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UM OLHAR SOBRE A ASTRONOMIA DOS LIVROS DIDÁTICOS NACIONAIS DAS DÉCADAS DE 1920 E 1930

Kauê Dalla Vecchia Simó, Yassuko Hosoume

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
30/10/2014
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## UM OLHAR SOBRE A ASTRONOMIA DOS LIVROS DIDÁTICOS NACIONAIS DAS DÉCADAS DE 1920 E 1930

## A VIEW ON THE ASTRONOMY OF NATIONAL TEXTBOOKS FROM 1920s AND 1930s

## Kauê Dalla Vecchia Simó 1 , Yassuko Hosoume 2

1 Universidade de São Paulo/Instituto de Física/Programa Interunidade em Ensino de Ciências, simokdv@hotmail.com

2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física/Programa Interunidade em Ensino de Ciências, yhosoume@if.usp.br

## Resumo

Tendo como referência o entendimento de que o livro didático é um mediador do processo de ensino/aprendizagem e de que ele tem um papel ativo na educação básica brasileira, sobre tudo na determinação de conteúdos e estratégias, é analisado o ensino de Astronomia no Brasil por meio de uma investigação dos conteúdos da Astronomia propostos nos livros didáticos de Cosmografia, Geografia e Física nas décadas de 1920 e 1930, período singular da história da educação secundária brasileira. A partir de levantamento bibliográfico e análise documental, foi constatada uma vasta quantidade de conteúdos da Astronomia presentes, principalmente, nos livros didáticos de Cosmografia. Pela análise dos conteúdos dos livros de Cosmografia, Geografia e Física foi possível inferir que os conceitos são desenvolvidos numa perspectiva de descrever detalhadamente os objetos e os fenômenos que constituíam o Universo observável daquela época. Temas como estrelas, nebulosas e hipóteses cosmogônicas, presentes nesses livros, mostram uma visão de universo cosmológico, limitada à nossa própria galáxia, a Via Láctea.

Palavras-chave : Ensino de Astronomia, Livro Didático, Cosmografia, Currículo, Educação Básica.

## Abstract

Based on the understanding that the textbook is a mediator of the teaching/learning process and that it has an active role in the Brazilian basic education, especially in determining the content and strategies, the teaching of Astronomy in Brazil is analyzed by means of an investigation of the contents of Astronomy offered in textbooks of Cosmography, Geography and Physics in the 1920s and 1930s, unique period in the history of Brazilian secondary education. From a literature review and document analysis, we observed a large amount of content in Astronomy present mainly in textbooks of Cosmography. By analyzing the contents of the books of Cosmography, Geography and Physics was possible to infer that the concepts are developed with a view to describe in detail the objects and phenomena that constitute the observable universe at that time. Topics such as stars, nebulae and cosmogonic hypotheses, these books present assumptions, show a picture of cosmological universe, limited to our own galaxy, the Milky Way.

Keywords : Teaching of Astronomy, Textbook, Cosmography, Curriculum, Basic Education.

## Introdução

A inserção da astronomia no ensino básico não é uma preocupação atual. Bretones e Compiani afirmam que 'os conteúdos de Astronomia há muito tempo estão presentes, de alguma maneira, nos programas oficiais ou nos livros didáticos, ao longo das reformas curriculares no Brasil' (Bretones e Compiani, 2010, p. 174).

Desde 1840, dois anos após a fundação do Colégio Pedro II (primeiro colégio do Brasil, inaugurado em 1838), a cadeira de Ensino de Cosmografia está presente como uma disciplina de características matemáticas (SOBREIRA, 2005), a qual era ministrada a partir do quarto ano da escola secundária (LANGHI; NARDI, 2009). No período de 1850 a 1951 a presença da astronomia varia da 5ª a 7ª séries e se faz pelas disciplinas de Cosmografia, Física e Geografia. Nesse período, há momentos em que ela está ausente como de 1856 a 1862 e, também, a partir da reforma de 1951, e momentos em que sua presença se torna marcante como de 1900 a 1930 (HOSOUME et al, 2010).

O presente trabalho propõe-se a investigar o ensino de astronomia no Brasil, a partir dos livros didáticos em um momento singular da história da educação secundária brasileira, momento este, em que ocorre a ampliação do pensamento liberal em nosso país, concretizado com o ideário escolanovista (Ghiraldelli Junior, 2008). No período em que se situa esse trabalho, os programas curriculares das escolas secundárias brasileiras estão, de certo modo, definidos nacionalmente por meio dos regimentos do Colégio Pedro II, de modo que, 'os colégio públicos e particulares que desejassem ter os privilégios do Colégio Pedro II, deveriam adotar currículos e programas iguais ou semelhantes ao do mesmo' (VECHIA; LORENZ, 1998, p. viii).

Na base de nosso estudo, está a compreensão de que o livro didático tem um papel ativo na Educação Básica brasileira. Segundo Apple (1995) 'são os livros didáticos que estabelecem grande parte das condições materiais para o ensino e a aprendizagem nas salas de aulas' (APPLE, 1995, p.81). Ainda segundo o Ministério da Educação, o livro didático é um dos principais recursos materiais utilizado por docentes em nosso país, de modo a marcar, decisivamente os conteúdos ensinados e as estratégias de ensino. Nessa compreensão do livro didático como um currículo ativo (GOODSON, 2008) pode-se inferir a astronomia que concretamente estaria sendo proposta no período de análise desta pesquisa.

Desta maneira, o objetivo principal dessa pesquisa é analisar o ensino de astronomia no Brasil por meio de uma investigação dos conteúdos da astronomia presentes nos livros didáticos (Cosmografia, Geografia e Física) das décadas de 1920 e 1930. O intuito deste estudo é, por um lado, levantar informações sobre a evolução e estruturação dos currículos escritos no Brasil, no que diz respeita o ensino da astronomia na educação básica, e, por outro lado, investigar em que medida os conteúdos astronômicos trabalhados nos livros de Cosmografia da época promoviam a construção de uma visão de Universo.

## Desenvolvimento da Pesquisa

Utilizando como referência básica o texto de Vechia e Lorenz (1998) que analisa os programas de ensino de 1850 a 1951, a pesquisa de Hosoume, Leite e Carlo (2010) que particulariza o estudo nos currículos de astronomia e o momento histórico da educação brasileira (GHIRALDELLI JUNIOR, 2008) foi definido, com base na presença de conteúdos de astronomia nos programas de ensino, como período de estudo, as décadas de 1920 e 1930.

Uma vez definido o período desse estudo, a pesquisa teve continuidade com um levantamento dos livros didáticos desse período, tendo em mente que, o ensino de astronomia ocorreu por meio das disciplinas de Geografia, Física e Cosmografia (Hosoume at al, 2010, p.195). A partir de consultas realizadas no Banco de Livros Didáticos LIVRES , no acervo do Grupo de Pesquisa Curricular e Livros Didáticos de 1 Física do IFUSP e acervo pessoal, foram identificados 12 livros de Cosmografia, 4 livros de Geografia e 4 livros de Física.

Utilizando critérios de diversidade autoral, de ano de publicação e de presença temporal (presença anterior e/ou posterior ao período em análise) a pesquisa restringiu a amostragem para 5 livros de Cosmografia, 2 de Geografia e 4 de Física, como mostra a Tabela 1.

Tabela 1: Livros analisados referentes ao período da pesquisa.

Foi possível observar que, embora, no ano de 1931, a disciplina de Cosmografia não faz mais parte da grade curricular, boa parte dos livros levantados são das décadas de 1930 e 1940. Este fato nos sugere que, apesar da Cosmografia não fazer mais parte do currículo oficial de 1931, o seu ensino continuou ocorrendo na prática, ou seja, para o currículo real, aquele que de fato se pratica em sala de aula, ela continuou acontecendo. Também se observou que a formação dos autores dos livros de Cosmografia analisados, em geral, situou-se em áreas afins da Astronomia, especialmente a engenharia. É interessante observar que, na época, a formação em engenharia, de modo geral, envolvia os conhecimentos da Astronomia de posição (Astrometria), sobre tudo, os conhecimentos aplicáveis à demarcação de limites territoriais e as observações astronômicas aplicadas à navegação (SOBREIRA, 2005).

Os livros didáticos selecionados foram submetidos a uma leitura cuidadosa na perspectiva de identificar elementos para a elaboração de categorias de análise. Essa construção de categorias tem como referência metodológica a análise de conteúdo (BARDIN, 2010), que na sua articulação deverá possibilitar inferências sobre as visões de universo cosmológico implícitos nas obras em análise. Após uma reflexão sobre as categorias definidas, verificou-se que as definidas no trabalho de Hosoume et al seriam suficientes para a caracterizar adequadamente os elementos presentes nas obras. Desta maneira, foram utilizadas as categorias de análise - '1. Observação da superfície da Terra; 2. Fenômenos cíclicos; 3. Sistema Solar; 4. Terra; 5. Atração gravitacional; 6. Universo e 7. História e cultura' (HOSOUME et al, 2010, p. 197).

Os resultados da análise estão apresentados na Tabela 2 onde, também, estão os conteúdos da Astronomia presentes nos programas de 1926, 1929 e 1931. As células escurecidas da tabela indicam a presença de conteúdos nos livros didáticos analisados.

Tabela 2: Presença da Astronomia nos livros didáticos.

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Em termos de conteúdos da astronomia abordados nos diferentes livros de Cosmografia, na Tabela 2 é possível observar que estes são, essencialmente, os mesmos conteúdos curriculares presentes nos programas de ensino de 1926, 1929 e 1931. Tal proximidade entre os livros didáticos de Cosmografia e os currículos oficiais para essa disciplina é, de certo modo, esperada, pois, em geral, os livros didáticos do período em estudo eram desenvolvidos de acordo com o programa curricular do Colégio Pedro II. Com relação aos livros de Geografia, observa-se que os poucos conteúdos da astronomia presentes nesses livros são aqueles correlatos com os assuntos da Geografia Física, sobre tudo, temas relativos a fenômenos cíclicos (como dia e noite, estações do ano, fases da Lua, eclipses, fuso horário e movimentos da Terra). Já a presença de elementos da astronomia nos livros de Física é desprezível. Os pouquíssimos conteúdos relativos à astronomia são apresentados, nesses livros, como exemplificação de outros conteúdos da Física, excetuando Gravitação Universal, que é trabalhada pontualmente em todos os livros.

Dentre os temas relativos à observação de astros a partir da Terra, observase que na grande maioria dos livros de Cosmografia são trabalhados conteúdos relacionados com o posicionamento dos astros, tais como, céu (características gerais), esfera celeste, coordenadas esféricas e instrumentos óticos. Já fenômenos cíclicos como dia e noite, estações do ano, fases da Lua, eclipses, calendários, marés e movimentos da Terra estão presentes em todos os livros de Cosmografia. O mesmo ocorre com a presença de planetas, Sol, Lua, meteoro, estrela cadente, bólido e cometas. A descrição da Terra em termos da sua forma, do sistema de coordenadas geográficas e das suas dimensões também está presente na maioria dos livros de Cosmografia. Gravitação universal, órbitas dos planetas, Lei de Bode e Leis de Kepler estão presentes na quase totalidade dos livros. A caracterização de elementos do Universo (como estrelas, constelações e nebulosas), presentes na maioria dos livros, mostra uma visão de Universo limitado à Via Láctea com suas estrelas e nebulosas, conforme mostra o excerto a seguir. O único elemento histórico e de cultura presente nos livros de cosmografia são os modelos do Sistema solar.

'...essa Via Láctea forma todo o nosso universo visível e nada enxergamos, ao redor de nós, senão ela mesma com suas nebulosas e milhões de sóis, dos quais o nosso faz parte' (CABRAL, 1932, p. 104).

Com relação à presença da astronomia nos livros didáticos de Geografia, observa-se que estes concentram-se, essencialmente, em temas relativos aos fenômenos cíclico, ao Sistema Solar, a Terra e ao Universo. Temas relativos à observação dos astros a partir da Terra, atração gravitacional e história e cultura não estão presentes nesses livros, excetuando o conteúdo 'céu (características gerais)' presente no livro Geographia Physica.

Nos livros de Física o único tema presente em todos os livros é a gravitação universal, abordada mais numa perspectiva matemática do que na caracterização da órbita dos planetas.

Pela análise dos conteúdos da astronomia, presentes nos livros didáticos de Cosmografia, Geografia e Física foi possível inferir que os conceitos são desenvolvidos numa perspectiva de descrever detalhadamente os objetos e os fenômenos que constituíam o Universo observável daquela época. Também se verificou nesses livros, principalmente nos de Cosmografia, uma grande preocupação com descrição de sistemas de coordenadas para caracterizar a posição dos astros. A presença desses conteúdos poderia ser explicada pela função do ensino secundário da época, que era de preparar para os exames de ingresso nos cursos superiores, principalmente, os da Academia da Marinha, que abrangiam a prática das observações astronômicas aplicadas à navegação, e os da Escola Militar, que envolviam conhecimentos aplicáveis à demarcação dos limites territoriais.

## Algumas Reflexões

Em termos de quantidade de conteúdos da astronomia presentes nos livros didáticos, podemos concluir que há ausência quase total nos livros de Física, aumentando nos livros de Geografia e contemplando maior número de temas nos livros de Cosmografia. Isso nos sugere que, os livros didáticos de Cosmografia foram os principais meios materiais, pelos quais, o ensino da astronomia ocorreu na educação secundária brasileira das décadas de 1920 e 1930.

Olhando de forma mais específica, temas relativos a fenômenos cíclicos, Sistema Solar, Terra, atração gravitacional e Universo estão presentes na maioria dos livros didáticos de Cosmografia, indicando certa continuidade no tempo. Por outro lado, temas como métodos de observação dos astros no céu, correções de observação, periodicidade das estrelas no céu, orientação na superfície terrestre e história da astronomia estão presentes em alguns livros e ausentes em outros. Essa presença e ausência de conteúdos nos livros didáticos, de certo modo, são elementos que caracterizam a historicidade dos conteúdos da astronomia propostos para serem ensinados em nosso país.

## Referências

APPLE, M. W. Trabalho docente e textos . Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

BARDIN, L. Análise de conteúdo . Lisboa: Edições 70, 1988.

BRETONES, P. S.; COMPIANI, M. A observação do céu como ponto de partida e eixo central em um curso de formação continuada de professores. Revista Ensaio , Belo Horizonte, v. 12, n. 2, p. 173 - 188, mai/ago 2010.

GHIRALDELLI JUNIOR, P. História da Educação Brasileira . São Paulo: Cortez, 2008.

GOODSON, I. F. Currículo: teoria e história . Petrópolis: Vozes, 2008.

HOSOUME, Y; LEITE, C; DEL CARLO, S. Ensino de Astronomia no Brasil - 1850 a 1951 - Um olhar pelo Colégio Pedro II. Revista Ensaio , Belo Horizonte v. 12, n 2, o p. 189 - 204, mai/ago 2010.

LANGHI, R.; NARDI, R. Educação em Astronomia no Brasil: alguns recortes. In: Atas do XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física . São Paulo: SBF. 2009.

SOBREIRA, P. H. A. Cosmografia Geográfica : A Astronomia no Ensino de Geografia. Tese, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Geografia, São Paulo, USP, 2005.

VECHIA, A; LORENZ, K. M. Programa de ensino da escola secundária brasileira: 1850 - 1951. Curitiba: Ed. Do Autor, 1998.

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