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ESCOLHA DE LIVROS DIDÁTICOS POR PROFESSORES DE FÍSICA: ARTEFATOS DA CULTURA ESCOLAR OU MERCADORIA?

Alisson Antonio Martins, Nilson Marcos Dias Garcia

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
28/10/2014
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESCOLHA DE LIVROS DIDÁTICOS POR PROFESSORES DE FÍSICA: ARTEFATOS DA CULTURA ESCOLAR OU MERCADORIA?

## CHOICE OF TEXTBOOKS FOR PHYSICS TEACHERS: ARTIFACTS OF SCHOOL CULTURE OR MARKET GOODS?

Alisson Antonio Martins 1* , Nilson Marcos Dias Garcia 2**

1

UFPR/PPGE, alimartins@gmail.com

2 UTFPR/DAFIS e PPGTE, UFPR/PPGE, nilson@utfpr.edu.br

## Resumo

Apresentam-se os resultados de uma pesquisa qualitativa que teve como objetivo identificar de que modo a cultura escolar, a produção cultural e o mercado, enquanto eixos analíticos, se fazem presentes nas considerações relativas ao processo de escolha de livros didáticos de Física por professores que atuam na Educação Básica e que desenvolvem atividades de extensão relacionadas a esta disciplina escolar. Os sujeitos participantes da pesquisa foram professores brasileiros e portugueses que possuem características formativas e de atuação profissional semelhantes, configurando-se em uma amostra intencional. Os aspectos considerados pelos professores para a escolha de livros didáticos dizem respeito, prioritariamente à cultura escolar; entretanto, a produção cultural e os aspectos mercadológicos também se fazem presentes. A dimensão da cultura escolar se revelou através da importância atribuída à presença de listas de exercícios, de atividades experimentais, bem como através da adequação das obras aos currículos oficiais e aos processos seletivos de acesso ao Ensino Superior. Em relação à produção cultural, a autoria e a organização dos conteúdos de ensino motivam e influenciam a escolha de livros didáticos de Física, tendo esta questão se revelado prioritariamente para os professores brasileiros. Elementos de ordem conjuntural motivaram os professores portugueses a perceber a dimensão de mercadorias dos livros didáticos de modo mais acentuado, em alusão às distinções do mercado editorial entre os dois países. A análise dos resultados obtidos possibilitou verificar que os professores de Física, ao escolherem seus livros didáticos, realizam uma ponderação complexa entre a cultura escolar, a produção cultural e o mercado, e, portanto, a escolha dos livros didáticos de Física não se encerra em um determinado momento, de maneira pontual e isolada, desenvolvendo-se através de um processo complexo de produção de sentidos e significados, articulado com as características dos contextos culturais, econômicos e sociais em que estes se inserem.

Palavras-chave : Livro didático de Física. Produção Cultural. Cultura Escolar. Livros Didáticos e Mercadoria. Escolha de Livro Didático.

## Abstract

This paper presents the results of a qualitative research which aimed to identify how the school culture, the cultural production and the market, considered as

analytic frameworks, have been present in the textbooks selection process. The research focused on the selection process of Physics textbooks, conducted by teachers who works at the elementary education level. The research saw the participation of Brazilian and Portuguese teachers, who hold similar academic and professional background. Regarding the selection process of physics textbooks, the data analysis revealed that teachers consider mostly aspects related to the school culture, as well as the cultural production and market aspects. As for the influence of the school culture, the two groups of teachers agreed about the importance of the presence of exercises and experimental activities in the books. They also agreed about the importance of the books in the processes of selection to the undergraduate studies, as well as about its adequacy to the official curricular orientations. As for the cultural production, authorship and contents organization motivate and influence the choice of physics textbooks, especially when it comes to the Brazilian teachers. Conjunctural elements motivated the Portuguese teachers to realize the amount of market goods textbooks in more intense way, in reference to the distinctions between editorial markets of these two countries. The results obtained enabled us to verify that Physics teachers perform a complex assessment when choosing their textbooks. Some of the points considered are the school culture, the cultural production and the market. This means that the selection process is not executed in one single moment, but instead over the course of a complex process of production of meanings and significances, in relationship with the cultural, economic and social contexts in which they are inserted.

Keywords : Physics textbook. Cultural production. School culture. Textbooks and market goods. Textbook choice.

## Os livros didáticos de Física enquanto objeto de investigação

As pesquisas sobre os livros didáticos de Física no Brasil têm se ampliado nos últimos anos, especialmente a partir de meados da década de 2000, momento em que estes livros passaram a integrar o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) e, alguns anos após, com sua incorporação ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), política pública de compra e de distribuição de livros existente no Brasil desde 1985.

De acordo com Leite, Garcia e Rocha (2011) e Souza e Garcia (2013), a presença de resultados de investigações sobre os livros didáticos de Física e de Ciências em periódicos especializados e em eventos científicos teve um salto de quantidade a partir de 2004. Esta identificação contribui para que se perceba a superação de uma condição anteriormente identificada por Ferreira e Selles (2004) acerca do baixo número de investigações sobre os livros didáticos de Física nas três décadas anteriores a sua incorporação aos programas governamentais, indicando a consolidação de uma tendência de pesquisa com múltiplas abordagens.

Choppin (2004) indica que as investigações sobre as publicações didáticas são relativamente recentes no âmbito das pesquisas educacionais, pois, embora seja possível identificar pesquisas realizadas já a partir de 1950 (GARCIA, 2009), estas receberam um impulso significativo a pouco mais de trinta anos:

Se, a partir dos anos 1980, as iniciativas em fazer o recenseamento da produção escolar se multiplicaram, também mudaram de dimensão: tais

operações não mais se limitaram a inventariar uma lista específica de livros ou elaborar uma bibliografia seletiva ou indicativa; visam, de agora em diante, a serem exaustivas (CHOPPIN, 2004, p. 561).

Esta característica de exaustividade das pesquisas produzidas a partir daquela década levou a uma proliferação de linhas de investigação, com uma vasta gama de enfoques e de abordagens. Não obstante a dificuldade de categorizar o conjunto da produção acadêmica sobre as publicações didáticas, Choppin (2004), Reiris (2005) e Garcia (2009), fornecem elementos para que se perceba a existência de, pelo menos, quatro linhas de investigação principais.

Com base nestes autores, a primeira linha de investigação corresponde a estudos críticos, históricos e ideológicos sobre o conteúdo dos livros. A segunda se refere a estudos formais, linguísticos e psicopedagógicos sobre a legibilidade e a compreensibilidade dos livros, além de elementos sobre sua apresentação e adequação geral. A terceira está relacionada a estudos sobre as políticas culturais, editoriais e a economia política do livro, materializada nos níveis da produção, da circulação e do consumo. E, por fim, a quarta linha, correspondente às pesquisas sobre os usos do livro didático no espaço escolar que, embora não tenha sido explorada amplamente, representa uma abordagem diferente das demais.

Além destas possibilidades de categorização, Choppin (2004) indica que as pesquisas sobre os livros didáticos também podem ser compreendidas através da relação que estabelecem com estes livros. Por um lado, o autor indica que alguns estudos abordam os livros didáticos como um 'documento histórico' ou preocupamse essencialmente com os conteúdos de que são portadores. Por outro, outros estudos, em negligência aos conteúdos presentes nos livros, consideram-nos enquanto um 'objeto físico', em sua dimensão de 'produto fabricado', privilegiando a compreensão sobre a sua comercialização, circulação, distribuição, avaliação e consumo através do uso em certos contextos (p. 554).

Esta forma de categorização implica sobre os modos de se compreender o que sejam os livros didáticos. Ou seja, a preocupação com aquilo que se faz presente nos livros didáticos ou através de sua existência material indica a possibilidade de compreendê-los em função de suas especificidades em articulação com as necessidades que emergem do cotidiano escolar em suas relações com o todo da sociedade.

Para Forquin (1993) ele se constitui em um artefato da cultura escolar, por compreender o livro didático como um objeto destinado à educação formal no contexto escolar, de forma que é possível se entender, conforme Chervel (1990), que os conhecimentos que se expressam nos livros didáticos de Física, vinculados aos conhecimentos específicos desta disciplina escolar guardam relações com os conhecimentos escolares (LOPES, 1999), distinguindo-se dos da ciência de referência por sua função social específica nos processos de escolarização.

Em contrapartida, o estudo das relações entre os livros didáticos e a estrutura social mais ampla, possibilita compreendê-los enquanto produtos culturais (BITTENCOURT, 2004), em função dos distintos sentidos e significados atribuídos aos livros pelos distintos grupos sociais. Do mesmo modo, a análise de sua produção e de seu consumo pode ser compreendida através de elementos de ordem econômica, abordando-se estes livros como resultado de uma determinada atividade que os considera como mercadorias (APPLE, 1995; MUNAKATA, 2012).

Portanto, partindo do pressuposto de que os livros didáticos de Física devem ser compreendidos através da articulação entre a cultura escolar, a produção cultural e a produção mercantil, faz-se necessário investigar de que modo estas dimensões se apresentam para os sujeitos que se utilizam destes livros no universo escolar. Mais especificamente, no âmbito deste trabalho, serão apresentados os resultados de uma investigação que objetivou identificar o modo como estas dimensões se fazem presentes nas considerações de um conjunto de professores de Física em face da escolha de seus livros didáticos.

Neste sentido, dentro deste conjunto interpretativo, buscou-se verificar de que modo estes aspectos são considerados na escolha realizada pelos professores, como eles compreendem as dimensões constituintes dos livros didáticos, enquanto elementos da cultura escolar, produtos culturais ou produtos mercantis e de que modo eles percebem as possíveis conexões entre estas distintas dimensões. Além disso, investigar como estas conexões são evidenciadas pelos professores em um processo de escolha de livros didáticos de Física.

## Aspectos metodológicos da pesquisa de campo

Esta investigação, caracterizada como uma pesquisa qualitativa, de natureza descritiva e interpretativa, foi realizada junto a um grupo de professores de Física brasileiros e portugueses que atuam na Educação Básica e desenvolvem atividades de extensão em ensino, configurando-se em uma amostra intencional, orientada a um objetivo específico.

Realizada em duas etapas, primeiramente, a pesquisa compreendeu a aplicação de um questionário, através de um formulário on-line, com o intuito de obter informações sobre a formação acadêmica, a atuação profissional, as experiências em pesquisas e eventos científicos, além de um conjunto de elementos relativos ao processo de escolha dos livros didáticos de Física. Foram enviados questionários a trinta professores brasileiros, dos quais retornaram dezessete, e a trinta e três professores portugueses, com retorno de quatorze questionários.

Na sequência, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com oito professores brasileiros e com sete portugueses, com o intuito de explorar aspectos relacionados à escolha do livro didático de Física, oportunizando aos professores uma exposição mais aberta e aprofundada sobre este processo.

Para uma breve caracterização dos sujeitos de pesquisa, aponta-se que, dos trinta e um professores participantes, vinte e três atuam exclusivamente em escolas da rede pública de ensino, sete atuam simultaneamente em escola pública e em escola particular, quatro deles com mais tempo na escola pública e três na escola particular e apenas um professor atua exclusivamente em escola particular.

Vinte e cinco professores atuam, predominantemente, na escola secundária, quatro no ensino fundamental e dois no ensino técnico de nível secundário; entretanto, todos indicaram que possuem experiência de ensino com adolescentes (Ensino Médio no Brasil, Secundário em Portugal). Sobre o tempo de atuação profissional, este conjunto de professores apresenta, em sua maioria, um tempo de trabalho superior a onze anos, com apenas sete atuando há menos de dez anos.

As informações obtidas através do questionário e das entrevistas se constituíram nos principais objetos de análise da pesquisa de campo, tendo sido realizada tomando como pressupostos os da análise de conteúdo (BARDIN, 1994).

## Resultados e análises

A análise do conjunto de informações obtidas através dos questionários e das entrevistas semiestruturadas permitiu observar elementos de aproximação e de afastamento acerca dos aspectos considerados para a escolha dos livros didáticos de Física pelos dois grupos de professores pesquisados.

Em linhas gerais, tanto para os professores brasileiros, quanto para os portugueses, a escolha do livro didático assume como pressupostos centrais as especificidades de sua destinação para o uso escolar. Esta característica da escolha indica que a consideração do livro didático de Física como um elemento da cultura escolar predomina frente às demais dimensões consideradas, isto é, a de que ele é também um produto cultural e uma mercadoria.

Esta predominância pode ser exemplificada pela consideração de elementos que, notadamente, se relacionam ao significado que o livro didático possui para o processo de ensino-aprendizagem da Física. Isto é, predominantemente, os professores pesquisados consideram que os livros didáticos de Física cumprem funções instrumentais e referenciais (CHOPPIN, 2004), destacando-se que a sua escolha ocorre em função da presença de atividades experimentais e de listas de exercícios de aplicação.

A título de exemplo, a importância das listas de exercício para a escolha pode ser evidenciada através dos seguintes excertos que expressam os posicionamentos de dois professores, um brasileiro e um português, respectivamente:

Além da necessidade de ter boas orientações com o professor de física, o aluno precisa, para aprender, treinar questões diferenciadas. (B16Q ) 1

Os aspectos que mais valorizo num manual são a exploração acessível e cientificamente correta dos conteúdos, a presença de informação gráfica (imagens, tabelas, gráficos) que apoiem a compreensão desses conteúdos e a existência de exercícios de aplicação variados que permitam a sua consolidação. (P09Q)

Outro aspecto que indica a predominância da cultura escolar para a escolha dos livros didáticos de Física se revelou em função das considerações dos professores que procuram livros que estejam de acordo com as orientações curriculares oficiais vigentes em cada país. Neste particular, destacam-se algumas diferenças em relação às orientações curriculares de Brasil e Portugal, impactando, consequentemente, sobre o processo de escolha dos livros didáticos de Física. Ou seja, enquanto em Portugal o currículo oficial é unificado nacionalmente, no Brasil existem diretrizes e parâmetros curriculares nacionais, mas também orientações curriculares estaduais.

Esta distinção contribui para que os professores portugueses pesquisados percebam que os livros didáticos de Física guardem grande homogeneidade com o currículo oficial, ao passo que, para os professores brasileiros, por conta das diferentes orientações, esta homogeneidade não é verificada de modo satisfatório,

uma vez que esses livros têm a sua produção pautada, hegemonicamente, nos pressupostos das orientações nacionais em detrimento das estaduais. O posicionamento a seguir exemplifica esta ordem de dificuldade:

Outra coisa que, na escolha do livro que eu, não me agrada, que, de acordo com o PCN, e, lá [no Estado] nós temos também o [currículo do estado], que (...) nós temos que seguir. A escola exige que tenha que seguir. O que acontece? No [currículo do estado] eles colocam conteúdos pra ser ministrado no primeiro ano, conteúdos que eu só vou encontrar no livro do terceiro ano. (B04E)

Ainda sobre a noção de cultura escolar, os professores consideram a adequação das obras aos processos seletivos de acesso ao ensino superior como um importante aspecto para a sua escolha, não obstante as diferenças entre estes processos, consonantes às orientações curriculares de cada país. Se, por um lado, os professores portugueses indicam selecionar um livro didático que esteja fortemente relacionado aos exames de acesso ao ensino superior, por outro, os brasileiros apontam que as diferenças entre os variados processos seletivos implicam numa dificuldade para a escolha do livro, uma vez que é praticamente impossível encontrar uma obra que atenda às mais variadas exigências.

Embora os aspectos relativos às especificidades da escolarização formal ocupem um espaço central nas considerações apresentadas pelos professores pesquisados, foi possível identificar elementos de que eles consideram os livros didáticos também como produtos culturais e como mercadorias.

Sobre a dimensão da produção cultural, alguns dos professores pesquisados apontam que, objetivamente, não reconhecem que os livros didáticos de Física possam ter outro valor ou outro significado que supere a sua pertinência para os processos de ensino-aprendizagem. Porém, foi possível perceber que a presença de elementos diferenciados nos livros contribui para que eles sejam considerados como produtos culturais. A possibilidade de extrapolar, por exemplo, um uso 'convencional', pautado na análise de exemplos pré-elaborados ou na resolução de exercícios, a partir da atribuição de um significado especial à leitura, ao cuidado com os elementos de ligação com o cotidiano dos alunos, entre outros aspectos, indica que os professores pesquisados têm em vista a inserção dos livros didáticos no âmbito de um processo cultural mais amplo.

Outros elementos que indicam a percepção de que os livros didáticos de Física são produtos culturais estão relacionados à questão da autoria e da seleção e organização dos conteúdos de ensino.

A importância da autoria dos livros didáticos de Física se expressou, predominantemente, entre os professores brasileiros, através do levantamento de questionamentos críticos acerca da linguagem utilizada, do nível dos livros e da formação acadêmica dos autores. Do mesmo modo, a organização dos conteúdos de ensino pode ser compreendida em face da produção cultural, por se tratar de uma apresentação determinada em face de uma 'tradição seletiva' (WILLIAMS, 2011), em que determinados conteúdos são privilegiados em detrimento de outros.

Sobre a dimensão mercadológica dos livros didáticos foi possível perceber duas ordens principais de preocupação, uma relativa à questão do acesso aos livros e outra sobre o papel das editoras no processo de escolha.

Em relação ao acesso aos livros didáticos, os professores portugueses apresentaram posicionamentos mais acentuados acerca de suas características

mercadológicas, ressaltando aspectos relativos à situação de crise econômica pela qual passa o país. Neste sentido, estas percepções foram motivadas, essencialmente, por elementos de ordem conjuntural, estando atreladas aos impactos que recaem sobre o orçamento familiar dos estudantes que devem comprar os livros didáticos a serem utilizados durante o ano letivo.

De modo diferenciado, os professores brasileiros também levantaram considerações sobre o caráter mercadológico dos livros didáticos, através da percepção de que a sua distribuição gratuita no contexto do PNLD implica na realização social de seu valor, com a participação de toda a sociedade através do pagamento de impostos. Este aspecto é especialmente importante, pois indica que as preocupações dos professores brasileiros se diferenciam das dos portugueses, por considerarem que a dimensão mercadológica se revela de um modo estrutural, não meramente conjuntural, estando relacionado a outros aspectos sociais.

Sobre a presença, se ostensiva, das editoras no processo de seleção, o conjunto de professores brasileiros se demonstrou desfavorável a esta ação, enquanto que o conjunto de professores portugueses a encara com relativa normalidade, embora alguns também tenham se posicionado criticamente.

Aponta-se que prática de distribuição de brindes às escolas expressa um fortalecimento da dimensão mercadológica dos livros didáticos. Ou seja, a efetivação da escolha de determinadas obras pelos professores possibilitaria que, no caso das escolas públicas brasileiras, as editoras conseguissem fazer com que suas coleções fossem adquiridas pelo governo, no âmbito do PNLD e, no caso das escolas particulares brasileiras e do conjunto de escolas portuguesas, a indicação de determinadas obras representaria a possibilidade de ampliação das vendas entre os alunos. Assim, ao se ressaltar os recursos que acompanham os livros, ocorre um deslocamento do que deveria ser central para a sua escolha, representando, estritamente, uma vantagem de mercado de determinada editora sobre as demais.

## Considerações finais

Através da análise dos resultados da investigação, percebeu-se que a escolha dos livros didáticos de Física pelos professores participantes ocorre considerando-os, prioritariamente como elementos da cultura escolar, porém, esta , identificação não impede que se verifiquem as influências exercidas pelas outras dimensões.

Deste modo, ao se considerar que estes livros promovem uma determinada seleção cultural tendo em vista o atendimento de distintas necessidades, verifica-se que as formas de apropriação destes objetos variarão em função das especificidades de cada região e na medida em que cada uma delas se faz necessária, em suas articulações com o todo da sociedade. Da mesma forma, a organização dos processos de produção, distribuição e consumo de livros didáticos implica sobre as considerações dos professores, revelando-se que a sua compreensão enquanto mercadoria contribui para as formas de sua apropriação.

Enquanto um processo complexo de produção de sentidos e significados, a escolha dos livros didáticos de Física deve ser compreendida, portanto, com uma ponderação complexa entre a cultura escolar, a produção cultural e a produção mercantil, não se encerrando em um determinado momento do ano, de maneira pontual e isolada, desenvolvendo-se, porém, no conjunto de experiências formativas

e profissionais dos professores articulado com as características dos contextos culturais, econômicos e sociais em que estes se inserem.

## . Referências

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