PERCEPÇÕES DE ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA SOBRE SUAS PARTICIPAÇÕES EM PROJETOS COLABORATIVOS NA UNIVERSIDADE
Dayane Carvalho Cardoso, Hermes Gustavo Fernandes Neri, Eduardo Kojy Takahashi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-16 Formação E Prática Profissional.../ Didática, Currículo E Inovação.../ Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2018
Texto completo
## PERCEPÇÕES DE ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA SOBRE SUAS PARTICIPAÇÕES EM PROJETOS COLABORATIVOS NA UNIVERSIDADE
## PERCEPTIONS OF BASIC EDUCATION STUDENTS ON THEIR PARTICIPATION IN COLABORATIVE PROJECTS IN THE UNIVERSITY
## Dayane Carvalho Cardoso 1 , Hermes Gustavo Fernandes Neri 2 , Eduardo Kojy Takahashi 3
1 Universidade Federal de Uberlândia/Programa de Pós-graduação em Educação/ dayane\_carvalho@yahoo.com.br
2 Universidade Federal de Uberlândia/Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática/ hmsneri@gmail.com
3 Universidade Federal de Uberlândia/Instituto de Física/ektakahashi@gmail.com
## Resumo
A aproximação universidade-escola tem sido um objetivo recorrente nas pesquisas educacionais. Entretanto, quando se investigam os tipos de interações colocadas em prática encontra-se, geralmente, uma preocupação com a formação docente e não com a aprendizagem dos alunos das escolas. Desse modo, com o intuito de avaliar um tipo de interação entre o ambiente escolar e o acadêmico, que priorize a figura do estudante e não a do professor, esse trabalho apresenta as percepções de estudantes da educação básica sobre a importância das atividades de autoria colaborativa, desenvolvidas durante a construção de experimentos remotos e jogos digitais educativos para a aprendizagem de Física como estratégias de aproximação e interação entre atores de diferentes formações e espaços institucionais. Portanto, foi realizada a coleta de dados por meio de um grupo focal, com a participação estudantes da educação básica e as observações de todos os estudantes foram registradas em notas de campo ao longo do desenvolvimento dos trabalhos na universidade. Conclui-se que, a interação Universidade-Escola é viável pela estratégia de desenvolver projetos colaborativos em experimentos remotos e jogos digitais educativos, como foi demonstrado nesse trabalho, e pode contribuir simultaneamente para a formação técnica e científica dos estudantes de graduação e da educação básica, contemplando objetivos de aprendizagem atitudinal, procedimental e conceitual.
Palavras-chave : Aproximação Universidade-Escola; Projetos; Autoria; Colaboração.
## Abstract
Approximating university and school has been a recurrent goal in educational research. However, when investigating the types of interactions that are put into practice, there is usually a concern with teacher training and not with students' learning in schools. Thus, in order to evaluate a type of interaction between the school and the academic environment that prioritizes the student and not the teacher, this paper presents the conceptions of basic education students about the
importance of collaborative authoring activities, which are developed during the construction of remote experiments and digital educational games for Physics learning as strategies of approximation and interaction between actors of different formations and institutions. Therefore, the data collection was carried out through a focus group, with the participation of students of basic education and the observations of all the students were recorded in fieldnotes throughout the development of the works in the university. It is concluded that the University-School interaction is viable by the strategy of developing collaborative projects in remote experiments and digital educational games, as demonstrated in this work, and can simultaneously contribute to the technical and scientific training of undergraduate and basic education students, contemplating objectives of attitudinal, procedural and conceptual learning.
Keywords : University-school approximation; Projects; Authoring; Collaboration.
## Introdução
A aproximação universidade-escola tem sido um objetivo recorrente nas pesquisas educacionais (SANTOS et al., 2016; LÜDKE, 2005; 2009; NACARATO, 2016, JUNG, SUDBRACK, CANAN, 2016). Entretanto, quando se investigam os tipos de interações colocadas em prática encontra-se, geralmente, uma preocupação com a formação docente e não com a aprendizagem dos alunos das escolas.
Essa aproximação tem se dado predominantemente por ações de formação docente (inicial e continuada), como no PIBID (Programa Interinstitucional de Bolsas de Iniciação à Docência), no PARFOR (Plano Nacional de Formação de Professores), no Observatório da Educação, nos estágios supervisionados, nos mestrados profissionais e em cursos de formação continuada.
Ações que envolvem diretamente os estudantes da educação básica são menos comuns na literatura e relacionam-se, normalmente, às feiras de ciências, ao Programa de Iniciação Científica Júnior (PIBIC-Júnior) e ao Programa Novos Talentos.
Desse modo, com o intuito de avaliar um tipo de interação entre o ambiente escolar e o acadêmico, que priorize a figura do estudante e não a do professor, esse trabalho apresenta as percepções de estudantes da educação básica sobre a importância das atividades de autoria colaborativa, desenvolvidas durante a construção de experimentos remotos (ER) e jogos digitais educativos (JDE) para a aprendizagem de Física como estratégias de aproximação e interação entre atores de diferentes formações e espaços institucionais.
Essas estratégias, que envolvem o uso e desenvolvimento de tecnologias digitais pelos estudantes, iniciaram-se no ano de 2013, no grupo de pesquisa no contexto do PIBIC-Jr. Elas têm se caracterizado pelo engajamento voluntário de estudantes da educação básica e do ensino superior no grupo de pesquisa, a partir do conhecimento das atividades em desenvolvimento no grupo que são divulgadas por seus colegas ou professores com maior interação com a UFU.
Atualmente, o grupo possui em torno de 20 estudantes da educação básica que desenvolvem trabalhos na universidade, em projetos colaborativos com
tecnologias digitais, sem expectativas de receber qualquer tipo de benefício, como bolsa, auxílio alimentação ou transporte, ou vantagens escolares, como notas ou assessoria em trabalhos escolares. A permanência e o interesse desses alunos no grupo motivou a investigação dos motivos que levam esses estudantes a participarem desses projetos por tempo tão longo, com reuniões semanais aos sábados (diversas vezes por mais de uma vez por semana) e, inclusive, durante as férias escolares, geralmente a partir das 8 horas da manhã.
Observa-se também que, as atividades desenvolvidas e em desenvolvimento têm permitido construir uma formação geral mais abrangente aos estudantes envolvidos. Essa formação contempla, além de objetivos de aprendizagem conceitual, objetivos de aprendizagem procedimental e atitudinal (AZEVEDO, 2004), como será relatado mais adiante nesse trabalho.
## Fundamentação
De acordo com Hernández (1998), os projetos constituem um lugar que permite: aproximar-se da identidade dos estudantes e favorecer a construção da subjetividade longe de um prisma paternalista, gerencial ou psicologista (HERNÁNDEZ, 1998); revisar a organização do currículo e a maneira de situá-lo no tempo e nos espaços escolares e; levar em conta o que acontece fora da escola, permitindo ao estudante aprender a dialogar de uma maneira crítica com todos os fenômenos do cotidiano. Dewey (1989) afirma que, no curso de seu desenvolvimento, o projeto deve apresentar problemas que despertem nova curiosidade, criem uma demanda de informação e a necessidade de continuar aprendendo.
Nesse contexto, este trabalho apresenta o desenvolvimento de projetos que envolvem atividades de autoria colaborativa relacionados à Experimentação Remota e aos Jogos Digitais Educativos, como estratégia para uma formação mais geral dos estudantes envolvidos.
Demo (2015) defende as atividades de autoria, pois, segundo ele, a escola foi feita para se dar aula e não para o estudante aprender e, por isso, precisamos de uma proposta de educação centrada na aprendizagem e não no ensino. Para ele,
Autoria é entendida como habilidade de pesquisar e elaborar conhecimento próprio, no duplo sentido de estratégia epistemológica de produção de conhecimento e pedagógica de condição formativa (DEMO, 1996): formar melhor, produzindo conhecimento com autoria (DEMO, 2015, p.8).
Dessa forma, é necessário um sistema de aprendizagem centrado no aluno, que explora pedagogias participativas autorais, extrapolando um sistema de ensino transmissivo (DEMO, 2015). Concordamos que 'pesquisar é coisa que deveríamos aprender na tenra idade, dentro do ritmo natural da curiosidade infantil que, perante a realidade, quer saber das coisas, pondo-se a perguntar sobre tudo' (DEMO, 2015, p.130).
## Além disso, também partilhamos da ideia de que
[...] o objetivo da pesquisa não se esgota na produção sofisticada de conhecimento [...]. Trata-se de cultivar habilidades formativas, com uso preferencial da autoridade do argumento, saber trabalhar em equipe democrática e competentemente, lidar com consensos fundamentados e abertos, olhar conhecimento como patrimônio [...]. Não esperamos que novatos de pesquisa resolvam desafios complexos da pesquisa de alto
nível, porque estão em processo formativo formal. Mas esperamos que eles se formem melhor (DEMO, 2015, p.137).
## Os Projetos
Nesse trabalho, o desenvolvimento dos projetos foi realizado por um grupo colaborativo, que incluiu professores-pesquisadores, estudantes de graduação, estudantes de pós-graduação e estudantes da educação básica de cinco escolas públicas do Ensino Médio da região.
A função dos estudantes do ensino superior nos projetos foi projetar os produtos tecnológicos sob a supervisão dos professores-pesquisadores, construí-los juntamente com os estudantes da educação básica e, em alguns casos, coordenar o trabalho dos estudantes da educação básica. Esses últimos desenvolveram tarefas específicas em cada projeto, como por exemplo, programação Arduino, projeto e implementação de sistemas de automação e controle, modelagem 3D, elaboração de roteiros para os jogos e construção de maquetes. Os estudantes da Pósgraduação foram responsáveis pelas propostas metodológicas relacionadas aos usos didáticos de cada projeto desenvolvido. Os professores-pesquisadores coordenaram todas as ações do grupo.
Todos os participantes do grupo de pesquisa realizavam uma reunião conjunta e uma reunião por projeto semanalmente, nas quais se discutiam sobre ideias, dúvidas, propostas de solução de problemas, implementações, conceitos, andamento dos trabalhos etc.
As ações colaborativas entre os membros do grupo ocorrem diariamente, no ambiente da universidade, no laboratório onde todos os atores educacionais desenvolvem seus projetos, das seguintes maneiras:
- Um dos alunos de pós-graduação coordena e orienta todo o grupo de estudantes da educação básica, ofertando treinamentos sobre programação em C e C#, modelagem, Arduino e montagem de circuitos elétricos;
- Os alunos de graduação discutem conceitos de física com os alunos da educação básica, enquanto esses últimos repassam seus conhecimentos dos treinamentos aos estudantes de graduação;
- Os estudantes recorrem aos professores-pesquisadores para auxílio nos problemas mais complexos;
- Ocorrem muitas trocas de informações nas reuniões de grupo e em conversas síncronas e assíncronas (Whatsapp e Facebook);
- Dependendo da demanda, há formação de grupos para o estudo de algum tópico específico como, por exemplo, o estudo do Arduino.
Atualmente, o grupo de pesquisa trabalha com o desenvolvimento de quatro projetos: dois deles estão relacionados à ER e os outros dois estão relacionados aos JDE.
- O experimento remoto para estudos de transformações de energia consiste em uma maquete residencial com quatro cômodos, alimentada pela energia proveniente de uma placa fotovoltaica. Cada cômodo da maquete trata, basicamente, de algumas transformações de energia.
- O experimento remoto de Millikan é um kit experimental contendo um capacitor, no interior do qual podem ser borrifadas gotas de óleo que, eletrizadas e sob o efeito do campo elétrico produzido entre as placas do capacitor, adquirem equilíbrio mecânico ou movimentos ascendentes ou descendentes. O comportamento dinâmico das gotas eletrizadas pode ser observado por meio de um microscópio contendo um micrômetro e a análise dinâmica do seu movimento permite a avaliação da carga do elétron.
Em relação ao desenvolvimento de jogos digitais, o primeiro deles foi proposto para uso em dispositivos móveis e dedicado ao estudo de Ondas (jogo 'ZUM'). Possui uma característica de jogo de plataforma em visualização 2D e foi finalizado com uma fase infinita, que servirá como motivação para o desenvolvimento de novos desafios ou novas fases por estudantes da educação básica.
- O segundo jogo digital que ainda está em desenvolvimento, 'Usina Nuclear', surgiu como proposta dos estudantes para um jogo realístico que envolvesse conhecimentos de Física, Química, Geografia, Economia e Ecologia. O desenvolvimento desse jogo deverá ocorrer no período de três anos, em etapas que foram globalmente classificadas como: i) Estudos e definição do local de implantação da usina nuclear; ii) Estudos e dimensionamento do potencial elétrico gerado pela Usina Nuclear; iii) Estudos da viabilidade econômica da construção da Usina Nuclear; iv) Estudos e elaboração do sistema de segurança da usina e região circunvizinha; v) Estudos e construção da Usina Nuclear e; vi) Estudos e projetos de desenvolvimento socioeconômico da região servida pela usina.
## A Importância das Atividades de Autoria Colaborativa
Com o objetivo de investigar as percepções dos estudantes da educação básica em relação à importância que atribuem aos projetos de que participam e em relação às possíveis contribuições formativas, foi realizada a coleta de dados por meio de: a) um grupo focal, realizado no final de 2017, com a participação de 8 estudantes do grupo e com suas falas registradas em áudio e vídeo e b) observações de todos os estudantes, registradas em notas de campo ao longo do desenvolvimento dos trabalhos na universidade.
No grupo focal, procurou-se não fazer pergunta alguma específica para não influenciar as respostas dos estudantes e a conversa foi direcionada em torno do projeto como um todo e fomentada a partir das falas dos estudantes.
Dessa forma, vários alunos destacaram que o trabalho que desenvolvem é importante para eles, pois conseguem colocar seus conhecimentos em prática. Percebeu-se que a necessidade da prática é algo importante para esses estudantes e eles consideram que é uma forma interessante de aprendizagem.
No grupo de pesquisa, a prática é incentivada de várias maneiras: além do desenvolvimento dos experimentos remotos e dos jogos digitais educativos, os alunos têm a oportunidade de colocar seus conhecimentos em prática nas apresentações de trabalho em eventos científicos e seminários e na escrita de artigo, por exemplo. Esse fato é evidenciado pela fala do E1:
'O aluno do ensino médio ele não consegue produzir artigo de forma independente, às vezes ele não sabe nem como é que funciona em si a produção de um artigo e aqui no grupo de pesquisa a gente consegue descobrir, tipo, todos esses tipos de
conhecimentos e ver na prática como realmente funciona essas pesquisas científicas. A gente pode contribuir também pra essas pesquisas e além de tudo aprender, né? Eu acredito que o momento que a gente passa aqui é muito rico. É bem interessante.'
Nesse sentido, Demo (2015) enfatiza que a pesquisa é uma das atividades que podem promover a autoria e autonomia. Em diversos momentos, os estudantes citaram sobre a autonomia, no sentido de poder escolher em que trabalhar, em buscar o conhecimento por conta própria, tomar decisões e colocar esses conhecimentos em prática para desenvolver os trabalhos. Isso foi evidenciado na fala da estudante E3:
'Eu acho uma coisa interessante também a questão da autonomia porque muitas vezes nas escolas eles falam 'ah, faz isso e isso', mas aqui você estuda o que você achar interessante e você vai aprofundando nisso e eles te auxiliam e te ajudam [...] eu achei muito interessante isso porque muitas vezes você mesmo por contra própria que vai pesquisando. E eu mesma quando entrei aqui, pra mim foi um impacto, porque eu tava acostumada com os professores 'não, faz isso isso, tem até tal dia', por exemplo, e aqui não, você pesquisa por conta própria e faz suas próprias descobertas.'
## A estudante E5 complementou sobre a importância dessa autonomia:
'Olha, o que eu acho mais legal aqui é o que ela falou: a sua autonomia de ir atrás do que você quer aprender de pesquisar por sua conta. [...] Então você já vai pegando experiência desde agora, tipo, tô no segundo ano, então daqui dois anos eu pretendo estar na faculdade já, tomara. Então eu preciso ter essa experiência, não só com isso, mas com toda parte aqui.'
O estudante E2 também fez um comentário importante sobre a autonomia e comparou seu trabalho no grupo com o ensino da escola:
'Eu acho que essa questão da seleção do que você quer fazer, deixa a gente melhor, porque de certa forma a gente, por exemplo, no ensino médio a gente tem uma carga muito grande no conteúdo. Só que de certa forma a gente não consegue aprender tudo corretamente. Porque, por exemplo, na mesma hora que a gente tá fazendo um trabalho de matemática você tá fazendo um de português, ou outra matéria, então acaba sendo vários conteúdos ao mesmo tempo e a gente acaba não tendo projetos e a parte prática disso pra tá demonstrando realmente o que a gente aprende em sala de aula. Eu acho que quando você seleciona o que você quer fazer, e, além de você ficar muito bom nele, isso também vai te dar uma boa ideia do que você vai querer ser no futuro'.
Dessa forma, esses trabalhos desenvolvidos de forma mais prática que estimulam a autoria e a autonomia permitem o desenvolvimento de uma formação mais abrangente, que não está centrada apenas na aprendizagem de conteúdo, mas também favorece a aprendizagem de procedimentos e atitudes (AZEVEDO, 2004). Como exemplos de aprendizagens de procedimentos que foram estimuladas no grupo de pesquisa podem-se citar a programação e técnicas em eletrônica. Além disso, perceberam-se algumas mudanças de atitudes nos estudantes, apesar de não se poder afirmar que essas mudanças ocorreram apenas devido aos trabalhos no grupo elas foram oportunizadas e estimuladas, como por exemplo, o desenvolvimento do senso crítico e a autonomia para buscar e compartilhar informações e conhecimentos ou solicitar realizações de cursos conforme a demanda.
O estudante E2 comparou o método de estudo das escolas com o método que ele usa no grupo de pesquisa e relacionou com a sua aprendizagem:
'Nas escolas a gente preocupa muito com nota, mas no final das contas é um rótulo, porque a nota só não significa nada. Às vezes você pode tá lá, ah, eu quero tirar dez
pontos na prova, mas você decorou tudo a semana inteira, ou seja, na prática você não sabe de nada. Você fez sua prova com o que você decorou. Aqui a gente não tem isso, essa questão do rótulo, da nota. A gente realmente tem que aprender pra fazer'.
E, o Estudante E1, complementou dizendo que 'não dá pra decorar né, tem que entender'. Essas falas mostram que a atividade de produzir/construir algo exige uma aprendizagem efetiva dos conteúdos relacionados, pois, essas atividades estimulam o avanço na dimensão do processo cognitivo, conforme a Taxonomia de Bloom (FERRAZ; BELHOT, 2010). A fala dos alunos enfatiza esse processo, eles perceberam que não basta apenas usar o artifício de 'lembrar' (Taxonomia de Bloom), como geralmente usam para fazer uma prova da escola, mas precisam principalmente 'entender' e, dependendo da situação, 'aplicar', 'analisar', 'sintetizar' e/ou 'criar'.
Apesar de não ter sido realizada nenhuma pergunta com o objetivo de comparar o trabalho desenvolvido no grupo de pesquisa com a escola, os alunos ressaltaram essa diferença a todo o momento, sempre evidenciando que aprendem com mais eficiência com o trabalho no grupo, principalmente porque têm a oportunidade de colocar seus conhecimentos em prática.
Então, foi perguntado se houve mudança do comportamento deles na escola depois que começaram a participar do grupo. Alguns dos estudantes perceberam diferenças: o aluno E1 falou que agora tem mais autonomia para estudar o que precisa; o estudante E7 disse que suas notas na escola aumentaram; a estudante E3 comentou que começou a interpretar a matemática e que isso desenvolveu sua mente e a deixou mais atenta e o aluno E2 disse que ficou mais crítico na hora de fazer uma prova ou um trabalho; antes, ele se sentia mais limitado, não tinha interesse em ir além, hoje ele procura se aprofundar mais e se sente mais completo.
Essas manifestações evidenciam a mudança de postura dos alunos, como por exemplo, a atitude de buscar o conhecimento e a criticidade, além de evidenciar o desenvolvimento do raciocínio lógico.
Sobre o desenvolvimento do trabalho em colaboração com outros estudantes da educação básica, do ensino superior e da pós-graduação, os alunos destacaram que a troca de conhecimento é muito grande, constante e muito importante. Eles conseguem interagir com outros estudantes de níveis escolares diferentes, desde alunos do ensino fundamental até alunos da pós-graduação. Percebe-se que eles se sentem empoderados quando têm a possibilidade de compartilhar o conhecimento com outras pessoas com nível de formação maior. Por outro lado, a estudante E5 ressaltou que é interessante aprender com alunos bem mais novos como, por exemplo, o E4, que está cursando o 9° ano do ensino fundamental.
A estudante E3 comentou que, nessas situações, em que existem pessoas de níveis conhecimentos diferentes, eles se sentem estimulados a aprender mais e estudar mais em comparação com a escola, em que todos os alunos possuem praticamente o mesmo nível de conhecimento.
Além disso, houve outra observação relevante sobre as discussões no grupo focal, os estudantes usaram a expressão 'interessante' diversas vezes quando expressaram suas experiências no desenvolvimento dos trabalhos. Esse aspecto evidencia a manifestação de um estímulo para a permanência dos estudantes no grupo de pesquisa.
## Considerações Finais
A interação Universidade-Escola por meio da estratégia de desenvolver projetos colaborativos de experimentos remotos e jogos digitais educativos é viável, como foi demonstrado nesse trabalho, e pode contribuir simultaneamente para a formação técnica e científica dos estudantes da graduação e da educação básica, contemplando objetivos de aprendizagem atitudinal, procedimental e conceitual.
Percebe-se que esses resultados obtidos, em relação à formação mais geral desses estudantes, não ocorreram apenas devido aos trabalhos desenvolvidos no grupo de pesquisa, pois esses estudantes já possuem características que favorecem o seu engajamento em trabalhos dessa natureza. Isso pode ser comprovado pelo fato desses estudantes terem demonstrado iniciativa ao procurar o grupo de pesquisa com a intenção de se inserir nos projetos.
As falas dos estudantes indicam que há carência desse tipo de formação na educação formal, embora exista demanda para tal.
## Referências
AZEVEDO, M. C. P. S.. Ensino por Investigação: problematizando as atividades em sala de aula. In: CARVALHO, A. M, P.. Ensino de ciências: unindo a pesquisa e a prática. 1 ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004. p. 19-33.
DEMO, P. Aprender como autor . Editora Atlas SA, 2015.
\_\_\_\_\_\_\_\_.
Educar pela Pesquisa . Campinas: Auores Associados, 1996.
DEWEY, J. Cómo pensamos . Barcelona: Paidós, 1989.
FERRAZ, A. P. C. M.; BELHOT, R.V.. Taxonomia de Bloom: revisão teórica e apresentação das adequações do insgtrumento para definição de objetivos instrucionais. Gestão & Produção . São Carlos; v. 17, n. 2, p. 421-431, jan. 2010.
HERNÁNDEZ, F. Trangressão e mudança na educação: os projetos de trabalho . Porto Alegre: Artmed, 1998. 152 p.
JUNG, H. S.; SUDBRACK, E. M.; CANAN, S. R. Universidade e escola trabalhando juntas na formação de uma nova geração docente: a de professores-pesquisadores. Tendências Pedagógicas , v. 28, p. 67-82, 2016.
LÜDKE, M. Aproximando universidade e escola de educação básica pela pesquisa. Cadernos de Pesquisa , v.35, n. 125, p. 81-109, mai.-ago. 2005
LÜDKE, M. Universidade, escola de educação básica e o problema do estágio na formação de professores. In: Formação docente: Revista Brasileira de Pesquisa sobre Formação de Professores , v. 01, n. 01, ago.-dez. 2009
NACARATO, A. M. A parceria universidade-escola: utopia ou possibilidade de formação continuada no âmbito das políticas públicas? Revista Brasileira de Educação , v. 21, n. 66, jul.-set., 2016
SANTOS, A. O. et. al. Aproximando Universidade e Escola Técnica: lições aprendidas com o incentivo à pesquisa no ensino médio profissionalizante. Revista Cultura e Extensão , Vol 15, 2016.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.