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Estudo da evasão dos estudantes de Licenciatura e Bacharelado em Física da Universidade Federal de Ouro Preto: uma análise segundo Bourdieu

João Fernandes, Michele Ueno Guimaraes

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVII
Ano
2018
Data
30/08/2018
Linha de pesquisa
Co-17 Formação E Prática Profissional Do Professor De Física / Linguagem E Cognição No Ensino De Física / Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESTUDO DA EVASÃO DOS ESTUDANTES DE LICENCIATURA E BACHARELADO EM FÍSICA DA UFOP: UMA ANÁLISE SEGUNDO BOURDIEU

## STUDY OF THE EVASION OF STUDENTS OF LICENSING AND BACHELOR IN PHYSICS AT UFOP: AN ANALYSIS BY BOURDIEU

## João Fernandes 1 , Michele Ueno Guimaraes 2

1 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física, ofjoao37@gmail.com 2 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física, micheleueno@usp.br

## Resumo

Evasão é um problema que circunda os cursos de Física por todo o Brasil. Este trabalho foi realizado com o intuito de investigar os motivos de este fenômeno acontecer na Universidade Federal de Ouro Preto. Para isso, foram feitas entrevistas com alunos e professores dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Física. As escolhas dos entrevistados foram feitas com o intuito de agregar pontos de vistas diferentes sobre o mesmo objeto. A elaboração do questionário foi feita baseada na vivência ao longo dos quatro anos de curso. Os principais motivos apontados pelos alunos era uma relação complicada com os professores, associada a uma rotina acelerada nas repúblicas de Ouro Preto. Para os professores, o principal fator está relacionado ao uso do curso de Física como um 'trampolim' para outros cursos, principalmente Engenharias. Após as entrevistas serem feitas, foram analisadas tendo como referencial, o sociólogo Pierre Bourdieu e sua teoria do Sistema de Ensino. Com base nos seus textos, pudemos identificar as diversas relações de dominância existentes nos cursos, que evidenciam alguns dos motivos para que a evasão seja tão alta.

Palavras-chave : Evasão; curso de Física; Sociologia; relações de dominância.

## Abstract

Evasion is a problem that appears in the Physics courses around Brazil. This work aims the investigation of the reasons that makes this phenomenon happen at the Universidade Federal de Ouro Preto. To do so, interviews were conducted with students and professor of the Licentiateship and Bachelor in Physics. The choice of the interviewers had the purpose to aggregate more points of view of the same phenomenon. In order to elaborate the quiz we organized the data we had from studying at the University for four years. The principal reason pointed by the students is a difficult relationship with the professors associated with the accelerated pace of the republics in Ouro Preto. On the other side, for the docents, the principal reason is the use of the course as 'trampoline' to other courses, especially Engineering. After the interviews were finished, they were analyzed based on the works of the sociologist Pierre Bourdieu and his theory of the Teaching System. Using his papers, we could identify various dominancy relationships on the courses, which evidence one of the reasons that the evasion is high.

Keywords : Evasion; Physics course; Sociology; dominancy relationships.

## Introdução

Este trabalho é resultado de uma pesquisa em andamento, na Universidade Federal de Ouro Preto e tem como objetivo procurar entender os motivos pelos quais os alunos evadem ou são retidos nas habilitações de Bacharelado e Licenciatura em Física, dessa mesma Instituição.

- O alto número de evasão e retenção é uma realidade para os cursos de Física do Brasil (UENO, 2004; LIMA JUNIOR, et al ., 2012; UENO-GUIMARAES, 2014). Os estereótipos de que se formar físico é de extrema dificuldade e que apenas aqueles, que dominam os fundamentos básicos, serão capazes de completar a formação estão presentes nos discursos dos alunos e professores de diversas Instituições.

Para contextualizar o trabalho, reunimos dados institucionais dos cursos, acerca do número de egressos, bem como o número de alunos matriculados, quantidade de professores efetivos e substitutos, do Departamento de Física. Estes dados foram fornecidos pela Sessão de Ensino, do Instituto de Ciências Exatas e Biológicas, local onde o Departamento está localizado.

Na UFOP i , o curso de Física é dividido em duas habilitações: Licenciatura e Bacharelado. O período de ingresso de novos alunos é apenas durante o primeiro semestre letivo de cada ano e existem 35 vagas anuais para o curso, sendo 10 para o primeiro e 25 para o segundo. Embora sejam habilitações distintas, por serem poucos, os alunos fazem a maior parte das disciplinas do ciclo básico em conjunto.

- O curso de Licenciatura não foi criado junto com o de Bacharelado, sendo esse um curso novo, com apenas seis anos de criação, enquanto o segundo beira os 20 anos de criação. Este é um fato relevante para, quando formos analisar a quantidade de vagas para alunos ingressantes, em cada uma das habilitações, bem quanto à quantidade de professores especializados.
- A Licenciatura em Física possui seis anos de criação. Nos dois primeiros anos de funcionamento, o curso oferecia apenas cinco vagas anuais. A partir de 2014, o curso ampliou este número para dez vagas, que continua até hoje.

Ainda não foi diplomado nenhum aluno na Licenciatura, o que é preocupante, já que em seis anos de curso, duas turmas (um total de dez alunos) poderiam ter consigo o seu diploma. Na Licenciatura da UFOP, a porcentagem de evasão é aproximadamente 54,35% ii .

Com relação ao Bacharelado iii , podemos constatar, de acordo com os dados coletados, que a realidade de poucos alunos se formarem é mantida. Sobre um total de 455 ingressantes, apenas 108 se formaram, o que representa 23,74%. Em contrapartida, observamos que a porcentagem de evasão do curso é substancialmente maior, chegando a 67,03%.

- O que nos motivou a pesquisar sobre este assunto foi a dificuldade que alguns alunos encontram em avançar com os seus estudos. Esta dificuldade é justificada, a priori , em duas visões dicotômicas.
- Para os alunos, grande parte do problema está na formação dos professores e na maneira com que estes conduzem as suas aulas. A falta de empatia, e

tolerância de alguns professores, aliada a dificuldade com alguns elementos básicos, por parte dos alunos, como a matemática, fundamentam estas críticas. Por fim, os alunos constatam que a vida ouropretana, baseada em festas e 'batalhas' por vagas em repúblicas diminui o seu tempo de estudo e consequentemente, os levam a ficarem retidos.

Para os professores, o problema é centrado no aluno, que não tem interesse em permanecer no curso, utilizando-o como trampolim para outros cursos, principalmente as Engenharias. Além disso, alguns professores julgam que os alunos não são motivados o suficiente, o que leva a não estudarem e trocarem as suas prioridades, que para eles, deveria ser o estudo.

## Referencial teórico

A ideia de se utilizar um referencial dentro da Sociologia da Educação é justificada pela natureza do objeto de investigação: o perfil, evasão e retenção dos estudantes do curso de Física, da Universidade Federal de Ouro Preto. Sabe-se que a análise do perfil de um grupo de pessoas não está somente relacionada às características pessoais de cada indivíduo, mas também na forma em que os integrantes de cada grupo se relacionam entre si. Desta forma, a Sociologia nos fornece maiores amparos, para tentarmos identificar as características destes grupos, bem como as possíveis causas do elevado número de evasão e retenção do curso.

A escolha do autor Pierre Bourdieu está diretamente relacionada com a sua forma inovadora de encarar a Sociologia. De acordo com o autor (2004), a Ciência Social oscila entre duas perspectivas que aparentemente são incompatíveis: o objetivismo e o subjetivismo. O primeiro está relacionado com a capacidade de se analisar as coisas como elas são, deixando de lado os contextos socioeconômicos que culminaram em tais ações. O segundo, de maneira contrária, pode reduzir as relações sociais a meras representações, o que por fim, nos levaria a fazer explicações das explicações.

Bourdieu (2004) tenta correlacionar essas duas perspectivas em um trabalho classificado por ele como contructivist structuralism ou structuralist constructivism . Para ele, estruturalismo, ou estruturalista, está relacionado com a 'existência de estruturas objetivas, independentes da consciência e vontade dos seus agentes, as quais são capazes de orientar ou coagir suas práticas e representações' (2004, p. 149). Sobre o construtivismo, ou construtivista, o autor diz que existe, por um lado, uma construção social, que permeia os pensamentos e ações, que constitui o que ele chama de habitus , e de outro lado, as estruturas sociais, mais conhecidas como estruturas de classe.

Ele acredita que a realidade social não é caracterizada pela livre expressão dos indivíduos que a compõe. Para ele, este indivíduo é um ser construído socialmente em seus mínimos detalhes (da maneira de vestir à de pensar e falar), incluindo a sua postura perante a escola, suas perspectivas ao futuro profissional. Porém, a sociedade não exerce um papel inflexível na moldagem de cada indivíduo. Para o autor, as pessoas que constituem a sociedade devem agir de acordo com disposições práticas relacionadas ao grupo social no qual foram socializados. Este conjunto de disposições é chamado por ele de habitus .

As estruturas de classe, tendo como base a forma que os diferentes tipos de capital são distribuídos, são feitas em duas etapas. A primeira está relacionada com a dimensão total de capital de diferentes espécies acumulada. A segunda, de acordo com a estrutura do capital em relação ao montante total adquirido, isto é, o peso relativo que cada capital possui no volume total adquirido.

Para Bourdieu, a escola é uma instituição de manutenção das estruturas de classe e reprodução da cultura dominante, uma vez que, para se apropriar dos conteúdos escolares é necessário um bom domínio da língua. Seguindo um modelo de avaliação meritocrático, as classes inferiores e médias são selecionadas com base em conceitos já apreendidos pelas classes dominantes.

- O corpo docente tende a reproduzir da forma que lhes foi ensinado, dessa forma o sistema de ensino se sustenta por meio da auto-reprodução, ou seja, o mestre tende a imitar o seu mestre. É por este motivo que a transformação da cultura escolar é, em geral, mais atrasada em relação às outras transformações culturais de outras áreas.

Desta forma, como agente pedagógico, ele desconhece a arbitrariedade que lhe está na origem, porque o sistema está fadado à auto-reprodução e as condições internas de produção de habitus , reproduzem as relações de fora das classes dominantes.

- É por meio das relações de força existentes que os conceitos dominantes tendem a ficar sempre em posição dominante. Esta situação origina a chamada ação pedagógica dominante (classes superiores), que impõe valores e significações à ação pedagógica dominada (classes inferiores).

A ação pedagógica é sempre considerada uma violência simbólica, pois visa impor e inculcar significações selecionadas, enquanto outras são excluídas. Esta seleção é feita por grupos ou classes dominantes de maneira arbitrária. Assim sendo, podemos concluir que a ação pedagógica tem a função de reproduzir de forma mediada os interesses dos grupos dominantes.

## Metodologia

Para realizar a coleta dos dados foram elaborados dois questionários, utilizados em uma série de entrevistas, gravadas em áudio e vídeo, com professores e alunos do curso de Bacharelado e Licenciatura em Física, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Para este trabalho, selecionamos apenas alguns dados trazidos pelos alunos.

As primeiras questões eram de caráter pessoal, para conhecermos quem eram nossos entrevistados; em seguida, algumas questões sobre o curso, professores, dificuldades encontradas, oportunidades oferecidas, entre outras.

Sobre os alunos entrevistados, procuramos selecioná-los de maneira a conhecer a sua visão, em diferentes épocas do curso, sendo eles: 3 (três) alunos do curso de Bacharelado em Física, sendo 1 (um) do primeiro período, 1 (um) do terceiro período e 1 (um) do oitavo período; 3 (três) alunos do curso de Licenciatura em Física, sendo 1 (um) do primeiro período, 1 (um) do oitavo período, mas que estava atrasado e 1 (um) do nono período.

As entrevistas foram realizadas, na Sala de Pesquisa em Ensino, do Departamento de Física. Com uma média de 30 minutos por entrevista, todas foram

assistidas novamente e analisadas, com o intuito de identificar os motivos, pelos quais, o número de egressos entre as habilitações é tão diferente.

Essas entrevistas aconteceram no período de Junho e Julho de 2017. Para manter o sigilo das pessoas envolvidas, utilizaremos nomes fantasias. Todos eles assinaram um termo de autorização de uso de imagem e voz, autorizando o uso de recortes de suas falas e sua utilização no presente trabalho.

## Apresentação dos dados

A primeira pergunta feita foi em um contexto geral, para saber qual é a história dos alunos do curso de Física da UFOP. Pudemos perceber que, dentre os seis alunos entrevistados, quatro começaram a falar da sua história a partir das suas experiências no Ensino Fundamental.

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Tabela 1: Qual a sua história?

Podemos perceber, nessa primeira tabela, um delineamento acerca do perfil dos estudantes do curso de Física. Em um contingente de seis alunos, notamos que nenhum deles cursou o Ensino Fundamental e Médio de maneira integral em escolas particulares. No entanto, existem três alunos que cursaram essas etapas da sua formação somente em escolas públicas. Dos três alunos que passaram por escolas particulares, dois o fizeram na segunda etapa da sua formação, enquanto apenas um na primeira etapa. Também observamos dois alunos que fizeram o Ensino Médio em escolas técnicas.

A partir desses dados, podemos dar início a um delineamento do perfil dos alunos. De maneira unânime, os alunos, em algum momento, passaram pelas escolas públicas do país. Ressaltamos a aparição de dois alunos que cursaram um Ensino Técnico.

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Tabela 2: Como você enxerga as oportunidades no curso?

Um fator que dificulta as oportunidades no curso, de acordo com 2 alunos da Licenciatura, é que existem menos oportunidades para eles, do que para os bacharéis, uma vez que no Departamento de Física, apenas 4 professores, que representam 10% do corpo docente, têm formação na área de Educação e promovem projetos de pesquisa na área.

Os alunos do Bacharelado, em contrapartida, dizem que os professores que trabalham com Física Hard estão muito concentrados em determinadas áreas. Isto acaba forçando o aluno a procurar orientação fora da Universidade ou sucumbir àquelas já existentes.

Podemos perceber que as oportunidades existem, mas ainda o acesso a elas é restrito apenas à elite dos alunos, que possuem um alto coeficiente e fazem parte do grupo dominante no Departamento.

Tabela 3: Você acha que os professores exercem alguma influência na saída dos alunos do curso? Se sim, como?

Desta vez, de maneira mais direta, indagamos aos alunos se os professores da Universidade podem influenciar a saída dos alunos do curso. Todos os alunos, inclusive os calouros, responderam que, de certa maneira, os professores podem ter uma parcela nisso.

Arrogância, desmoralização, piadas de mau gosto, foram alguns pontos que os alunos relataram sobre tal influência negativa. Não é incomum, ouvirmos nos corredores da Instituição, reclamações de algum professor, porque ele estava agindo de maneira arrogante com os alunos. Estas atitudes, embora condenáveis, são uma realidade na Universidade Federal de Ouro Preto.

Outro ponto que os alunos mencionaram foi a inflexibilidade na hora da correção das provas e trabalhos, evidenciando um problema recorrente no ensino tradicional, que perpassa a unicidade do saber, ou seja, apenas aquilo que o professor diz ser certo está, de fato, correto. A dificuldade em entender uma maneira diferente de pensar também é um ponto de conflito entre professores e alunos, seja dentro de sala, numa maneira diferente de se resolver um exercício, ou fora dela com a divergência de pensamentos sociais e políticos. Esta divergência, que deveria contribuir para o crescimento de ambos, acaba se tornando um empecilho na convivência, e essa balança muitas vezes tende a favor do professor, que reprova os alunos, tanto no ciclo básico, quanto no profissional.

## Análise dos dados

Com base nos dados coletados nas entrevistas, pudemos concluir que todos os alunos entrevistados passaram pela escola pública, que a maior parte dos alunos do curso de Física é de classe média ou inferior. O curso de Física é desvalorizado socialmente, assim, aqueles que por ventura se matriculam nele, geralmente, são

alunos que não conseguiram entrar em cursos de prestígio, como Engenharias, Direito ou Medicina.

De acordo com Bourdieu (2009), a escola é um mecanismo de manutenção das estruturas de classes, uma vez que os alunos das classes inferiores não possuem acessos aos arbítrios culturais necessários, para pleitear uma vaga em cursos de maior status . O exame, principal instrumento de ascensão social escolar, é também o principal instrumento de exclusão, uma vez que se fundamentam na meritocracia para classificar os alunos.

Outro motivo que nos leva a crer que os membros da classe inferior são excluídos, antes mesmo de chegarem à Universidade, está relacionado ao fato de na escola pública, ter uma infraestrutura ruim. De acordo com relatos dos alunos, este foi um fator importante para não conseguirem se apropriar dos conceitos passados, uma vez que os professores não têm meios, e os alunos não possuem um ambiente escolar agradável.

Outro ponto, levantado pelos alunos da Licenciatura, foi a falta de professores da área, que possam oferecer disciplinas eletivas, para complementar o currículo, bem como realizarem projetos de pesquisa na área. Hoje, com cerca de apenas 10% do corpo docente com formação para tal, e uma demanda de reformulação da Licenciatura proposta pelo MEC, é necessária a contratação de novos professores.

Da mesma forma, os alunos do Bacharelado criticam o número reduzido de áreas de formação nos professores da área. Como a habilitação oferece duas ênfases: Física de Materiais ou Física Geral, eles se veem obrigados a realizar projetos em uma dessas áreas.

Como ambos os cursos são lotados em um único Departamento, a divergência de ideias se faz presente. Porém, essas trocas de ideias, muitas vezes, acontecem de maneiras hostis. Foi levantado pelos entrevistados, que existe a recorrência de piadas do Bacharelado em relação à Licenciatura, tanto por parte dos alunos, quanto dos professores. Dentro dessa estrutura, o Bacharelado constitui a classe dominante, enquanto a Licenciatura é a dominada.

Outro aspecto que evidencia essa relação de dominância é referente a um menosprezo implícito, no qual grande parte dos bacharéis, ou aspirantes ao bacharelado, acreditam que somente a sua área realiza pesquisas.

Outra relação de dominância é expressa na relação entre professores e alunos. De acordo com estes, um dos principais fatores que levam à evasão, é referente à arrogância, ao menosprezo, que alguns professores têm para com os alunos, dentro e/ou fora da sala de aula. Esta situação corrobora para que os alunos sintam medo de expressar as suas ideias, quando contrárias às dos professores, pois têm receio de serem perseguidos em disciplinas futuras. Esse medo também é evidenciado na falta de participação discente em órgãos colegiados e reforçam ainda mais essas relações de dominância.

## Considerações finais

Este trabalho teve como objetivo, procurar identificar o perfil dos estudantes de Física da Universidade Federal de Ouro Preto, para tentar compreender os motivos de se existir um alto índice de evasão nos cursos. Para isso, realizamos

entrevistas com alunos dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Física, buscando fazer uma divisão, de acordo com o tempo que os alunos estavam no curso.

Utilizamos como referencial teórico o sociólogo Pierre Bourdieu, que contribuiu significativamente para o entendimento das estruturas de classe, bem como contribuições acerca do sistema de ensino. Sua visão acerca dos campos intelectuais foi essencial para tentarmos entender as relações de poder na UFOP.

Com base nisso, pudemos perceber como a estrutura social dentro da Universidade é um universo complexo. Podemos ver diversas relações de domínio: do Bacharelado sobre a Licenciatura, dos professores sobre os alunos, dos cursos de prestígio sobre os cursos de Ciência básica, dos republicanos sobre o restante dos alunos. Delimitar essas relações é fundamental, para entendermos alguns dos motivos os quais levam os alunos a evadirem o curso de Física.

Após a análise dos dados coletados nas entrevistas, concluímos que a Universidade tem o mesmo papel que as escolas de Ensino Fundamental e Médio, realizando a manutenção das estruturas de classe. Isso se dá pela escolha arbitrária dos arbítrios culturais, que serão lecionados nos cursos, pelos colegiados, que não levam em consideração o conhecimento prévio dos alunos. Esta situação é mais evidenciada dentro da sala de aula, quando professores presumem que os alunos têm o conhecimento de uma matéria, antes mesmo de lecioná-la.

## Referências

BOURDIEU, P. A escola conservadora : as desigualdades frente à escola e à cultura, 2009.

\_\_\_\_\_\_\_\_.

Coisas ditas . 1 ed. São Paulo: Brasiliense. 2004. 235 pp.

BOURDIEU, P; PASSERON, J.-C. A Reprodução : Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

LIMA JÚNIOR, P; OSTERMANN, F; REZENDE, F. Análise dos condicionantes sociais da evasão e retenção em cursos de graduação em Física à luz da sociologia de Bourdieu. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências . Vol. 12. 2012.

UENO, M. H. A 'tensão essencial' na formação do professor de Física: entre o pensamento convergente e o pensamento divergente. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Educação Matemática). Departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina - UEL. 156p, 2004.

UENO-GUIMARÃES, M. H. A escolha pela Física : Gosto ou desafio? Saarbrücken, Alemanha. Ed. Novas Edições Acadêmicas. 2014.

UFOP. &lt; http://fisica.ufop.br&gt;. Acessado em 29/01/2018.

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