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ANÁLISE DISCURSIVA DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS PRESENTES EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA

Leandro Londero

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
30/10/2014
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ANÁLISE DISCURSIVA DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS PRESENTES EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA

## DISCOURSE ANALYSIS OF COMIC STRIPS FROM PHYSICS SCHOOL MANUALS

## Leandro Londero 1

1 UNESP/IBILCE /Departamento de Educação, leandrolondero@gmail.com

## Resumo

As histórias em quadrinhos (HQs) são um meio de comunicação no mundo todo. No caso da física, elas passaram a fazer parte do âmbito escolar, as quais são utilizadas para discutir diversos conceitos. Neste estudo, objetivamos analisar, do ponto de vista discursivo, algumas HQs presentes em manuais escolares de física. Procuramos resposta para o seguinte problema: Como funcionam as HQs, do ponto de vista discursivo, enquanto produtoras de sentido por alunos leitores? Nosso interesse é justificado pelo fato das HQs integrarem imagens e textos, ou seja, mecanismos verbais e não verbais. Compreender o funcionamento das HQs nas explicações textuais de física torna-se importante tema de investigação. Assumimos a Análise de Discurso, de linha francesa, como apoio teórico para a análise. A análise revelou que os produtores das HQs recorrem ao humor, a ironia, aos estereótipos para provocarem efeitos de sentidos. Nas HQs é necessário que o leitor recorra a conhecimentos prévios para compreender as situações nelas apresentadas para então compreendê-las. A análise das HQs escolhidas permite afirmar que elas funcionam de diferentes modos e podem receber diferentes interpretações por parte dos leitores.

Palavras-chave : Histórias em Quadrinhos, Análise de discurso, Ensino de Física

## Abstract

Comic strips constitute a communication means known all over the world. Regarding Physics teaching, they are a tool to discuss many concepts and are part of our current school context. In this study, it is discursively analyzed some comic strips from Physics school manuals. Considering the discursive point of view, the answer for the following question was searched: How do comic strips make sense to students? Such interest is justified by the fact that comic strips combine images and written texts, in other words, verbal and nonverbal tools. Due to these aspects, to understand how comic strips work in the Physics explanations is an important subject to be investigated. The French discourse analysis was the one chosen as theoretical support. According to the analysis, humor, irony and stereotypes are frequently used as a means to create sense. The reading of a comic strip demands previous knowledge in order to understand the message conveyed and it can receive different interpretations by the reader.

Keywords : Comic strips, Discourse Analysis, Physics Education.

## Introdução

As histórias em quadrinhos (HQs) são um meio de comunicação no mundo todo. Para McCloud (2005), as HQs são imagens justapostas em sequência deliberada, destinadas a transmitir informações e/ou a produzir uma resposta no espectador. Essa definição é muito defendida, pois demarca exatamente o que seria uma HQ, não deixando espaço para os desenhos animados. Entretanto é também contestada já que desconsidera o Cartum, a Charges e a Caricatura como HQ. De qualquer forma, o objetivo principal das HQs, citando Eguti (2001), é:

[...] a narração de fatos procurando reproduzir uma conversação natural, na qual os personagens interagem face a face, expressando-se por palavras e expressões faciais e corporais. Todo o conjunto do quadrinho é responsável pela transmissão do contexto enunciativo ao leitor. Assim como na literatura, o contexto é obtido por meio de descrições detalhadas através da palavra escrita. Nas HQs, esse contexto é fruto da dicotomia verbal/não verbal, na qual tanto os desenhos quanto as palavras são necessárias ao entendimento da história [...].

No que se refere ao uso de histórias em quadrinhos no contexto da sala de aula, Vergueiro (2009) relata que o aparecimento desse meio de comunicação começou de forma lenta, sendo utilizada, no início, para fazer ilustração de algum texto ou para auxiliar na explicação de um conteúdo que necessitasse tomar uma forma visual. No caso da física, posso dizer que, as HQs passaram a fazer parte do âmbito escolar. Elas são, em geral, utilizadas no ensino de física para tratar os mais diversos conceitos.

Euzébio, Pacheco e Scarabelot (2011), por exemplo, aplicaram uma proposta que visa o ensino de conceitos relacionados à Astronomia. Eles elaboraram textos e montaram HQs de forma que elas seguissem uma ordem cronológica com o intuito de mostrar aos alunos que as teorias científicas estudadas nos livros didáticos são uma constante evolução de conceitos. Testoni e Abib (1994) elaboraram uma proposta que utiliza o gênero de quadrinhos no ensino fundamental. Eles prepararam uma HQs que abordava o conceito de Inércia e analisaram sua utilização em duas classes de 8ª série. Por sua vez, Caruso e Freitas (2009) defendem que é possível levar para o aluno do Ensino Médio alguns aspectos da contribuição de Einstein, especificamente o conceito de espaço-tempo, utilizando a linguagem dos quadrinhos. Os autores concluem que as tirinhas podem ser utilizadas como instrumento de apoio nas aulas, as quais são capazes de 'prender a atenção' dos alunos e permitir que qualquer assunto de Física ou de Ciências possa ser abordado sem recorrer, num primeiro momento, à matematização.

## Objetivo, Problema, questões de estudo e justificativas

Além de serem utilizadas para o ensino de determinados conteúdos conceituais, em propostas de ensino, as HQs estão presentes em coleções didáticas de física como, por exemplo, naquelas recomendadas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). É justamente na análise das HQs, presentes nas Coleções Didáticas de Física que concentro meu foco de atenção. Procuro encontrar resposta para a seguinte questão: como funcionam, do ponto de vista discursivo, as Histórias em Quadrinhos utilizadas pelos autores de Coleções Didáticas de Física destinadas ao Ensino Médio, pertencentes ao Programa Nacional do Livro Didático do governo federal brasileiro, enquanto produtoras de sentidos?

Parto do pressuposto que HQs são recursos constitutivos de manuais escolares, sendo que a leitura desses e, consequentemente, a produção de sentidos, por quem os lê, está associada ao funcionamento daqueles recursos linguísticos que os constituem. Assim, a partir da constatação básica de que o uso de HQs têm estado presente em textos escolares, procuro encontrar respostas para as seguintes questões norteadoras: Qual a frequência de HQs por coleção, volume e tópico conceitual nas coleções analisadas? Quais HQs, em relação ao personagens, os autores das coleções utilizam com maior frequência? Quais efeitos de sentidos os autores ou produtores das HQs desejam transmitir aos sujeitos leitores?

Vale a pena destacar que, o estudo justifica-se uma vez que não há trabalhos, na literatura da área de ensino de física, que realizam a análise discursiva de HQs utilizadas em coleções didáticas de física.

## Apoio Teórico

Como meu objetivo maior foi o de compreender o funcionamento das HQs nas explicações textuais de física, assumi a Análise de Discurso (AD), de linha francesa, a partir de produções de Michel Pêcheux na França nos anos 60, como apoio teórico na análise das HQs. Considero esse referencial apropriado pelo fato dele permitir a análise de construções ideológicas presentes em textos, seja verbais ou imagéticos.

Considero que discurso é uma prática de produção de sentidos. Todo discurso é, portanto, uma construção social, coletiva e que somente pode ser analisado se considerarmos seu contexto, suas condições de produção e as ideologias que estiveram por trás da sua produção. Ao interpretarmos um discurso devemos saber se há um autor e um sujeito com identidades sociais e históricas e, a partir disso, posicionar o discurso como componente desta identidade. Além disso, na AD é fundamental perceber a não transparência do discurso e as influências históricas e culturais.

Possenti (1998), em 'Os humores da língua', esclarece que em AD é recorrente a ideia de que os sentidos não são unívocos, não são transparentes, e não podem representar as intenções dos falantes, pois decorrem não de uma relação transparente, mas, ao contrário, de um desequilíbrio entre os dois componentes do signo, desequilíbrio esse que favorece o significante, tornado uma espécie de máquina imprevisível de produção de sentidos.

Na análise discursava das HQs, procurei compreender como elas funcionam na produção de sentidos para os conteúdos físicos. Perante isso, estou considerando as HQs como um discurso, composto por imagens e textos verbais. Relatarei a análise de duas HQs escolhidas a partir de um levantamento realizado.

## A realização do estudo

Para responder o problema deste trabalho, foi de fundamental importância realizar um levantamento das HQs utilizadas pelos autores de Coleções Didáticas de Física para, então, selecionar alguns exemplares para uma análise discursiva mais detalhada. Optei por analisar as HQs presentes nas 10 coleções didáticas de Física pertencentes ao Programa Nacional do Livro Didático, aqui codificadas por: CD 01 Gaspar (2010); CD 02 - Sant'Anna et al. (2010); CD 03 - Máximo e Alvarenga (2010); CD 04 - Torres et al. (2010); CD -05 Biscuola et al. (2010); CD 06 - Silva e Barreto

(2010); CD 07 - Gonçalves e Toscano (2010); CD 08 - Oliveira et al. (2011); CD 09 Fuke e Yamamoto (2010); CD 10 - Kantor et al. (2010).

Em continuidade, identifiquei as HQs presentes em cada um dos volumes que compõem cada coleção. A identificação foi realizada mediante a leitura integral dos textos que compõem os volumes. Na sequência, separei as HQs por volume, coleção e tópico conceitual (Mecânica, Física Térmica, Óptica, Ondulatória, Eletromagnetismo, Física Moderna e Contemporânea).

A seguir, construí quadros para registro do mapeamento realizado. No quadro de registro, procurei, principalmente, sintetizar o tópico no qual as HQs são usadas, os conceitos/temáticas/assuntos abordados e a situações apresentadas, sugeridas ou subentendidas. Em continuidade, verifiquei quais personagens são recorrentemente utilizados pelos autores das coleções.

Após, analisei em que momento os autores utilizavam as HQs. Procurei identificar se as HQs foram utilizadas para introduzir o assunto desejado, para auxiliar numa explicação conceitual, para 'enriquecer' uma explicação conceitual ou, ainda, depois da explicação, com a finalidade de aplicar o conceito estudado. Ao final, analisei discursivamente as HQs procurando compreender a maneira pela qual os autores de livros didáticos fazem uso de HQs para abordar conteúdos de física. Procurando compreender como as HQs funcionam, selecionei duas histórias utilizadas para uma análise discursivas mais detalhadas, entre aquelas que considerei mais significativas de serem aqui mencionadas.

## As HQs por coleção, volume e tópico conceitual

A maior frequência de uso encontra-se na CD 02, com 21 HQs (27% do total), seguida pela CD 09 e 07, com 14 (18%) e 13 (17%) HQs, respectivamente. Essas frequências de uso podem ser justificadas como um 'estilo' dos autores de recorrerem ao uso deste recurso linguístico. Com exceção da CD 06, que não apresenta nenhuma HQs, a frequência de uso nas demais coleções variou de 02 (01 coleção) até 07 (02 coleções). Destacamos que não consideramos o número de páginas de cada coleção. Além disso, não podemos atribuir a variação de uso ao ano de publicação, pois todas são de 2010.

Quanto as frequências por volume, evidenciei que os volumes 1 possuem a maior quantidade de HQs (59%) em comparação com os volumes 2 (18%) e 3 (23%) em todas as coleções, com exceção da CD 08 que não possui HQs no primeiro e no segundo volume, mas apresenta 03 HQs em seu volume 3. Uma possível explicação para essa discrepância entre os volumes talvez seja a natureza do conteúdo abordado neles.

No que se refere ao uso de HQs por tópico conceitual, observamos que o tópico conceitual com o maior percentual de HQs foi Mecânica (60% do total/47 HQs). O restante (40%) das HQs está distribuído nos demais tópicos com percentuais diferentes, sendo que o tópico de Física Moderna e Contemporânea aparece com menor percentual (4% do total/03 HQs), o de Eletromagnetismo com 17%, o de Óptica com 10% e o de Termodinâmica com 9%. Uma possível explicação pode estar na natureza destes tópicos conceituais, ou seja, o tópico de Mecânica é constituído majoritariamente de conceitos mais familiares e, possivelmente, parece favorecer a construção de HQs com situações cotidianas.

Em relação ao tópico de Física Moderna e Contemporânea, eu espera encontrar uma quantidade mais significativa de HQs, uma vez que elas poderiam

auxiliar nas explicações dos assuntos deste tópico. Vale a pena destacar que, em geral, o espaço destinado ao tratamento dos assuntos de física moderna e contemporânea é limitado nas coleções analisadas, em comparação com os demais tópicos conceituais, o que pode ter influenciado o pequeno número de HQs mapeadas. Outro fator que pode justificar a pequena quantidade neste tópico conceitual é a dificuldade dos criadores em elaborar histórias que abordem assuntos modernos e contemporâneos de física. No entanto, para confirmar esta suposição eu teria que realizar um estudo junto aos autores, o que foge do meu objetivo.

## Os personagens utilizados nas HQs usadas pelos autores

Durante o mapeamento, percebi que os autores das coleções recorriam a personagens clássicos do mundo dos quadrinhos. Classifiquei as HQs mapeadas com base nos personagens utilizados. A frequência de uso por personagens/autor da HQs variou bastante. A quantidade mais expressiva de uso é a de HQs que utilizam o personagem Garfield (19%), seguida pelas HQs produzidas por João X. de Campos (13). Em particular, o autor da CD 02 faz uso de 9 HQs com o personagem Garfield, do total das 21 que utiliza. Por sua vez, o autor da CD 07 faz uso de 07 HQs elaboradas por João X. de Campos, do total das 11 que utiliza. Tais frequências de usos podem caracterizar um estilo de preferência destes autores para o uso daqueles personagens. Uma constatação importante é a da presença de HQs produzidas especificamente para abordar conceitos físicos, como aquelas produzidas por Francisco Caruso e Luiza Daou, utilizadas por quatro autores.

## Análise discursiva de duas HQs

A revista Veja publicou em 2011 uma matéria intitulada 'A pedagogia do Garfield'. Nela, o autor afirma:

A literatura está virtualmente ausente do ENEM. Para os técnicos do MEC, o gato dos quadrinhos é mais relevante culturalmente do que Graciliano Ramos ou Castro Alves.

O contato com a matéria publicada e a constatação de que 19% do total das HQs serem do personagem Garfield fez com que eu escolhesse uma delas para a análise de seu funcionamento. A primeira HQ escolhida é reproduzida na figura 01 e foi utilizada em três coleções didáticas, são elas: CD 01 - Gaspar (2010); CD 02 Sant'Anna et al. (2010) e CD -05 Biscuola et al. (2010).

Figura 01: primeira HQ escolhida para análise

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Na HQ escolhida estão presentes explicitamente dois termos físicos, o primeiro é o 'peso' e o segundo 'gravidade'. Nela é utilizada a mesma estratégia de uma piada: os sentidos atribuídos a determinadas expressões. No primeiro quadrinho, Jonh Arbuckle, dono de Garfield, que vez ou outra lhe impõe dieta, fala para ele: 'Você está muito Gordo' e, no segundo, complementa 'Quero que você perca peso,

ouviu bem?'. No último quadrinho Garfield sai de cena e Jonh pergunta para onde ele vai. Garfield então responde 'A um planeta cuja gravidade seja menor'.

- O humor nesta história é construído por meio do sentido evidenciado pela expressão 'perca peso' e , que, num primeiro momento, refere-se ao fato de Galfield estar '...muito gordo'. Num segundo momento, 'perca peso' significa que Garfield terá que que se deslocar 'a um planeta cuja gravidade seja menor'.

Nesta HQ o humor é baseado, especificamente, no desenvolvimento da temática em uma determinada situação, de modo a realçar as características do personagem Garfield. Ao ser solicitado a perder peso evidenciamos suas características: Garfield é um gato que está acima do peso normal para um felino doméstico pelo fato de ser preguiçoso.

Percebemos na HQ a presença do humor, com o uso de uma estratégia para mobilizar a comicidade. Possenti (2010) esclarece que 'as técnicas humorísticas fundamentais consistem em permitir a descoberta de outro sentido, de preferência inesperado, frequentemente distante daquele que é expresso em primeiro plano e que, até o desfecho da piada, parece ser o único possível' (p.61). A HQ é compacta e resumida e em cada quadro é dado destaque a determinada expressão dos personagens. A esse respeito Mendonça (2003) explica:

Os quadrinhos revelam-se um material riquíssimo, pois, na co-construção de sentido que caracteriza o processo de leitura [...], texto e desenhos desempenham papel central. Desvendar como funciona tal parceria é uma das atividades linguístico-cognitivas realizadas continuamente pelos leitores de HQs (p.196).

Por outro lado, para compreender a HQ, é preciso dar-se conta de que em um planeta cuja gravidade é menor a força peso também será menor. O leitor deve 'sacar' isso para compreender a história. Interpretar seria descobrir um outro sentido. Portanto, um conhecimento prévio é necessário para compreender a HQ. Provavelmente, um leitor que não saiba que a força peso é diretamente proporcional à massa do corpo e à aceleração da gravidade terá dificuldade na interpretação da HQ. Possenti (1998), em 'Os Humores da Língua', esclarece:

É possível que o conhecimento prévio desse fato seja relevante para a interpretação e o efeito humorístico deste texto, mas é perfeitamente possível que o conhecimento desse fato seja, para ouvintes determinados, ao contrário, resultante de piadas que o tematizem, sendo portanto um fator dispensável de análise (p.74).

Assim, entendemos que a HQ apresentada acima é direcionada para um público específico, para tematizar uma situação/assunto e, seria, talvez, dispensável de interpretação.

A segunda HQ que escolhi para analisar, reproduzida na figura 02, é de autoria do cartunista João X. de Campos. Ela foi utilizada pelo autor da CD 07 - Gonçalves e Toscano (2010). Nela, um sujeito faz uma representação na lousa e realiza uma charada/adivinhação/enigma para outro. Para acertar a adivinhação o leitor deve saber, previamente, que as características de uma grandeza vetorial são o módulo, a direção e o sentido. O humor do quadrinho consiste do fato que para o vetor 'desmaiar' é necessário ele 'perder o sentido'. Assim, o sujeito que realizou a charada, ao responder o resultado para outro que não conhece sua solução, deve retirar o segmento orientado, ou 'flecha', da representação gráfica desenhada na lousa.

Figura 02: HQ utilizada pelo autor da CD 07

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A característica principal desta HQ é sua comicidade. Evidencio, enquanto professor, que o humor tem despertado nos alunos o gosto pela leitura. Ao realizarmos a leitura de um quadrinho, algumas vezes, faz-se necessário ativarmos conhecimentos prévios, como é o caso da HQ acima apresentada. Nela, o leitor deveria reconhecer a duplicidade de sentido que certas palavras podem carregar. Tecendo comentário sobre a duplicidade de sentidos, Possenti (1998) expõe

[...] procedimentos como esses não são exclusivos de textos humorísticos, nem são recursos linguísticos ou textuais raros, só acessíveis a falantes de alguma maneira especializados em algum tipo de texto. São, ao invés, procedimentos funcionais normais, apenas investidos, ... de função humorística.

Posso inferir, com base nas análises realizadas, que os autores talvez consideram o efeito de sentido gerado por meio do humor como contribuinte na atribuição de sentidos, ou seja, o humor é um meio para provocar um efeito de sentido.

## Considerações Finais e Implicações do estudo para o Ensino de Física

O estudo revelou que, em geral, os autores recorrem a HQs produzidas em outros países, sendo realizada a tradução dos textos que compõem as HQs. Talvez isso ocorra pela falta de HQs produzidas por brasileiros que possam ser utilizadas no ensino. É possível afirmar que os autores não realizam nenhum tipo de discussão sobre as possibilidades de interpretação de HQs. Talvez eles não consideram importante apresentar aos leitores uma discussão sobre a leitura de HQs, ou que é responsabilidade do professor discutir a maneira de ler/interpretar HQs.

Como implicações do estudo para o Ensino de Física podemos destacar: a) a necessidade de uma maior discussão sobre as potencialidades das HQs e sobre as intepretações dos estudantes; b) a necessidade de discussões na formação inicial de professores sobre o uso e a leitura de HQs, para que eles sintam-se seguros em utilizar este tipo de recurso e possam potencializar seu uso; c) a importância de professores estimularem seus alunos a produzirem suas próprias histórias; d) o incentivo a autores de obras didáticas no sentido da utilização de HQs produzidas por brasileiros, inclusive como maneira de valorização da produção nacional; e) necessidade de levarmos em consideração o despreparo dos alunos no que diz respeito a leitura de um gênero específico, como é o caso das HQs e ativarmos os conhecimentos prévios deles antes da utilização de um HQ; f) a importância dos professores destacarem e estimularem seus alunos a reconhecerem a duplicidade de sentido que certas palavras podem carregar em um HQ.

Para finalizar, a análise evidenciou que alguns autores recorrem ao humor, a ironia, aos estereótipos como um meio para provocar efeitos de sentidos. Ainda, observei que em muitos casos é necessário o leitor recorrer aos seus conhecimentos prévios para compreender a situação exposta na HQ e, por fim,

compreende-la. Considero que os dois exemplos apresentados servem para mostrar que as HQ funcionam de diferentes maneiras e podem levar a atribuição de sentidos múltiplos por parte dos leitores.

## Referências

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