ENSINO DE FÍSICA E INTERDISCIPLINARIDADE: UMA REVISÃO DO ''ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA''
Cinde De Sousa Costa, Dielson Pereira Hohenfeld, Jancarlos Menezes Lapa
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 28/10/2014
- Linha de pesquisa
- Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA E INTERDISCIPLINARIDADE: UMA REVISÃO DO 'ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA'
## TEACHING PHYSICS AND INTERDISCIPLINARITY: A REVISION OF "RESEARCH ON PHYSICS TEACHING MEETING "
## Cinde de Sousa Costa 1 , Dielson Hohenfeld e Jancarlos Menezes Lapa 2 3
1 IFBA/ LIPI* / cinde.sousa@ifba.edu.br
2
IFBA/ Campus Salvador/ dph@ifba.edu.br IFBA/ Campos Salvador / jancarloslapa@ifba.edu.br
3
## Resumo
O excesso de especialização disciplinar provoca uma visão limitada da Ciência, reduzindo a capacidade crítica dos estudantes frente às questões cientificas do mundo contemporâneo. No entanto, há caminhos para uma educação, diferente da que vivenciamos nas escolas, que estão sendo traçados por pesquisadores que entendem a educação como um processo de emancipação do indivíduo. Desta forma, neste trabalho realizamos uma revisão bibliográfica que foram analisados artigos que propõe uma prática interdisciplinar de forma explícita apresentados, de 2002 até 2012, no EPEF (Encontro de Pesquisa em Ensino de Física) nos anais disponíveis na internet. Construímos categorias de análise, a partir de referenciais teóricos como: Pietrocola, Alves Filho e Pinheiro (2003), Pietrocola et al. (2001), Japiassu (1976), Hartmann e Zimmermann (2007), Carvalho e Gil-Pérez (2000) e Fazenda (1994). Notamos maior número de pesquisas, que apresentem a prática interdisciplinar, nos encontros de 2008, 2010 e 2012 evidenciando a importância deste método de ensino. Este trabalho atende ao LIPI - Laboratório de Inovações e Práticas Interdisciplinares, Financiamento da CAPES edital 035/2012.
Palavras-chave : Metodologia de Ensino; Interdisciplinaridade; Ensino de Física.
## Abstract
The excess of disciplinary specialization causes a limited view of science, reducing the critical skills of the students with the scientific issues of the contemporary world. However, there are ways for an education, different from what we experience in schools, being traced by researchers who see education as a process of the individual emancipation. In this work we conducted a literature review of articles that proposes an interdisciplinary practice explicitly, presented, from 2002 until 2012, on EPEF (Research on Physics Teaching Meeting) in the annals available on the internet. We built categories of analysis, from theoretical referential such as Pietrocola, Alves Filho and Pinheiro (2003) , Pietrocola et al. (2001), Japiassu (1976), Hartmann and Zimmermann (2007), Carvalho and Gil - Pérez (2000) and Finance (1994). We noticed a higher number of researches, presenting interdisciplinary practice, in meetings of 2008, 2010 and 2012 showing the importance of this teaching method. This work serves to LIPI - Laboratory for Innovation and Interdisciplinary Practices , financed by CAPES edict 035 / 2012.
Keywords : Teaching Methodology; Interdisciplinarity; Teaching Physics.
## Referencial teórico
Metodologias inovadoras em uma concepção integradora requerem uma proposta de um ensino mais abrangente, que provoque um aprendizado real, crítico e reflexivo sobre as questões do mundo. Pesquisadores como Hartmann e Zimmermann (2007), Pietrocola, Alves Filho e Pinheiro (2003), Carvalho e Gil-Pérez (2000), Fazenda (1994) e Japiassu (1976) destacam que a interdisciplinaridade tem potencial contribuição para superar os problemas do ensino ao propor um sentido para as questões abordadas em sala de aula. Porém, há uma grande barreira entre uma visão tradicional e sistemática da educação e um pensamento diferenciado e com muitos desafios para enfrentar.
Segundo Pietrocola et al. (2001) o ensino das ciências proporciona à população em geral embasamento crítico e consciente das decisões e debates da sociedade. Porém, como as ciências são tratadas de forma fragmentada e muitas vezes sem aplicação na vida real, o conhecimento científico é visto como impessoal. Para Japiassu (1976):
O número de especializações exageradas e a rapidez do desenvolvimento de cada uma culminam numa fragmentação crescente do horizonte epistemológico. O saber chegou a tal ponto de esmigalhamento, que a exigência interdisciplinar mais parece, em nossos dias, a manifestação de um lamentável estado de carência. Tudo nos leva a crer que o saber em migalhas seja o produto de uma Inteligência esfacelada. (pg. 30)
A distância teórica e prática das ciências fazem parte de um conhecimento inerte e alienador. Japiassú (1976) afirma que é inerte porque cada ciência encerra seu conhecimento em um lugar fechado e sem ligação com as outras disciplinas, preso em sua especialidade. E aliena porque a falta de comunicação entre as disciplinas acarreta em um olhar restrito e sem reflexão por parte do aluno. Assim, a partir dessa crítica, Fazenda (1994) discute a ideia de uma busca pela totalidade do saber.
Japiassú (1976) entende a interdisciplinaridade como um ensino que promova a troca de informações e de crítica entre as disciplinas. Esta forma de conceber a educação ganha forma nas suas vantagens em relação ao ensino disciplinar. Os alunos, que assistem a uma questão do seu dia-a-dia ser respondida apenas por uma ciência, têm uma dimensão reduzida e limitada tanto do problema quanto da solução. O autor entende que o empreendimento interdisciplinar desenvolve uma educação geral e permanente, que mantém o indivíduo atualizado nos vários setores do conhecimento.
É importante assinalar que a dificuldade em implantar um sistema inovador de ensino advém da falta de professores que conduzam a sua sala de aula para um aprendizado mais abrangente. Ou seja, há uma carência de professores com uma perspectiva reflexiva e crítica de seu trabalho e que tenham familiaridade com as contribuições da pesquisa e inovações didáticas (CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2000). Os autores ressaltam ainda que é preciso orientar a formação de professores para uma pesquisa dirigida, que transforme suas concepções iniciais. Segundo os PCN's:
Na realidade, os próprios ambientes de formação, no ensino superior, nem sempre se caracterizaram como culturalmente ricos, seja pelas condições materiais, seja pela ausência de discussões, debates, participação em movimentos sociais, espetáculos, exposições, ao lado da tão prejudicial separação entre aquilo que o professor aprendeu em sala de aula ou nos estágios que fez e o que de fato necessitaria para seu trabalho efetivo. (pg. 141)
No caso da Física, esta é uma disciplina geralmente trabalhada pelos docentes de forma isolada na sala de aula, sem comunicação com as outras ciências e sem contato com a realidade do aluno. Segundo Pietrocola (2003) a grande quantidade de idealizações feitas sobre os assuntos da física em geral dificulta a visualização dessas matérias na vida cotidiana. Sendo assim, deixa claro que a articulação das ciências deve ser direcionada em perspectiva integradora. Sem isso, a física, assim como as outras disciplinas, fica imersa em um mar de informações soltas sem um elo que una esses dados e ofereça aos alunos um sentido para o que se estuda (PIETROCOLA; ALVES FILHO; PINHEIRO, 2003).
Desta forma, a educação deve estar voltada para a emancipação do indivíduo na sociedade, fazendo com que o conhecimento que foi construído na escola não se perca com o tempo. Segundo Hartmann e Zimmermann (2007):
...fazer interdisciplinaridade na escola é mais do que simplesmente promover condições para que o estudante estabeleça relações entre informações para construir um saber integrado. Ela reúne uma segunda condição, que consiste em estabelecer e manter o diálogo entre professores de diferentes disciplinas com o objetivo de estabelecer um trabalho integrado entre eles. (pg. 5)
Criar um ambiente integrador e diferenciado em sala de aula não é uma tarefa fácil, exigindo do professor estudo das inovações didáticas na pesquisa em ensino de ciências (HARTMANN; ZIMMERMANN, 2007). Sendo assim, este trabalho se propõe a analisar as pesquisas que objetivam uma prática interdisciplinar no ensino de física delimitando suas características.
## Metodologia
Este um trabalho qualitativo de revisão bibliográfica que foram analisados artigos que propõe uma prática interdisciplinar de forma explícita, a partir de categorias baseadas na leitura dos artigos Pietrocola, Alves Filho e Pinheiro (2003), Pietrocola et al. (2001), Fazenda (1994), PCN+ Ensino Médio (2002), Japiassu (1976), Hartmann e Zimmermann (2007), Carvalho e Gil-Pérez (2000).
Como fonte para a nossa busca, utilizamos as publicações do EPEF (Encontro de Pesquisa em Ensino de Física) disponíveis nos sites de cada evento. Para a escolha dos artigos, pesquisamos nos títulos, resumos, palavras-chaves e metodologias de cada trabalho que atendesse a nossa demanda. Como marco temporal para a análise, revisamos os textos de 2002 até 2012, selecionando (universo) os artigos que mostravam uma proposta interdisciplinar para o ensino de física.
Assim, para classificar os artigos analisados, utilizamos como critérios:
Categoria 1) Ação articulada entre as disciplinas: o artigo deve mostrar interação entre disciplinas nas questões levantadas em sala;
Categoria 2) Análise dos conhecimentos físicos num contexto social: um assunto de física ser abordado em contexto social, que faça parte do cotidiano do aluno;
Categoria 3) Práticas que envolvam discussão e argumentação: o artigo deve apresentar discussões ou diálogos entre alunos e professores nas práticas propostas;
Categoria 4) Problematização e solução de problemas: quando os artigos apresentam resultados que mostrem a capacidade adquirida pelo aluno de enfrentar problemas de diferentes naturezas a partir da didática utilizada;
Categoria 5) Análise dos conhecimentos físicos num contexto histórico: a história da ciência presente nos debates interdisciplinares em sala de aula, oferecendo uma visão evolutiva do conhecimento científico para o aluno;
Categoria 6) Presença de dados empíricos: se o artigo apenas apresenta uma proposta de ensino interdisciplinar ou oferece ao leitor uma prática baseada na experiência empírica;
Categoria 7) Nível de ensino: se o artigo trata de uma prática desenvolvida para o ensino básico (fundamental e/ou médio) ou voltada para a formação de professores.
## Dados obtidos e análises
Foram analisados cerca de 900 artigos publicados pelo EPEF, no período de 10 anos entre 2002 e 2012. Identificamos 25 artigos sobre práticas interdisciplinares no ensino de Física. A Tabela 1 trás consigo citações dos autores dos trabalhos em hiperlink e o número total de artigos selecionados.
Tabela 1 - Artigos selecionados para a análise, publicados entre 2002 e 2012*
Pode-se observar da Tabela 1 que o maior número de artigos se encontram no XII EPEF, que contém 5 trabalhos, e no XI EPEF, que contém 7 trabalhos. Observamos também que os primeiros anos estudados apresentam poucos trabalhos relacionados com interdisciplinaridade na sala de aula, tendo resultados quantitativos iguais, de 3 artigos no X EPEF, IX EPEF e no VIII EPEF.
Prosseguindo com os resultados obtidos na análise dos artigos, evidenciamos que, dentre os 25 artigos encontrados, há maior incidência de pesquisas que apresentem a prática interdisciplinar na sala de aula, revelando as dificuldades e sucessos do trabalho, nos anos de 2008, 2010 e 2012. Isso mostra que os dados empíricos vêm sendo cada vez mais requisitado nas pesquisas de ensino, validando a importância da interdisciplinaridade no processo educacional. O gráfico 1 mostra o comportamento desses dados nos artigos selecionados.
Gráfico 1 - Número de artigos que apresentavam ou não dados empíricos.
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Apresentamos no Gráfico 2 a porcentagem de artigos analisados que mostravam práticas no ensino básico e na formação de professores. Dentre os 25 trabalhos observados, encontramos apenas 1 artigo que trabalhava tanto com o ensino básico quanto com ensino superior.
Observamos que o ensino fundamental e médio é predominante nas pesquisas de interdisciplinaridade em física, deixando a formação de professores em segundo plano. Isso se deve a predominância de universidades que trabalham a Física com conteúdos estáticos e excessivo fundamento matemático, esquecendose da necessidade de formar licenciados com conhecimento integrado e que seja capaz de promover o debate e a reflexão sobre a ciência. (PIETROCOLA; ALVES FILHO; PINHEIRO, 2003).
Gráfico 2 - Porcentagem de artigos que mostravam práticas para o ensino médio ou para a formação de professores.
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Por fim, a Tabela 2 mostra a ocorrência das categorias criadas no universo de artigos selecionados.
Tabela 2 - Ocorrências das categorias em 25 artigos selecionados e analisados no período 2002-2012.
A Tabela 2 mostra que dentre todos os trabalhos selecionados existe um predomínio das categorias 2, 3 e 4 que tratam, respectivamente, do tratamento de problemas físicos no contexto social, das discussões e argumentações entre alunos e professores, e da problematização e solução de problemas. Nota-se que 60% dos artigos apresentaram propostas que relacionassem outras disciplinas além de física, que corresponde à categoria 1, e apenas 32% trabalharam com o aspecto histórico, correspondente à categoria 5.
## Considerações finais
Esse trabalho consistiu de uma revisão bibliográfica do EPEF a fim de identificar as características dos artigos publicados no evento que apresentavam propostas interdisciplinares no ensino de física.
Os resultados obtidos mostram que o campo da interdisciplinaridade no ensino de física está ganhando mais força nas pesquisas sobre educação. Essa tendência pode estar associada possivelmente, à eficiência desse tipo de abordagem na sala de aula. Os dados apontaram que, 20 dentre os 25 artigos analisados, os alunos adquiriram mais capacidade de enfrentar problemas de diferentes naturezas após as aulas interdisciplinares.
Nas metodologias empregadas pelos artigos foi observado que, além buscarem desviar-se dos métodos tradicionais de ensino, desenvolveram atividades
que aproximavam o universo social do aluno e os problemas de física. Os resultados apresentados nesses artigos mostram que os alunos assimilaram com mais facilidade as questões de física, que muitas vezes são tratadas de forma abstrata e com foco nas fórmulas matemáticas, dificultando a aplicação da física no cotidiano.
Ainda assim, destacamos que, diante do número de artigos publicados neste período de 2002 a 2012, é preciso mais produções científicas visando uma abordagem diferenciada na sala de aula, promovendo uma educação de qualidade. Algumas pesquisas destacam a importância da interdisciplinaridade nas salas de aula, tanto do ensino básico quanto das licenciaturas, como uma tentativa para que se produza uma educação voltada para a emancipação do indivíduo. Hartmann e Zimmermann (2007) afirmam que a interdisciplinaridade é um princípio pedagógico importante para a formação dos estudantes, capacitando-os para construir um conhecimento integrado em razão da complexidade da sociedade atual.
## Agradecimentos
Nossos agradecimentos à Pró-Reitoria de Pesquisa Pós-Graduação e Inovação do IFBA, ao CNPq e a CAPES pelo fomento das atividades desenvolvidas para este trabalho.
## Referências
PIETROCOLA, M.; ALVES FILHO, J. de P.; PINHEIRO, T. de F.. Prática
interdisciplinar na formação disciplinar de professores de ciências. Investigação em Ensino de Ciências, Porto Alegre, v. 8, n. 2, p.131-152, ago. 2003. Disponível em: <http://www.if.ufrgs.br/ienci/artigos/Artigo\_ID101/v8\_n2\_a2003.pdf>. Acesso em:
27 mar. 2014.
FAZENDA, I.C.A.. Interdisciplinaridade: História, Teoria e Pesquisa. 11. ed. Campinas: Papirus, 1994.
HARTMANN, A. M.; ZIMMERMANN, E. O trabalho interdisciplinar no Ensino Médio: A reaproximação das 'Duas Culturas'. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, [s. L.], v. 7, n. 2, p.57-73, fev. 2007. Quadrimestral. Disponível em: <http://revistas.if.usp.br/rbpec/article/view/68/61>. Acesso em: 1 abr. 2014.
PIETROCOLA, M. et al (Org.). Ensino de Física: conteúdo, metodologia e epistemologia numa concepção integradora. Florianópolis: Ufsc, 2001. 236 p.
JAPIASSU, H.. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
CARVALHO, A.M.P. de; GIL-PÉREZ, D. Formação de professores de ciências. São Paulo: Cortez, 2000.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN + Ensino Médio: Orientações Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: Ministério da Educação, 2002.
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