TEXTO JORNALÍSTICO SOBRE CIÊNCIA: APROXIMAÇÃO ENTRE ANÁLISE DO DISCURSO E NATUREZA DA CIÊNCIA
Danilo Cardoso, André Noronha, Ivã Gurgel
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 28/10/2014
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TEXTO JORNALÍSTICO SOBRE CIÊNCIA: APROXIMAÇÃO ENTRE ANÁLISE DO DISCURSO E NATUREZA DA CIÊNCIA
## JOURNALISTIC TEXT ABOUT SCIENCE: APPROACH BETWEEN DISCOURSE ANALYSIS AND NATURE OF SCIENCE
## Danilo Cardoso 1 , André Noronha 2 , Ivã Gurgel 3
- 1 USP/Programa Interunidades em Ensino de Ciências/danilo.cardoso.fis@gmail.com
- 2
USP/Programa Interunidades em Ensino de Ciências/ andre.batista.fis@gmail.com 3 USP/Departamento de Física Experimental/gurgel@if.usp.br
## Resumo
O trabalho a ser apresentado utiliza alguns instrumentos metodológicos da área de Análise de Discurso para discutir aspectos relacionados à Natureza da Ciência. A consideração de que o locutor produz seu discurso através das imagens que ele faz tanto de seus interlocutores quanto do referente, inspirada especialmente em Pêcheux, norteou nossa análise. Além desta perspectiva, utilizamos como principal referência metodológica a análise polifônica, de Ducrot. Foi analisado neste trabalho um texto jornalístico, cujo discurso foi produzido a partir de uma imagem ingênua do desenvolvimento científico. A partir desta análise foi possível identificar que, de maneira subentendida, havia uma imagem de ciência como um desvelar da realidade, como um empreendimento que alcança gradativamente as verdades da natureza. Apontamos que tais imagens relacionadas à Natureza da Ciência produzidas fora do ambiente escolar têm influência sobre os estudantes e que, portanto, a análise desses discursos deve estar presente nas aulas de ciências, a fim de preparar minimamente os estudantes a lidarem, de maneira crítica, com uma possível tensão entre os discursos sobre ciência dentro e fora da escola.
Palavras-chave : análise do discurso, natureza da ciência, texto jornalístico
## Abstract
This work we presented some methodological tools in the area of discourse analysis to discuss some aspects related to the Nature of Science. The consideration that announcer produces his discourse through the pictures that he makes both of his interlocutors as the referent, especially inspired in Pêcheux, has guided our analysis. Apart from this perspective, we use as the primary methodological reference the polyphonic analysis, by Ducrot. A journalistic text, whose speech was produced from a naive picture of scientific development has been analyzed in this work. From this analysis we found that, in a subliminal manner, there was an image of science as an enterprise of unveiling of reality, as a venture that gradually reaches the truths of nature. We point out that such images related to Nature of Science produced outside the school environment have an influence on students and, therefore, the analysis of these discourses must be present in science classes in order to prepare students to deal critically, with possible tensions between discourses of science inside and outside school.
Keywords : discourse analysis, nature of science, journalistic text
## 1 - Introdução
É consenso entre os pesquisadores em ensino de ciências que além de ensinarmos teorias, modelos e conceitos científicos devemos, também, ensinar aspectos relacionados à produção deste conhecimento. Isto é, para além de ensinar as ciências, ensinar sobre ciências, o que passou a ser conhecido na literatura como Natureza da Ciência (NdC) (LEDERMAN, 2007). A preocupação com uma educação científica voltada à NdC se torna um elemento fundamental quando se verifica que imagens sobre a ciência são transmitidas pelas práticas educacionais mesmo quando os professores não planejam isso. Em outras palavras, mesmo quando estamos ensinando ciências, e não sobre ela, carregamos em nosso discurso uma visão sobre o que é o empreendimento científico. Esse discurso inconsciente pode transmitir visões distorcidas, prejudiciais à formação dos alunos. Além disso, discursos em nome da ciência transcendem o ambiente escolar, tornando-se justa uma preocupação educacional com as concepções de ciência veiculadas, por exemplo, pelos grandes meios de comunicação.
A análise de textos de divulgação científica tem relevância para o ensino de ciências uma vez que 'os efeitos de sentidos, da ciência e sobre a ciência, circulam tanto dentro quanto fora da escola' (SILVA & ALMEIDA, 2005, p.2). É importante destacar que esses discursos, produzidos dentro e fora da escola, não são completamente autônomos. Assim, a escola tem um papel importante na relação desses discursos.
[...] pressupomos ser função da escola preparar os estudantes para lidarem com os discursos que circulam em nossa sociedade, porque são constitutivas desses discursos as possibilidades de posições de sujeitos que eles venham a ocupar em sua relação com a ciência, principalmente quando se pensa na escola como agente transformador dessa relação quase hegemônica que os sujeitos estabelecem com a ciência na sociedade atual. (SILVA & ALMEIDA, 2005, p. 2)
O objetivo do trabalho é analisar as concepções implícitas de ciência em um texto de divulgação científica e, ao fazê-lo, destacar os caminhos metodológicos necessários para este tipo de análise. Escolhemos um texto jornalístico, de título A incrível saga do bóson de Higgs, publicado na revista virtual da VEJA (PIRES, 2012), no qual se discute a detecção do bóson de Higgs anunciada em 2012. A escolha do texto é justificada pela grande importância dada pela mídia a esta descoberta, tornando-a representativa das imagens e valores atribuídos à ciência.
## 2 - Pressupostos teóricos da Análise de Discurso
Michel Pêcheux (1990), importante referência na área de análise de discurso, afirma que um discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas. Ele se conjuga sempre sobre um discurso prévio, sendo esta uma forma de ressuscitar 'no espírito dos ouvintes o discurso no qual este acontecimento era alegado, com as 'deformações' que a situação presente introduz e da qual pode tirar partido' (Pêcheux, 1990, p.77). Nesta direção, Orlandi comenta:
Os dizeres não são, como dissemos, apenas mensagens a serem decodificadas. São efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso tem de aprender. São pistas que ele aprende a seguir para compreender os sentidos aí produzidos, pondo em relação o dizer com sua exterioridade, suas condições de produção. Esses sentidos têm a ver com o que é dito ali mas
também em outros lugares, assim como o que não é dito, e com o que poderia ser dito e não foi. Desse modo, as margens do dizer, do texto, também fazem parte dele . (ORLANDI, 1999, p. 30)
Desta forma, como aponta Silva e Almeida (2005, p.4), a autonomia do sujeito na produção dos sentidos é relativa: 'quando o sujeito significa, já está significado, pois o lugar de onde significa, um lugar discursivo, é determinado historicamente'.
Orlandi (1999, p.40) aponta que 'as condições de produção implicam o que é material (a língua sujeita a equívoco e a historicidade), o que é institucional (a formação social, em sua ordem) e o mecanismo imaginário'. Este mecanismo imaginário, prossegue Orlandi, 'produz imagens dos sujeitos, assim como do objeto do discurso, dentro de uma conjuntura sócio-histórica' ( idem ). Segundo as palavras de Oswald Ducrot ( apud Pêcheux, 1990) , outra importante referência na área:
a situação de discurso, à qual remetem as pressuposições, comporta como parte integrante certos conhecimentos que o sujeito falante empresta a seu ouvinte. Ela concerne pois à imagem que se fazem uns dos outros os participantes do diálogo (Ducrot apud Pêcheux, 1990, p. 86).
Outro conceito que mobilizaremos em nosso estudo será o de análise polifônica, de Ducrot, tal qual apresentado por Freda Indusky (1989). Uma das apropriações que faremos está relacionada à distinção feita entre locutor e enunciador. Esta diferenciação é interessante, visto que permite uma análise na qual um locutor passa a mobilizar diferentes enunciadores para compor seu discurso. Este locutor pode organizar diferentes vozes para identificar-se ou opor-se-lhes (INDURSKY, 1989, p.96). Além da diferenciação locutor/enunciador, há ainda uma 'fragmentação' do locutor. Passa-se a considerar três tipos de locutores: 1. Locutor enquanto responsável pela enunciação [L]; 2. Locutor enquanto ser no mundo [l] e 3. Locutor Impessoal [LI]. Uma característica importante da análise polifônica é a consideração dos pressupostos e subentendidos no discurso produzido. Consideramos que a apreensão do que está subentendido no discurso pode revelar a imagem que o locutor faz do referente, e assim, nos possibilitará discutir qual a visão de ciência que o locutor [L] está (direta ou indiretamente) apresentando.
A análise textual, que de certa perspectiva pode ser considerada mais restrita do que a análise do discurso, também nos auxiliará em nossa discussão. Analisaremos, inspirados em Possenti (1988), os mecanismos coesivos presentes no texto de análise. A análise textual pode ser considerada como uma ferramenta que nos permite uma 'boa leitura'. Entretanto, como aponta Possenti (1988, p. 95):
[...] é possível ir além da mera lição de leitura, em sentido estrito, para se verificar, por exemplo, de que maneira os próprios elementos coesivos exercem um papel na função ideacional [...] ou na função interpessoal (por exemplo, que tipos de pressuposições estes elementos fazem em relação não só as seus antecedentes, mas também em relação aos interlocutores do texto).
Direcionaremos nossa análise textual a um tipo de mecanismo coesivo: a coesão léxica. Ela existe, basicamente, se existir entre dois nomes alguma relação semântica (sinonímia, hiponímia, proximidade de sentido, etc) (Possenti, 1988, p.105). A variação de uma determinada expressão pode ser encarada como uma
questão estilística, como uma cartilha da boa escrita. No entanto, a maneira como é feita esta variação pode indicar algo além da função meramente textual . 1
## 3 - Análise Textual (Coesão Léxica)
Analisaremos, brevemente, as variações do uso da expressão bóson de Higgs . Vale salientar que a primeira referência à partícula detectada no LHC é feita da seguinte maneira, logo nas primeiras linhas do texto: partícula que tem grandes chances de ser o bóson de Higgs . A partir de então, as correferências são feitas à partícula que tem grande chance de ser o bóson de Higgs . Destacaremos três variações feitas pelo locutor:
## a) Bóson de Higgs ; b) Misteriosa partícula ; c) A partícula derradeira ;
Essas variações podem indicar algo sobre a imagem que o locutor faz do referente. No entanto, 'não se trata de interrogar nem a consciência, nem o inconsciente do autor, mas o inconsciente da coisa dita' (FOUCAULT apud POSSENTI, 1988, p.105). Em outras palavras, não interessa à analise do discurso saber a intencionalidade do autor, pois 'o locutor, num determinado momento de menor controle, deixa emergir um traço que normalmente é instigado a esconder' (POSSENTI, 1988, p.102).
Consideramos que o autor utiliza inicialmente a expressão partícula que tem grandes chances de ser o bóson de Higgs para fazer referência a como os cientistas anunciaram esta descoberta. Na metodologia científica, a incerteza de um dado experimental é fundamental. Isto pode fazer com que a afirmação de um cientista não seja completamente categórica. Além disso, é sinal de bom senso considerar a possibilidade de não estarmos completamente corretos em nossa interpretação da natureza. O autor parece não considerar os apontamentos acima, nem o científico (incerteza) nem o filosófico (impossibilidade de acesso direto à realidade). Presumese, a partir das coesões léxicas utilizadas, que a imagem que o autor faz do referente, isto é, a imagem que ele faz da ciência, é como se ela fosse um empreendimento completamente exato, e que a descoberta científica seria totalmente objetiva. O uso da expressão partícula derradeira , em especial, também nos indica esta imagem. Esta era a última descoberta (do bóson de Higgs, da partícula derradeira) que faltava para completar, de maneira exata, a teoria do Modelo Padrão. O uso da expressão misteriosa partícula também pode indicar algo neste sentido.
## 4 - Análise polifônica
Utilizaremos como categorias de análise os diferentes tipos de locutores, como discutido na seção 2: Locutor enquanto responsável pela enunciação [L]; 2. Locutor enquanto ser no mundo [l] e 3. Locutor Impessoal [LI]. Mostraremos, também, os diferentes enunciadores presentes no texto de análise. Identificamos três enunciadores. São eles: E1: opinião senso comum sobre a ciência (algo próximo ao que é chamado de realismo ingênuo); E2: visão do cientista; E3: visão
do historiador da ciência. Nas subseções seguintes apresentamos as construções dos locutores e enunciadores presentes no texto de análise.
## 4.1 - Construção dos locutores
Recorte 1 Representação do locutor enquanto responsável pela enunciação
[L]:
(1) [...] o anúncio dessa misteriosa partícula coroa os esforços de milhares de cientistas ao redor do mundo que dedicaram suas vidas a entender como o maquinário fundamental do universo funciona.
O locutor enquanto responsável pela enunciação não se encontra, no trecho acima, completamente livre do locutor enquanto ente do mundo [l]. Com base no anúncio feito pelos cientistas, produz este enunciado. A presença de certo julgamento de valor, o anúncio coroa os esforços de milhares de cientistas , indica o quanto é difícil dissociar [L] de [l].
Recorte 2 - Representação do locutor enquanto ente do mundo. Neste recorte a posição do ente do mundo [l] fica mais exposta:
(2) É bom que a civilização tenha espaço para esse tipo de empreendimento .
Nesta enunciação há um julgamento, que só é possível de ser feito por uma pessoa do mundo. Se a pesquisa científica deve ou não ter espaço entre as atividades humanas, é passível de uma posição pessoal. Aqui temos evidência de que o locutor enquanto pessoa do mundo [l] deve articular argumentos a favor da valorização da ciência.
Recorte 3 - Representação do locutor impessoal [LI]:
(3) No início da década de 1970, contudo, uma teoria se destacou. Nessa época os cientistas confirmaram a existência dos quarks, partículas que constituem os prótons e os nêutrons, elementos que formam o núcleo dos átomos.
Este recorte traz uma mistura do discurso histórico e do discurso dos cientistas. É destacado que em um determinado período surge uma teoria, a qual confirma a existência de alguns elementos. A partir daí é usado o conhecimento da ciência para expor o que havia sido descoberto, assim corroborando o 'fato histórico' da teoria ter se destacado. Embora impessoal, pode-se considerar que a maneira como é organizada esta enunciação corrobora com o que o locutor enquanto ser no mundo [l] pretende defender.
## 4.2 - Construção dos enunciadores
Abaixo apresentamos dois recortes que representam o enunciador E1, opinião senso comum da ciência:
(4) Havia muitas teorias - modelo quark, teoria Regge, de Calibre, Matriz-S, entre outras -, prevendo centenas de partículas e complexas relações entre elas. Mas elas só conseguiam explicar pequenos pedaços da realidade.
Desdobrando este enunciado em posto [ p ], pressuposto [ pp ] e subentendido [ sub ] (INDURSKY, 1989), temos:
p - As diversas teorias existentes não conseguiam explicar toda a realidade, apenas pedaços desta.
pp - Existe uma realidade, cuja teoria científica pode acessar diretamente.
sub - Dentre as diversas teorias existentes a respeito da física de partículas, apenas o Modelo Padrão pode ser considerado verdadeiro, pois as outras teorias não explicavam toda a realidade.
## Segundo recorte para E1:
(5) A verificação experimental do bóson de Higgs não significa a vitória completa da ciência sobre a natureza, ainda.
- p - a ciência não venceu completamente a natureza com a descoberta do bóson de Higgs.
- pp - Há uma competição entre ciência e natureza. Enquanto a natureza se esforça para esconder seus mecanismos de funcionamento, a ciência se detém em decifrar tais mecanismos de funcionamento, acessando assim, a realidade última do mundo.
- sub - Aos poucos a ciência se aproxima da verdade. A cada nova descoberta acessamos uma parte da realidade que antes era inacessível aos nossos espíritos (mentes). Um dia a realidade será completamente desvelada.
Esta imagem de ciência como um desvelar da realidade é bastante difundida. Pesquisas mostram que 'os estudantes acreditam que as verdades pré-existem ao conhecimento e que há um caminho lógico simples entre a evidência empírica e a proposição de conteúdos teóricos' (PIETROCOLA, 2005, p.1). Assim, possivelmente muitos interlocutores se identificaram com esta imagem que está representada no discurso do locutor enquanto responsável pela enunciação [L], através de E1.
Recorte 6 - Representação da visão do cientista, E2 e do historiador da ciência, E3. Para além do uso da visão do cientista como um 'perseguidor' da teoria do tudo, temos algumas evocações deste enunciador, especialmente para destacar a importância da descoberta do bóson de Higgs para a ciência e para os cientistas, em particular, para o próprio Higgs. Embora seja possível diferenciar E2 de E3, notamos que eles, frequentemente, são convocados 'ao mesmo tempo' por [L]. Estes dois enunciadores, supostamente impessoais e 'poderosos', são combinados como forma de apresentar a enunciação com a 'carapuça' de verdade inquestionável. O trecho em que há uma cooperação mútua entre esses enunciadores é relativamente comprido:
(6) O pontapé inicial para a confecção do Modelo Padrão foi dado em 1960, quando o físico americano Sheldon Glashow descobriu uma forma de combinar a força eletromagnética e as interações fracas dos átomos, duas das quatro forças fundamentais (as outras são as interações fortes dos átomos e a gravidade). [...] Sete anos mais tarde, Steven Weinberg e Abdus Salam afundiram as ideias de Glashow às do físico escocês Peter Higgs. Em 1964, Higgs propôs a existência de um campo com o qual as partículas interagem. Essa interação confere massa às partículas. As que não interagem com o campo de Higgs não possuem massa e estão fadadas a viajar para sempre na velocidade da luz, como os fótons, a unidade básica da luz. A unidade básica desse campo foi batizada com o nome do físico: bóson (nome dado às partículas que 'transportam' energia) de Higgs. [...] Entre 1972 e 1974 experimentos confirmaram a teoria da interação forte entre as partículas (mais uma das quatro forças fundamentais). A descoberta deu ao Modelo Padrão sua forma atual e valeu a Glashow, Salam e Weinberg o Nobel de Física de 1979.
- p - O modelo padrão teve início em 1960. Seu pontapé é dado a partir da junção de duas forças (fraca e eletromagnética). Anos mais tarde essas ideias são fundidas com as ideias de Higgs. O mecanismo de Higgs é fundamental para explicar a origem da massa das partículas. Descobertas provenientes desta teoria valeram a cientistas envolvidos em seu desenvolvimento o prêmio Nobel.
- pp - O desenvolvimento da teoria do Modelo Padrão foi tão bem sucedida, que valeu um Nobel (altamente cobiçado) a cientistas envolvidos em sua construção.
- sub - O desenvolvimento de uma teoria é algo complexo, que envolve muitas ideias provenientes de diversos cientistas. No caso desta teoria, uma das ideias centrais é o mecanismo de Higgs. A partir disto pode-se inferir a importância de encontrar o bóson de Higgs nos experimentos dos aceleradores de partículas. Mesmo de maneira complexa, o processo de descobrimento das teorias não deixa de ser linear e acumulativo.
No parágrafo de conclusão nos chamou a atenção o uso da palavra ainda em diferentes enunciados. A palavra ainda é utilizada 6 vezes em apenas um parágrafo. Um destes usos já analisamos no recorte 5.
- (5) A verificação experimental do bóson de Higgs não significa a vitória da ciência sobre a natureza, ainda
- (7) Alguns cientistas ainda consideram o modelo pouco elegante por omitir a natureza da gravidade, considerada uma das forças fundamentais.
- (8) São questões que ocuparam e ocupam as mentes dos mais brilhantes cientistas, como Albert Einstein, que perseguiu uma teoria unificadora até o fim de seus dias, e Stephen Hawking, que ainda luta pelo mesmo objetivo a despeito de sua condição física paralisante.
- (9) Talvez o Modelo Padrão seja parte de um modelo ainda maior que inclui uma física ainda desconhecida
- (10) A incrível saga do bóson de Higgs parece ter chegado ao fim. Mas a jornada científica para entender os outros 96% do universo ainda está longe de acabar.
Em todos estes usos de ainda percebemos que há por trás a imagem de que a ciência está progressivamente a caminho de uma formulação final. Em (5) o uso de ainda configura que é questão de tempo para que a ciência vença a natureza e desvende todos os seus mistérios. Em (7), que os cientistas passarão a não considerar pouco elegante o Modelo Padrão assim que ela abarcar em sua estrutura a natureza da gravidade (o que deve ocorrer em algum momento da história, segundo o que fica subentendido). Em (8) o uso é um pouco diferente, mas ainda assim reflete uma espécie de 'crença' na vitória histórica da ciência. Cita dois grandes físicos. Um deles é Albert Einstein, o qual não tem nenhuma contribuição para a teoria do Modelo Padrão, mas que teria perseguido uma teoria unificadora (teoria de 'tudo', como diz o autor). O outro é Stephen Hawking, cuja deficiência física não o impede de buscar uma teoria que dê conta de explicar todos os fenômenos da natureza. Em (9) a crença de que só acessamos uma parte do que precisa ser conhecido, assim o Modelo Padrão é uma parte do todo (que ainda não conhecemos). Na enunciação final a indicação de que uma etapa foi superada, a etapa da saga do bóson de Higgs, mas que a ciência promoverá outras aventuras até que apreenda todas as verdades sobre o funcionamento da natureza.
A partir destas considerações podemos levantar umas das questões essenciais para a análise do discurso, a saber: por que determinados enunciados surgiram e não outros? Com base na análise do texto A incrível saga do Bóson de Higgs , pode-se indagar: por que o desenvolvimento do conhecimento da ciência é associado à palavra 'saga'? Acreditamos que a associação feita entre desenvolvimento do conhecimento científico e uma 'saga' reflete a posição do autor de que a ciência alcançará progressivamente as verdades do mundo. A 'saga da ciência', neste caso, pode ser associada à predestinação dos cientistas em conhecer os mecanismos inobserváveis da natureza. Esta é uma visão ingênua do ponto de vista do desenvolvimento da ciência, bastante criticada na área de ensino de ciências. Eventualmente, discursos textuais como estes têm impacto sobre estudantes, assim como os discursos imagéticos (presentes em filmes, propagandas, por exemplo) . Isso mostra a importância de se discutir e analisar dentro do ambiente escolar discursos sobre a ciência que existem fora deste ambiente , que por vezes acabam por transmitir subliminarmente concepções distorcidas ou ingênuas da NdC. Este trabalho se propôs a fornecer um exemplo de como instrumentos básicos da análise de discurso podem ajudar a revelar sentidos nos textos científicos (interessantes ou desinteressantes) que em geral não são percebidos de imediato. Defendemos, assim, que a introdução de aspectos da NdC no ensino de ciências não pode deixar de levar em conta também os discursos produzidos ou presentes fora da sala de aula.
## Referências
INDURSKY, F. Relatório Pinotti: o jogo polifônico das representações no ato de argumentar . In. Guimarães, E. (org). História e sentido na linguagem . Editora Pontes, 1989.
LEDERMAN, N. Nature of science: past, present and future. In: ABELL, S.K. e LEDERMAN, N.G. (eds), Handbook of Research on Science Education . Mahwah, New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, pp.831-880, 2007
ORLANDI, E. P. Análise do discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 1999.
PÊCHEUX, M. (1969). Análise Automática do Discurso (AAD-69). In: GADET & HAK (org). Por uma análise automática do discurso. Campinas: Ed. Unicamp, 1990, p.61162.
PIETROCOLA, M. Linguagem e Estruturação do Pensamento na Ciência e no Ensino de Ciências In: Pietrocola, Maurício;. (Org.). . Filosofia, Ciência e História. 1 ed. São Paulo: Discurso editorial, 2005.
PIRES, M. T (2012). A incrível saga do bóson de Higgs. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/a-incrivel-saga-do-boson-de-higgs. Acessado em 16 de outubro de 2013.
POSSENTI, S. Discurso, estilo e subjetividade. Editora Martins Fontes, 1988.
SILVA, Henrique & ALMEIDA, Maria José. O deslocamento de aspectos do funcionamento do discurso pedagógico pela leitura de textos de divulgação científica em aulas de física . In. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias , Vol. 4, nº 3, 2005.
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