ELABORAÇÕES ACERCA DO PROCESSO DE SUBSUNÇÃO NA TEORIA AUSUBELIANA
Antony Marco Mota Polito, André Luís Miranda De Barcellos Coelho
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 29/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-12 Formação E Prática Profissional ... / Didática, Currículo E Inovação .../Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2018
Texto completo
## ELABORAÇÕES ACERCA DO PROCESSO DE SUBSUNÇÃO NA TEORIA AUSUBELIANA
## DEVELOPMENTS ABOUT THE PROCESS OF SUBSUMPTION IN THE AUSUBELIAN THEORY
## Antony Marco Mota Polito¹, André Luís Miranda de Barcellos Coelho²
- 1 Instituto de Física da Universidade de Brasília/antony.polito@gmail.com
- 2 Secretaria de Educação do Distrito Federal/ prof.barcellos@hotmail.com
## Resumo
Nesse trabalho, apresentamos algumas reflexões e elaborações acerca do conceito de subsunçor e do processo de subsunção, propriamente dito, os quais desempenham papéis centrais na teoria de aprendizagem significativa de David Ausubel. Na literatura brasileira recente relacionada com ensino de ciências, não é particularmente difícil encontrar trabalhos que invocam, como fundamento teórico, alguma teoria psicológica de aprendizagem, como é o caso da teoria ausubeliana. Em muitos desses trabalhos, as atenções costumam recair quase que exclusivamente sobre as definições abstratas dos conceitos que constituem os pilares das respectivas teorias invocadas. Contudo, muito menos atenção costuma ser dada para identificações precisas e caracterizações concretas desses conceitos . Em particular, se se pretende empregar os conceitos de subsunçor e de subsunção, eles devem ser investigados apropriadamente, com rigor lógico e científico, de modo que não é apenas forçoso que eles sejam bem definidos, mas também que sua utilização se dê de maneira consistente com suas definições. Desse modo, começamos por discutir o que devem ser as chamadas condições necessárias e suficientes para que determinados conceitos possam ser considerados (potenciais) subsunçores e subsumidos , bem como as condições necessárias e suficientes para que o processo de subsunção, especificamente tratado como uma relação , aconteça. Em seguida, apresentamos dois (até onde sabemos, novos) conceitos que acreditamos poderem ser de grande valia na análise e na aplicação da teoria ausubeliana. Trata-se dos conceitos de esquema de subsunção e de instrumento de subsunção .
Palavras-chave : Teoria Ausubeliana, Subsunçor, Subsunção, Esquema de Subsunção, Instrumento de Subsunção.
## Abstract
In this work, we present some reflections and elaborations on the concept of subsumer and on the subsumption process itself, which play central roles in meaningful learning theory of David Ausubel. In recent brazilian literature related to science education is not particularly difficult to find works that invoke, as theoretical basis, one or more psychological theories of learning, such as the ausubelian theory. In many of these works, the spotlight often falls almost exclusively on the abstract definitions of the concepts that constitute the pillars of each theory invoked. However, much less attention is usually given to precise identifications and specific characterizations of these concepts . In particular, if one intends to employ the concepts of subsunçor and of subsumption , they must be properly investigated, with
logical and scientific rigor, so that it is not only important they be well defined, but also that its use be consistent with its definitions. In this way, we start by discussing what should be the necessary and sufficient conditions for certain concepts may be considered as (potential) subsumers and subsumeds , as well as the necessary and sufficient conditions for the process of subsumption - specifically treated as a relationship between concepts - happens. Then, we present two (as far as we know, new) concepts that we believe could be of great value in the analysis and application of the ausubelian theory. These are the concepts of scheme of subsumption and of instrument of subsumption .
Keywords : Ausubelian Theory, Subsumers, Subsumption, Scheme of Subsumption, Instrument of Subsumption.
## Relação de Subsunção: Condições Necessárias e Suficientes
Na teoria ausubeliana, o conceito mais geral é o de estrutura cognitiva . Ausubel concebia a estrutura cognitiva humana como sendo, essencialmente, uma estrutura hierarquicamente ordenada de conceitos, de fatos e de generalizações. Uma analogia 'aristotélica' parece bastante apropriada: a estrutura cognitiva seria como um 'sínolo' ( unidade indissolúvel ) de 'matéria ' ( conjunto de conceitos ) e 'forma' ( estrutura de relações hierárquicas entre conceitos ) (AUSUBEL, 2003; LAWTON, SAUNDERS, MUHS, 1980). Essa definição, por si só, é demasiadamente abstrata e carece de sentido mais rigoroso. Afinal, é evidente que a estrutura cognitiva humana não é exatamente uma rede conceitual - uma vez que as redes conceituais, embora abstratas, podem ter uma existência objetiva, externa às mentes dos sujeitos -, mas ela pode conter redes conceituais como representações internas de natureza simbólica . Por sua vez, os próprios conceitos, que são os elementos dessa estrutura, também são representações internas simbólicas e, presumivelmente, tanto a estrutura cognitiva quanto os seus elementos constitutivos estão envolvidos, predominantemente, na tarefa de representar o mais perfeitamente possível a realidade cuja existência é independente da mente do sujeito que conhece. Uma representação que corresponda, suficientemente, à estrutura e aos elementos constituintes do mundo externo - ou que, no mínimo, capture seus elementos e relações mais relevantes - é o que Ausubel estava disposto a chamar de conhecimento . Evidentemente, sua natureza e o modo como essas representações internas são constituídas são um problema aberto, seja em neurofisiologia, em psicologia cognitiva, ou mesmo, em filosofia (EYSENCK, KEANE, 2000; GAZZANIGA, HEATHERTON, HALPERN, 2015; LEFRANÇOIS, 2009; GODFREY-SMITH, 2003; SCHURTZ, 2013; ABBAGNANO, 1999).
Do ponto de vista dos processos de aquisição de conhecimento, cumprem papel fundamental os chamados conceitos subsunçores. De acordo com Ausubel , subsunçores seriam aqueles conceitos preexistentes na estrutura cognitiva do sujeito, que se mostram capazes de agregar e de assimilar conteúdo externo organizado, em um processo contínuo de assimilação que implica transformações locais e globais na estrutura . Essas incluem tanto a modificação dos subsunçores originais quanto a modificação e o aumento do grau de abstração da rede de interconexões existente entre todos os conceitos da estrutura. Tais transformações são o que, essencialmente, definiriam a chamada aprendizagem significativa .
Nesse ponto, é importante distinguir entre estrutura cognitiva - conjunto interno total de conceitos já estruturados na mente do sujeito - e conjunto de
conceitos subsunçores subconjunto interno de conceitos relativos a um conjunto externo de conceitos a serem subsumidos . O que queremos dizer com isso é que ser um conceito subsunçor não é uma propriedade absoluta de um conceito prévio ( interno ). Dito de outro modo, ser subsunçor não é uma propriedade que seja inerente a qualquer conceito, em particular . O processo de subsunção, por sua vez, é uma relação , a qual pressupõe a existência de dois termos: não há, evidentemente, como um conceito ( interno ser classificado como subsunçor sem ) que um outro conceito externo a ser subsumido seja previamente identificado ( ) .
Esse esclarecimento ilumina o sério problema envolvido na identificação e na caracterização precisas de um conceito subsunçor. O que se constata é que, para proceder a essas tarefas de identificação e de caracterização, não há que se procurar, em qualquer conceito interno, por quaisquer características que lhe sejam intrinsecamente suficientes , simplesmente porque essas características não existem. Observe que o problema da existência de características intrinsecamente necessárias parece ser muito mais delicado e de difícil solução. Sua elucidação requer que se investigue a existência de características sem as quais um conceito interno se torna absolutamente incapaz de assimilar ou de agregar quaisquer conceitos externos. De todo modo, não tentaremos, aqui, resolver esse problema. O que nos restringiremos a fazer é supor que as únicas condições intrinsecamente necessárias para que quaisquer conceitos possam ser caracterizados como subsunçores (ou subsumíveis ) são as de que possuam definições claras, tipologias lógicas claras (se são conceitos substantivos, predicativos ou relacionais, se são primitivos ou derivados, etc.) e que possuam estruturas bem definidas, com partes qualitativa e/ou quantitativa também claras .
Assim, se considerarmos supridas essas condições, qualquer conceito preexistente em uma estrutura cognitiva pode ser considerado um potencial subsunçor de um determinado conceito externo. Por mais óbvias que essas considerações possam parecer, elas têm a vantagem de deslocar a atenção que costuma ser dada ao conceito de subsunçor na direção do que consideramos ser realmente relevante: a relação de subsunção .
Se os critérios de suficiência para os conceitos subsunçores não são intrínsecos, então eles devem ser, de algum modo, extrínsecos . Isso quer dizer que devem ser encontrados não em suas definições, mas no conjunto de condições, internas e externas, que garantem que o processo de subsunção realmente aconteça . Isso nos leva a investigar a relação de subsunção propriamente dita, e também com relação a ela podemos falar na existência de condições (possivelmente) necessárias e de condições suficientes para sua consecução. Do mesmo modo que no caso do problema envolvendo as condições intrinsecamente necessárias para a caracterização de subsunçores, a existência de condições necessárias para o efetivo estabelecimento da relação de subsunção é um problema que nos parece de difícil solução. De fato, parece bastante provável que não existam quaisquer condições necessárias específicas (ou seja, 'materiais'), mas apenas aquelas condições formais (de natureza lógica) que normalmente se exige para quaisquer outros tipos de relações e que decorrem de sua própria definição. De todo modo, não nos ocuparemos desse tipo de investigação, já que tampouco nos será útil, para o que se segue.
Portanto, o mais relevante a ser discutido são as condições suficientes , que, repetimos, podem ser ou internas ou externas. Condições internas evidentes são, por exemplo, a riqueza, a sofisticação e o grau de desenvolvimento da estrutura cognitiva preexistente (da qual os potenciais subsunçores já fazem parte), bem
como o modo como esses potenciais subsunçores se articulam com todos os demais conceitos. Essas condições internas são elusivas, e estabelecê-las de modo relativamente preciso pode ser uma tarefa complicada, embora não, necessariamente, impossível.
Já as condições externas podem ser muito variadas. Os conceitos a serem subsumidos devem, eles próprios, desempenhar um papel relevante, pois, dificilmente, a relação de subsunção será completamente independente daquele conjunto de relações previamente existentes entre os conceitos que consideramos serem potenciais subsunçores e os que consideramos serem potenciais subsumíveis . A título de exemplo, temos as relações de definição (quando um conceito é definido em termos do outro), de similaridade (quando têm referentes similares), de analogia (quando são funcionalmente similares), de regularidade (quando os referentes dos conceitos aparecem regularmente em conjunção), etc. Também o conjunto de estratégias de subsunção empregadas deve cumprir um papel crucial - o que, inclui, mais concretamente, a inserção do conceito subsumível no contexto de estruturas organizadas . Por fim, o contexto geral de aprendizagem concretamente vigente certamente deve ser levado em consideração.
(A propósito, a diversidade das condições suficientes nos mostra por que não há, e nem pode haver, nenhuma prescrição metodológica bem definida, na teoria de Ausubel, voltada para a identificação e a caracterização de subsunçores, ou mesmo, da própria relação de subsunção. Ou seja, apesar de estas serem tarefas indispensáveis para uma aplicação significativa da própria teoria, não há, no seu interior, nenhum método estabelecido para realizá-las.)
Todas essas considerações podem soar triviais, mas elas precisam estar claras justamente para que se possa estabelecer o ponto que consideramos não trivial. É importante observar que não há como saber, de antemão, se dois conceitos quaisquer constituem um par subsunçor/subsumido . Esse fato só pode ser estabelecido a posteriori , e a razão para isso é que, mesmo que já dispuséssemos das definições completas desses conceitos, isso não nos capacitaria a afirmar que o primeiro seria, necessariamente , um subsunçor do segundo.
Muito embora possa parecer, a princípio, que em muitos casos isso deva, necessariamente , ocorrer -p. ex. em virtude não apenas de uma possível proximidade entre os dois conceitos, mas, ainda mais fortemente, do fato de que um conceito exista exatamente para explicar o outro -, o fato é que, sem o concurso de uma série de fatores auxiliares - externos e internos aos sistemas cognitivos dos sujeitos -, pode muito bem ser o caso de que não se dê a relação de subsunção pretendida. Isso é assim justamente porque as condições suficientes para que se possa estabelecer, definitivamente, se um par de conceitos quaisquer é um par subsunçor/subsumível não se encontram em suas definições (aliás, previamente conhecidas , mas sim naquele conjunto de condições, internas e externas, que ) permite, em cada caso concreto, que a subsunção realmente aconteça. ( Sempre como fato presumido. )
Há, ainda, algumas outras consequências de mais longo alcance. Mesmo nos casos daqueles pares de conceitos que podem, a priori , ser considerados muito afastados entre si (como decorrência de suas denotações), é possível que se identifique neles pares subsunçor/subsumível, bastando, para tanto, que as demais condições externas (e internas) tornem isso possível. Isso é, particularmente, importante no caso das metáforas, alegorias e analogias, nas quais a proximidade entre conceitos é de natureza menos evidente do que aquela que advém, exclusivamente, de suas definições denotativas .
Outra consequência séria decorre do fato de que que nunca poderemos ter controle completo sobre as condições externas e internas vigentes de modo a estabelecer, para além de qualquer dúvida, que os conceitos em questão constituem, de fato, pares subsunçor/subsumível . De onde se pode concluir que essa relação só pode ser estabelecida em termos de probabilidade , em virtude de amplo trabalho prévio que gere dados que permitam realizar boas inferências estatísticas.
Para além dessas considerações, não devemos jamais esquecer que 'subsunção' pode não ser mais do que um nome que designa um evento hipotético, cujas causas e mecanismos estão ainda insuficientemente esclarecidos e que, muito possivelmente, no futuro da psicologia cognitiva, tornar-se-á um conceito obsoleto, passando a representar não mais que, talvez, uma metáfora . Contudo, ainda assim, esse nome não designa uma mera fantasia : no estágio atual de nosso conhecimento, ele tem se mostrado um conceito útil , que legitimamente representa alterações na estrutura cognitiva dos sujeitos que, muito embora não saibamos descrever em detalhes, possuem marcas comportamentais distintivas muito claras. Essas alterações, chamadas de aprendizagem significativa , são justamente o que capacitam o sujeito a utilizar os novos conceitos assimilados lidando com situações que extrapolem o contexto imediato de sua assimilação .
A natureza relativa do conceito subsunçor é raramente enfatizada, mas cumpre papel de elevada importância porque, como deixamos claro, ela demonstra que o processo de subsunção é complexo e, o que é ainda mais relevante, externamente condicionado . Daí a ênfase de Ausubel na importância dos chamados 'organizadores avançados' (ou prévios) para que a aprendizagem significativa seja alcançada. Se, na teoria ausubeliana, a condição necessária para que haja aprendizagem significativa é a de que o conhecimento a ser aprendido - ou 'material' , como denominava Ausubel - seja potencialmente subsumível, então é obviamente desejável que se construa uma ponte também extremamente bem organizada e hierarquizada entre o conjunto de potenciais subsunçores e esse novo 'material'.
Observe que, assim como no caso dos conceitos subsunçores, os conceitos subsumíveis também não estão definidos de modo absoluto. Primeiramente, pelo motivo óbvio de que a relação de subsunção é simétrica. Em segundo lugar, porque o material instrucional condiciona, de maneira extremamente poderosa, o processo de subsunção, já que ele (também) é composto por um conjunto de estratégias de aplicação . As estratégias utilizadas afetam não somente a eficiência do processo: elas podem, no limite, determinar se um conceito será subsumido ou apenas mecanicamente assimilado. Nesse sentido, a condição de ser conceito potencialmente subsumível é dada, conjuntamente, tanto pela estrutura cognitiva preexistente, quanto pelo material instrucional. A esse respeito, um material dito potencialmente significativo deve cumprir dois requisitos interdependentes: ele precisa, obviamente, codificar conceitos que sejam potencialmente subsumíveis pelo aprendiz, mas também precisa incorporar estratégias que realmente permitam essa subsunção.
## Prospectos Esquemáticos de Subsunção e Instrumentos de Subsunção
Partamos da suposição de que tanto os conceitos subsunçores (em potencial), quanto os conceitos subsumíveis (em potencial) possuem aquelas características que já consideramos como sendo intrinsecamente necessárias . Com
essa suposição em mente, queremos definir dois novos conceitos teóricos que acreditamos poderem ser de grande importância para a manutenção da clareza conceitual dos problemas que expusemos, até o momento, e, principalmente, que acreditamos poderem ser de grande valia em aplicações concretas da teoria ausubeliana.
O primeiro conceito é o de prospecto esquemático de subsunção - ou, simplesmente, esquema de subsunção. Por definição, um esquema de subsunção é uma estrutura relacional que possui duas partes interligadas por uma relação definidora . A primeira parte consiste em um conjunto claro e bem definido de conceitos que se elege como subsunçores em potencial. A segunda parte consiste em um conjunto claro e bem definido de conceitos que se elege como subsumíveis em potencial. Ambos, portanto, satisfazem às já consideradas condições intrinsecamente necessárias. Por sua vez, o elemento mais importante de um esquema de subsunção é a sua relação definidora , cuja função é conectar as duas partes constituintes . Essa relação definidora pode ser de qualquer natureza, contanto que seja suficientemente clara, precisa e seja logicamente consistente. Uma vez escolhida, a relação definidora, passa a ser, de fato, o elemento que dá pleno significado material ao esquema .
A noção de esquema de que estamos nos utilizando não é, propriamente, original. Aliás, como muitos dos conceitos correntemente em uso nas áreas da educação e da psicologia, sua origem encontra-se na história da filosofia, ainda que, surpreendentemente, essa origem raramente seja revelada. Em particular, a noção de esquema de que nos utilizamos é similar à que foi articulada por Immanuel Kant e por Friedrich Schelling, ainda no século XVIII (REALE, ANTISERI, 1990; ABBAGNANO, 1998). (A propósito, no contexto da teoria kantiana, um ' esquema transcendental ' era justamente a peça fundamental cuja função era a de conectar as categorias abstratas do entendimento com os dados provenientes dos sentidos, no sentido de produzir objetos de conhecimento.)
Algumas considerações sobre o conceito de esquema de subsunção são cruciais para sua compreensão. Primeiramente, lembremos que uma relação entre os (potenciais) conceitos subsunçores e subsumíveis é uma daquelas condições externas suficientes, a que já nos referimos. De modo que, com apenas a explícita exceção da relação definidora, não fazem parte da definição de esquema de subsunção todas as demais condições que consideramos suficientes para a consecução da relação de subsunção, propriamente dita. (Inclusive todas as demais relações possivelmente existentes entre o par subsunçor/subsumido e que, a rigor, poderiam dar origem a seus próprios esquemas de subsunção.)
Como consequência, o esquema de subsunção não é suficiente para a consecução da relação de subsunção, propriamente dita. Por outro lado, em qualquer processo de subsunção real, é necessário que haja um esquema de subsunção, ainda que ele jamais tenha ou venha a ser explicitado como tal. Como, de resto, ocorre com todo esquema, sua função é a de prover uma estrutura parcialmente formal e parcialmente material em torno da qual muitos processos de subsunção reais podem ser efetivados .
Em terceiro lugar, observe que, muito embora, para a definição do esquema, a relação que o define tenha que estar completamente clara, essa relação definidora não precisa ser, necessariamente, completamente elucidada ou sequer conhecida, pelos sujeitos aprendizes, para que o processo de subsunção aconteça .
Em quarto lugar, o mais importante é notar que o esquema de subsunção é um conceito lógico, cuja importância maior se encontra no fato de tornar formal e
materialmente objetivas - e, portanto, independente das constituições cognitivas individuais - as relações potenciais de subsunção . O esquema de subsunção é um objeto apriorístico, que torna claras as diferenças que existem entre a ideia de subsunção como prospecto ( subsunção em potencial ) e a ideia de subsunção como um fato ( subsunção real ).
Por fim, observe que o esquema de subsunção pretende ser uma estrutura cujas partes constituintes são conjuntos de conceitos. Esses conjuntos podem ser, eventualmente, modificados, em um procedimento que podemos denominar por extensão ou redução do esquema de subsunção . Tais extensões e reduções podem ser realizadas com base tanto em motivações internas (lógicas) quanto em motivações externas (contextos de aplicação). De qualquer modo, o que realmente é importante -até para que os termos 'extensão' e 'redução' possam ser empregados apropriadamente - é que a redução ou a extensão sejam realizadas não como meras retiradas ou agregações arbitrárias de conceitos, mas em virtude de critérios que permitam falar em extensão ou redução de esquemas em termos da extensão ou redução da relação definidora original .
De tudo o que expusemos, fica claro que a construção de esquemas de subsunção é apenas uma das etapas iniciais envolvidas nas intervenções didáticopedagógicas que pretendem ser fundadas na teoria ausubeliana. Contudo, para alcançar subsunções reais, é necessário que o esquema de subsunção funcione como modelo, inspiração, motivação e/ou justificação para a construção de uma outra classe de objetos, que passamos a denominar por instrumentos de subsunção . Os quais, de resto, nada mais são do que aqueles instrumentos didáticopedagógicos com os quais as muitas aplicações da teoria ausubeliana são realmente feitas - ainda que, por vezes, assistematicamente.
Vale, contudo, a pena definir esse conceito de maneira mais rigorosa. Por instrumento de subsunção queremos entender um objeto conceitual composto por duas partes: um ou mais esquemas de subsunção e um sistema bem-sucedido e bem estruturado de estratégias de aplicação e execução das ideias centrais que fundamentam os esquemas. Esse sistema - composto de uma ou mais estratégias e/ou subestratégias concatenadas e/ou aninhadas em uma sequência estruturada de passos, como em um 'fluxograma de execução' é o que, efetivamente, define o instrumento de subsunção . Contudo, como já explicado acima, esse sistema de estratégias de aplicação e de execução não é completamente independente dos esquemas de subsunção, já que encontra neles sua motivação e, principalmente, sua justificação. Isso significa que a estrutura do sistema de estratégias deve compartilhar elementos ideacionais com o seu esquema de subsunção .
O instrumento de subsunção difere de seus esquemas na medida em que, ao passo que estes são predominantemente formais e são independentes de contextos ambientais ou de subjetividades, aquele é predominantemente material e profundamente dependente de contextos e de subjetividades . Esse traço característico de materialidade do instrumento de subsunção encontra-se propriamente compreendido na medida em que ele só pode ser estabelecido a posteriori (De BARCELLOS COELHO, 2017). Isso é o que queremos dizer quando definimos um instrumento como um sistema bem-sucedido , o que, obviamente, só pode ser verificado em situações concretas de aplicação. Instrumentos malsucedidos, ainda que contendo esquemas e estratégias bem definidas, não devem ser considerados, propriamente, instrumentos de subsunção.
Embora bem-sucedidos, por definição, os instrumentos de subsunção não são, é claro, necessários para que casos concretos de subsunção aconteçam. E,
principalmente, não devemos considerar que eles sejam, tampouco, suficientes para que sempre casos concretos de subsunção aconteçam. Isso é assim porque, por bem-sucedido , queremos dizer que o instrumento de subsunção alcançou os resultados esperados em uma proporção arbitrária e convencionalmente estabelecida de situações concretas de aplicação. O que, evidentemente, implica que o instrumento não é infalível, de modo que as demais condições suficientes que julgamos inútil tentar sistematizar, em virtude de sua volatilidade e imponderabilidade características - têm que também estar presentes, muito embora, como também é óbvio, sua influência seja menor. Dito de uma outra forma, um instrumento de subsunção deve ser robusto , o que significa que, em uma fração suficiente das vezes, mostrou-se bem-sucedido, em face de um conjunto variado de contextos e de demais condições, conforme já mencionamos.
Por fim, devemos nos perguntar o que justifica, em última instância, qualquer preocupação com esquemas ou instrumentos de subsunção se, no fim, eles não são nem necessários, nem suficientes, apenas prováveis. Uma resposta é a de que tais conceitos devem permitir a realização de outras elaborações e reflexões teóricas futuras e, nesse particular, podem vir a se mostrar úteis para uma melhor compreensão da própria teoria ausubeliana. Porém, consideramos que sua verdadeira utilidade é de ordem prática: clareza, capacidade de controle e de planejamento das ações didáticas, capacidade de controle nas alterações dos instrumentos, etc., são algumas das muitas vantagens advindas de se conferir sistematicidade e rigor às aplicações de uma teoria.
## Referências
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia . São Paulo: Martins Fontes, 1999. AUSUBEL, D. P. Aquisição e Retenção de Conhecimentos: uma Perspectiva Cognitiva . Lisboa: Plátano, v. 1, 2003.
De BARCELLOS COELHO, A. L. M. Aplicação do monocórdio e o uso de elementos musicais perceptuais como estruturantes para o ensino de conceitos da física ondulatória . Dissertação de Mestrado, Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física, UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, 2017. EYSENCK, M. W., KEANE, M. T. Cognitive Psychology: a Student's Handbook. Psychology Press, Hove, UK, 2000.
GAZZANIGA, M. S, HEATHERTON, T. F., HALPERN, D. Psychological Science: mind, brain and behavior . W.W. Norton & Company, 2015.
GODFREY-SMITH, P. Theory and Reality: an Introduction to the Philosophy of Science . University of Chicago Press, 2003.
LEFRANÇOIS, G. R. Teorias da Aprendizagem . Cengage Learning, São Paulo, 2009.
LAWTON, J. T., SAUNDERS, R. A., MUHS, P. Theories of Piaget, Bruner, and Ausubel: Explications and Implications. The Journal of Genetic Psychology , v.136, 121-136, 1980.
REALE, G., ANTISERI, D. História da Filosofia, vols.1,2 e 3. Ed. Paulus, São Paulo, 1990.
SCHURTZ, G. Philosophy of Science - A Unified Approach . Routledge, New York, 2013.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.