Práticas literárias no Ensino de Física
Letícia Maria De Oliveira
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2016
- Data
- 04/09/2016
- Linha de pesquisa
- Ensino / Aprendizagem/Avaliação Em Física / Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física / Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física / Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Práticas literárias no Ensino de Física
## Letícia Maria de Oliveira
Universidade Federal do Vale do São Francisco/Colegiado de Ciências da Natureza, letícia.maria@univasf.edu.br
## Resumo
Como já discutido por alguns autores como Bronowski (1998), as ciências, dentre elas a física, pode ser muito divertida. Contudo, há um predominante distanciamento e isolamento da física, e a falta de diálogo com as demais ciências e também com outras áreas do conhecimento, essencialmente tão relacionadas, mas tão distante na prática, como é o caso da literatura. O distanciamento e o caráter de opostos não conciliáveis, surgido entre a ciência e a arte, após o século XV, principalmente a partir do século XVII, após a Revolução Científica, fez com que a ciência incorporasse um caráter mecanicista, puramente matemático, lógico e racionalista, e para a qual elementos como subjetividade, emoção, criatividade e imaginação não lhe diziam mais respeito e pertenciam exclusivamente ao universo artístico. Essa cisão e distanciamento ainda são muito presentes nos dias de hoje, em todas as esferas de ensino, desde os primeiros anos da escola até a universidade. Desse modo, faz-se necessário inovar o ensino da Física, a partir da literatura, proporcionando aos alunos a oportunidade de produzirem textos literários, tais como contos e cordéis, a partir dos intrigantes temas da Física. Essa estratégia de inovação do ensino foi realizada com os alunos do curso de Ciências da Natureza, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, campus de Senhor do Bonfim, do que se pode observar uma forma prazerosa e criativa de pensar os conceitos da Física. A análise dos textos mostrou uma boa compreensão conceitual dos fenômenos e o depoimento dos alunos sobre as atividades, deixou claro o prazer em executá-la e a importância de se explorar o elemento criatividade no ensino da física.
Palavras-chave : Arte, Ensino de Física, Literatura, poesia
## Literary practices in physics teaching
## Abstract
As already discussed by some authors as Bronowski (1998), the sciences, among them the physics, it can be very entertaining. However, there are a predominant estrangement and isolation of the physics, and the dialogue lack with the other sciences and also with other areas of the knowledge, essentially so related, but so distant in practice, as it is the case of the literature. The estrangement and the character of opposites didn't reconcile, appeared between the science and the art, after the century XV, mainly starting from the century XVII, after the Scientific Revolution, did with that the science incorporated a character mechanic, purely mathematical, logical and rationalistic, and for the one which elements as subjectivity, emotion, creativity and imagination didn't tell him/her more respect and
they belonged exclusively to the artistic universe. That scission and estrangement are still very present in the days today, in all of the teaching spheres, since the first years of the school to the university. This way, is made necessary to innovate the Physics teaching, starting from the literature, providing to the students the opportunity of they produce literary texts, such as stories and lines, starting from the Physics intriguing themes. This innovation strategy of education was held with the students of the course of the sciences of nature, of the Federal University of São Francisco Valley, campus of Senhor do Bonfim, of which we can observe a pleasurable and creative way of thinking the concepts of Physics. The analysis of the texts showed a good conceptual understanding of the phenomena and the testimony of the students on the activities, has made clear the happy to run it and the importance of exploring the element creativity in the teaching of Physics.
Keywords : Art, Physics Teaching, Literature, Poesy
## Introdução
A ausência do elemento criatividade no ensino de Física e a necessidade de resgatar a imaginação como elemento essencial para o bem entender e para o prazer em estudar as ciências são provocações que já vem sendo trazidas à tona por diversos cientistas, no mínimo, há quase sessenta anos, embora essa discussão e a explanação desse problema já tenham sido deveras apresentadas entre o final do século XVIII e início do século XIX, a partir de um movimento denominado Naturphilosophie , o qual buscava retomar a unidade da ciência e sua proximidade com as artes.
Esse trabalho se inicia apontando um problema bastante específico, sendo esse o do ensino das ciências, mais especificamente, o ensino da Física, desprovido de elementos como criatividade e imaginação, esse problema decorre das muitas cisões entre a arte e a ciência que foram acontecendo ao longo da história, bem como da fragmentação do conhecimento.
De acordo com Ferreira (2010), nos séculos XVI e XVII, enquanto a ciência se estruturava como uma forma de produção de conhecimento, baseada nos princípios da razão, da lógica e do pensamento matemático, visando a uma interferência ativa e objetiva na natureza, a arte vai incorporar a subjetividade e a sensibilidade. Ainda segundo o autor, essa ideia de que arte e ciência pertencem a campos opostos e inconciliáveis traduz um preconceito surgido no Período Moderno.
Ao estudarmos o sistema das 'artes liberais' da Idade Média, observamos que a primeira parte do ensino universitário era formada pelas três disciplinas do trivium (gramática latina, lógica e retórica), seguidas pelas disciplinas do quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia - o conjunto dos quatro ramos do saber). Juntas, elas constituíam as sete artes ou as artes liberais. Nesse período, o horizonte científico e o horizonte artístico se confundiam. A oposição entre arte e ciência está, portanto, inscrita na órbita de um tipo de pensamento que separou esses saberes e os manteve isolados em suas especialidades, como se não houvesse possibilidade de diálogo entre eles. Arte e ciência foram se afastando e,
no paradigma dominante, elas passaram a assumir características, linguagens, métodos, processos cognitivos e vinculações epistemológicas independentes e diferenciadas e, às vezes, também opostas. (Ferreira, 2010).
Ao assumirem linguagens e métodos distintos e distanciados, as artes e as ciências também passam a ser pensadas e construídas de formas dicotômicas. Como consequência, também as formas de ensiná-las distanciam-se brutalmente: a ciência é apresentada como exata e precisa, não admitindo, assim, que a contestem, tampouco que a subjetivem.
A oposição que nasceu e cresceu entre a ciência e a arte em muito influenciou a forma com que esses dois mundos dialogam, tanto nas instituições de ensino, como no ensino instituído. Há muito, aliás, elas não dialogam, estranham-se; desconhecem-se, por vezes, ofendem-se, subjugam-se, como nos diz Snow (1995) em sua conhecida e deveras debatida conferência ministrada em 1959:
Num polo os literatos; no outro os cientistas e, como os mais representativos, os físicos. Entre os dois, um abismo de incompreensão mútua \_ algumas vezes (particularmente entre os jovens) hostilidade e aversão, mas principalmente, falta de compreensão. Cada um tem uma imagem curiosamente distorcida do outro. (Snow, 1995, p. 21).
Snow, já em 1959, apontava as grandes e diversas perdas oriundas dessa cisão. Uma pena que não se tenha atentado para o que já apontava o físico em sua polêmica conferência, e para quem essa polarização, entre o que chamou de duas culturas 'é pura perda para todos nós' para todos nós, bem como para toda sociedade. Ainda nos alerta o cientista que essa perda é, ao mesmo tempo, uma perda prática e intelectual. Ao se aceitar essa cisão, deixa-se escapar algumas das melhores oportunidades nos campos do pensamento e da criação. (Snow, 1995).
Infelizmente, as pesquisas relacionadas ao ensino de Física demonstram que o ensino atual tem assumido o caráter de preparação para a resolução de exercícios de vestibular. Para esses autores, a situação é comprovada ao observarmos o uso indiscriminado de livros recheados de exercícios preparatórios para as provas dos vestibulares e que, em sua essência, primam pela memorização e pelas soluções algébricas. (ROSA, 2005).
As causas, segundo Bonadiman (2005), para os discentes não apreciarem a Física, partem de vários fatores, sendo alguns deles: a baixa qualidade dos conteúdos desenvolvidos em sala de aula, o uso demasiado da 'matematização' em detrimento de uma Física mais conceitual, a fragmentação dos conteúdos desenvolvidos em sala de aula, o distanciamento entre o formalismo escolar e o cotidiano dos alunos e também a falta de conhecimentos básicos em leitura e interpretação de texto.
Contudo, essa lógica fria e enfadonha do Ensino de Física não se restringe à Educação básica ou ao Ensino Médio. Ela também está presente nos cursos de graduação e, infelizmente, bastante presente nos cursos de licenciatura de Física, Química, Ciências da Natureza, e outras licenciaturas dessa mesma natureza.
Muito mais que ensinar os alunos a resolverem exercícios ou a fazerem cálculos, ensinar Física é ensinar a pensar a Física, senti-la, vê-la como parte integrante da vida, em tudo ao seu redor e também em si. Modificar a forma rude de pensar a Física é ter a oportunidade de reconhecer sua beleza. Pensar a Física e poder conhecê-la verdadeiramente é ter o privilégio de conhecer muito mais do que nos mostram os sentidos. É poder falar do tempo e do espaço, da velocidade da luz; é poder brincar de experimentos imaginários. É falar da queda dos corpos, de maças e de luas; de planetas que bailam em órbitas, cujo regente, a gravidade, está presente em todo universo.
Contudo, limitado a avaliações padronizadas que medem a capacidade do jovem em resolver exercícios, cercada por livros didáticos equivocados, conduzidas por gestores e professores que nada conhecem sobre a beleza da Física, o ensino dessa disciplina depende de atitudes isoladas, de iniciativas de professores em suas salas de aula, cuja liberdade de atuação e a coragem para inovar irão permitir fazer com que os alunos mudem sua forma de pensar a Física.
Nesse sentido, Bronowski (1998) também faz uma dura crítica quando se refere aos estudantes de ciência, como 'operários da ciência', visto que, na maioria das vezes, esses estudantes limitam-se aos mecanicismos e aos procedimentos técnicos, reprodutores de conhecimentos decorados. Enfático, o autor ainda nos chamará a atenção para o fato de que o bem pensar a ciência requer que elementos das artes, principalmente da literatura, sejam utilizados, colaborando para o avivamento da ciência em lugar da frieza e do mecanicismo a ela incorporados.
Não é possível apreciar a profundidade das concepções que têm sido criadas pelos cientistas e as belas descobertas que as expressam se não fizermos algo para recriá-las para nós mesmos. (...) Se um teorema nos parece desinteressante é porque não o estamos lendo com o mesmo sentimento de participação ativa que exige a leitura de um poema. Nenhum poema se oferece já pronto ao leitor: é preciso sempre refazê-lo. Da mesma forma, precisamos refazer o teorema que nos é apresentado. (Bronowski, 1998).
Em uma legítima e bela comparação, o físico David Bohm (2011) vai se referir a uma característica natural da espécie humana, a de buscar o todo na compreensão da natureza, e fragmentá-la ao longo da sua história, por condicionamento e necessidades criadas.
Na verdade, nos primórdios, as atividades do homem eram um todo indivisível, e a ciência e a arte não eram separadas. Por exemplo, as crianças pequenas não tendem, por iniciativa própria, a separar tais atividades. O que acontece é que elas gradualmente são treinadas a pensar, sentir, perceber e atuar segundo esse tipo de separação (como aconteceu com o ser humano em geral com o crescimento da civilização). Assim, o que é natural e espontâneo para o homem é a totalidade da arte e da ciência; a atual abordagem na sociedade é uma forma de fragmentação que surgiu por condicionamento. (Bohm, 2011).
Como se lê um poema, também deve ser lido um teorema. Com a mesma emoção dos versos, também a ciência deve ser percebida. Antes de todo processo de fragmentação, anteriormente discutido, ciência e poesia aproximavam-se e entrelaçavam-se, como nos versos de Lucrécio.
Obviamente não estamos aqui tentando fazer com que os alunos sejam novos 'Lucrécios'. O que se busca é mostrar que essa relação entre a física e a literatura é possível, plausível e deveras enriquecedora: física e literatura não precisam existir de forma isolada. Elas podem conviver e a partir desse convívio harmonioso, descobrindo as semelhanças e reconhecendo as diferenças, gerar um produto capaz de exercitar a criatividade.
Falar em criatividade na ciência é antes de tudo humaniza-la, isso porque, tradicionalmente ela é difundida como uma verdade universal inscrita na natureza mais do que um produto da criação e interpretação humana. Apesar do apelo social, a criatividade tem tido pouca atenção na prática educacional e também nas pesquisas nacionais em educação científica. No sistema educacional de diferentes países e também no Brasil, existe uma série de barreiras que inibem a expressão e a capacidade de criar, em grande parte porque se privilegia em demasia a reprodução e a memorização do conhecimento. (BARBOSA e BATISTA, 2011).
Não aprofundaremos sobre a triste realidade de uma educação desprovida de criatividade em todas as suas esferas. Mas as ciências, em especial a física, podem e devem ser muito divertidas e criativas. Essa é a afirmativa que orientou esse trabalho.
- O poeta Novalis já definia o mundo como uma imaginação percebida pelos sentidos e afirmava que a imaginação foi a primeira a ter vindo ao mundo e pode ser concebida como a força de sua conformação, imanente à natureza, que se impõe à matéria para lhe dar um sentido. (SOUZA, 2010)
Uma consequência prejudicial gerada pela ruptura entre as duas culturas, reflete de forma notória no ensino da física. Essa disciplina é comumente vista pelos estudantes e pelo público de uma forma geral, como sem grandes significados, resumindo-se em fórmulas e contas que nada expressam. Essa forma com que os alunos veem a física é fruto de um longo período de uma metodologia de ensino tradicional, no qual fatores como criatividade, curiosidade e imaginação são completamente ignoradas. Muito se perdeu com as cisões do conhecimento. É preciso, pois, estabelecer o diálogo entre as duas culturas, entre as ciências e as humanidades, já que só temos a ganhar aproximando as duas. (ZANETIC, 2006).
## Descrição do trabalho desenvolvido
Buscando reconhecer as relações entre a imaginação, a criatividade e os conceitos abordados nas disciplinas de Física, foram realizadas atividades com os alunos do quarto e do sétimo período, nas respectivas disciplinas de Evolução dos Conceitos de Física I e Física Moderna, no curso de licenciatura em Ciências da Natureza.
Sendo a Física uma ciência tão bela, uma forma tão metafórica e, por vezes, tão sutil de representar a natureza, não pode ser vista apenas na sua linguagem matemática que, para muitos, é fria e incompreensível.
Nos cursos de licenciatura em Ciências da Natureza são comuns alunos que mostram muita afinidade com os conceitos das ciências, mas nenhuma afinidade
com a matemática. Assim sendo, não se pode excluir de compreender a física, ou de conhecer sua beleza, os que não conseguem decifrar os códigos matemáticos. A física pode ser expressa em palavras: pode ser contada com emoção; compartilhada de forma generosa e, assim, encantar.
Associando a física conceitual com a criatividade e imaginação dos alunos, foi escolhido o tema 'gravidade' para que os alunos da disciplina Evolução dos Conceitos de Física I pudessem criar uma história onde esse conceito se fizesse presente como protagonista.
E como toda a Física é rica em temas capazes de Inspirar a criação de histórias e de poesias, mas alguns, em especial, provocam abalos existenciais, de possibilidades e incertezas, foi proposto aos alunos do 7º período do curso de licenciatura em Ciências da Natureza, na disciplina de Física Moderna, que fizessem poemas cujas temáticas estivessem relacionadas ao tema 'física quântica'.
A partir dessas produções literárias sobre os temas supracitados, realizadas por alunos do 4ª e 7ª período, respectivamente, foram analisados os conceitos de física trabalhados nos textos e, dessa forma, foi possível perceber como esse conceito foi incorporado pelo estudante e como ele foi exposto nas histórias e nos versos criados.
## Resultados e discussões
O que se analisou foi o domínio do aluno sobre o conceito proposto, a partir de sua capacidade de com ele criar uma história. Uma vez compreendido o conceito, aceito e incorporado às suas afinidades, o aluno consegue propor situações em que esse conceito está presente e assim, ele pode desenvolver uma história a partir dessa situação, o que se pode observar no trecho do conto elaborado pelo aluno K.
- - Esse garoto é um dos contaminados. Ele estava próximo ao viaduto, quando este desabou. Relatos de testemunhas dizem que viram o viaduto se desfazendo em pedaços e indo em direção a ele.
- - Interessante - disse o doutor.
- - Não é nada interessante doutor - refutou o agente - Esse jovem destruiu um viaduto, matando várias pessoas e está sendo mantido sedado constantemente. Ele acordou por alguns segundos e destruiu o quarto do hospital. Eu quero que o senhor me explique como funciona esse poder de atração dele.
- - O poder dele se baseia na gravidade.
- - O senhor está dizendo que ele pode manipular a gravidade da Terra? perguntou o agente.
- - Na verdade, é só uma especulação, mas acho que ele tem uma habilidade muito mais incrível - disse Luiz - arrisco dizer que esse jovem tem a capacidade de alterar sua densidade.
- - Alterar a densidade? - questionou o agente.
- - Ele aumenta a massa, sem alterar a sua forma. É como se ele tivesse uma massa de uma tonelada sem aumentar de tamanho. E me arrisco a dizer que ele tem a capacidade de alterar a densidade de outros corpos.
No conto criado pelo aluno K, o herói tem a capacidade de alterar densidade, alterando assim, a força gravitacional. Percebe-se, portanto, além de todo clima de suspense e aventura da história, a associação dos conceitos de gravidade com a densidade, a qual determinará o poder do personagem. Vale
ressaltar que esse aluno, em especial, é amante das histórias em quadrinhos, o que em muito o influenciou na elaboração desse conto.
Nas produções discentes também foi possível se observar referências históricas acerca dos estudos sobre a gravidade, como se nota na produção textual do aluno G, que comparou os estudos que foram feitos sobre a gravidade com histórias de amor.
Newton não só batizou, como apresentou a Gravidade ao resto do mundo. Inclusive, ele a cita em seu famoso livro 'Princípios Matemáticos da Filosofia Natural'. Nesse livro, dentre muitas outras coisas, Newton vai falar quem é a Gravidade, como ela se comporta e o mais importante, como deve ser tratada. O último 'amante' da gravidade, de quem vamos falar, foi o também inglês Henry Cavendish. Esse caso foi muito curto, mas teve grande importância na trajetória da Gravidade. Esperto como era, Cavendish levou sua amada ao laboratório onde ele trabalhava, e com algumas experiências, definiu o valor da sua constante.
Alguns apreciam a linguagem matemática da Física, e gostam da sua rigidez; outros a experimentam, a tocam, provam-na com correntes elétricas, lasers ou campos magnéticos. Que ela seja vista e contada como cada qual a concebe, mas que seja vista e contada com beleza. É preciso deixar claro que as atividades propostas aos alunos, são apenas formas, como tantas outras acima citadas, de apresentar a Física. Quando a ideia de se trabalhar produções poéticas na disciplina de física surgiu, intentava-se, provocar uma reflexão além da Física. Contudo, nesse sentido, as perspectivas foram muito mais que as esperadas, como se pode ver nos trechos dos poemas produzidos por três diferentes alunas:
Estou aqui, estou ali Ou quem sabe eu seja apenas o seu espelho, O refletir do passado! Quem sabe o mundo que vemos é apenas uma aparência, Quem sabe se na realidade ele nem existe! E enquanto tento entender, Estou tentando me achar. (Aluna 1)
Existe sempre uma face oculta Não revela, não desnuda Um outro "ser" que sendo burla E diante desse impasse Em meio aos contrários Sim e não em enlace Partícula e onda num só tempo. (Aluna 2) Se eu estivesse vivo, morto seria; Se eu estivesse morto, vivo estaria; Neste mundo de dualidades; Neste mundo de incertezas; Não! Não neste mundo! Mas, em outros! Aqui ainda é visível! Aqui ainda é sentido! Aqui ainda é falho!
(Aluna 3)
Dos versos produzidos pelas três alunos do 7º período do Curso de Ciências da Natureza, o que se nota é um significativo envolvimento das mesmas com
determinados conceitos da física quântica, tais como a dualidade e a incerteza. Não se pode dizer que as alunas muito bem entenderam esses conceitos, mas pensaram e sobre eles escreveram numa abordagem um tanto quanto existencialista. Os mais críticos ou os puramente tradicionais, dirão que isso não é quântica, que é apenas uma divagação superficial sobre o tema e não há profundidade conceitual, tampouco o mínimo de formalismo matemático, tão importante para esse assunto. Não discordarei dos que assim pensam. Contudo, em nenhum momento desse trabalho intentou-se isso. Sempre o que se buscou foi que os alunos percebessem a física de uma forma completamente distinta da comumente apresentada; que eles 'vivessem' a física, que nela adentrassem, mergulhassem sem medo de errar ou de não chegar ao resultado exato que a conta exige.
Aproximar a física, a ciência, de uma forma geral, à arte, mais especialmente à literatura, é fazer com que ela retome seu caráter de criação; é devolver a ela qualidades essenciais como a criatividade e o uso, se possível, infinito da imaginação.
## Referências
BARBOSA, R. G.; BATISTA, Irinea Lourdes . A criatividade como uma referência para discutir as bases da ciência e do seu ensino. In: VIII ENPEC e I CIEC, 2011, Campinas. VIII ENPEC, 2011.
BOHM, D. Sobre a criatividade . Tradução de Rita de Cássia Gomes. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
BRONOWSKI, Jacob. O Olho visionário: ensaios sobre arte, literatura e ciência . Tradução de Sergio Bath. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.
FERREIRA, F. R. Ciência e arte: investigações sobre identidades, diferenças e diálogos. Educação e Pesquisa , v. 36, pp. 261-280. 2010.
GONÇALVES, Márcia C. F. Poesia como Arte Originária de Interpretação da Natureza - um ensaio introdutório à filosofia da arte de Hegel, Revista de filosofia SEAF , Rio de Janeiro, v. Ano IV, n. 4, p. 38-56, 2004.
MEDEIROS, Alexandre. Entrevista com Kepler: do seu Nascimento à Descoberta das duas Primeiras Leis, Física na escola , v.3, n.2, 2002.
SNOW, Charles Percy. As duas culturas ; tradução de Geraldo Gerson de Souza e Renato Rezende. São Paulo: Edusp, 1997.
SOUZA, Maria Cristina dos Santos. A Naturphilosophie como concepção de mundo do romantismo alemão. AISTHE , nº5, 2010.
ZANETIC, Física e literatura: construindo uma ponte entre duas culturas, História, Ciência, Saúde - Manguinhos , v. 13 (suplemento), p. 55-70, outubro 2006.
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