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AS HISTÓRIAS DE VIDA DE JOVENS PROFESSORES DE FÍSICA: O PAPEL DA FAMÍLIA NA ESCOLHA DA CARREIRA DOCENTE

Renata Pojar, André Rodrigues

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVII
Ano
2018
Data
30/08/2018
Linha de pesquisa
Co-17 Formação E Prática Profissional Do Professor De Física / Linguagem E Cognição No Ensino De Física / Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## AS HISTÓRIAS DE VIDA DE JOVENS PROFESSORES DE FÍSICA: O PAPEL DA FAMÍLIA NA ESCOLHA DA CARREIRA DOCENTE

## THE LIFE HISTORIES OF YOUNG PHYSICS TEACHERS: THE ROLE OF THE FAMILY IN THE TEACHING CAREER CHOICE

## Renata Pojar , André Rodrigues 1 2

## Resumo

De acordo com a literatura, existe uma escassez de professores no Brasil. Muitos estudos são dedicados a entender porque uma grande quantidade de professores iniciantes abandona a carreira. Embora reconheçamos que o abandono do emprego é um tópico muito importante para gerar uma compreensão profunda da situação atual, há um lado que é comumente esquecido, aqueles que permanecem na atividade de ensino. Esse trabalho busca apresentar a contradição existente entre os dois polos (evasão/permanência). Para tanto, usaremos a história de vida , como ferramenta metodológica para perceber essa contradição. Essa metodologia pode fornecer elementos relevantes para entender melhor o porquê e como os sujeitos se envolvem em atividades, bem como abarcam relações ao longo da vida. Esta pesquisa tem como objetivo estudar a história de vida de dois professores licenciados em Física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo, que estão iniciando sua carreira docente, com até cinco anos de ingresso, e que atuem ou tenham atuado em escolas públicas do Estado de São Paulo. Focar-se-á, nesta pesquisa, o papel da família na continuação dos estudos, bem como em relação à escolha da profissão docente. A teoria da subjetividade servirá de referencial teórico para esta pesquisa. A principal ferramenta de coleta de dados empíricos foi a realização de entrevistas, de cunho autobiográfico. Desenvolveu-se a análise evidenciando as relações entre família, escola e trabalho, como forma de apresentar os resultados. Por fim, nas conclusões expomos como os resultados encontrados poderão gerar impactos em políticas públicas que visam garantir a permanência do jovem professor, além de fomentar possibilidade de reflexões no atual curso de formação inicial aos licenciados em Física, bem como na reflexão de cursos de formação continuada.

Palavras-chave : Desenvolvimento profissional. Permanência. Evasão. História de vida. O papel da família.

## Abstract

According to literature, there is a shortage of teachers in Brazil. Many studies are dedicated to understanding why many beginning teachers drop out. Although we recognize that dropping out of job is a very important topic to generate a deep understanding of the current situation, there is one side that is commonly overlooked,

those who remains in the teaching activity. This research shall present the contradictions between two poles (drop out/permanence).We use life history as a methodological tool to grasp those contradictions. This methodology can provide relevant elements to better understand why and how subjects are involved in activities, as well as encompass relationships throughout the subjects' lives. We examine the life history of two Physics teachers graduated from the Institute of Physics of the University of São Paulo, who are starting their teaching career, with up to five years of admission, and who work or have worked in public schools in the state of São Paulo. The role of the family in the continuation of studies, as well as in relation to the choice of the teaching profession, will be focused in this research. The theory of subjectivity will serve as a theoretical reference for this research. The main tool for the collection of empirical data was the conduction of autobiographical interviews. The analysis was developed showing the relationships between family, school and work, as a way of presenting the results. Finally, in the conclusions we show how the results found can generate impacts on public policies that aim to guarantee the permanence of the young teacher, besides fomenting the possibility of reflections in the current course of initial formation to the graduates in Physics, as well as in the reflection of training courses continued.

Keywords : Professional development. Permanence. Evasion. Life's history. The role of the family.

## Introdução

De acordo com pesquisas recentes na literatura, existe uma escassez de professores no Brasil (GATTI & BARRETO, 2009). Não é uma surpresa que ao longo dos anos menos jovens mostrem interesse em se tornar um professor. Este cenário é agravado na educação científica, uma vez que se sobrepõe à falta de interesse na Ciência. Portanto, a educação científica deve lidar com dois problemas principais: em primeiro lugar, o processo de recrutamento de nova geração para programas de ensino de ciências; em segundo lugar, o processo de permanência do professor de ciências qualificado na sala de aula. No Brasil, muitos estudos são dedicados a descrever e entender porque uma grande quantidade de professores iniciantes abandona a carreira (RABELO, 2016; LAPO & BUENO, 2003). Eles geralmente indicam salários baixos e insatisfação no trabalho como os principais motivos para o abandono. Embora reconheçamos que o abandono do emprego é um tópico muito importante para gerar uma compreensão profunda da situação atual, há um lado que é comumente esquecido, aqueles que permanecem na atividade de ensino (ENS et al, 2014). Esse trabalho busca apresentar a contradição existente entre os dois polos (evasão/permanência), fazendo uma síntese, de forma a ampliar o foco da pesquisa, não trabalhando os dois extremos de forma isolada (CAMILLO & MATTOS, 2014). A permanência na profissão e no ensino público não devem ser tomada de maneira estática ou isolada, ao contrário, a situação de permanência e evasão da profissão pode ser caraterizada como um movimento contraditório - um equilíbrio fino entre os dois aspectos da docência. Ao longo de suas trajetórias os sujeitos são levados e confrontados com ambos, tanto de permanência quanto de evasão da profissão. Para tanto, usaremos a história de vida , como ferramenta metodológica para perceber essa contradição. Essa metodologia pode fornecer elementos relevantes para entender melhor o porquê e como os assuntos se envolvem em atividades, bem como abarcam relações ao

longo da vida dos sujeitos. Esta pesquisa tem como objetivo estudar professores licenciados em Física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), que estão iniciando sua carreira docente, e que atuem em escolas públicas do Estado de São Paulo. A incursão em suas histórias de vida permitirá ter acesso à parte de suas vivências e escolhas, realizadas ao longo de suas vidas pessoal e profissional, relacionadas a um processo pessoal de construção de sentidos. Focarse-á, nesta pesquisa, o papel da família na continuação dos estudos, bem como em relação à escolha da profissão docente. A pesquisa utilizou métodos qualitativos de obtenção e análise dos dados. Foi feita uma pesquisa de campo, aplicando-se instrumentos de coletas de dados para a pesquisa, através de entrevista semiestruturada de cunho autobiográfico, com seis professores. Neste artigo, serão apresentados os dados obtidos de dois professores entrevistados. Ao final foi feita uma discussão e análise dos dados, focando nas relações entre família, escola e trabalho, como forma de apresentar os resultados. Procurou-se verificar como as vozes da família aparecem na atividade da escolha profissional e como isso se relaciona com os sujeitos entrevistados.

## A subjetividade individual e social

O conceito de subjetividade é bastante estudado atualmente no âmbito da Psicologia. A partir dos trabalhos desenvolvidos por Vigotski, Rey (2004) elabora estudos acerca da subjetividade, afirmando que esta conduz o indivíduo e a sociedade a uma relação indivisível, em que ambos aparecem como momentos da subjetividade social e da subjetividade individual. Algo que se destaca nas reflexões de Vigotski é a ênfase nos aspectos processuais da relação entre pensamento, palavra e linguagem, e sua relação com a consciência como sistema. A tendência em compreender a psique como sistema nos leva a pensar em sua ênfase na relação entre o sentido da palavra e o sistema de consciência. Vigotski estava gestando, naquele momento, um novo tipo de unidade da vida psíquica, envolvida com uma compreensão mais sistêmica da psique. Segundo Rey (2004), Vigotski está se referindo ao sentido como um movimento permanente, daí sua ênfase na instabilidade. Nessa definição, Vigotski está dando um caráter ontológico diferente ao sentido, que não reifica em nenhum tipo de conteúdo abstrato, mas sim que existe como momento processual do sujeito, associado aos diferentes contextos de sua ação. Ele passa a representar a psique humana como um sistema complexo a partir de sua representação de 'sistema de sentidos', definição que remete à subjetividade. O sentido não se produz por qualquer influência externa ao sistema psíquico, e sim como resultado de um processo que tem lugar em um nível psíquico, dentro do qual toda influência externa atua através das possibilidades geradoras de sentido da subjetividade em seu momento atual. Esta visão rompe com a dicotomia social/individualidade. O sentido subjetivo permitiu compreender a personalidade como uma forma de organização da subjetividade individual, sem reduzi-la a esta esfera, pois Rey também definiu a subjetividade social como produções sociais carregadas de sentido subjetivo que estão configuradas por processos emocionais e simbólicos produzidos nas mais diferentes esferas da sociedade. Para Rey, a categoria de sentido permitiu compreender a subjetividade como um nível de produção psíquica, inseparável dos contextos sociais e culturais em que acontece a ação humana. A incursão nas histórias de vidas dos jovens professores de Física que atuam em escolas públicas, permitirá ter acesso à parte de suas vivências e escolhas, realizadas ao longo de suas vidas pessoal e profissional. Estas escolhas

estão relacionadas a um processo pessoal de construção de sentidos. Essa construção utiliza como recurso a existência singular dos sujeitos, com suas experiências e afetividades, mas também uma gama de significações e de forma de relacionamento e produção social em que sucedem e que circunscrevem a experiências vividas por cada um. Assim, a vida social, na qual estão os determinantes para as escolhas de atuação profissional, como a ideologia dominante, as formas de trabalho dentro da escola, o papel da educação, entre outros, não é algo externo ao indivíduo (BOCK, 2008).

## A utilização de histórias de vida

A principal ferramenta de coleta de dados empíricos foi a realização de entrevistas, de cunho autobiográfico, com jovens professores de Física licenciados na Universidade de São Paulo e que atuem ou tenham atuado em escolas públicas. As entrevistas foram gravadas em áudio e depois transcritas, recurso que possibilitou o acesso reiterado e minucioso às informações coletadas. As perguntas elaboradas buscaram extrair dos entrevistados uma narrativa do tipo autobiográfica. Ou seja, por meio dessas narrativas, os sujeitos realizaram uma análise de sua história de vida e das relações com o seu trabalho na escola pública (REGO, 2003). As histórias de vida utilizam-se de uma metodologia que visa recuperar verdadeiramente o sujeito, como uma 'tentativa de enfatizar o recurso da memória (individual ou coletiva), como eixo norteador da construção de práticas de formação' (BUENO, 1993, p. 300). Desse modo, essa metodologia se opõe à racionalidade no tocante ao processo de formação de professores. Está cada vez mais evidenciado o protagonismo exercido pelo professor em sua formação, haja vista a formação do professor intelectual crítico, que é contra a visão tecnicista. O professor é sujeito importante do processo, tendo algo a dizer e a contribuir (GOODSON, 1995).

## Identificação dos sujeitos

O professor Alex estudou em uma escola particular. Sua mãe, por ser professora, insistia que tivesse uma ótima formação básica. Apesar de viver em um bairro de classe média baixa, frequentou uma escola particular de elite. Relata que seus pais começaram a trabalhar desde muito cedo, sendo os primeiros a ingressarem no nível superior em suas famílias. Seu pai possui duas graduações, em Contabilidade e em Economia. A mãe é formada como professora de Letras. O professor Alex destacou dois professores de Física, como grandes influenciadores em sua escolha profissional. Ingressou direto no curso de licenciatura em Física pela USP ao término do ensino médio. Desde a sua adolescência, almejava trabalhar e ter autonomia financeira. Começou a trabalhar apenas quando estava cursando licenciatura em Física. Conseguiu um estágio remunerado em uma escola particular. Nessa mesma época, seu primo convidou-o a trabalhar na loja de carro que tinha e ele aceitou, porque na escola ganhava muito pouco. Devido à correria de trabalhar e estudar concomitantemente, o seu rendimento acadêmico caiu. Pensou em abandonar o curso ao final do terceiro ano, trabalhar o dia inteiro na loja de carros e ir atrás de outra carreira. Pensou em cursar Economia ou Direito. Apesar de serem carreiras de Humanas, começou a pensar financeiramente, a exemplo de seu pai. No quarto ano do curso de licenciatura, conheceu professores e começou a se interessar muito mais em ser professor. Iniciou os estágios nas escolas. Em 2007 prestou concurso para professor do Estado de São Paulo. Como estava no quarto

ano, foi chamado, mas não pode assumir. Quando estava para se formar, pensou no que iria fazer, se enviava currículos para escolas ou se continuava estudando. Prestou vestibular para o curso de Astronomia do IAG, entrando na turma de 2009. Foi chamado novamente no concurso público, assumindo o cargo e tornando-se professor efetivo da rede estadual de São Paulo.

A professora Vera estudou em uma escola particular. Todo o salário de seu pai era para pagar a mensalidade. Sua mãe, dona de casa, viveu na COHAB a vida inteira para dar estudos às filhas. Conta que sua mãe estudou até o fundamental, pois se tornou dona de casa, assumindo a educação das filhas. Quando voltou a trabalhar, começou a fazer o supletivo, à noite. O pai tem ensino médio completo, com curso técnico em eletrônica pelo SENAI. A professora Vera fez clara menção em querer ser professora de Física. Devido a todo o estigma da profissão, pensa em profissões que utilizassem Física de maneira mais ampla. Prestou diversos vestibulares. Foi aprovada em Tecnologia em Processo de Produção na Fatec. Durante o primeiro ano de graduação na Fatec, começou a dar aula em um cursinho comunitário da própria instituição, sendo sua primeira experiência docente, reafirmando sua vontade de ser professora. Decidiu terminar a graduação e voltar a cursar vestibular para fazer licenciatura na USP. Nessa época já estava trabalhando na parte de telemarketing de um banco. Falou da insegurança de largar o emprego no banco e se dedicar à sua formação docente. Decidiu ser eventual, para sentir o que era ser professora e para perder o medo da profissão, durante o quarto ano da graduação. Começou a duvidar se era essa a profissão que gostaria de seguir, frente às dificuldades iniciais. Encontrou ajuda em um amigo de mestrado. Com a ajuda dele, começou a reafirmar que queria ser mesmo professora. Esta experiência durou seis meses, aproveitando para fazer uma disciplina de estágio lá. Começou a trabalhar em uma escola particular de método apostilado, concomitante ao trabalho no banco e ao término da faculdade. Estava prestes a se casar também. Ficou nesta escola por um ano. Prestou concurso e foi dar aula no Estado.

## Narrativas sobre papel da família

Buscou-se analisar as narrativas, fazendo uma incursão sobre o papel da família e a sua influência em relação ao processo de escolha da profissão para cada professor(a) entrevistado(a). Dividiu-se esse estudo em duas partes: primeiramente, olhando o papel da família na continuação dos estudos durante a educação básica até a entrada na universidade; depois, o exame do papel da família em relação à escolha da carreira de professor. A análise de dados foi feita de forma conjunta para as duas entrevistas. Por fim, criou-se uma série de relações e contradições, focando nas relações entre família, escola e trabalho, como forma de apresentar os resultados.

Inicialmente, procurou-se saber qual papel a família assume na continuidade dos estudos, qual foi o familiar que deu maior apoio e fez acompanhamento da vida escolar durante a educação básica, bem como a influência da família na escolha da profissão e na entrada da universidade. O professor Alex é o que cita mais a influência dos pais na orientação pelos estudos e encaminhamento à universidade. Ressalta principalmente a influência da mãe, no acompanhamento dos estudos. Ela interveio decisivamente diversas vezes em suas escolhas. A mãe do Alex é professora e trabalha na Diretoria de Ensino da rede estadual de São Paulo. Esforçou-se para que o filho estudasse em uma escola particular de elite, primando

por uma educação de excelência. Sabia da importância do estudo, no desenvolvimento intelectual e como chance de obter boa formação acadêmica. Sua mãe sempre encontrava empecilho quando o filho falava em trabalhar, para buscar autonomia financeira, pois ela queria que estudasse, sabendo da importância da universidade. Já a professora Vera discorreu sobre a influência de seus pais nos estudos. Ambos mostraram-se alinhados em querer que a filha estudasse e tivesse a melhor formação possível. Faz referência ao esforço dos pais em pagar a escola. Sua mãe, dona de casa, fazia o acompanhamento dos estudos das filhas em casa. Acredita que a mãe gostaria de ser professora.

Posteriormente, buscou-se saber como as famílias reagiram à escolha do curso de licenciatura em Física e se houve apoio ao curso. Alex contou que ao fazer um cursinho preparatório para o vestibular, decidiu por seguir a carreira de Física. Sua mãe não recebeu bem a notícia, apesar de ser professora. Seu pai também não gostou da escolha. Ambos sabiam da dificuldade do que seria ser professor, mas nunca pediram para ele desistir. Sua mãe fez pressão para que ele optasse pela carreira de bacharel em Física, ao invés de licenciatura. Fizeram a inscrição no vestibular da USP para o curso de bacharelado, como sua mãe queria, apesar de ter ficado muito chateado. Nesse ínterim, sua mãe foi conversar com a esposa do professor Menezes. O professor Menezes insistiu que ela deixasse o filho escolher a licenciatura. No último dia de inscrição, conseguiram alterar a carreira escolhida, optando por licenciatura. Durante o terceiro ano do curso de licenciatura em Física, Alex relatou uma forte crise, quase desistindo do curso. Almejava remuneração maior nos estágios, além de ter dificuldade em conciliar o trabalho em uma loja de carro com o curso de licenciatura. Sua mãe perguntou como estava a graduação. Ele relatou todas as dificuldades. Ela sugeriu que ele fosse conversar com o professor Menezes. O professor disse que o curso era difícil, tendo que conciliar as disciplinas específicas de Física com as da Educação, fora os estágios. Pediu para que ele esperasse para fazer os estágios, ir às escolas e ver se realmente gostava da carreira. Na questão financeira, sua mãe falou para ele não se preocupar, pois seus pais dariam o suporte necessário. Eles deram o salário equivalente ao que ele recebia no trabalho, mas dedicar-se-ia exclusivamente à faculdade. Depois de formado, durante a escolha da vaga no concurso, queria optar por uma escola na cidade praiana de Ubatuba, pois tinha paixão por surfar. Sua mãe acompanhou o processo de escolha, por fazer parte da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Assim, por pressão da mãe, optou por uma escola na capital, localizada na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Já a professora Vera acredita que a mãe gostaria de ser professora. Em outro momento, a professora Vera remete à ideia que sempre quis ensinar, ser professora. A Física foi apenas uma desculpa. Relatou que ensinava os colegas a matéria antes da prova e sua irmã em casa. Também fez referência ao seu pai, que sempre quis saber como tudo funciona, mostrando a ela o funcionamento de vários objetos, puxando mais para o contexto da Mecânica. Fala da influência dos pais na escolha da profissão. A mãe inspirou-a pelo amor aos estudos e, seu pai, pelo funcionamento dos objetos do cotidiano. A professora Vera também teve o apoio do marido, que a incentivou a sair do emprego do banco e seguir a carreira docente.

## Contradições do papel da família

Os professores Alex e Vera discorreram sobre a influência de seus pais nos estudos. Estes se mostravam alinhados em querer que os filhos estudassem e

tivessem a melhor formação possível. Os professores citam principalmente a mãe, como membro familiar que faz o acompanhamento dos estudos em casa, bem como principal responsável pelas decisões. Os professores Alex e Vera fizeram referência ao esforço dos pais em pagar escola particular. A mãe da professora Vera era dona de casa, abrindo mão da carreira profissional para cuidar da filha, fazendo o acompanhamento dos estudos. Ambos os professores entrevistados fizeram referência à mãe ser professora. A mãe do Alex é professora e trabalha na Diretoria de Ensino da rede estadual de São Paulo. Já Vera acredita que a mãe gostaria de ser professora. Apesar da professora Vera não fazer referência, fica implícito que seus pais apoiaram sua escolha. Relata a influência dos pais na escolha da profissão, para ser professora de Física: a mãe inspirou-a pelo amor aos estudos e, seu pai, pelo funcionamento dos objetos do cotidiano. Já o professor Alex, fica evidente que teve que lutar contra os pais para conseguir ser professor, pois não teve apoio da família ao escolher a carreira. O que chama atenção é o fato de sua mãe ser professora e, mesmo assim, não apoiar a decisão do filho. Ela rejeita a ideia do filho seguir a mesma profissão. Por fim, com ajuda externa (conversa com o professor Menezes), consegue se inscrever no curso de licenciatura em Física e seguir na carreira docente. Ao longo do curso de graduação, há uma mudança de postura de seus pais em relação à ideia do filho ser professor. Seus pais dão suporte financeiro, para que ele persista no curso. Além disso, ao se formar, sua mãe intervém na escolha da escola para seu filho lecionar. Muitos pais desaprovam a escolha da carreira de professor, pelos baixos salários e desprestígio social. Uma fala que poderia sintetizar esse raciocínio seria: ' Professor? Você não vai ficar rico então? Você não vai ganhar dinheiro? É legal ser professor, mas o meu filho não, mas o meu não! '. Essa fala simboliza como muitos pais desencorajam seus filhos a serem professores. Esta situação ocorre com os próprios professores, tendo em vista que muitos não aconselhariam os seus filhos a seguirem a carreira docente. Isso foi evidenciado pela mãe do professor Alex, que mesmo sendo professora, tentou convencê-lo a desistir da carreira de licenciatura em Física.

## Considerações Finais

A importância desta pesquisa se dá ao dar voz ao jovem professor ingressante , referenciado aqui como jovem professor . Dada a pouca experiência profissional, poucos estudos retratam seu desenvolvimento profissional e todas as dificuldades advindas do início de carreira. Ao dar voz ao professor, através do relato das histórias de vida, possibilitamos descobrir o sentido que cada jovem professor deu a aprendizagem experiencial na escola, analisando o seu discurso em relação à contradição dos fatores de permanência e evasão da carreira docente. A experiência vivida ressignifica os sentidos, tendo a ver com o subjetivo. Todos vivenciam experiências, mas o sentido, a significação que atribui, são diferentes. Nesse sentido, ao construir sentidos subjetivos sobre os fatores de permanência e evasão em escolas públicas, os jovens professores de Física estarão também, e ao mesmo tempo, internalizando a vida social e contribuindo para a construção da subjetividade, que é coletiva. O sujeito escolhe e, para compreender o seu processo de escolha, é preciso estudar seu movimento pessoal (seus sentidos) e o conjunto de significações e condições objetivas e sociais na qual está inserido (BOCK, 2008). Nesse sentido, os jovens professores, até então relegados nas políticas públicas e em estudos acadêmicos, ganham espaço ao relatar suas experiências pessoais e profissionais, dando contribuições importantes através da narrativa de suas histórias

de vida. Nesta pesquisa, buscamos outra visão teórico-metodológica, abrindo mão da objetividade e vendo como cada sujeito se posiciona, como cada um produz sentido a partir dos fatos vividos. Assim, nesta perspectiva, cada professor entrevistado encara suas escolhas de maneira diferente. Com relação à metodologia utilizada na pesquisa, a abordagem das histórias de vida de professores tem possibilitado verificar o aprendizado experiencial vivido nas escolas e em outros meios, como a família e a sociedade de forma geral, e como estas experiências ressignificam os sentidos. A subjetividade individual, seguindo uma abordagem defendida por Rey, constitui-se numa integração com a subjetividade social, de forma inter-relacionada. A subjetividade individual é determinada socialmente, mas não por um determinismo linear externo, do social ao subjetivo, e sim em um processo de constituição que integra de forma simultânea as subjetividades social e individual. Assim, o indivíduo é um elemento constituído da subjetividade social e, simultaneamente, se constitui dela. Afirma-se, então, que a subjetividade se dá em um amplo processo, em constante movimento e com contraditórios.

## Referências

BOCK, Silvio Duarte. A escolha profissional de sujeitos de baixa renda recém egressos do ensino médio. 2008. Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação. Campinas, 2008.

BUENO, B. O. et.al. Docência, Memória e Gênero: estudos alternativos sobre a formação de professores. In: Psicologia USP . São Paulo: IP/USP, p.299-318, 1993.

CAMILLO, J.; MATTOS, C. Educação em ciências e a teoria da atividade culturalhistórica: contribuições para a reflexão sobre tensões na prática educativa. Revista Ensaio , n. 1, v. 16, p. 211-230, 2014.

ENS R. T.; EYNG, A. M.; GISI, M. L.; RIBAS, M. S. Evasão ou permanência na , profissão: políticas educacionais e representações sociais de professores. Rev. Diálogo Educ. , Curitiba, v. 14, n. 42, p. 501-523, mai./ago., 2014.

GATTI, B. A.; BARRETO, E. S. Professores do Brasil: impasses e desafios. Brasília: Unesco, 2009.

GOODSON, Ivor F. Dar voz ao professor: as histórias de vida dos professores e o eu desenvolvimento profissional. In: NÓVOA, Antônio (Org). Vidas de professores . 2 ed., p. 63- 78. Porto: Porto Editora, 1995.

LAPO, F. R.; BUENO, B. O. Professores, desencanto com a profissão e abandono do magistério. Cadernos de Pesquisa , São Paulo, n. 118, mar.2003.

RABELO, L. O. Contribuições e limites do PIBID para permanência de alunos na licenciatura e como suporte para o início da docência . Dissertação (Mestrado) Universidade de São Paulo. Faculdade de Educação, Instituto de Física, Instituto de Química e Instituto de Biociências, São Paulo, 2016.

REGO, Teresa Cristina. Memórias de escola : cultura escolar e constituição de singularidades . Petrópolis: Vozes, 2003.

REY, Fernando Luis González. O social na psicologia e a psicologia social: emergência do sujeito. Petrópolis: Vozes, 2004.

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