nestas é enaltecido o trabalho a partir de temas como uma possibilidade para o trabalho docente:

[...] a gente sempre enfatiza que o planejamento pedagógico das escolas do campo deve estar relacionado a temáticas da região, que as escolas saibam identificar o que seria pertinente para os alunos. (A).

Salienta-se que pensar um currículo pautado em temas demanda a ruptura com a lógica tradicional de seleção dos conceitos, ou seja,

[...] a abordagem dos conceitos científicos é ponto de chegada, quer da estruturação do conteúdo programático quer da aprendizagem dos alunos, ficando o ponto de partida com os temas e as situações significativas que originam, de um lado, a seleção e organização do rol de conteúdos, ao serem articulados com a estrutura do conhecimento científico, e, de outro, o inicio do processo dialógico e problematizador. (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO, 2011, p. 194).

Quanto a revisão bibliográfica, entre os nove trabalhos que compõem o corpus de análise apenas um (OLIVEIRA; ARAÚJO, 2007) menciona o processo de construção do currículo, defendendo a necessidade da inclusão de atividades pedagógicas e curriculares que sejam direcionadas para um projeto de desenvolvimento sustentável e solidário no campo.

## Considerações Finais

A discussão realizada ao longo desse artigo objetivou analisar como ocorre e quais aspectos são levados em consideração para a construção do currículo e do planejamento pedagógico da componente curricular Física nas escolas do campo.

Nesse sentido, destaca-se considerando a legislação balizadora da Educação do Campo que houve nos últimos anos uma evolução ao se considerar à construção de uma política pública específica para as escolas do campo. No entanto, parece que as escolas, E1 ainda de uma forma mais evidente que E2, não se reconhecem como escolas do campo, nem contemplam debates acerca dos documentos que balizam a Educação no contexto do Campo.

Esse aspecto evidencia a falta de formação continuada que dê suporte para a discussão de questões referentes à Educação do Campo, tanto com as diretoras como com os professores de Física. Essa falta de formação impacta na construção dos currículos de Física, que parece não contemplar a realidade e os anseios das comunidades em que as escolas estão situadas, comprometendo a qualidade do ensino de Física para os jovens do campo.

Salienta-se, a partir da revisão bibliográfica, que o número de trabalhos que investigam o Ensino de Física no contexto das escolas do campo é reduzido e que há um silenciamento no que se refere a construção do currículo dessas escolas.

## Referências

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