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Mediações Pedagógicas em Aulas do Ensino Superior

Eliane Ferreira De Sá, Eduardo Fleury Mortimer, Luciana Moro

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVI
Ano
2016
Data
04/09/2016
Linha de pesquisa
Ensino / Aprendizagem/Avaliação Em Física / Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física / Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física / Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MEDIAÇÕES PEDAGÓGICAS EM AULAS DO ENSINO SUPERIOR EDUCATIONAL MEDIATIONS IN HIGHER EDUCATION CLASSES

Eliane Ferreira de Sá , Eduardo Fleury Mortimer , Luciana Moro 1 2 3

1

Faculdade de Educação, UFMG (elianefs@gmail.com) 2 Faculdade de Educação, UFMG (mortimer@fae.ufmg); 3 Instituto de Ciências Biológicas, UFMG (moro37@gmail.com)

## Resumo

Nos últimos anos, tem aumentado gradualmente o interesse em investigar como os significados são desenvolvidas por meio de vários modos de comunicação utilizados em sala de aula. Nas pesquisas que temos realizado em nosso grupo, constatamos que muitos professores do ensino superior usam objetos mediadores e multimodos de comunicação, com a finalidade de tornar mais claro os significados com os quais trabalham. Neste artigo, investigamos como dois professores do ensino superior integram diferentes modos de comunicação ao agir sobre objetos mediadores para compartilhar significados em suas aulas. Os dados foram gerados a partir da gravação de um conjunto de aulas de dois professores que lecionam disciplinas de Física e de Química em uma Instituição Pública Federal. Inicialmente, com o auxílio do programa TRANSANA®, fizemos a macro análise das aulas para fragmentá-la em episódios. Posteriormente, realizamos a micro análise das interações multimodais que eles realizam ao agir sobre os objetos. A análise acústica da fala foi realizada por meio do software PRAAT®. Os resultados mostram que as ações dos professores sobre os objetos potencializam o processo de construção de significados por meio dos diferentes modos tais como gestos, olhar, proxêmica, etc. Acreditamos que o uso integrado do objeto com diferentes modos pode influenciar a percepção dos estudantes e dirigir a atenção deles para um determinado foco, favorecendo as redes de relações que eles podem estabelecer entre os observáveis.

Palavras-chave : Multimodalidade, Ação Mediada, Ensino Superior, Objetos Mediadores.

## Abstract

In recent years it has gradually increased the interest in investigating how meanings are developed through various modes of communication used in the classroom. In researches we have conducted in our group, we found that many university professor use mediators objects and communication multimodal in their classes, in order to clarify the meanings are working with them. In this paper, we investigate how two university professors share meanings in the classroom to interact with mediators objects. The data were generated from two classes of two professor who teach disciplines of physics and chemistry in a Public Institution Federal. Initially, with the help of TRANSANA®, we did a macro analysis of the class to break it on a map of episodes. Subsequently, we performed a micro analysis of multimodal interactions that they perform in acting on the objects. The speech acoustic analysis was performed using the PRAAT® software. The results show that the actions of teachers on objects potentiate the process of constructing meaning through different modes

such as gestures, gaze, proxemics, etc. We believe that the integrated use of the object with different modes can affect the perception of students and direct their attention to a certain focus, favoring the establishment of relationships between observable objects and modes.

Key words: multimodality, mediated Action, higher Education, mediating objects.

## Introdução

A aula é uma atividade humana que se realiza por meio de um conjunto de ações mediadas, temos que considerar dois sujeitos distintos, professor e alunos, que têm objetivos e papéis diferenciados nesta atividade, cujo sucesso depende essencialmente do estabelecimento de interações produtivas entre eles. Do ponto de vista dos alunos, a relação mediada com os objetos a aprender inclui não só mediadores simbólicos e materiais mas também a mediação humana do professor. Do ponto de vista do professor, por sua vez, o aprendizado do aluno é o objetivo de sua ação de ensinar, mas esse aluno só aprenderá se for sujeito dessa ação, se mobilizar seus recursos cognitivos e emocionais e assumir a responsabilidade de aprender. Dessa forma, as interações entre professor e alunos, ou entre os próprios alunos, e desses com os conteúdos disciplinares, são mediadas pelos artefatos culturais, sistemas simbólicos e pelo próprio professor.

Nas pesquisas que temos realizado em nosso grupo, constatamos que muitos professores do ensino superior usam objetos mediadores em suas aulas, com a finalidade de tornar mais claro os significados com os quais trabalham. Este uso é característico de cada professor, pois cada um deles emprega os objetos de maneira completamente idiossincrática.

Neste trabalho, investigamos como dois professores do ensino superior integram diferentes modos de comunicação ao agir sobre objetos mediadores para compartilhar significados em suas aulas.

## Fundamentação Teórica

Os conceitos de mediação e ação mediada são centrais no modo como Vygostsky caracterizou o surgimento e o funcionamento das capacidades especificamente humanas (KOZULIN, 2002; WERTSCH, 1985, 1998, 2007). Para Vygostsky (1991), a atividade humana é constituída por ações e, toda ação especificamente humana é, necessariamente, uma ação mediada por artefatos culturais que têm sua própria história.

Werstch (1998), ao propor a Teoria da Ação Mediada, problematiza a distinção entre ferramentas materiais e ferramentas psicológicas ou culturais, que foi introduzida nos trabalhos seminais de Vigotski (1991). Para Werstch, essa distinção é mais sutil do que parece. O uso de objetos culturais não modifica apenas o mundo físico ou nossas ações sobre tal mundo: essas ferramentas alteram, também, a nós mesmos, ao interferirem no fluxo e na estrutura de nosso funcionamento mental. Por essa razão, Werstch (1998) suaviza a distinção entre ferramentas materiais e psicológicas ou culturais, substituindo essas expressões pelo conceito mais amplo de mediacional mean , um termo que temos traduzido por meio da expressão meios mediacionais e acrescentado a dimensão objetal aos mesmos, falando dessa forma de objetos mediadores .

Wertsch (1998) considera a ação mediada como unidade de análise da pesquisa sócio-cultural uma vez que provê uma conexão entre a ação do sujeito (incluindo a ação mental) e o contexto sócio-cultural, histórico e institucional em que esta ação se desenvolve. Nessa unidade não podemos separar o sujeito que age dos objetos mediadores, pois o sujeito nunca age sozinho, ele sempre o faz com o auxílio desses objetos.

Wertsch (1991) usa o conceito de affordances (possibilidades), termo cunhado por Gibson (1986) para designar as propriedades ambientais disponíveis a certo indivíduo ou espécie animal, permitindo sua ação. Para Wertsch, as possibilidades destacam o papel ativo dos indivíduos nas relações que eles estabelecem com as ferramentas culturais, uma vez que os indivíduos podem reconhecer e apropriar-se das possibilidades inerentes aos objetos, mas também podem opor-se e/ou utilizá-los para realizar as suas próprias finalidades. Isso pode entrar em contradição com os fins para os quais esses objetos foram originalmente criados (Wertsch, 1998). Dentro desta perspectiva, o uso de objetos mediadores pode tanto possibilitar a ação, quanto limitar ou constranger as formas de ação realizadas, dependendo das possibilidades que esses objetos evocam para a ação dos indivíduos sobre eles. Tanto os instrumentos materiais como os psicológicos têm propriedades objetivas, que remetem a sua percepção e que são potenciais para a realização de finalidades (WERTSCH, 1998).

Gibson (1986) destaca que a percepção é um ato de atenção e não uma resposta a estímulos. Nesse sentido, a percepção é uma realização do sujeito e não um reflexo. Para Gibson, a percepção não é uma atividade de uma mente dentro de um corpo, mas de todo um organismo dentro de um ambiente. Portanto, mostrar alguma coisa para uma pessoa o sentido de que essa coisa se torne presente e essa pessoa possa aprendê-la diretamente, olhando, ouvindo e sentindo é o equivalente á educação da atenção (INGOLD, 2010).

No desenvolvimento da aula, um dos mediadores simbólicos e materiais utilizado é a linguagem e o discurso produzido na interação professor-aluno e entre alunos. Contudo, esse não é um discurso qualquer, mas essencialmente disciplinar, carregado de marcas linguísticas e mesmo de uma gramática peculiar à linguagem social (Bakhtin, 1986) de cada ciência ou prática social que está sendo ensinada. Além disso, de acordo com (Kress et all, 2001), a linguagem científica é essencialmente multimodal, o que inclui não só o aspecto verbal, mas também diagramas, gráficos e fórmulas.

- O uso da linguagem pelos professores ocorre no contexto de uma performance comunicativa e envolve vários modos de comunicação e representação para fazer sentido. Os modos semióticos são recursos culturalmente construídos que resultam do trabalho de uma comunidade ao longo de um período com objetivos de comunicar e estruturar o pensamento (JEWITT, 2009).

Norris (2004) identifica uma variedade de maneiras para identificar os modos. A primeira dela diz respeito à natureza corpórea do modo. Outra forma de classificar os modos é basear na forma como eles são percebidos. Dessa forma, os modos podem ser pensados como auditivo (fala, música, som e etc); visual (olhar, impressão, imagem e etc); ação (gesto, postura, movimento, expressão facial, contato e manipulação de objetos/modelos, tela de projeção e etc); e ambientais (proxêmica, layout e etc) .

## Descrição Metodológica

Os dados analisados neste artigo foram gerados por meio da gravação de aulas de dois professores do ensino superior com 10 anos ou mais se experiência e considerados bem avaliados por mais de 75% de seus estudantes a partir de um questionário institucional respondido ao final de cada semestre letivo. Um dos professores participantes é do Departamento de Física de uma Instituição Federal de Ensino Superior e a outra é professora do Departamento de Química da mesma Instituição. Gravamos em vídeo um conjunto de aulas e selecionamos uma aula de cada um dos professores. De uma maneira geral, as duas aulas não introduziam temas novos. A aula de Física era de correção de exercícios e finalização dos conceitos sobre difração da luz. A aula da Química era de revisão de alguns conceitos abordados em aulas anteriores sobre esterioquímica.

As duas aulas tiveram a duração de 1h e 40 min. Inicialmente, com o auxílio do programa TRANSANA® fizemos uma macro análise da aula para fragmentá-la em episódios. Mortimer et a.l (2007) definem episódio, como 'um conjunto coerente de ações e significados produzidos pelos participantes em interação, que tem início e fim claros e que pode ser facilmente discernido dos episódios precedente e subsequente' (p. 61). Posteriormente, realizamos uma micro análise das interações entre modos semióticos utilizados pelos professores. A análise acústica do modo fala foi realizada por meio do software PRAAT®. Neste trabalho, focaremos nossa atenção nas interações multimodais promovidas pelos dois professores ao agir sobre objetos mediacionais para compartilhar significados em sala de aula.

## Apresentação e análise dos dados

Nas aulas analisadas, os professores mobilizaram múltiplos modos de comunicação para o compartilhamento de significados com seus estudantes, dentre os quais destacamos fala, gesto, escrita, imagem, proxêmica e olhar. O professor de Física além desses modos, usou projeção, simulação no computador e um aparato experimental constituído por dois alto falantes que estavam ligados a um gerador de áudio para demonstrar a Experiência de Young. A professora de Química usou quadro de giz, projeção em tela, modelo bola vareta, folha de papel, modelo projetado e página do livro. Ao longo das duas aulas, os diferentes modos de comunicação receberam destaques em momentos distintos. Em outros foram utilizados simultaneamente. Isso enfatiza a função comunicativa de cada modo, e ao mesmo tempo, realça o fato de que os modos interagem entre si constantemente. Nesse trabalho, analisaremos apenas o episódio no qual o professor de Física agiu sobre o aparato experimental e a professora de Química agiu sobre o modelo bola/vareta. Nesse sentido, não fazemos uma discussão mais detalhada sobre todos os modos identificados, mas priorizaremos os que aparecem nos episódios selecionados para análise.

## A aula de Física - Uso do aparato experimental para demonstrar a Experiência de Young

Para demonstrar o análogo do experimento de Young com som, o professor de Física colocou dois alto falantes lado a lado, separados por aproximadamente 1,0 m um do outro e ajustou a frequência do gerador de áudio para aproximadamente 1 kHz. Nas posições na sala em que a diferença de caminho das ondas foram

múltiplos de um comprimento de onda houve interferência construtiva e, entre essas posições, ocorreram interferência destrutiva. O professor pediu aos estudantes que movessem a cabeça para os lados para que pudessem perceber a variação de intensidade do som.

Ao agir sobre o objeto, o professor fez uso de diversos modos semióticos. Ele usou alguns recursos de fala, tais como variações velocidade de fala, duração, intensidade, frequência, pausas e entonação, para descrever, explicar e induzir o estudante a prestar atenção em certos aspectos da montagem e do fenômeno; usou gestos para simular a propagação das ondas, para indicar regiões do espaço e objetos da montagem que deveriam ser observados (Figura1A); usou a proxêmica em relação aos estudantes, ao deslocar seu próprio corpo para trazer a atenção dos estudantes para sua fala, seus gestos e aspectos da montagem; (Figura1B); usou a proxêmica em relação ao objeto, ora para indicar a direção do movimento que os estudantes deveriam fazer para perceber as regiões de máximos e mínimos, ora para produzir movimentos de aproximação e afastamento entre os dois altofalantes, para permitir que os estudantes percebessem a inversão de fase que ele havia feito (Figura1C).

Figura 1A: Exemplos de gestos mobilizados durante interação com o aparato experimental

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Fig. 1B - Proxêmica em relação aos estudantes

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Fig.1C- Uso da proxêmica em relação ao objeto

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Essas diferentes interações foram mobilizadas em função da ação do professor sobre o objeto principal, um aparato experimental constituído por dois alto falantes dispostos lado a lado, separados por aproximadamente 1,0 m um do outro e um gerador de áudio. Esses alto falantes determinam o modo como o professor faz os gestos, que são mais amplos do que o normal, devido a separação entre os alto falantes. Por outro lado, determina também a forma como ele age com a proxêmica, pois ele muda a posição de sua cabeça em relação ao alto falante, para sugerir que os estudantes façam o mesmo. Portanto, todas as interações multimodais que o professor realiza nesse episódio são fortemente ligadas à presença desse objeto mediador.

## A aula de Química - Uso do modelo bola vareta

O modelo bola/vareta foi utilizado pela professora para compartilhar significado sobre uma regra importante usada na estereoquímica. Nesse caso, tratase de quais mudanças podemos operar na Projeção de Fischer sem que isso signifique uma alteração na molécula que está sendo representada. Por convenção, projeções de Fischer são escritas com a cadeia carbônica principal estendida, ao longo da linha vertical. A interseção das linhas vertical e horizontal representa um átomo de carbono, geralmente o estereocentro. A estrutura projetada na tela pela professora está representada na Figura 2.

Nesse episódio a professora está comunicando a regra do giro, em que não há mudança no estereocentro, ou seja, do giro de 180°. Segundo comentário da professora, o uso dessa regra é fonte de erro comum entre os estudantes de química, por que eles têm dificuldades de enxergar a molécula tridimensionalmente, de representá-la bidimensionalmente, ou seja, desenhar no papel e transitar entre uma representação e outra.

Figura 2 Representação da Projeção de Fischer (A) e da forma tridimensional (B), projetadas na tela.

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Durante praticamente todo o episódio, a professora ficou com o modelo bola/vareta nas mãos e além disso, usou a tela de projeção, na qual tem desenhada a Projeção de Fischer. Há neste episódio uma grande variedade de modos semióticos e uma boa fluência da professora entre os diversos modos. Algumas vezes ela usou mais de um modo simultaneamente, promovendo a interação entre eles. As Figuras 3A e 3B mostram a professora explicando o desenho na tela de projeção e, em seguida, comparando-o com o modelo tridimensional, que tem nas mãos. Ao terminar a comparação, a professora afasta o corpo da tela, inclinando-o levemente para trás, ao mesmo tempo em que leva para frente do corpo o modelo tridimensional. Esse movimento do corpo destaca os objetos, colocando-os em evidência, para que os estudantes visualizem tanto o modelo projetado quanto o modelo que tem em mãos. Em outro momento, a professora se dirige para mesa do projetor e pega uma folha de papel que encontra disponível. Primeiro ela mostra uma regra relacionada à Projeção de Fischer, girando a folha de papel em um ângulo de 180°(Figura 3C). Em seguida, realiza o gesto de ação, batendo e 'rebatendo' com as mãos sobre a folha (Figura 3D). Ao terminar esse gesto, a professora retoma o modelo tridimensional, que estava 'guardado' na mão esquerda e o traz para o espaço compartilhado com os alunos. Ao fazer isso, ela afasta o corpo da mesa, parecendo querer dirigir a atenção dos estudantes para o modelo tridimensional e não mais para a folha que ficou na mesa (Figura 3E).

Figura 3: Exemplos de interação da professora com o modelo bola/vareta

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No caso da professora de Química, temos o uso de vários objetos simultaneamente, inclusive alguns que são improvisados, como é o caso da folha de papel. Central a todos esses usos, nos parece que está o modelo bola vareta da espécie química em questão, que ela tem nas mãos. É esse objeto tridimensional que ela quer relacionar às diferentes representações que utiliza, todas bidimensionais. Então, os diferentes objetos funcionam como diferentes representações bidimensionais para a mesma molécula, cuja representação tridimensional ela tem nas mãos. A cada momento esse modelo vai ser comparado com um diferente objeto que a professora elege, para dizer que todos correspondem à mesma molécula e que, para que isso possa ser estabelecido, existem regras que devem ser seguidas.

## Discussão

Os dois professores são experientes no ensino superior e bem avaliados por seus alunos. Nas duas aulas analisadas, ambos estavam encerrando os conteúdos e usaram uma variedade de modos e meios de comunicação. Acreditamos que a escolha desses modos está relacionada com a larga experiência de cada professor em ministrar aulas no ensino superior e que, por isso, eles conseguem antecipar as dificuldades de seus alunos em relação ao conteúdo trabalhado e buscar formas diferentes para abordá-lo. A interação com o aparato experimental possibilitou o professor de Física mobilizar uma grande quantidade e variedade de gestos dêiticos, referenciais representacionais de ação, emblemáticos e de descrição figurativa. Esses gestos adquiriram um papel distinto na construção de significações, pois além de especificar semanticamente, eles carregavam informações complementares ao enunciado verbal (KENDON, 2004). Por meio desses gestos de ação o professor materializa as ondas sonoras, ou seja, cria realidades, aproximando o conceito, que é extremamente abstrato, da realidade do aluno. Os gestos mudam o layout, possivelmente é isso que é percebido pelos estudantes. Além disso, constatamos que o aparato experimental potencializou o uso dos gestos, que ganharam maior amplitude e propiciou ao professor utilizar mais o corpo para desenvolvê-los e para se movimentar. Além disso, o uso que o professor de Física faz da proxêmica está intimamente ligado ao objeto mediador. Ele ainda estimula a movimentação dos estudantes em busca de perceber os máximos e mínimos. O professor sabe que se o estudante se movimentar na sala de aula, o ponto de observação em que ele estiver aumenta as possibilidades de audição. Gibson relata que o meio permite a sensação de vibrações (GIBSON, 1986, p.17) e portanto, todas as interações multimodais

A professora de química ao interagir com o modelo bola/vareta para tornar a regra do giro de 180° mais significativa para os estudantes utiliza diferentes objetos, todos ligados a uma representação bidimensional da molécula que ela tem representada em suas mãos por um modelo bola-vareta, tridimensional. Em alguns momentos, diferentes objetos são usados simultaneamente. Em dois momentos a professora sobrepõe o modelo bola/vareta ao modelo bidimensional, para facilitar a comunicação da regra e para demonstrar como um objeto tridimensional fica representado em apenas duas dimensões. Ao sobrepor o modelo no desenho, a professora muda o layout do ambiente ao introduzir um objeto sobre a superfície da tela. Esse ato pode ter efeitos sobre a percepção do aluno uma vez que a superfície da tela tem uma textura que é diferente daquela que é característica do modelo bolavareta. Isso permite aos estudantes perceber a terceira dimensão que a professora quer comunicar. Nesse caso, é importante ressaltar a própria percepção da professora com relação ao objeto. Ela se beneficia das possibilidades (GIBSON, 1986, p.29) que o modelo oferece a ela para realizar a superposição - ele tem as duas varetas pelas quais ela o segura e depois ela posiciona essas duas varetas sobre as linhas tracejadas do desenho. Gibson considera que as diferentes formas dos objetos possibilitam diferentes tipos de manipulação. Ele acrescenta que o ser humano, que é um excelente manipulador, explora grandemente estas possibilidades. Desenho e modelo mostram que varetas e linhas tracejadas 'atravessam' a tela, criando a terceira.

## Considerações Finais

Nas aulas investigadas, os professores valorizam a interação ao manipular os objetos, ao mobilizar e transitar entre diferentes modos de comunicação. Acreditamos que essa interação pode favorecer a percepção dos estudantes acerca de determinados aspectos que os professores pretendem enfatizar.

- A análise das ações dos professores do ensino superior sobre objetos mediadores traz contribuições importantes para o entendimento de suas aulas, além de propiciar reflexão acerca das diferentes estratégias de comunicação utilizadas por esses professores.
- A formação de professores preconiza que eles tenham domínio de conteúdos e de diferentes estratégias didáticas para ensiná-los, mas não considera o conjunto de objetos e de modos semióticos que potencializam o trabalho do professor. Como usar esses modos e objetos é uma questão que gostaríamos de problematizar porque entendemos que a ação do professor se torna mais efetiva com este uso.

## Referências

GIBSON, J.J . The Ecological Approach to Visual Perception . Front Cover. Lawrence Erlbaum Associates, 1986

INGOLD, T. Da transmissão de representações à educação da atenção. Educação , Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 6-25, 2010.

JEWITT, Carey. The routledge handbook of multimodal analysis . London: Routledge, 2009.

KENDON, A. Gesture: visible action as utterance . Cambridge: Cambridge University Press, 2004. 400p.

KRESS, G. and VAN LEEUWEN, T. Reading Images: the grammar of visual design. London &amp; New York: Routledge, 1996.

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KRESS, G. R. Multimodality: a social semiotic approach to contemporary communication ; Routledge, 2010.

KRESS, G. What is mode ?. In: The Routledge Handbook of Multimodal Analysis . Jewitt, Carey. New York: Routledge, 2009.

LEMKE, J. L. Multiplying meaning: visual and verbal semiotics in scientific text . In:

MARTIN, J. R. e VEEL, R. (Ed.), Reading Science. Londres, Routledge, 1998.

McNEILL, D. Hand and mind: what gestures reveal about thought . London: University of Chicago Press, 1992. 416 p.

NORRIS, S. Analyzing Multmodal Interaction: a methodological framebook. New York: Routledge, 2004.

POZZER-ARDENGHI, L.; ROTH, W.-M. Photographs in lectures: Gestures as meaning-making resources. Linguistics and Education , v. 15, p. 275-293, 2005.

VYGOTSKY Pensamento e Linguagem . Martins Fontes, São Paulo, 1991.

WERTSCH, J.; Mind as action . New York: Oxford Uni Press, 1998.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.