UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE O IMAGINÁRIO DE LICENCIANDOS DE FÍSICA
Fabiano Willian Parma, Jessica Dos Reis Belíssimo, Roberto Nardi, Maria José Pereira Monteiro De Almeida
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2016
- Data
- 06/09/2016
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE O IMAGINÁRIO DE LICENCIANDOS DE FÍSICA
## A LONGITUDINAL STUDY ABOUT THE IMAGINARY OF FUTURE PHYSICS TEACHERS
## Roberto Nardi¹, Maria José Pereira Monteiro de Almeida , Fabiano Willian 2 Parma³, Jéssica dos Reis Belissimo 4
1 UNESP/Departamento de Educação nardi@fc.unesp.br
2 UNICAMP/Departamento de Ensino e Práticas Culturais mjpma@unicamp.br
³UNESP/Faculdade de Ciências fabiano-wp@hotmail.com
4 UNESP/Faculdade de Ciências jessicabelissimo@gmail.com
## Resumo
A pesquisa tem como objetivo estudar detalhes do processo de formação de professores de Física, em especial da contribuição da pesquisa em educação e em ensino de física na formação de futuros professores. Origina-se de uma sequência de pesquisas anteriores sobre formação de professores e procura analisar o perfil dos licenciandos em física desde o ingresso na universidade e como seus imaginários sobre conhecimento científico, ensino de ciências e a constituição de saberes se modificam durante e até a conclusão do curso. Tem como sujeitos licenciandos de uma universidade pública que ingressaram em 2014 e devem concluir a licenciatura em 2017. O levantamento de dados se dá através de questionários aplicados no início de cada ano e prevê também entrevistas que recebem o tratamento da análise de discurso, originada por Pêcheux e desenvolvida no Brasil por Orlandi e outros. Esta comunicação mostra parte dos dados, como o perfil desses licenciandos, com destaque para suas formações em nível médio e a preferência pelo curso de Física. A maioria dos licenciandos frequentou o ensino médio regular em escolas particulares e pouco menos da metade frequentou curso preparatório para vestibular; o fato de gostarem e ter facilidade com a disciplina Física foi o principal fator que os levou a escolher o curso.
Palavras-chave : Ensino de Física, Formação de Professores de Física. Análise de Discurso. Pesquisa em Ensino de Física.
## Abstract
The research aims to study details of the process of formation of physics teachers, especially the contribution of research in education and physicsl teaching in the training of future teachers. It originates from a sequence of three previous research on teacher training and to analyze the profile of undergraduate in physics from the entry into university and how their imaginary about scientific knowledge, science education and the creation of knowledge change during and even completion of the course. The subjects joined the public university in 2014 and must complete the degree in 2017. The data collection is via questionnaires at the beginning of each year and also provides interviews receiving treatment of discourse analysis, originated by Pêcheux and developed in Brazil by Orlandi and others. This
communication shows part of the data, as the profile of these licensees, highlighting their training in high school and the preference for physics course. Most undergraduates attended regular high school in private schools and fewer than half attended preparatory course for college entrance; the fact that they like and have ease with Physics discipline was the main factor that led them to choose the course.
Keywords : Physics Teaching, Teacher Training. Discourse Analysis. Research in Physics Teaching
## Introdução
Este estudo provém de outras três pesquisas anteriores, quando, em um primeiro momento, estudou-se o início da pesquisa em formação de professores no Brasil, posteriormente como as pesquisas relacionam-se com professores da educação básica, procurando entender como está acontecendo a formação continuada desses professores. Em uma terceira fase buscou-se investigar o imaginário de alguns pesquisadores envolvidos em projetos que fazem a interface com a educação básica no pais. A ideia foi entender os reflexos da pesquisa em educação, particularmente em ensino de ciências, na prática de ensino de professores da educação básica.
A preocupação em entender os imaginários dos pesquisadores brasileiros ao analisar suas representações sobre a pesquisa realizada nas universidades e a relação entre pesquisadores universitários e aqueles da educação básica, também é motivo de discussão em nível internacional. Pesquisadores como Kennedy (1997) tem procurado estudar a conexão entre a pesquisa e a prática de professores; McIntyre (2005), por sua vez, tem estudando como 'fazer a ponte' entre a pesquisa e a prática. Uma edição especial da revista Theory into Practice (v. 46, n.4, 1997) abre, também, essa discussão sobre a relação entre a teoria e prática.
Para dar continuidade as pesquisas anteriores sobre formação de professores e a contribuição da pesquisa nesse processo, foi proposta a investigação atual, que tem como foco acompanhar os futuros professores de Física, desde o início da graduação até a conclusão do curso de licenciatura, visando analisar seus imaginários sobre o conhecimento científico, o ensino de ciências, o processo de constituição de saberes para a docência durante esse período de formação, com destaque para a interferência da pesquisa em ensino de física neste processo.
## Aportes Teóricos
A fundamentação teórica deste estudo estará embasada em discussões de autores nacionais e do exterior que estudam aspectos sobre a formação de professores, a pesquisa sobre formação de professores e seus reflexos em suas práticas na educação básica. Para a análise dos dados recolhidos nos levantamentos e nas entrevistas, estão sendo utilizados aportes teóricos da Análise de Discurso na linha francesa, originada por Pêcheux e desenvolvidas no Brasil por autores como Orlandi e outros pesquisadores.
## Formação de Professores
A formação de professores é definida por Garcia (1999) como a área de conhecimentos, investigação e de propostas teóricas e práticas que estudam os processos através dos quais os professores, em formação ou em exercício, implicam-se individualmente ou em equipe, em experiências de aprendizagem através das quais adquirem ou melhoram os seus conhecimentos, competências e disposições. Essas experiências lhes permitem intervir profissionalmente no desenvolvimento do seu ensino, do currículo e da escola, com o objetivo de melhorar a qualidade da educação que os alunos recebem (Garcia, 2000, p.26). O percurso, por meio do qual o professor adquire os conhecimentos especializados necessários à docência, tem sido tradicionalmente subdividido em uma fase préprofissional, desenvolvida por meio da vinculação a cursos universitários que lhe conferem a licença para o magistério (formação inicial), e uma fase de formação em serviço, na qual ocorrem processos chamados de formação continuada, contínua, desenvolvimento profissional etc .
Os debates sobre formação vêm sendo conduzidos com base em perspectivas que emergiram sucessivamente, e que consideram diferentes focos de preocupação (NÓVOA, 1992; SCHÖN, 2000; GOODSON, 1992; CONTRERAS, 1997; GARCÍA, 1999; GAUTHIER, 1998; TARDIF, 2004). Tais discussões convivem com a existência de algumas concepções de senso comum a respeito da aprendizagem da docência, as quais, embora tenham sido objeto de constantes críticas, continuam presentes entre alunos dos cursos de licenciatura, docentes universitários e professores da escola básica, interferindo sobre o funcionamento dos programas de formação inicial e continuada, conforme mostram estudos que desenvolvemos anteriormente (LIPPE & BASTOS, 2008; CAMARGO, 2007; CORTELA, 2008).
Nota-se, assim, que uma questão bastante presente ao longo dessa pesquisa refere-se a compreender, no âmbito do trabalho do professor, quais os papéis da teoria e da prática, bem como indagar quais são os tipos de teoria e de prática. Além disso, no período em referência, embora muitas das problemáticas investigadas tenham a ver com o binômio 'teoria-prática', outros aspectos do trabalho e da formação do professor foram objetos de estudos e pesquisas. Diversos autores (GOODSON, 2001; GARCÍA, 1999; NÓVOA, 2000; TARDIF, 2004) consideram os elementos da história de vida e do percurso profissional dos professores como essenciais para entender como estes lidam com as questões cotidianas da docência. Essas análises e investigações mostraram que os estudantes de graduação e professores da escola básica apresentam determinadas convicções, conhecimentos, habilidades e disposições que interferem positiva ou negativamente no trabalho docente, mas que não se formaram em razão de estudos de natureza acadêmica, e sim como consequência de diversos episódios e influências ligados à trajetória pessoal de cada indivíduo.
## Análise de Discurso
Para analisar os depoimentos dos licenciandos, estaremos usando técnicas e procedimentos de análise de discurso na linha francesa, já utilizados em pesquisas anteriormente citadas e divulgadas (ALMEIDA, 2007, p. 117). Segundo esta autora, os referenciais de apoio 'apontam a não-transparência da linguagem e o papel das
condições de produção na formulação dos discursos'. Dessa forma, 'os comentários subentendem a relevância das representações dos entrevistados e do entrevistador na obtenção das informações que constituíram os discursos analisados'. Por sua vez, Orlandi (1983), em coerência com os trabalhos de Pêcheux, considera a linguagem como um trabalho, no sentido de não ter caráter natural, nem arbitrário, e ser, como aquele, resultado da interação entre o homem e as realidades natural e social, ou seja, constitui-se em produção social, em mediação necessária.
## A Pesquisa
A pesquisa visa compreender os imaginários de licenciandos sobre o conhecimento cientifico, o ensino de ciências e a constituição de saberes para a docência, bem como esse imaginário se modifica ao longo do curso e, também, como a pesquisa em educação, e em ensino de física em particular, interferem no processo de formação para a docência.
Para a constituição dos dados, a pesquisa está sendo desenvolvida segundo uma abordagem qualitativa, no sentido definido por André (1995) e Flick (2009). Para analisar os depoimentos dos licenciandos, estamos usando técnicas e procedimentos de análise de discurso na linha francesa.
As tomadas de dados estão sendo realizadas na forma de questionários envolvendo uma amostra de estudantes de licenciatura em Física. Os questionários tiveram início em março de 2014, quando esses licenciandos ingressaram na Universidade, e desde então, vem ocorrendo no início de cada ano posterior (2015, 2016). Os questionários foram aplicados nas disciplinas de Metodologia e Prática de Ensino de Física I, III e V, lecionadas no primeiro semestre de cada ano; dessa forma, a amostra de estudantes foi decaindo, devido ao fato de alguns licenciandos sofrerem reprovas ou optaram pelo curso de bacharelado apenas, uma vez que as duas opções são disponibilizadas aos 60 ingressantes no curso. O decaimento no número de sujeitos da amostra também pode ter sido motivado pela evasão do curso. Outros questionários serão aplicados no início do próximo ano e outro ao final do curso, em dezembro de 2017, quando entrevistas com os concluintes do curso estão previstas.
## Dados iniciais
A coleta de dados iniciou-se com o primeiro questionário, aplicado a alunos recém-ingressos no curso de física. Dos 60 ingressantes, 49 se disponibilizaram a responder 30 questões que visavam conhecer o perfil dos estudantes, a avaliação da disciplina e dos professores que tiveram no curso médio realizado, seu desempenho e conhecimentos de física acumulados até ingressarem na universidade. Outras questões procuraram entender o motivo de terem escolhido o curso de física, o imaginário dos mesmos sobre a ciência, a física, a educação, a profissão e professor e vários outros temas definidos pelos pesquisadores.
Destacamos aqui as análises iniciais, que se referem ao perfil dos licenciandos e a motivação para a escolha pelo curso de física, coletados no primeiro questionário.
Quanto à procedência escolar dos licenciandos ao ingressarem no curso de física, os questionários mostram os seguintes dados:
Tabela 1 - Formação em Nível Médio
Fonte: Autores
Tabela 2 - Escola que Frequentou no Ensino Médio
Fonte: Autores
Observa-se que a maioria dos 49 alunos frequentou o ensino médio regular, exceto três deles; um que cursou ensino de jovens e adultos (EJA), e dois o ensino médio integral. Quase metade dos licenciandos (24/49; 48,98%) estudaram em escolas particulares; dezoitos deles estudaram em escolas públicas regulares e sete em escolas técnicas (ETEC, SENAI e outras). Outro dado quanto à formação, mostra que mais da metade dos licenciandos (27/49; 55,1%) frequentaram curso preparatório para o vestibular (cursinho) antes de ingressar na universidade.
Em relação ao interesse pelo curso de Física, as respostas foram:
Tabela 3 - Motivos que levaram a escolha do curso de Física
Fonte: Autores
Destaca-se na tabela acima que boa parte dos ingressantes optou pelo curso pelo fato de se identificarem com a Física e/ou por influência de professores da educação básica. As falas abaixo resumem a escolha desses licenciandos:
Desde o 9º ano do ensino fundamental eu já me interessava com a área, gostava das aulas, e ainda gosto muito; a partir do segundo ano do ensino médio a física estava clara como objetivo; entender o mundo, o universo e a mim mesmo através da física, me faz realizado, mesmo sabendo tão pouco. A física é tudo, para mim.
A aula de física era muito boa, eu gostava muito de assisti-la. Tinha um ótimo professor que me deixava muito empolgado com as aulas e despertou meu interesse pelo curso. (A14 )
As aulas eram boas, com bons professores (alguns com mestrado e doutorado). Eu gostava das aulas pois física é minha matéria preferida. (A9)
Por outro lado, as deficiências apontadas no ensino público de Física (KUSSUDA, 2012), mostram-se presentes nestes depoimentos:
As aulas eram caóticas, pois muitas vezes os professores não conseguiam lidar com os alunos, pois estes não tinham interessa em aprender e acompanhar a disciplina, eu gostava das aulas, quando os professores conseguiam dar estas aulas. (A1)
Tive aulas de física apenas no 3º colegial e ainda sim o professor não comparecia em todas as aulas, o meu contato com física, foi por curiosidade mesmo, e não gostava muito das aulas, devido a ausência do professor. (A2)
O fato de a escolha do local (próximo da residência) e horário (noturno) já foi apontado por Kussuda (2012) como um dos fatores que influenciam na escolha pelo curso, uma vez que boa parte dos alunos que escolhem a graduação em física é proveniente da classe média, ou média baixa, sendo alunos trabalhadores:
Eu saí de [Nome da Cidade] por motivos pessoais e voltei a morar com meus pais em Bauru (início de 2013). Comecei a trabalhar mas não queria parar os estudos (penso em seguir carreira acadêmica, mas não necessariamente como licenciado). Quando descobri que a Física da Unesp tinha bacharelado com ênfase em materiais (área que gosto bastante) optei rapidamente e defini como graduação a ser seguida. (A10)
Destaca-se ainda nos dados, o fato de um dos alunos ter escolhido o curso por 'parecer engenharia':
O interesse por exatas, os professores do segundo e terceiro ano, e a aproximação da disciplina com engenharias.
Os efeitos de sentido presentes nesta fala mostram a possibilidade deste aluno transferir-se para este curso no futuro. A transferência para outros cursos, como Engenharia, segundo pesquisa de Kussuda (2012), é um dos motivos de abandono do curso de Física. Observa-se ainda que, como este aluno, alguns dos novos licenciandos alegaram mais de um motivo para a escolha do curso.
## Considerações Finais
É possível observar que a maioria dos licenciados frequentou o ensino médio regular; os dados mostram que praticamente a metade dos alunos procedem do ensino público e uma pequena parcela vem de outras modalidades de ensino. Também que a opção pelo curso se origina, principalmente pela preferência do licenciado pela Física e o professor da educação básica tem papel fundamental
nesta escolha. É importante observar que dados de pesquisas anteriores (Camargo, Nardi, 2007; Kussuda, 2012) mostram que a maioria de professores da região não é formada em Física. Embora nem todos os alunos ingressantes sejam originários desta região onde ingressaram na universidade, essa constatação merece ser mais bem estudada. Estas e outras constatações que mostram o imaginário desses licenciandos, como a influência da pesquisa em ensino de Física na formação e construção dos primeiros saberes docentes deverão ser analisadas também com entrevistas a serem tomadas na sequência das atividades desta pesquisa.
## Referências
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