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Sobre a similaridade implícita no uso de referenciais teóricos no contexto de formação de um Mestrado Profissional em Ensino de Física

Matheus Monteiro Nascimento, Fernanda Ostermann, Cláudio José De Holanda Cavalcanti

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVI
Ano
2016
Data
07/09/2016
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## SOBRE A SIMILARIDADE IMPLÍCITA NO USO DE REFERENCIAIS TEÓRICOS NO CONTEXTO DE FORMAÇÃO DE UM MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DE FÍSICA

## ABOUT THE IMPLICIT SIMILARITY IN THEORETICAL FRAMEWORKS USED IN TRAINING CONTEXT OF A PROFESSIONAL MASTER'S DEGREE IN PHYSICS EDUCATION

## Matheus Monteiro Nascimento 1 , Fernanda Ostermann 2 , Cláudio José de Holanda Cavalcanti 3

- 1 Doutorando da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, matheus.monteiro@ufrgs.br
- 2 Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fernanda.ostermann@ufrgs.br
- 3 Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, claudio.cavalcanti@ufrgs.br

## Resumo

Neste trabalho, apresentamos os resultados de uma investigação sobre a forma como alunos egressos de um Mestrado Profissional em Ensino de Física se apropriam de referenciais teóricos. Nessa pesquisa utilizamos duas abordagens distintas: uma análise quantitativa de dissimilaridades e uma análise discursiva dos produtos educacionais desenvolvidos por esses alunos. A parte quantitativa teve foco no universo total de trabalhos concluídos e a análise discursiva, apoiada no dialogismo proposto pelo Círculo de Bakhtin em interação orgânica com as racionalidades profissionais de Contreras, se voltou para os textos de apoio que abordam temas da Física clássica. A partir das análises percebemos que a maneira como os autores dos produtos educacionais, juntamente com seus orientadores, encaram os referenciais teóricos sinaliza um descrédito em relação à necessidade dessa fundamentação. Ocorrem diversas incoerências como a adoção de autores como Vygotsky e Piaget, ou Vygotsky e Ausubel, sem uma mínima reflexão a respeito dos pressupostos teóricos defendidos por esses autores. Essa ingenuidade gera uma concepção utilitarista no uso dos referenciais, estritamente relacionada com a metáfora do mercado. A análise discursiva evidenciou que os autores utilizam os referenciais apenas porque é uma exigência formal. A escolha desses aportes teóricos possivelmente serve como estratégia discursiva para estreitar a relação entre o aluno, o professor orientador e os avaliadores. Poucas vezes identificamos uma articulação entre o aporte teórico, as questões-foco, o desenvolvimento, a aplicação e a avaliação do produto. Essa inadequada apropriação dos referenciais é consequência da influência do contexto de formação, pautado pelo racionalismo técnico, na elaboração desses materiais.

Palavras-chave : Mestrado Profissional, análise de dissimilaridades, análise bakhtiniana, formação de professores

## Abstract

In this work, we present the results of an investigation into how former students of a Professional Master's degree in Physics Teaching use theoretical

frameworks. In this research, we used two different approaches: a quantitative analysis of dissimilarities and a discursive analysis of educational products developed by these students. The quantitative part was focused on total universe of work concluded and discourse analysis, based on the dialogism proposed by Bakhtin in organic interaction with Contreras professionals rationales, he turned to the Classical Physics didactical texts (called support texts ). From the analysis we noticed that the way the authors of educational products, along with their advisors, face the theoretical frameworks signals a discredit of the need of such grounding. Several inconsistencies occur as the adoption of authors such as Vygotsky and Piaget, or Vygotsky and Ausubel, without a minimum reflection about the theoretical assumptions defended by these authors. This ingenuity generates a utilitarian conception in the use of references, strictly related to the metaphor of the market. The discursive analysis showed that the authors use the theoretical frameworks as if they are simple requirements to be fulfilled by their dissertations. The choice of these theoretical contributions possibly serves as a discursive strategy to narrow the relationship between the student, the teacher advisor and the evaluators. In a few times we identified links between theoretical contribution, focus-issues, development, implementation and evaluation of educational product. This inadequate appropriation of references is a result of the influence of the training context, based on technical racionalism, in the preparation of these materials.

Keywords : Professional Master's degree, analysis of dissimilarities, bakhtinian analysis, teacher's education

## Introdução

A partir da portaria nº 80 promulgada pela CAPES em 1996 os Mestrados Profissionais passaram a fazer parte do cenário da pós-graduação nacional como modalidade stricto sensu (BRASIL, 1999). Essa categoria surge a partir da necessidade de desenvolvimento da pós-graduação profissional no país e busca aproximar os trabalhos produzidos na universidade das demandas sociais e profissionais (QUELHAS, FILHO, & FRANÇA, 2005). Tão logo essa modalidade foi criada houve uma expressiva expansão no número de cursos aprovados e reconhecidos, principalmente, pelo fato das instituições privadas terem percebido um forte nicho de mercado nesse setor da educação. De acordo com o portal da CAPES, em 1998, havia 24 cursos aprovados no país e, atualmente, são 579 recomendados e reconhecidos. Essa ampliação teve forte impacto na área de Ensino de Ciências e Matemática, que hoje conta com 48 cursos de mestrado acadêmico e 66 de mestrado profissional. Além disso, em 2012 foi criado o Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física (MNPEF) pela Sociedade Brasileira de Física. Hoje, o MNPEF conta com 63 polos espalhados pelo país.

Apesar da expansão do Mestrado Profissional (MP) nos últimos anos, a pesquisa em Ensino tem sinalizado problemas em relação a esses cursos de formação. Shäffer e Ostermann (2013) afirmam que a prática pedagógica dos professores da educação básica, ingressantes em um MP, desde a questão curricular, planejamento, crenças e concepções, está repleta de elementos do racionalismo técnico, os quais o curso de MP não parece abalar. Rezende e Ostermann (2015) assinalam que este resultado se deve ao fato da estrutura

curricular do curso ser elaborada por especialistas acadêmicos, que geralmente não se atentam às reais demandas da escola ou do professor. Através de análise bakhtiniana da proposta inicial de um curso de MP em Ensino de Física e de seu currículo, Souza (2015) indica que o modelo de formação propagado por esse programa de pós-graduação é o do especialista técnico, assim como destacado por Shäffer e Ostermann (2013). Além disso, a pesquisadora analisa também alguns produtos desenvolvidos pelos alunos egressos, que indicam uma responsividade voltada para os testes de avaliação nacionais e internacionais, para o referencial teórico do trabalho ou para as políticas educacionais, mas não para a realidade das escolas ou questões próprias da sala de aula. Assim como a direcionalidade, que foi voltada à academia, os trabalhos de conclusão geralmente se dirigem à figura do professor orientador e aos docentes do programa, possíveis membros da banca avaliativa.

Vale destacar, a partir dos resultados dessas pesquisas, que a concepção de formação docente vigente nesses cursos difunde o modelo do professor racionalista técnico, proposto por Contreras (2002). Um professor especialista técnico é aquele profissional e xpert na sua disciplina, sem habilidades para desenvolver suas próprias técnicas, mas apenas aplicá-las (CONTRERAS, 2002). Por outro lado, Ostermann e Rezende (2009) recomendam que o desenvolvimento de um produto educacional do MP deve se distanciar dessa visão tecnicista de ensino. Para as pesquisadoras nos projetos do mestrado profissional os referenciais teóricos devem fundamentar metodologias de ensino e orientar a escolha dos conteúdos além de estabelecer novas formas de avaliação, ou seja, sustentar toda a elaboração do produto educacional.

É fato conhecido que vários trabalhos têm referenciais teóricos totalmente desarticulados da proposta de ensino (na qual está integrado o produto educacional). Por exemplo, Greca (2002) já denunciava que poucos trabalhos apresentados em um evento do Ensino de Ciências se preocupavam em explicitar a relação do referencial teórico com o objeto de estudo. Essa desarticulação leva a crer que em nenhum momento nesse tipo de trabalho foi feita uma reflexão aprofundada sobre as diversas teorias elaboradas por esses teóricos, sobre suas bases epistemológicas, ou sobre as tensões ou possíveis convergências entre elas. Por isso, no presente trabalho, estamos dispostos a avaliar o papel dos referenciais teóricos nos produtos educacionais desenvolvidos no âmbito de um MP. Buscando elementos para atingir esse objetivo efetuamos uma análise da similaridade entre os 90 trabalhos desenvolvidos nesse MP. Além disso, realizamos uma análise bakhtiniana sobre uma amostra de 27 trabalhos, buscando encontrar as referidas similaridades nos discursos dos egressos.

## Similaridades entre trabalhos

No sentido de quantificar o problema central da análise - o tratamento dado aos referenciais teóricos dos trabalhos de conclusão - o presente estudo assume que dois diferentes autores são considerados pelos alunos-professores (e respectivos orientadores) como similares quando são adotados em conjunto no trabalho sem que uma argumentação teoricamente fundamentada e convincente justifique a possibilidade de uma articulação entre as ideias defendidas por esses autores. A ideia de similaridade que está sendo proposta é relacionada a (1) que o mestrando sustenta ativamente a possibilidade de integração entre as teorias dos

diversos autores e (2) que as diferenças entre pressupostos importantes nas diversas teorias não são importantes a ponto de serem consideradas nos trabalhos e que o referencial teórico pode ser um instrumento no trabalho, mais do que uma fundamentação teórica. Assim, mesmo que não haja uma posição explícita na dissertação em favor da similaridade entre autores adotados no respectivo referencial teórico, supõe-se que a simples justaposição ou uma tentativa mal fundamentada de articulação entre diferentes autores no referencial teórico do trabalho constitui-se num alinhamento a uma posição axiológica que assume uma similaridade implícita entre eles.

Do ponto de vista estatístico serão feitas análises de dissimilaridade, que mantêm relação próxima com a similaridade . A análise aqui realizada é fortemente 1 relacionada ao conceito de dissimilaridade: a Análise Multidimensional (MDS Multidimensional Scaling ). Ela permite explorar aspectos diferentes sobre os perfis teóricos dos diversos trabalhos. Isso é importante no sentido de que permite vislumbrar detalhes de como o contexto institucional influi nos trabalhos dos mestrandos, detalhes esses impossíveis de serem percebidos com mera inspeção visual dos dados coletados. A principal meta da MDS é visualizar em um plano bidimensional (ou em mais dimensões) similaridades entre casos levando-se em conta certas variáveis (distribuídas em colunas). No entanto, em nosso trabalho optamos por utilizar a Análise Multidimensional não-métrica (chama-se NMDS NonMetrical Multidimensional Scaling ), que propõe uma abordagem distinta. A diferença entre a MDS métrica e não-métrica reside no fato de que a não métrica organiza o mapa por ordem, não propriamente pelos valores absolutos das dissimilaridades. Em outras palavras, está se assumindo que as dissimilaridades entre os trabalhos mantêm uma relação monotônica com as dissimilaridades calculadas e obtidas dos dados. Assim, o mapa feito por MDS não-métrica tentará reproduzir não as dissimilaridades em si, mas a ordem dessas dissimilaridades. É nesse sentido que a MDS não-métrica tende a organizar o mapa por ordenamento e não por valor absoluto de dissimilaridade. Para isso, usa-se um tipo de regressão nãoparamétrica, chamada regressão isotônica (COX & COX, 2001, p. 66; BORG et al. , 2013, p. 22), diferente da regressão paramétrica utilizada na MDS métrica. Esse tipo de MDS é mais adequada para o presente caso, que visa investigar similaridades implícitas na adoção de referenciais teóricos em diversos trabalhos , além de ser 2 menos restritivo do que a MDS métrica e, por isso, levar a um ajuste mais interessante. Para melhorar o ajuste e obter resultados mais consistentes, se optou por rodar a NMDS em três dimensões, representando a terceira coordenada por cores nos pontos, como pode ser visto na figura 1.

Figura 1. A linha pontilhada vermelha delimita os grupos de trabalhos totalmente similares, sendo indicados os autores que constituem os referenciais teóricos desses grupos de trabalhos.

Fonte: Elaborado pelo autor

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Os trabalhos que aparecem no mesmo ponto são considerados plenamente similares do ponto de vista estrito dos autores que fundamentam o referencial teórico. A linha pontilhada vermelha indica os grupos formados por trabalhos similares. O maior grupo de trabalhos totalmente similares entre si, no total de 20, adota como autores Ausubel e Vygotsky.

A forma como muitos mestrandos e seus respectivos orientadores encaram os referenciais teóricos indica que não dão a devida importância ao mesmo. Ocorrem diversas incoerências como a adoção de duplas de autores como Vygotsky e Novak, ou Vygotsky e Ausubel, sem uma mínima reflexão a respeito dos pressupostos teóricos defendidos por esses autores. Isso é fruto do contexto diretivo que supervaloriza a produção de material didático (entre os quais o produto educacional) e sua decorrente aplicação na escola , mais do que qualquer outro 3 aspecto. Observamos que houve uma permissividade geral que incentivou a supervalorização de uma elaboração ateórica do produto, sem que os mestrandos refletissem sobre as inconsistências teóricas advindas da simples justaposição de diferentes autores nos referenciais teóricos dos referidos trabalhos. Assim, se dois autores estão presentes em um dado referencial teórico, isso decorre de uma posição axiológica do mestrando (e orientador) e também é uma posição que foi

reforçada pelo contexto de produção - ou contexto extraverbal - que se alinha a essa posição axiológica nas disciplinas e referências bibliográficas privilegiadas ao longo do curso. O resultado da análise dos referenciais adotados sinaliza que o contexto que permeia o Mestrado Profissional em Ensino de Física estudado está longe de ser de uma efetiva pesquisa aplicada. Na realidade, a utilização de referenciais simpáticos aos orientadores reforça a significação social e hierárquica do contexto extraverbal dos enunciados. Ou seja, a escolha desses aportes teóricos serve de manobra verbal para estreitar a relação entre o aluno, o professor orientador e os avaliadores. Isso se justifica pelo fato de não observarmos, na maioria das vezes, uma relação entre o marco teórico e o produto desenvolvido.

## Análise bakhtiniana dos trabalhos

Nesta seção apresentaremos os resultados da análise discursiva realizada sobre os trabalhos de conclusão com produto educacional de natureza texto de apoio e conteúdo com foco na Física clássica desenvolvidos no MPEF investigado entre 2002 e 2014. Do universo de trabalhos concluídos no MPEF no período analisado, 28 se enquadravam dentro dos objetivos da pesquisa. Desses, apenas um deles não possuía produto educacional nem dissertação disponível no site da instituição, com isso, o escopo de nossa análise se constitui em 27 trabalhos de conclusão.

Além das particularidades que constituem o enunciado concreto , elegemos 4 outros conceitos da obra do Círculo para nos auxiliarem na análise dos textos de apoio, são eles: gênero do discurso, tema, estilos e entonação. Bakhtin (2011) entende que os enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada campo da comunicação social. Deste modo, cada um dos tipos de comunicação social - como as relações de produção, de negócio, artísticas, cotidianas e ideológicas (VOLOSHINOV, 1930) - elabora seus tipos relativamente estáveis e particulares de enunciados, denominados gêneros do discurso. Os gêneros do discurso são compostos por um conteúdo temático (tema), um estilo de linguagem (estilo) e uma construção composicional. O tema é uma propriedade que pertence a cada enunciado como um todo; ele expressa a situação concreta que deu origem a esse enunciado. O tema de um enunciado é sempre escolhido visando a ideia que o autor quer passar para o suposto destinatário. Já o estilo linguístico, ou apenas estilo, reflete a relação direta entre os locutores, a hierarquia e o grau de proximidade entre eles. De acordo com Bakhtin (2011), o enunciado, com seu estilo e sua composição, é determinado pela relação de valor do locutor com o suposto destinatário. A entonação, por sua vez, é um componente constituinte da palavra e representa o caráter de valor do locutor em relação ao objeto. Voloshinov (1930) apresenta uma perspectiva sociológica da entonação, discutindo a relação social desse conceito, sempre na fronteira entre o verbal e extraverbal. Para o autor, a entonação mantém as mesmas características que orientam o todo do enunciado, a natureza social, a orientação ao ouvinte e a orientação ao tema.

Certamente o aspecto que mais nos chamou a atenção, e que já havia sido sinalizado a partir da análise quantitativa dos trabalhos de conclusão, é a concepção utilitarista no uso dos referenciais teóricos. Ficou muito evidente que os autores utilizam os referenciais apenas porque é uma exigência do curso. Raras vezes identificamos uma articulação entre o aporte teórico, as questões-foco, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto. De fato, dos 27 trabalhos analisados, apenas dois se apropriam corretamente dos seus teóricos. No geral, a situação é similar à do trabalho 74 (T74) , onde o autor, no primeiro parágrafo do 5 capítulo 'Referencial Teórico' afirma que o presente trabalho 'tem como referencial as teorias de aprendizagem de David Ausubel e Lev Semenovitch Vygotsky, por julgarmos serem as que mais se aproximam da proposta de ensino e aprendizagem aqui apresentada' . Quer dizer, primeiro vem a proposta com seus objetivos definidos para posteriormente encontrar um teórico que se adapte a essa proposta. Notamos ainda que esse trecho está em evidência na dissertação, o que indica que o orientador possivelmente o leu. Com isso, só podemos supor que o docente que orienta o trabalho compartilha da mesma visão utilitarista do autor. Essa concepção ingênua da apropriação teórica, sendo recorrente em quase todos os trabalhos de conclusão analisados, nos leva a creditar ao contexto extraverbal comum disciplinas e docentes do MPEF - essa difusão errônea observada. Nessa perspectiva, notamos que os autores afirmam utilizar Ausubel se estão desenvolvendo um produto para efetivar aprendizagens, utilizam Vygotsky se a implementação prevê interação social, Vergnaud se a preocupação é com o ensino de conceitos, e assim por diante. Em alguns extremos, como é o caso do T15, o autor se 'apropria' de Rogers, Vygotsky, Ausubel e Novak, de acordo com a sua necessidade, ou ainda como no T25, onde o autor se embasa em Piaget, Vygotsky, Vergnaud, Ausubel e ainda Paulo Freire. Em conformidade com a análise quantitativa, foi recursiva a tentativa de associar teoricamente Vygotsky com Ausubel, fruto também do contexto extraverbal comum dos enunciados. Isso porque sabemos que os autores obrigatoriamente cursaram a disciplina de Teorias de Aprendizagem e Ensino, onde o livro-texto utilizado foi escrito por um dos orientadores que trata Vygotsky como um teórico cognitivista, e que não vê problemas em associar esse referencial à psicologia cognitivista de Ausubel. Essa tentativa de associação teórica é perigosa, pois leva à banalização de diversos conceitos fundamentais da teoria de Vygotsky (PEREIRA &amp; JÚNIOR, 2014).

## Conclusão

O olhar quantitativo sobre o universo de trabalhos concluídos indicou aspectos relevantes, inclusive reforçados posteriormente pela análise discursiva dos textos de apoio. Notamos que a concepção de utilização dos referenciais teóricos que embasam os trabalhos de conclusão do MPEF é influenciada pelo modelo racionalista técnico. O maior número de trabalhos totalmente similares entre si é aquele que utiliza como aporte teórico Ausubel e Vygotsky. A concepção utilitarista no uso dos referenciais teóricos destaca ainda mais esse aspecto tecnicista. Os teóricos são utilizados como 'ingredientes de uma receita', típico da metáfora do mercado, a fim de justificar o trabalho desenvolvido para orientadores e banca avaliadora. Por exemplo, se a aplicação do produto educacional desenvolvido prevê uma interação entre os estudantes, o autor do trabalho utiliza Vygotsky. Se o

objetivo é buscar uma aprendizagem mais significativa, citam Ausubel como aporte teórico.

Por fim, gostaríamos de salientar que a pesquisa aqui apresentada expõe resultados importantes, que serão úteis para futuras discussões sobre a qualidade dos produtos educacionais, principalmente, no cenário atual em que a CAPES já sinaliza a criação de um programa Qualis para classificação dos produtos desenvolvidos nos cursos de MP. Acreditamos também ser importante problematizar, a partir dos resultados de nossa pesquisa, se o desenvolvimento de um produto educacional deve realmente ser uma exigência para a conclusão de um curso de MP.

## Referências

- 1 BORG, I.; GROENEN, P. J. F.; MAIR, P. Applied multidimensional scaling . Berlin: Springer, 2013.
- 2 BRASIL. Portaria nº 80 de 16 de dezembro de 1998. Dispõe sobre o reconhecimento dos mestrados profissionais e dá outras providências. Diário Oficial da União , Brasília, 11 janeiro 1999. p.14.
- 3 CONTRERAS, J. A. A autonomia de professores . São Paulo: Cortez, 2002.
- 4 COX, T. F.; COX, M. A. A. Multidimensional scaling . Boca Raton: Chapman &amp; Hall/CRC, 2001.
- 5 GRECA, I. M. Discussing methodological aspects of research in science education: some issues to think about. Revista Brasileira de Pesquisa em educação em Ciências , 2, n. 1, 2002. 73-82.
- 6 PEREIRA, A. P. D.; JÚNIOR, P. L. Implicações da perspectiva de Wertsch para a interpretação da teoria de Vygotsky no ensino de Física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , 31, n. 3, dezembro 2014. 518-535.
- 7 QUELHAS, O. L. G.; FILHO, J. R. F.; FRANÇA, S. L. B. O mestrado profissional no contexto do sistema de pós-graduação brasileiro. Revista Brasileira de PósGraduação , 2, n. 4, julho 2005. 97-104.
- 8 REZENDE, F.; OSTERMANN, F. O protagonismo controverso dos mestrados profissionais em ensino de Ciências. Ciência &amp; Educação , 2015. v. 21, p. 543558 .
- 9 SCHÄFFER, E. D. A.; OSTERMANN, F. O impacto de um mestrado profissional em ensino de física na prática docente de seus alunos: uma análise bakhtiniana sobre os saberes profissionais. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências , 2013. 87-103.
- 1 SOUZA, J. Apropriação discursiva de modelos de formação docente em trabalhos de conclusão de um Mestrado Profissional em Ensino de Física. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós Graduação em Ensino de Física, IF, UFRGS , p. 113, 2015.
- 1 VOLOSHINOV, V. N. Estrutura do enunciado. Tradução para fins didáticos por Ana Vaz . [S.l.]: [s.n.], 1930.

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