EVASÃO NO CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA: PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES E POSSÍVEIS MELHORIAS
Sérgio Rykio Kussuda, Roberto Nardi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2016
- Data
- 05/09/2016
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## EVASÃO NO CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA: PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES E POSSÍVEIS MELHORIAS.
## DROPOUT ON A PHYSICS TEACHERS TRAINING COURSE: MAIN REASONS AND POSSIBLE IMPROVEMENTS.
## Sérgio Rykio Kussuda 1 , Roberto Nardi 2
- 1 Universidade Estadual Paulista - UNESP/Faculdade de Ciências - Bauru - SP, e-mail: [rykio@fc.unesp.br
## Resumo
Atualmente existe grande demanda de professores para atuação no Ensino Médio em diversas disciplinas, especialmente as relacionadas às Ciências, como no caso da Física. Para suprir parte desta demanda, no estado de São Paulo, muitas vezes professores de têm lecionado disciplinas que não fazem parte de sua formação ocasionando a compreensão errada de algumas disciplinas e tornando a aprendizagem destas menos atrativa e, consequentemente, afastando os alunos destes cursos. Desta forma é notável a importância da formação de professores específicos, tornando o estudo sobre a evasão nos cursos de licenciatura importante. Esta pesquisa procura conhecer as principais motivações para alunos que ingressam no curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública evadir o curso. O questionário aplicado com 37 ex-alunos que abandonaram o curso indica a existência de diversas motivações para a evasão do curso, sendo que embora existam motivações pessoais e de âmbito político para a evasão, a maior parte das motivações são relacionados aos professores universitários e à universidade, consequentemente, repensar alguns fatores como a didática do professor e a consideração das reclamações dos alunos por parte da coordenação do curso, a reestruturação do currículo e ampliação da política de permanência estudantil podem aumentar o número de graduados melhorando a qualidade do ensino de Física no Estado. Embora as mudanças do professor e da universidade possam gerar resultados mais imediatos não podemos deixar de lado a busca por melhorias na qualidade do trabalho e a melhoria salarial do magistério, fatores que também influem na busca e evasão dos cursos de licenciatura.
Palavras-chave : Evasão, Formação de professores, Falta de professores de Física.
## Abstract
Currently there is great demand for teachers to act in high school in various disciplines, especially those related to science, such as physics. To meet part of this demand, the state of São Paulo, often teachers have taught disciplines that are not part of their training leading to the wrong understanding of some subjects and making learning these less attractive and hence away from the students of these courses. Thus it is remarkable the importance of training for specific teachers, making the study of evasion in important degree courses. This research seeks to know the main
motivations for students entering the Bachelor's Degree in Physics of a public university evade the course. The questionnaire with 37 former students who left the course indicates the existence of several motivations for the avoidance of course, and although there are personal and political level motivations for evasion, most of the reasons are related to university professors and university consequently rethink some factors such as the methodology of teaching and consideration of complaints from students by the course coordinator, restructuring the curriculum and expansion of the student residence policy can increase the number of graduates by improving the quality of teaching of Physics in the state. Although the changes of the teacher and the university can generate more immediate results can't put aside the search for improvements in quality of work and wage improvement of teaching, factors that also influence the search and evasion of degree courses.
Keywords : Evasion, Teachers training course, Shortage of physics teachers.
## Introdução
Ao longo dos anos ocorreram diversas reformulações curriculares, entre elas a obrigatoriedade da Educação Básica a todos, o que tornou ampliou a demanda por professores. Neste contexto foi implantada a Lei 5.692 de 11 de agosto de 1971, também conhecida como Licenciatura Curta que possibilitou formar grande quantidade de professores em um curto espaço de tempo e que teve seu término em 1996 devido, segundo Camargo (2007), a diversos problemas como a criação e cursos em regiões em que havia professores suficientes e a baixa quantidade de escolas para absorver estes profissionais, como indicado pelo Conselho Federal de Educação na época e a formação do professor em curto espaço de tempo também levava ao questionamento da qualidade dos alunos formados neste período. Contudo, mesmo 20 anos após seu término ainda é possível notável a falta de professores em diversas disciplinas, como podemos observar em levantamento realizado por Kussuda e Nardi (2015) em que foi observada a existência de 3480 vagas disponíveis para professor de Física no Estado de São Paulo, fato que também ocorre em outras disciplinas. Esta falta de professores ocorre inclusive em cidades que possuem o curso de licenciatura.
A existência de vagas disponíveis não indica necessariamente a inexistência de professores, pois muitas destas vagas são preenchidas com professores substitutos. Contudo a existência de professores substitutos não garante a continuidade do estudo nos anos seguintes, pois a Resolução SE 75, de 28 de novembro de 2013 que dispões sobre a atribuição de classes e aulas, indica que durante a atribuição das classes ou aulas, ao candidato habilitado, portador do diploma da licenciatura plena pode ser atribuídas aulas das disciplinas de habilitação da licenciatura plena, ou seja, o professor licenciado em Matemática pode lecionar Física e vice-versa, caso atinja critérios determinados pela Resolução. Tal fato realmente ocorre, como podemos notar em pesquisa realizada por Camargo (2007) em que, ao se reunir com professores que lecionavam Física nas escolas públicas de um município constatou que, dos 46 professores participantes, 18 eram formados em cursos de (Licenciatura em) Física e cinco em Licenciatura Curta em Ciências, com habilitação em Física.
Desta forma, torna se importante o estudo sobre a falta de professores, pois o aumento no número de professores específicos, além de possibilitar o ensino a diversos alunos, facilita a vivência e compreensão da disciplina estudada, uma vez que, embora os professores de outras disciplinas possam conhecer o conteúdo a ser ensinado, dificilmente terão conhecimento do conhecimento pedagógico do conteúdo, pois estes são conhecimentos específicos que podem ser adquiridos fora da universidade, contudo exigirá maior esforço do professor.
Outro problema relacionado a professores de outras disciplinas lecionarem Física é o foco na matemática envolvida na Física e dificuldade de tornar a disciplina atraente e, consequentemente diminuir o interesse dos alunos do Ensino Médio pela Física, causando menor procura pelos cursos de Licenciatura em Física e, consequentemente, pessoas com maiores dificuldades ingressarão no curso, diminuindo a qualidade dos graduados neste curso, diminuindo a qualidade da Física trabalhada na Educação Básica, como indica Gomes e Moura (2008).
Acreditamos que a falta de professores ocorre, principalmente, por dois motivos, a quantidade de alunos que não concluem o curso de licenciatura e a quantidade de licenciados que não atuam no magistério.
A segunda hipótese foi investigada em pesquisa realizada por Kussuda (2012) em que o autor observou que muitos licenciados, após concluírem o curso de Licenciatura em Física não atuaram no magistério, sendo as principais motivações as condições de trabalho e a questão salarial.
A primeira hipótese está sendo investigada e alguns dos resultados serão apresentados a seguir. Os dados foram obtidos através de análise de respostas dos alunos que se evadiram do curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública.
## Metodologia.
Os dados foram obtidos através da aplicação de um questionário online enviado a ex-alunos que ingressaram no curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública entre os anos de 1988 a 2014 e que evadiram o curso neste período.
Os questionários foram enviados através do correio eletrônico obtido através da busca em diferentes meios utilizando o nome completo fornecido pela universidade.
As respostas fornecidas pelos ex-alunos foram analisadas de acordo com a Análise de Conteúdo através dos aportes teóricos apresentados por Bardin (2002).
## Análise dos dados.
De acordo com os dados obtidos através da universidade, entre os anos de 1988 e 2014, 809 ex-alunos ingressaram no curso de Licenciatura em Física e 354 concluíram, 378 evadiram, 71 transferiram e seis foram jubilados. Contudo, após o envio do questionário, 37 responderam ao questionário.
Também foi possível perceber que a maior parte da evasão ocorre nos dois primeiros anos de curso, independentemente da forma de ingresso no curso, fato
que também parece ocorrer em outros cursos, como mostram levantamentos realizados por Silva; Mainier e Passos (2006) e Lima Júnior (2016).
Os dados indicam que a maior parte dos que não concluem o curso o faz através da evasão, (378 ex-alunos), seguido pela transferência (71) e jubilação (6), indicando que, embora alguns alunos ingressem no curso para transferirem-se para o curso de engenharia esta não é a principal causa da evasão.
Através das respostas fornecidas pelos ex-alunos, a maior parte (26) escolheu o curso de licenciatura como primeira opção no vestibular e 11 indicaram outro curso como primeira opção, sendo que, destes, seis desejavam cursar engenharia, dois bacharelado em Física, embora conhecessem a diferença entre licenciatura e bacharelado, um letras, outro mecatrônica e outro estava em dúvida entre licenciatura em Física e Química.
De acordo com estes dados podemos notar que, embora poucos alunos tenham se transferido para outro curso, muitos dos que ingressam não desejam, inicialmente, seguir o curso, sendo estes um aluno em potencial para desistir do curso.
Entre os respondentes, 22 desejavam lecionar antes de ingressar no curso e 15 não desejavam lecionar, contudo algumas opiniões mudaram durante a graduação. Dos que desejavam lecionar, 12 continuam desejando lecionar, sendo que três destes lecionavam no período em que o questionário foi aplicado, dois deste tendo obtido diploma em outro curso de Ensino Superior. Dois ex-alunos tinham intenção de lecionar, contudo agora no Ensino Superior. Dois ex-alunos mudaram de opinião após contato com professores da Educação Básica durante as atividades de estágio, o que levou um destes a transferir-se para outro curso. Um desejava lecionar, contudo mudou de opinião devido a questões salariais e dificuldades do curso. Um dos alunos que não estava certo sobre querer lecionar afirma que sua vontade diminuiu ao experienciar o magistério.
Ainda sobre o desejo de lecionar, um enfatiza que pretende lecionar e outro indica que, embora pretenda lecionar, discorda do conceito de educação apresentada pelo curso e um ex-aluno indicou que não pretendia lecionar e sua intenção foi reforçada durante a graduação devido à vivência de Ensino Médio relatada pelo professor universitário. Outros afirmam que não mudaram de opinião ou não possuíam opinião formada ou ainda para obter diploma de Ensino Superior.
Quanto às motivações para abandonar o curso, foram citados diversos motivos, sendo que alguns citaram mais de um motivo. Embora as motivações variem de acordo com os respondentes, indicando que não há uma medida única para a evasão do curso, existem respostas mais frequentes e que dependem da universidade e professores, podendo ser adotada medidas para diminuir a evasão.
Podemos dividir as motivações em quatro categorias: econômicas e profissionais, psicológica, didáticas e organizacionais. Embora algumas respostas possam ser classificadas em mais de uma categoria iremos elencar cada resposta em apenas uma das categorias.
As motivações econômicas e profissionais dizem respeito à influência das dificuldades econômicas dos ex-alunos durante o curso ou ligadas à profissão. As respostas dos ex-alunos que podem ser classificadas nesta categoria estão: a necessidade de trabalhar, possibilidade de trabalhar em outra cidade, mercado de trabalho restrito a licenciados, descaso e baixos salários dos professores e
condições de trabalho ruim, falta de apoio do governo na formação do professor, não pretender cursar a Licenciatura em Física, possibilidade de concluir o curso a distância e a distância que precisava percorrer para cursar a graduação.
Consideramos motivações organizacionais os problemas de organização da universidade e do currículo; Podemos classificar nesta categoria as seguintes respostas: Falta de política de permanência estudantil, necessidade de esperar um ano para cursar disciplinas em que reprovou, desorganização da faculdade, greves sucessivas e a desorganização do currículo que torna necessário conhecer conceitos que ainda estão sendo estudados em outra disciplina do mesmo semestre ou que ainda não foram abordados.
Iremos considerar como motivação didática as dificuldades na relação ensino-aprendizagem e das relações com os membros escolares. As respostas dos alunos inseridos nesta categoria são: O interesse do professor universitário em pesquisar em detrimento do ensinar, avaliação não condizente com a aula ministrada, tratamento desigual dos alunos pelo professor, falta de ação dos coordenadores para tomar medidas contra os professores, nível de dificuldade das avaliações, desmotivação dos alunos por parte dos docentes universitários, falta de contextualização, excesso de abstração, ensino de tópicos não relacionados à licenciatura, desconexão da teoria de ensino com a prática do professor desta disciplina, desenvolvimento do conhecimento pedagógico em detrimento de conhecimento pedagógico do conteúdo de Física, defasagem do conhecimento entre alunos originários de escolas públicas e privadas, reprovas e distanciamento dos assuntos desenvolvidos na Educação Básica e na universidade.
Na categoria psicológica classificamos as respostas inerentes ao próprio indivíduo. As respostas pertencentes a esta categoria são: a imaturidade do aluno na época de escolha do curso, possibilidade de transferir-se para outro curso e problemas familiares.
## Considerações finais.
De acordo com os dados, podemos observar que a maior parte dos alunos que ingressou no curso, durante o período estudado, não concluiu o curso, contudo é necessário destacar que os ingressantes nos últimos anos não atingiu o tempo mínimo necessário para a conclusão do curso.
Embora a grande quantidade de ex-alunos que evadiram do curso não tivesse intenção de lecionar antes do ingresso na graduação, maior quantidade tem intenção de lecionar, sendo que alguns ainda possuem esta intenção, podendo ser um indicativo de que o curso, e outros fatores externos a ele, privilegiam os alunos que não têm intenção de lecionar, retirando um potencial grupo de pessoas que poderiam ocupar as vagas disponíveis para professor, uma vez que grande parte dos licenciados abandou a profissão após alguns anos de atuação, como demonstrado por Kussuda (2012) em que foi discutida a evasão dos professores do magistério e reportagens como as de Saldaña (2013) que aponta crescimento no número de professores efetivos após o concurso público nos anos seguintes ao concurso e queda nos anos posteriores e Takahashi (2014) que indica aumento no número de professores substitutos anos após o concurso público para professor.
Através dos dados apresentados anteriormente podemos observar que existem diversos fatores mencionados para a evasão do curso, sendo que alguns motivos dependem exclusivamente do indivíduo ou de medidas legais, contudo a maior parte das motivações para a evasão depende da universidade ou de professores que atuam nesta instituição, como a valorização das aulas e não só da pesquisa, criação ou ampliação das políticas de permanência estudantil, repensar o currículo das universidades com atenção às dificuldades dos mesmos, coordenação voltada à demanda dos alunos e não exclusivamente do professor e maior atenção à didática do professor. Atenção a estas medidas podem diminuir o índice de evasão em um primeiro momento, embora não possamos deixar de cobrar por políticas de valorização do magistério e expansão dos cursos de licenciatura, uma vez que estas medidas também podem ampliar a quantidade de professores especialistas atuando nas escolas da Educação Básica.
## Agradecimentos.
Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo poio, respectivamente ao primeiro e segundo autores desta pesquisa.
## Referências
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