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FORMAÇÃO CONTINUADA NO MUSEU DICA: OS PROFESSORES DE CIÊNCIAS DE UBERLÂNDIA E O ENSINO DE FÍSICA

Alexandre Leite, Silvia Martins

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
28/10/2014
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## FORMAÇÃO CONTINUADA NO MUSEU DICA: OS PROFESSORES DE CIÊNCIAS DE UBERLÂNDIA E O ENSINO DE FÍSICA CONTINUOUS GRADUATION IN THE MUSEUM DICA: THE SCIENCE TEACHERS OF UBERLÂNDIA AND TEACHING OF PHYSICS

## Alexandre Leite dos Santos Silva , Silvia Martins 1 2

- 1 Universidade Federal de Uberlândia/Instituto de Física, alexandreleite@fis.ufu.br

## Resumo

Pesquisas apontam para a importância do ensino de física no ensino fundamental. Os professores de ciências têm um papel relevante para que haja uma melhoria na qualidade do ensino de física neste período que concentra a maior parte da população estudantil. Através dos enunciados de professores de ciências da rede pública municipal e estadual de ensino de Uberlândia, Minas Gerais, no contexto de um curso de formação continuada, em duas turmas, verificamos que eles, cuja formação predominante é na área de ciências biológicas, sentiam-se despreparados para ensinar física nas suas aulas. Percebemos que uma das causas principais era a falta de conhecimento da matéria a ser ensinada. Esta dificuldade era responsável por sérios problemas no processo de ensino-aprendizagem, que iam desde o planejamento do curso à avaliação da aprendizagem dos alunos. O curso descrito aqui, como instrumento de pesquisa, fundamentou-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais e na análise dos livros didáticos mais utilizados pelos professores participantes. A formação continuada, como mostra este estudo de caso, segundo o modelo prático-reflexivo, pode revelar problemas no ensino de física no ensino fundamental e apontar possíveis caminhos para uma melhoria na qualidade do ensino, além de auxiliar os professores a superar dificuldades conceituais, relacionadas com o conteúdo da matéria a ser ensinada.

Palavras-chave : Ensino. Física. Ciências. Professores.

## Abstract

Researchs show the importance of teaching physics in elementary school. The science teachers have an important role in quality of teaching of physics in this period that concentrates most of brazilian student population. Through the discourses of science teachers from municipal and state public schools in Uberlândia, Minas Gerais, in a continuous graduation course in two classes, we viewed that them, whose formation is in the area of biological sciences, felt themselves unprepared to teach physics. We viewed too that a major cause this problem was lack of content knowledge of physics. This difficulty was responsible for serious problems in the teaching-learning process, including planning and assessment. The course described in this text was based on the National Curriculum Parameters and in the analysis of

textbooks used by most of participating teachers. The continuous graduation, as it is shown in this study, according to the reflexive-practical model, may reveal some problems in physics teaching at elementary school and it can point possible ways to an improvement in the teaching quality.

Keywords : Teaching. Physics. Science. Teachers.

## Introdução

Este trabalho de pesquisa, ensino e extensão trata-se de um estudo de caso inserido em um curso de formação continuada com professores de ciências do ensino fundamental das redes públicas municipal e estadual de ensino de Uberlândia, Minas Gerais. Partiu da idéia de que o ensino fundamental é o período escolar mais importante na formação da população brasileira, concentrando a maior parte da população estudantil (MOREIRA; OSTERMANN, 1993; DEBALD, 2007). Também apostou no fato de que o ensino de física neste período requer atenção e investimentos, principalmente no que toca ao papel do professor de ciências (MENEZES; KALHIL; MAIA, 2008; WAISELFISZ, 2009; CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2011; CARVALHO et. aL., 1998; MARTINS, 2005; PORTELA; HIGA, 2007).

- O curso foi desenvolvido com duas turmas: uma turma, ao longo do ano de 2011, nas dependências do CEMEPE, Centro Municipal de Estudos e Projetos Educacionais Prof.ª Julieta Diniz, da Secretaria Municipal de Educação de Uberlândia; e outra turma, nos meses de março a maio do ano de 2012, no campus Santa Mônica, da Universidade Federal de Uberlândia.

Buscou-se realizá-lo dentro da proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), adotando os princípios construtivistas (BRASIL, 1998; PORTELA; HIGA, 2007). O formato do curso fundamentou-se no modelo prático-reflexivo de formação continuada (MEGID NETO; JACOBUCCI, D.; JACOBUCCI, G., 2007; PERRENOUD, 2002). A metodologia de ensino proposta para os professores reproduzirem os experimentos nas salas de aula foi o ensino como investigação (CAMPOS; NIGRO, 1999).

Durante o presente trabalho, as principais questões que nortearam as ações tomadas foram: Quais as principais dificuldades, relacionadas ao ensino de física, enfrentadas pelos professores de ciências do ensino fundamental? Qual o papel da formação continuada para estes professores? Que ações podem contribuir para a melhora no ensino de física no ensino fundamental?

- Os objetivos principais deste trabalho de ensino, pesquisa e extensão, desenvolvido ao longo do curso de formação continuada foram: identificar as dificuldades dos professores de ciências em ensinar física; desenvolver e propor meios de lidar com tais dificuldades e promover uma melhoria na qualidade do ensino de conceitos físicos nas aulas de ciências .

Para que tais objetivos fossem alcançados foram necessárias as seguintes ações ao longo do ano de 2011 e no primeiro semestre de 2012: seleção de publicações científicas e pesquisa, especialmente sobre diversos estudos de caso semelhantes, buscando a melhor fundamentação teórica e metodológica; pesquisa nos livros didáticos utilizados pelos professores-alunos nas suas escolas e do conteúdo proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais; elaboração de um plano de curso e de planos de aulas, para os encontros; seleção de atividades experimentais com materiais de baixo custo e aquisição de tais materiais em

quantidade suficiente; elaboração de uma apostila com as descrições das atividades experimentais propostas; divulgação do curso, com material produzido para isto; elaboração e aplicação de roteiros para as entrevistas semiestruturadas; elaboração de apresentações com slides, adequadas ao tempo e temas do curso; desenvolvimento e manutenção de uma página na internet, um blog, para o curso; análise e elaboração de relatórios parciais com base nos enunciados e reações dos professores em cada encontro.

## O Desenvolvimento do Curso de Formação Continuada

- O trabalho foi desenvolvido em torno de sete encontros em 2011, com a primeira turma, composta por quinze professores da rede municipal, e sete encontros, em 2012, com a segunda turma, composta por quatro professores da rede estadual.
- A comunicação presencial foi complementada ao longo do curso de formação, nas duas turmas, pelas interações on line , através de trocas de e-mails e por postagens e comentários num blog elaborado para o curso (BLOG FÍSICA NO ENSINO FUNDAMENTAL, 2012). No blog foram postados os roteiros dos experimentos realizados nas oficinas, com ilustrações, fotos de vários momentos nas oficinas, slides das apresentações realizadas e anúncios sobre o cronograma do curso.
- Os principais dados coletados foram os enunciados dos professores, proferidos espontaneamente nas oficinas e apresentações, ou colhidos através de entrevistas semiestruturadas. No final de cada encontro, foram feitos relatórios em estilo analítico, com base nas observações participantes. Durante a pesquisa, os relatórios analíticos foram agregados e organizados, para permitir uma análise geral.

## Primeira Turma

O primeiro encontro, da primeira turma, no CEMEPE, deu-se através de uma entrevista não-diretiva com professores interessados no curso.

- O segundo encontro aconteceu no museu Dica, no campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia, em que os professores tiveram a oportunidade de manipular seus diversos artefatos lúdico-científicos, voltados para o ensino de Física. O museu Dica (Diversão com Ciência e Arte) é um ambiente informal onde os visitantes interagem com materiais e experimentos científicos, cujo objetivo é promover a popularização da ciência. Neste segundo encontro, também houve uma breve apresentação sobre os objetivos e o cronograma do curso de formação continuada proposto.
- O curso, realizado a seguir, no CEMEPE, aconteceu através de cinco encontros subseqüentes, realizados mensalmente. Trataram de temas específicos da física, cujos conceitos foram selecionados com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais, nos livros didáticos utilizados e nas dúvidas expressas pelos professores nos encontros iniciais. Os temas foram cronologicamente: A Física no Ar e na Água (conteúdo geralmente abordado pela maioria dos professores-alunos no 6º ano do ensino fundamental); Som e Luz; Calor e Temperatura; Eletricidade e Magnetismo; Mecânica. Cada encontro foi estruturado em duas sessões: a primeira, com apresentação em slides, aberta a discussões, sobre os principais conceitos físicos relacionados ao tema do dia; e a segunda, no laboratório, com uma oficina de

experimentos também relacionados ao tema do encontro, incluindo experimentos com materiais de baixo custo e o uso de artefatos tecnológicos do cotidiano (figuras 1 e 2, respectivamente).

Figura 01: Experimento com materiais de baixo custoFigura 02: Uso de artefatos tecnológicos

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## Segunda Turma

Os encontros e o curso da segunda turma aconteceram no campus Santa Mônica, da Universidade Federal de Uberlândia. Houve uma breve apresentação do curso e a visita ao museu Dica nos dois primeiros encontros. A seguir, o curso aconteceu, nos mesmos moldes da primeira turma, mas semanalmente, e em torno de apenas quatro temas, em quatro encontros consecutivos: (1) Mecânica, (2) Termologia, (3) Óptica e Ondas e (4) Eletricidade e Magnetismo. Ao longo dos encontros, os professores ficaram à vontade para expressar suas opiniões, dificuldades e sugestões.

## Resultados

Durante este trabalho de pesquisa foram identificadas, através dos enunciados dos professores participantes, nos contatos presenciais e on line , diversas dificuldades que eles enfrentavam quanto ao ensino de física. Mas a maior dificuldade encontrada foi talvez a falta de domínio do conteúdo de física, conforme mostram os seguintes comentários:

- ' São assuntos que não entendemos!' (professor-aluno 1);

- ' Não nos sentimos preparadas para as perguntas dos alunos' (professoraluno 2);
- ' Muitas vezes deixamos de lado ou não tratamos dos conceitos físicos, nas aulas de ciências, porque nós mesmos temos pouca familiaridade com o conhecimento físico' (professor-aluno 3).

Esta informação obtida através das atividades realizadas com os professores-alunos é algo muito relevante, conforme expresso no seguinte trecho:

'Se existe um ponto em que há consenso absolutamente geral entre os professores - quando se propõe a questão do que nós, professores de Ciências, devemos 'saber' e 'saber fazer' - é, sem dúvida, a importância concedida a um bom conhecimento da matéria a ser ensinada.' (CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2011, p.21).

Neste estudo de caso, a falta de domínio da matéria de física a ser ensinada foi justificada pela formação inicial desses professores, em geral graduados em ciências biológicas, em que não tiveram a oportunidade de aprender os conceitos físicos com maior consistência. Segundo Carvalho e Gil-Pérez, esta falta de conhecimentos científicos constitui a principal dificuldade para que os professores afetados se envolvam em atividades inovadoras, transformando o professor em um transmissor mecânico dos conteúdos do livro de texto, algo preocupante, já que diversos livros didáticos de ciências, utilizados pelos professores analisados, revelaram erros conceituais e abordagens que não promovem uma aprendizagem significativa (CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2011).

Neste sentido, o curso de formação continuada, inserido num trabalho não apenas de pesquisa, mas também de extensão e ensino foi uma oportunidade para sanar parcialmente esta dificuldade em relação aos conteúdos científicos, pois adotou as seguintes medidas ao longo dos encontros: seleção e esclarecimento dos conceitos principais da física para ajudar os professores-alunos a elaborarem um plano de aulas dentro da sua realidade e terem menos dificuldade na explicação dos experimentos, fenômenos físicos e na avaliação da aprendizagem dos seus alunos; uso de materiais de baixo custo que podem ser utilizados em atividades experimentais como demonstrações na sala de aula, diminuindo, assim, a dependência de um laboratório e de materiais financeiramente inviáveis para o professor; discussão sobre os conceitos mal abordados nos livros, colocando estes na posição de ferramentas e não como a base do programa de conteúdos e das explanações em sala de aula; indicação de mídias diversas e em como filtrá-las, como sites , vídeos, simulações e laboratórios virtuais desenvolvidos por universidades e centros de pesquisa; explicação de como funcionam alguns artefatos tecnológicos e fenômenos da natureza observados no dia-a-dia e em como se relacionam com os principais conceitos físicos.

Os resultados positivos destas ações afetaram a prática de ensino de ciências dos professores-alunos, ainda durante o curso, como mostram os seguintes comentários:

- ' Ajudou-nos a ficar mais confortáveis ao ensinar física ' (professor-aluno 4, primeira turma);
- ' Os módulos me tranquilizaram ' (professo-aluno 5, primeira turma);
- ' Foi mais tranquilo trabalhar física neste ano' (professor-aluno 6, segunda turma);

' Usei os experimentos de termologia […] a apostila me ajudou bastante nas atividades práticas com os alunos do 9º ano' (professor-aluno 7, segunda turma).

## Conclusão

Um dos objetivos específicos do ensino é formar nos alunos a capacidade crítica e criativa em relação às matérias de ensino e à aplicação dos conhecimentos e habilidades em tarefas teóricas e práticas, qualidades que se desenvolvem pelo estudo dos conteúdos e pelo desenvolvimento de métodos de raciocínio, de investigação e de reflexão sob a direção do professor. Para que isto aconteça, é necessário que o professor, portanto, detenha o domínio do conteúdo, que forma a base objetiva da instrução - conhecimentos sistematizados, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos na sua prática de vida (LIBÂNEO, 1994).

A falta de entendimento dos conceitos físicos, declarados pelos professores da presente pesquisa, trazia profundas implicações negativas no trabalho dos professores analisados: falta de motivação para ensinar e para adotar novas estratégias de ensino; insegurança; dificuldade em relacionar os conceitos físicos com fenômenos naturais, com o funcionamento de artefatos tecnológicos e com os experimentos realizados na escola; dificuldade no planejamento do curso e na avaliação da aprendizagem.

Os professores de ciências, sujeitos da presente pesquisa, conforme revelado pelos seus enunciados, enfrentavam inúmeras dificuldades na sua prática de ensino, especialmente quanto ao ensino de física. A maior dificuldade mostrou ser a falta de domínio do conteúdo de física. Neste sentido, o curso de formação continuada teve um importante papel, tratando não apenas de aspectos metodológicos, mas reservando tempo e espaço para a abordagem de conteúdos científicos. Dessa forma, acreditamos que investimentos não apenas de ordem material nas escolas, mas também na formação inicial e continuada de professores, podem ser o caminho para a melhoria da qualidade do ensino de física, e de ciências como um todo, nas escolas públicas.

## Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais : ciências naturais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

CAMPOS, MARIA C. C; NIGRO, ROGÉRIO G. Didática de ciências : o ensinoaprendizagem como investigação. São Paulo: FTD, 1999.

CARVALHO, ANNA M. P. et. al. Pensamento e ação no magistério. Ciências no ensino fundamental : o conhecimento físico. São Paulo: Scipione, 1998.

CARVALHO, ANNA M. P.; GIL-PÉREZ, DANIEL. Formação de professores de ciências : tendências e inovações. São Paulo: Cortez, 2011.

DEBALD, FÁTIMA R. B. A Formação continuada dos professores no ensino de ciências naturais. Plêiade , Foz do Iguaçu, v.1, n.2, p. 143-151, jul./dez. 2007.

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MEGID NETO, JORGE; JACOBUCCI, DANIELA F. C; JACOBUCCI, GIULIANO B. Para onde vão os modelos de formação continuada de professores no campo da educação em ciências? Horizontes , v. 25, n. 1, p. 73-85, jan./jun. 2007.

MENEZES, ANA P. S; KALHIL, JOSEFINA B.; MAIA, DAYSE P. Formação de professores de ciências numa sociedade multimídia e globalizada. in: Seminário Nacional de Educação Profissional e Tecnológica, Belo Horizonte. Anais I SENEPT 2008 , disponível em: &lt; http://www.senept.cefetmg.br/site/AnaisSENEPT&gt;. Acesso em: 5 ago. 2012.

MOREIRA, MARCO A.; OSTERMANN, FERNANDA. Sobre o ensino do método científico . Caderno Catarinense de Ensino de Física . Florianópolis, vol.10, n.2, p. 102-195, ago. 1993.

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PERRENOUD, PHILIPPE. A prática reflexiva no ofício de professor: profissionalização e razão pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2002.

PORTELA, CAROLINE D. P.; HIGA, IVANILDA. Os estudos sobre ensino de física nas séries iniciais do ensino fundamental. In: Atas do VI ENPEC - Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências. Belo Horizonte: ABRAPEC, 2007.

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