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MÉTODOS DE ENSINO E A ASTRONOMIA NOS LIVROS DIDÁTICOS DA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA DO OITOCENTOS

Elrismar Auxiliadora Gomes Oliveira, Cristina Leite

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVI
Ano
2016
Data
05/09/2016
Linha de pesquisa
Física E Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais / Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física / Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MÉTODOS DE ENSINO E A ASTRONOMIA NOS LIVROS DIDÁTICOS DA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA DO OITOCENTOS

## TEACHING METHODS AND ASTRONOMY IN THE TEXTBOOKS PRIMARY EDUCATION OF THE NINETEENTH CENTURY

Elrismar A. G. Oliveira , Cristina Leite 1 2

1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências - USP/IF/ docente da Universidade Federal do Amazonas, elrismar@gmail.com

2 Universidade de São Paulo/docente do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de

Ciências - USP/IF, crismilk@if.usp.br

## Resumo

Esse trabalho de caráter histórico procura mostrar características dos métodos de ensino determinados pela legislação do século XIX, bem como suas relações com dois livros didáticos desse período. A escolha dos livros para análise seguiu dois critérios: foram recomendados para instrução primária e trataram temas da Astronomia. A metodologia utilizada foi a Análise Textual Discursiva de Moraes e Galiazzi (2011). Verificou-se que os métodos de ensino influenciaram profundamente a forma de abordagem dos assuntos nos livros didáticos analisados. No início do século o método catequético de estruturar os livros se adequou ao ensino de caráter mnemônico conferido pelo método Lancaster de disciplinar os estudantes. No final no século XIX, propostas de ensino que priorizavam a observação direta do céu, da Terra, o trabalho com coisas reais e a construção de modelos para explicar os fenômenos, motivaram a chegada de livros na perspectiva do método intuitivo. Consideramos que mostrar como os livros encaminharam a abordagem dos assuntos de Astronomia nos diferentes métodos permite conhecer um pouco mais do ensino das ciências naturais do oitocentos brasileiro.

Palavras-chave : Astronomia, livro didático, instrução primária, métodos de ensino do oitocentos.

## Abstract

This historical character of work seeks to show characteristics of teaching methods determined by the law of the nineteenth century as well as its relations with two textbooks that period. The choice of books for analysis followed two criteria were recommended for primary education and treated themes of Astronomy. The methodology used was the Análise Textual Discursiva of Galiazzi Moraes (2011). It was found that teaching methods have profoundly influenced the way to approach the issue in textbooks analyzed. Early in the century the catechetical method of structuring the books fit to the mnemonic character education given by the Lancaster method of disciplining students. At the end of the nineteenth century, teaching proposals that prioritized the direct observation of the sky, the earth, working with real things and building models to explain the phenomena, motivated the arrival of books from the perspective of the Método Intuitivo. We believe that show how the books headed the approach of Astronomy issues in different methods allows to know a little more of the teaching of natural sciences Brazilian nineteenth century.

Keywords : Astronomy, textbook, elementary school, teaching methods of the nineteenth century.

## Introdução

A legislação educacional da instrução primária do oitocentos brasileiro determinava tanto a idade dos estudantes, que seria de 5 a 14 anos de idade , como 1 também o método de ensino. Nesse sentido, Saviani (2006, p. 5378) cita que a aplicação dos métodos: 'Foi, pois, entendida ao longo de todo o império como algo ligado ao ensino elementar, permanecendo à margem do ensino secundário e superior.'

Albuquerque (2015, p.93) relata que livros didáticos do oitocentos, por estratégia editorial, costumavam não divulgar o método de ensino:

Entretanto os livros didáticos nem sempre explicitavam uma posição com relação aos métodos, em geral estes ficam implícitos na própria redação e na organização da obra, de forma que os autores podiam ou não acompanhar as proposições difundidas por estes debates específicos, o que lhes dava maior possibilidade de verem seus livros adotados em escolas que se baseavam em métodos distintos.

Nesse sentido esse trabalho de caráter histórico procura mostrar o encaminhamento do ensino de Astronomia de dois livros didáticos recomendados para ensino primário do oitocentos: Gaultier (1838) e Jansen (1917). A metodologia utilizada foi a Análise Textual Discursiva de Moraes e Galiazzi (2011).

Apresenta-se inicialmente um estudo procurando compreender os métodos de ensino daquele período. O objetivo não é realizar uma análise profunda da organização e da historiografia desses métodos, pois vários historiadores da educação já vêm realizando estes estudos (VALDEMARIN, 2004; BASTOS e FARIA FILHO,1999) . Pretende-se agregar informações que possam ajudar no entendimento da análise dos livros.

## Método lancasteriano ou ensino-mútuo

A primeira lei sobre a instrução no Brasil, publicada em 15 de outubro de 1827, determinou que o ensino fosse pelo método Lancaster também chamado de ensino mútuo . A historiografia da educação cita, entre as características principais 2 desse método, a economia e a rapidez, pois um único professor e seus monitores ou decuriões, considerados alunos mais avançados nos estudos, conseguiriam ensinar centenas de outros alunos. O método solucionava o problema de escassez de professores do oitocentos. Embora recebendo muitas críticas já nos primeiros anos de sua utilização, sobreviveu ao longo do período imperial. De acordo com Neves (2003) outra característica desse método era a utilização de castigos. Não se tolerava a conversa, por considerar que não se podia aprender e conversar ao mesmo tempo. Os livros que traziam a exposição dos assuntos sob a forma 'interrogativa" também chamada de 'perguntas e respostas', 'catequética' ou 'socrática', lembrando realmente um catecismo, se adaptavam muito bem à aplicação do ensino mútuo. Choppin (2004, p.552) cita que a literatura escolar se originou da literatura religiosa e que um exemplo seriam os 'livros escolares laicos de 'perguntas e respostas', que retomam o método e a estrutura familiar aos

## Método Intuitivo

De origem francesa, o positivismo iniciado por Auguste Comte (1798-1857), em Paris, era uma filosofia que defendia que todo conhecimento do mundo físico era explicado por fenômenos provenientes da experiência, da observação desse mundo e de suas leis imutáveis. Na mesma direção de Lorenzs (2003) acredita-se que o modelo francês, por meio dessas idéias positivistas, possa ter influenciado o aparecimento das ciências naturais e das matemáticas nos programas de ensino e também nos livros didáticos do oitocentos. Além disso, a introdução do método intuitivo vem marcar a influência dessa filosofia na educação. Esse método foi introduzido no Brasil por Rui Barbosa, um simpatizante da Escola Positivista, através da tradução da obra "Primeiras lições de coisas" de Norman Calkins. O preâmbulo da obra traduzida indica que ele veio a conhecê-la quando participou da Exposição Internacional da Filadélfia, em 1876. As exposições pedagógicas ocorridas no final do século XIX tiveram importante papel na divulgação e avaliação de materiais didáticos e métodos de ensino.

A observação tinha papel fundamental na aplicação do método intuitivo e suas características marcantes eram utilizar materiais concretos associados ao uso dos sentidos e abolir o ensino mnemônico e livresco, atribuindo ao livro papel auxiliar na aprendizagem. Esse método aparece como um dos pontos centrais nos pareceres de Rui Barbosa . Para ele a observação era a origem de toda a atividade intelectual, 3 que a formação não se extraia dos livros, mas da observação do céu, da Terra, trabalhando com coisas sólidas, reais. O excerto a seguir mostra o encaminhamento sugerido aos assuntos de Astronomia, na matéria escolar Geographia e Cosmographia para o ensino primário pelo método intuitivo, segundo os pareceres de Rui Barbosa (1883, p.194 -195):

A observação do movimento apparente do sol e da estrella polar, reflete o diretor da escola modelo de Bruxelas, é o ponto de partida do ensino elementar da astronomia, que abre vasto e maravilho campo á attenção dos meninos. Poucas sciencias podem rivalisar com esta, emquanto ao influir profundamente na imaginativa. Que homens, ainda instruidos, não levantam nunca os olhos para essa aboboda estrellada, a qual, todavia, foi o primeiro campo de observação dos povos primitivos.

Oficialmente o método Intuitivo foi determinado para o ensino primário na Reforma Leôncio de Carvalho, em 1879. Período que o ensino das Ciências Naturais estava valorizado, tanto que já fazia parte dos programas oficiais da instrução primária desde 1854. Rui Barbosa, em seu Parecer de 1883, defende o ensino de Ciências Naturais desde os primeiros anos de escolarização e cita livros da coleção da ' Biblioteca do ensino intuitivo' que viriam a circular no Brasil nos anos seguintes. Segundo Diana Vidal (2005, p.112), no final do oitocentos políticos e educadores defendiam a exclusão do caráter mnemônico do ensino e defendiam o uso " de novos métodos pedagógicos, particularmente o intuitivo '.

## Análise dos livros didáticos

A escolha dos livros para análise seguiu dois critérios: foram recomendados

para instrução primária e trataram temas da Astronomia. Consideramos a obra reconhecida quando teve aprovação oficial ou foi recomendada por documento de credibilidade da época, como os textos da Primeira Exposição Pedagógica do Rio de Janeiro . 4

- O quadro a seguir mostra os títulos e autores dos livros analisados. Mostra também o texto de reconhecimento da obra e o nível a que se destina. Vale ressaltar que os dois livros são traduções de obras estrangeiras para o português.

Quadro 1: Identificação dos livros analisados nesse trabalho

## (1) AUTOR: Abbade Louis Gaultier ([1746] - 1818)

GAULTIER, A..Lições de Geographia. Inteiramente refundidas e consideravelmente augmentada por seus discipulos [...]. Traduzidas em vulgar e accrescentadas com muito importantes addicionamentos [...] de litteratos portuguezes. Acompanhadas de uma estampa geométrica e cosmographica. Paris: J.-P. Aillaud, Guillard & Cia., 1838. 331 p. in-18.

Reconhecimento: Estes expositores apresentaram o bem conhecido compendio de geographia do abbade Gaultier, antigamente quasi unico introduzido nos collegios brazileiros. [...] póde servir para o ensino primario superior e para o começo do ensino secundario .' (Pareceres da Primeira Exposição Pedagógica do Rio de Janeiro, 1883, p. 81, grifos nossos)

## (2) AUTOR: Carlos Jansen Müller (1829-1889)

JANSEN, C.. Biblioteca do ensino intuitivo. Astronomia de N. Lockyer adaptada ao portuguez por Carlos Jansen. Approvada pelo Conselho de Instrução Publica da Côrte e adoptada como texto nas escolas primarias por aviso de 22 de agosto de 1882. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. 172 p. in- 8º. (grifos nossos)

Reconhecimento: ' Os pequenos compendios de geographia, de cosmographia e de geologia de C. Jansen, redigidos, segundo cremos, sobre os modelos inglezes, distinguem-se pela extrema lucidez do desenvolvimento methodico da exposição, pela linguagem amena, unida ao maior rigor scientifico, e pela boa escolha e amplidão da materia que offerecem em fórma muito compacta.' (Pareceres da Primeira Exposição Pedagógica, 1883, p. 81);

Fonte: Próprio autor

- O livro de Gaultier (1838) é tradução da obra francesa Leçons de Géographie, destinées a apprendre aux enfans les élemens de cette science par le moyen de differens jeux (Lições de Geografia destinado a ensinar às crianças os elementos desta ciência por meio de diferentes jogos). De acordo com Albuquerque (2015) foi publicado pela primeira vez na França com esse título no ano de 1788 e foi traduzido para o português e para vários outros idiomas.
- O livro original, como chama a atenção no título, traz um método de ensino descrito na introdução do livro. O método tem a estrutura de um jogo de perguntas e respostas. O professor utiliza o livro para ter acesso às perguntas e às respostas que têm certa pontuação. Além do livro o jogo utiliza mapas, globos e mapas mudos. O professor faz a pergunta, caso acerte, o aluno recebe pontuação. Caso erre, a pergunta é passada a outro colega. Nas orientações do jogo não são mencionados castigos às respostas erradas.

A versão em português não trouxe o método. Albuquerque (2015, p. 116) descarta a hipótese de erro editorial e coloca que " os tradutores não arrancaram as orientações metodológicas de uso da obra, por descuido ou desatenção, mas sim, de

## maneira propositada [...]".

Vale lembrar que esse livro chegou ao Brasil em 1838, década da publicação da primeira Lei da Instrução pública, a Lei de 1827, que trouxe oficialmente o método Lancasteriano. Quanto a isso Albuquerque (2015, p. 116 e 117) também escreve que:

[...] esta legislação que expandia o ensino e delimitava o método, poderia ser um empecilho para a comércio do livro em tela, caso o mesmo assumisse que traria em suas páginas um novo método de ensino diferente do lancasteriano/mútuo.

- O livro francês de Gaultier traz as orientações do método na introdução, mas internamente seus assuntos eram tratados pelo método catequético. Albuquerque (2015) escreve que era fundamental nos jogos a presença do professor e a interação entre os alunos. Retirando os jogos o livro se adequava perfeitamente ao método lancasteriano determinado pela legislação brasileira, privilegiando a economia: muitos alunos disciplinados, sem conversa e poucos professores.
- O método catequético, marcado pelo diálogo entre o mestre e o discípulo, e o caráter religioso, na ideia de criação do universo, podem ser observados na figura 1:

Figura 1: Gaultier (1838), p. 281

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- O método Lancaster recebeu inúmeras críticas durante todo o oitocentos e há muito tempo estava em decadência (CASTANHA, 2007). A partir da segunda metade daquele século esse método não era mais recomendado.

No momento em que o país estava efervescente de idéias republicanas e desejava uma nova educação, diferente da formação passiva do império, veio a publicação dos pareceres de Rui Barbosa. Nesse contexto o livro de Jansen, que faz parte da Coleção ' Biblioteca do ensino intuitivo ' 5 , chegou ao Brasil e ao contrário de Gaultier trouxe o método estampado na capa. Acredita-se que tenha sido uma estratégia, pois a divulgação de um novo método, em substituição dos anteriores, significava avanços na educação e poderia ampliar as possibilidades de venda do livro. Como podemos ler na seção "opinião da impressa" em Jansen (1917, p.170), dada pela Gazeta da tarde em 1882:

Está finalmente dado o primeiro passo para a regeneração entre nós dos methodos e das matérias do ensino. Bem applicados, os opusculos scientificos do Sr. Carlos Jansen serão suficientes para realizar a phrase de Goethe para operar a grande revolução; elles darão inexorávelmente por terra com a cartilha, o Thesouro de meninos, o Iris Clássico, o Padre Manoel Bernardes, com todas as velharias que obstruem o ensino.

A seguir, partir de excertos, apresenta-se como esses dois livros abordam

dois temas de Astronomia: ' dia e noite' e 'eclipses'.

Nos próximos excertos nota-se que a apresentação dos temas no livro de Gaultier, embora tenha um forte caráter mnemônico, carregado de definições, considera aspectos históricos e socioculturais da ciência, trazendo modelos do sistema solar para explicar movimentos da Terra, o dia e a noite e as estações. Nesses temas o livro de Jansen procura trazer atividades que utilizam modelos para explicar os fenômenos. Utiliza 'materiais concretos associados ao uso dos sentidos', como laranjas de tamanhos diferentes para representar a Terra e a Lua, uma lâmpada para representar o Sol e ainda um alfinete para representar um observador na Terra. Sugere também que o observador assuma o lugar da laranja que representa a Terra, para assim com o "orgão da vista" fazer as observações.

Quadro 2: Temas de Astronomia nos livros de Jansen (1917) e Gaultier (1838)

## Dia e noite

Tomemos uma laranja para representar a terra e uma lampada para representar o sol; passemos um arame pelo centro da laranja, e finquemol-o em uma almofada: espetemos ainda na laranja um alfinete, cuja cabeça represente um observador na superficie da terra. Daremos volta ao arame, communicando assim á laranja um movimento rotatório opposto em direção ao movimento que seguem as agulhas de um relogio. [...] Metade da laranja está alumiada pela lampada e para ella é dia , a outra metade fica na sombra, para ella é noite (JANSEN, 1917, p. 29-30)

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Como se pode dar a razão, segundo systema de Copernico, 1º do movimento diurno dos astros do nascente a poente, e da vicissitude dos dias e das noites; 2º do movimento annual dos astros do poente a nascente, e da vicissitude das estações? Para dar a razão de todos estes fenômenos, dá Copernico á terra dois movimentos, e supõe o eixo d'esta inclinado 23º 30' sobre hum plano chamado ecliptica. O primeiro he o movimento de rotação, que ella faz sobre si mesma de roda do seu eixo, e que executa em 24horas d'occidente para oriente. Chama-se este movimento jornaleiro ou diurno. O segundo he o movimento de translação, que faz de roda do sol, e que executa em 365 dias, 5 horas, e, pouco mais ou menos 42'. He o movimento annual. A alternativa dos dias e das noites resulta do movimento diurno da terra. Com effeito como a luz se diffunde em linha reta, e a terra he redonda, este planeta não pode receber a luz ao mesmo tempo senão em metade da sua superfície, o que produz o dia nesta metade, em quanto a outra, onde não chegão os raios luminozos, está na obscuridade, o que alli he cauza da noite. (GAULTIER, 1838, p. 288)

## Eclipses

- 112. Do que acabamos de expôr, poderia colligir-se que a lua todos os meses para entre nós e o sol, originando eclipses totaes deste ultimo astro. Mas causas que vamos explicar, passa quasi um pouco acima, ou abaixo do sol, e então não ha eclipses; ou passa sómente por uma parte do sol e encobre assim á nossa vista só uma parte do disco solar, nascendo eclipses parciaes. [...]
- 114. Colloquemos a lampada na mesa, e a alguma distancia della finquemos o arame (eixo) da laranja maior, que representa a terra, em uma almofada. A laranja menor, que representa a lua, dependure-se de um fio, de modo que possa ser movida em roda da terra, sem que os dedos lhe lancem sombra. Conduza-se a lua entre o sol e a terra, muito mais perto da terra, no ponto C, de modo que a sombra da lua caia sobre a terra. Em toda a parte onde cahe esta sombra, o sol é invisivel: haverá nesta região um eclipse total do sol. Em outras partes, em B, não alcançadas pela sombra mais densa, a lua não encobre completamente o sol: só haverá um eclipse parcial, e quanto mais nos afastamos desta paragem, tanto mais veremos o sol, de modo que ao redor da sombra ha huma penumbra; todos os paizes sobre os quaes cahe a penumbra só verão um eclipse parcial.
- 115. Afastando agora a lua da terra para o ponto D, veremos que a sua sombra não alcançara mais a terra; logo não póde haver eclipse total; o disco da lua não é suficiente para encobrir o sol e a circumferencia ou annel do sol fica á vista: ha neste caso um eclipse annullar.
- 116. Mais clara ficará a explicação se no lugar da laranja que representa a terra collocarmos o orgão

da vista. Se a lua (laranja menor) fica-nos perto da vista, nada veremos do sol: eclipse total. Baixando ou subindo um pouco a vista, veremos um crescente do sol: eclipse parcial. Afastando a lua pouco a puco da vista, parece diminuir de tamanho, até que não alcança mais a encobrir o sol; ao redor da lua veremos parte do sol, um annel: eclipse annular. (JANSEN, 1917, p.64 a 67)

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(JANSEN, 1917, p.64 a 67)

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MESTRE. Que se entende por eclipse de hum corpo celeste?

DISCIPLULO. O dezaparecimento passageiro d'este corpo, por interposição de outro. Os eclipses são totaes, parciais, ou annulares. Quando ha eclipse do sol ou da lua? Ha eclipse do sol quando a lua passa entre a terra e este astro, e eclipse da lua quando a terra, achaando-se entre o sole e seu satellite, está bastante visinha d'este para o cobrir com sua sombra. Há por ventura, eclipses do sol e da lua em cada conjuncção, e em cada opposição? Estes phenomenos terião lugar nestas epochas se a orbita da lua não fosse inclinada sobre a ecliptica;

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## Considerações

Procurou-se mostrar nesse trabalho que os métodos de ensino influenciaram profundamente os livros didáticos da instrução primária do oitocentos. De forma que esses livros se adaptaram para atender aos métodos vigentes e aos avanços educacionais. No início do século o método catequético de estruturar os livros se adequou ao ensino de caráter mnemônico conferido pelo método Lancaster de disciplinar os estudantes. No final no século XIX, propostas de ensino que priorizaram a observação direta do céu, da Terra, o trabalho com coisas reais e a construção de modelos para explicar os fenômenos, motivaram a chegada de livros na perspectiva do método intuitivo. Características encontradas depois, no século XX, nas idéias da Escola Nova. Na direção de Castanha (2007, p.418), acreditamos que 'os métodos de ensino são frutos da experiência histórica. Foram ou são, portanto, construídos histórica e socialmente. Assim, devemos considerar que o aparecimento de um método não significa o desaparecimento do outro". Consideramos que mostrar como os livros encaminharam a abordagem dos assuntos de Astronomia nos diferentes métodos permite conhecer um pouco mais do ensino das ciências naturais do oitocentos brasileiro.

## Referências

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ALBUQUERQUE, M. A. M. de.. A emergência de conteúdos de geografia acerca

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BARBOSA, Rui. Reforma do ensino primário e várias instituições complementares da instrução pública. Obras completas . Vol. X, tomo I ao IV. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1947.

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