O WHIGGISMO NA ABORDAGEM DA TEORIA DA RELATIVIDADE RESTRITA NOS LIVROS DIDÁTICOS DO PNLDEM 2012
Felipe Damasio, Luiz O. Q. Peduzzi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 30/10/2014
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2014
Texto completo
## O WHIGGISMO NA ABORDAGEM DAS TEORIAS DA RELATIVIDADE NOS LIVROS DIDÁTICOS DO PNLDEM (PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDÁTICO DE ENSINO MÉDIO) 2012
## THE WHIGGISM APPROACH OF THEORIES OF RELATIVITY IN THE TEXTBOOKS PNLDEM (PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDÁTICO DE ENSINO MÉDIO) 2012
## Felipe Damasio 1 , Luiz O. Q. Peduzzi²
## Resumo
Um número crescente de pesquisadores tem defendido que a educação científica insira conteúdos sobre ciência em sala de aula de modo a contribuir para o desenvolvimento das competências necessárias para a formação do cidadão do século XXI. As origens históricas da teoria da relatividade têm sido objeto de um sem número de estudos, porém, do ponto de vista didático, a discussão desse tema tem sido pouco ou nada explorada em sala de aula. A ênfase no ensino da relatividade de Einstein normalmente está em seus aspectos matemáticos em meio a uma completa descontextualização histórica. Este trabalho discute como o contexto histórico da Teoria da Relatividade é apresentado em livros didáticos recentes e que fazem parte do PNLDEM (Programa Nacional do Livro Didático do Ensino Médio) 2012, voltados para o Ensino Médio. Em particular, é analisada como a figura de Albert Einstein é apresentada procurando analisar se o tratamento se aproxima ou não do whiggismo. A análise identificou equívocos do ponto de vista da História e Filosofia da Ciência, porém pode-se perceber uma sensível adequação com a historiografia atual destas obras no contexto analisado pelo trabalho.
Palavras-chave : História da Física, Teoria da Relatividade, Albert Einstein, livros didáticos, whiggismo.
## Abstract
A growing number of researchers have argued that science education insert content on science in the classroom so as to contribute to the development of skills necessary for the formation of the citizen of the XXI century. The historical origins of the theory of relativity have been the subject of countless studies. However, the didactic point of view , the discussion of this topic has been explored little or nothing in the classroom . The emphasis in the teaching of relativity Einstein is usually in their mathematical aspects amid a complete historical decontextualization. This paper discusses how the historical context of the theory of relativity is presented in recent textbooks and forming part of PNLDEM (Programa Nacional do Livro Didático do Ensino Médio) 2012, aimed at high school. In particular, it is analyzed how the figure
of Albert Einstein is presented as an attempt to analyze whether or not the treatment whiggism approaches. The analysis identified misconceptions from the point of view of history and philosophy of science, but can perceive a sensible adaptation to current historiography in the context of these works analyzed the work.
Keywords : History of Physics, Theory of Relativity, Albert Einstein, textbooks, whiggism.
## Introdução
Pesquisadores têm defendido que a educação científica insira conteúdos sobre ciência em sala de aula de modo a contribuir para o desenvolvimento das competências necessárias para a formação do cidadão do século XXI. Isto não significa negligenciar a educação em ciências, mas agregar conteúdos específicos na busca de uma educação em sobre , e pela ciência (FORATO et al , 2011). Os que defendem o ensino de História e Filosofia da Ciência na educação científica, o fazem em favor de uma abordagem 'contextualista', em suas diversas perspectivas: histórica, ética, social, filosófica e tecnológica (MATTHEWS, 1995). O enfoque 'conteudista', apenas torna bastante difícil ensinar sobre ciência, além de ciência. A educação científica voltada unicamente para a resolução de problemas tem se caracterizado por seu perfil dogmático, fechado e ahistórico, construindo concepções problemáticas do fazer e do conhecimento científico (SILVA e PEDUZZI, 2012). A tradição de organização do conhecimento científico de maneira dessincretizada de certa forma descaracteriza a face construtivista da ciência, e colabora para construir imagens inapropriadas do conhecimento científico. O enfrentamento deste problema exige, entre outras ações, um melhor apreço didático à História da Ciência (CORDEIRO e PEDUZZI, 2011).
Especificamente em relação às teorias da relatividade, costuma-se pensar que a Teoria da Relatividade Especial foi criada por Einstein em 1905, porém muitos resultados importantes foram obtidos antes deste ano por Lorentz, Poincaré e outros pesquisadores (MARTINS, 2005). A concepção de Einstein de sua teoria em 1905 representou um ponto final em um longo processo (RENN, 2004). Seus resultados não foram obtidos de forma rápida, tampouco foram fruto da genialidade de uma única pessoa, mas sim construídos gradualmente por um conjunto de pesquisadores (MARTINS, 2005). Efetivamente, as origens históricas da teoria da relatividade têm sido objeto de um sem número de estudos (HOLTON, 1965; HOFFMANN, 1983; RON, 1985; RENN, 2005; STACHEL, 2005; MARTINS, 2005). Entretanto, do ponto de vista didático, a discussão deste tema tem sido pouco ou nada explorada em livros de texto e em sala de aula. A ênfase no ensino da relatividade de Einstein normalmente está em seus aspectos matemáticos em meio a uma completa descontextualização histórica. Esta situação inviabiliza o conhecimento dos problemas discutidos pelos físicos da época e uma melhor compreensão da solução dada pela formulação da Teoria da Relatividade.
Análises a respeito de como alguns temas são tratados sob o ponto de vista histórico em livros didáticos podem ser encontrados na literatura (MARTINS, 1998; BASSO e PEDUZZI, 2003; CARNEIRO e GASTAL, 2005; PAGLIARINI, 2007; ASSIS e RAVANELLI, 2008; SILVA e PIMENTEL, 2008). Ainda há trabalhos que investigam como especificamente é tratada a Teoria da Relatividade em livros didáticos (OSTERMANN e RICCI, 2002; OSTERMANN e RICCI, 2004; GROCH e BEZERRA
Jr., 2009; RODRIGUES et al , 2011). Em especial, em relação ao tratamento histórico da relatividade nas obras selecionadas no PNLDEM (Programa Nacional do Livro Didático de Ensino Médio) 2012, Moreira e Gurgel (2012) procuraram identificar as correlações estabelecidas entre os resultados dos experimentos ópticos de Albert Michelson e Edward Morley e o surgimento da teoria da relatividade no início do século passado. O estudo relatado, em parte, neste trabalho tem como objetivo analisar o tratamento histórico dado a Teoria da Relatividade Restrita e Geral nos livros do PNLDEM 2012. A discussão que será abordada neste texto é de como a figura de Albert Einstein é apresentada de acordo com a historiografia contemporânea procurando analisar se o tratamento se aproxima ou não do whiggismo.
## Historiografia da ciência: whiggismo
Por História pode-se entender o conjunto de acontecimentos, situações e fatos do passado. Por historiografia considera-se a produção dos historiadores, o discurso sobre a História, que é essencialmente apresentado através do texto escrito, que tem como objetivo expor uma interpretação sobre os fatos históricos. Historiografia é, então, a escrita da História, mas ela não é somente isso, é uma disciplina que se ocupa com a pesquisa histórica, em como fazer a coleta de dados, em quais critérios adotar para a escolha dos dados, em como fazer a sua análise e com qual orientação teórica. A pesquisa historiográfica define critérios arbitrários para direcioná-la. Critérios que se baseiam na concepção epistemológica e científica que se tem do objeto de estudo e da própria História (CRUZ, 2006). Forato et al (2011) colocam os requisitos da historiografia contemporânea ao se tratar de relatos de História da Ciência. Qualquer narrativa de História da Ciência traz consigo, de maneira explícita ou implícita, os valores, crenças e orientações metodológicas de seu autor. Muitas vezes nas entrelinhas de um texto percebe-se uma visão de ciência diferente daquela que se busca defender. Um dos equívocos que se pode cometer ao narrar História da Ciência é a reconstrução linear de episódios. O passado é organizado como se a Ciência seguisse etapas encadeadas logicamente, cujo resultado final seria fatalmente encontrado.
Lilian Martins (2005) coloca dois vícios historiográficos. O primeiro consiste em uma História da Ciência descritiva, cheia de datas e informações que não têm qualquer relevância para o assunto estudado. Este tipo de História da Ciência apresenta, muitas vezes, alguns indivíduos como gênios que tiraram suas ideias e contribuições do nada e os outros como personagens irrelevantes. É comum, também, que as obras centralizadas em um cientista específico - como Einstein, Darwin ou Lavoisier - apresentem todos os que não aceitavam suas ideias e seus antecessores como tendo opiniões equivocadas. Um segundo tipo de vício historiográfico seria o que Herbert Butterfield (1900-1979) chamou de interpretação whig da História, também conhecido como whigguismo. Este tipo de anacronismo deve-se a uma interpretação de eventos históricos com o objetivo de enaltecer a autoridade de pensadores ou instituições do passado com a finalidade de discorrer a História de maneira linear. Aspectos históricos são usados como recursos para promover uma espécie de heroificação de certos grupos, indivíduos ou instituições políticas ou religiosas. No contexto escolar, o whiggismo engrandece a contribuição de um único personagem da Ciência com o objetivo de enaltecer sua genialidade e omite ideias propostas anteriormente e contribuições de contemporâneos e membros de um mesmo grupo.
Devido aos trabalhos de Albert Einstein, em vários sentidos, transcenderam o contexto científico, 'o cientista' Einstein passou a ser um personagem público. Quando publicou sua teoria em 1905, ele era um completo desconhecido e, além disso, também era um 'outsider' (RON, 1985). Os méritos de Einstein na formulação da teoria da relatividade não são reconhecidos por todos. O matemático Edmund T. Whittaker, por exemplo, afirma que a relatividade especial foi na verdade formulada por Lorentz e Poincaré e reconhece a importância de Einstein somente em relação a correções relativísticas para a aberração e o efeito Doppler (PEDUZZI, 2011). A prioridade da publicação da famosa equação atribuída a Einstein, E=m.c² , é dada, por alguns autores, ao cientista italiano Olinto de Pretto (SANTOS, 2003). Ohanian (2009) chegou a afirmar que 'Einstein cometeu tantos erros na sua obra científica que é difícil rastrear todos eles' (p. 405).
Para grande parte das pessoas, no entanto, Einstein é sinônimo de genialidade. Uma questão que pode ser relevante é se os livros didáticos reproduzem ou não esta imagem popular do cientista alemão. A seguir será feita a análise do discurso de livros aprovados no PNLDEM (Programa Nacional do Livro Didático do Ensino Médio) 2012 procurando identificar se sua descrição engrandece a contribuição de Einstein com o objetivo de enaltecer sua genialidade ao negligenciar ideias propostas anteriormente, bem como a contribuição de cientistas contemporâneos.
## Análise dos livros PNLDEM-2012
O PNLEM prevê a distribuição gratuita de livros didáticos para os alunos do ensino médio público de todo o país, que são escolhidos por uma comissão com base em certos critérios (BRASIL, 2011). Todas as dez coleções aprovadas e recomendadas pelo PNLDEM 2012 e analisadas neste trabalho estão listadas as seguir. A ordem adotada para apresentação dos livros é a mesma do Guia dos livros didáticos: PNLD 2012 - Física: A 'Compreendendo a Física' de Alberto Gaspar; B 'Curso de Física' de Antônio Máximo Ribeiro da Luz e Beatriz Alvarenga Alvarez; C 'Conexões com a Física' de Blaidi Sant'Anna, Glória Martini, Hugo Carneiro Reis e Walter Spinelli; D 'Física - Ciência e Tecnologia' de Carlos Magno A. Torres, Nicolau Gilberto Ferraro e Paulo Antonio de Toledo Soares; E 'Quanta Física' de Carlos Aparecido Kantor, Lilio Alonso Paoliello Junior, Luis Carlos de Menezes, Marcelo de Carvalho Bonetti, Osvaldo Canato Junior e Viviane Moraes Alves; F 'Física' de Gualter, Helou e Newton; G 'Física aula por aula' de Benigno Barreto Filho e Claúdio Xavier da Silva; H 'Física e Realidade' de Aurélio Gonçalves Filho e Carlos Toscano; I 'Física em contextos - pessoal - social - histórico' de Alexander Pogibin, Maurício Pietrocola, Renata de Andrade e Talita Raquel Romero; J 'Física para o ensino médio' de Fuke e Kazuhito.
Percebe-se que o autor do livro A mostra que as Teorias da Relatividade não foram uma construção isolada de Einstein. No mínimo, as suas bases estavam bem estabelecidas e a contribuição de outros cientistas contemporâneos não pode ser menosprezada. O autor se afasta ainda mais do whiggismo quando abre uma pequena biografia de Einstein na caixa final do capítulo da seguinte forma (p. 317):
Einstein é um dos maiores físicos de todos os tempos e provavelmente o mais popular da história da física. Esta popularidade levou a sua mistificação. [...] Por isto, tudo que se conta ou se escreve a seu respeito deve ser ouvido ou lido com alguma reserva.
- O livro B traz um quadro de página inteira para tratar da figura de Albert Einstein. Nele, os autores o qualificam duas vezes como o 'grande físico'. Porém, o tratamento é sóbrio e não incorre no anacronismo do whiggismo quando coloca as limitações de desenvolvimento teórico de Einstein (p. 337):
Em Princeton, onde passou o resto de sua vida, dedicou-se principalmente à tentativa de elaborar uma nova teoria, denominada 'Teoria do Campo Unificado', na qual ele procurava relacionar a gravitação e o eletromagnetismo. Entretanto, não obteve êxito neste trabalho, morrendo sem conseguir alcançar seu objetivo.
Quando discute a Teoria da Relatividade Geral, os autores também não incorrem em whiggismo, quando colocam que Einstein cometera alguns equívocos de interpretação de sua própria teoria (p. 344):
O astrofísico alemão Karl Schwarzachild (1873-1916) aplicou as equações de campo de Einstein, ao caso de uma estrela. Sua previsão mostrava a existência de um raio limite, conhecido como raio de Schwarzachild [...] Einstein nunca acreditou que este tipo de previsão de suas equações pudesse de fato ocorrer. Hoje, no entanto, temos diversas evidências dos buracos negros, provenientes das observações astronômicas nas várias faixas do espectro.
No livro C , pode-se perceber um tratamento sóbrio, sem exaltação. Porém, aproxima-se do whiggismo ao desconsiderar as contribuições de Lorentz para a relatividade no quadro 'Para saber mais' (p.356):
Mas, então, por que Lorentz não foi capaz de formular completamente a teoria da Relatividade Restrita? Porque ele não conseguiu dar significado físico a essas transformações. Elas resumiam-se a artifícios matemáticos para justificar certos resultados inesperados da Mecânica.
- O livro D explicita a contribuição de Lorentz e Poincaré para a solução do impasse teórico da Física no fim do século XIX. Os autores atribuem a Einstein o mérito de dar às equações de Lorentz e Poincaré significado prático, ao 'encontrar o profundo significado físico destas relações e suas implicações na compreensão do universo' (p. 234).
- O livro tende ao whiggismo em vários momentos, como ao assegurar que Einstein propôs a Teoria da Relatividade Especial sem, provavelmente, conhecer a maior parte dos trabalhos já realizados sobre a incompatibilidade entre as equações de conversão de Galileu e do Eletromagnetismo.
- O livro E praticamente não apresenta a figura do cientista Albert Einstein. Nas poucas vezes tende ao whiggismo, e ainda troca a data de publicação da Relatividade Geral e Restrita (p. 204):
Albert Einstein, em 1905, propôs a teoria relativística da gravitação, também conhecida como teoria da relatividade geral, em que ele descreve as propriedades do espaço-tempo. Com suas teorias, revolucionou a Física, até então baseada nos princípios enunciados por Newton.
- O livro F não discute contribuições de outros cientistas para a Teoria da Relatividade de Einstein, apenas faz uma breve citação que outros cientistas contribuíram, entre eles Michelson, Morley e Lorentz. Porém, o discurso sempre se refere apenas ao cientista alemão quando fala da origem da teoria, como pode-se perceber nas citações: 'Einstein construiu a Teoria da Relatividade Restrita com base em dois postulados' (p. 312) e 'Einstein elaborou uma teoria que esclareceu muitas dúvidas e que acima de tudo foi constatada experimentalmente' (p. 313).
- O livro G destaca o trabalho de Lorentz (p. 323) 'cientistas como Hendrik Antoon Lorentz (1858-1928) e Jules Henri Poincaré (1854-1912) foram fundamentais para o desenvolvimento da Teoria da Relatividade'. O destaque dado ao trabalho de outros cientistas, que não se limita a apenas uma citação, para o desenvolvimento da relatividade de Einstein mostra que ele fazia parte de uma comunidade científica, se afastando da descrição de um gênio isolado em detrimento do trabalho de outros cientistas.
- O livro H procura contextualizar a Ciência como evento coletivo, chamando a atenção que os ícones da Ciência são usados para auxiliar o leitor a se situar no contexto histórico-científico. Ainda, ressalta que nenhum deles deve receber o mérito sozinho.
- O livro aborda o desenvolvimento da relatividade por Lorentz (p. 361): I
Defensor do éter, mesmo caminhando em sentido contrário ao exposto pela Relatividade e usando apenas teoria eletromagnética, Lorentz acabou chegando anos antes aos mesmos resultados de Einstein.
- O trecho evidencia a importância de Lorentz e se afasta do whiggismo em não diminuir contribuições de outros cientistas para exaltar a figura de Einstein. Os autores dedicam uma seção inteira a biografia de Albert Einstein, onde procuram desmitificar algumas anedotas a respeito da vida do cientista.
- O livro J , já no texto introdutório, menciona que a Teoria da Relatividade teve participação de vários cientistas (p. 234):
A Teoria da Relatividade Especial é o resultado do trabalho de cientistas físicos, matemáticos, filósofos - que, trabalhando em áreas aparentemente desconexas como a Mecânica e o Eletromagnetismo, levantaram singularidades que não podemos perceber em nosso cotidiano, mas mudaram completamente a maneira como entendemos o espaço e o tempo. [...] Os resultados levantados por Einstein englobaram muito da produção científica produzida até então e influenciaria de forma ímpar a ciência a ser produzida.
Este tipo de abordagem se afasta do anacronismo de mostrar que as teorias científicas são elaboradas por gênios isolados, e que a contribuição de outros não é algo relevante de registro.
## Considerações finais
Apenas quatro das dez obras identifica-se whiggismo no discurso dos autores, e apenas duas colocam que Einstein desenvolvera suas teorias de maneira isolada da comunidade científica. Pode-se, então, fazer uma análise positiva da abordagem da figura do cientista Einstein nos livros, pois a maioria dos livros se afasta do senso comum de tratá-lo como sinônimo de gênio, quando grande parte não enaltece a obra do cientista alemão ao desqualificar ou diminuir a contribuição de outros cientistas.
Uma possível conclusão da análise dos livros didáticos e de trabalhos anteriores é que houve uma sensível melhora de qualidade após o PNLDEM. No entanto, isso não garante a melhora da construção da concepção da natureza da ciência por alunos do Ensino Médio. Pois os próprios professores podem ter uma visão distorcida e diferente dos textos que abordam História da Ciência de acordo com a Historiografia atual, como relatam diversos trabalhos (MEDEIROS e BEZERRA FILHO, 2000; GIL PÉREZ et al , 2001), e o investimento na formação
docente é extremamente relevante para a construção e disseminação do entendimento de natureza da ciência mais adequado, de acordo com a historiografia atual. Logo, não é suficiente a distribuição de livros didáticos de qualidade cada vez maior, mas cabe ressaltar sua necessidade.
## Referências
ASSIS, A. K. T. e RAVANELLI, F. M. M. Reflexões sobre o conceito de centro de gravidade nos livros didáticos. Ciência & Ensino , v. 2, n.2, p. 1-11, 2008.
BASSO, A. C. e PEDUZZI, L. O. Q., O átomo de Bohr em livros de Física do Ensino Médio: um estudo exploratório. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, 15. 2003, Curitiba.
BASSO, A.C.; PEDUZZI, L.O.Q. O átomo de Bohr nos livros didáticos de Física: interagindo com autores. In: Encontro Nacional de Educação em Ciências, IV. 2003, Bauru.
BRASIL. Guia dos livros didáticos: PNLD 2012: Física . Brasília: Ministério da Educação, Secretaria da Educação Básica, 2011.
CARNEIRO, M. H. S. e GASTAL, M. L. História e filosofia das ciências no ensino de Biologia. Ciência & Educação , v. 11, n. 1, p. 33-39, 2005.
CORDEIRO, M. D.; PEDUZZI, L. O. Q. Aspectos da natureza da ciência e do trabalho científico no período inicial de desenvolvimento da radioatividade. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 33, n. 3, 3601, 2011.
CRUZ, R. N. História e historiografia da ciência: considerações sobre pesquisa história em análise do comportamento. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn . , v. 8, n. 2, p. 161-178, 2006.
FORATO, T.C.M.; PIETROCOLA, M.; MARTINS, R.A. Historiografia e natureza da ciência na sala de aula. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 28, n. 1, p. 27-59, 2011.
GIL PÉREZ, D. et al . Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação , v. 7, n. 2, p. 125-153, 2001.
GROCH, T. M.; BEZERRA Jr., A. G. O ensino de relatividade restrita e geral nos livro didáticos do PNLDEM 2009. Atas... XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF - Vitória, ES, 2009
HOFFMANN, B. Relativity and its roots . New York: Scientific American Books, 1983.
HOLTON, G. Einstein, Michelson, and the 'Crucial' Experiment. Isis , v. 60, n. 2, p. 132-197, 1969.
KÖHNLEIN, J.F.K.; PEDUZZI, L.O.Q. Uma discussão sobre a natureza da ciência no ensino médio: um exemplo com a teoria da relatividade restrita. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 22, n. 1, p. 36-70, 2005.
MARTNS, L. A. P. A história da ciência e o ensino de biologia. Ciência & Ensino , n. 5, p. 18-21, 1998.
MARTINS, L. A. P. História da ciência: objetivos, métodos e problemas. Ciência & Educação , v. 11, n. 2, p. 305-317, 2005.
MARTINS, R. O que é a ciência do ponto de vista da epistemologia? Caderno de Metodologia e Técnica de Pesquisa , v. 9, p. 5-20, 1999.
MARTINS, R. A dinâmica relativística antes de Einstein. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 27, n. 1, p. 11-26, 2005.
MEDEIROS, A.; BEZERRA FILHO, S. A natureza da ciência e a instrumentalização para o ensino de física. Ciência & Educação , v. 6, n. 2, p. 107117, 2000.
MATTHEWS, M. R. História, filosofia e ensino de ciências: a tendência atual de reaproximação. Caderno Catarinense de Ensino de Física , v. 12, n. 3, p. 164-214, 1995.
MEDEIROS, A.; BEZERRA FILHO, S. A natureza da ciência e a instrumentalização para o ensino de física. Ciência & Educação , v. 6, n. 2, p. 107117, 2000.
OHANIAN, H. C. Os erros de Einstein: as falhas humanas de um gênio . São Paulo: Larousse do Brasil, 2009.
OSTERMANN, F. e RICCI, T. F. Relatividade restrita no ensino médio: contração de Lorentz-Fitzgerald e aparência visual de objetivos relativísticos em livros didáticos de física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 19, n. 2, p. 176190, 2002.
PAGLIARINI, C. R. Uma análise da história e filosofia da ciência presente em livros didáticos de física para o ensino médio. 2007. 115 f. Dissertação (Mestrado em Ciências) - Instituto de Física de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2007.
RENN, J. A física clássica de cabeça para baixo: como Einstein descobriu a teoria da relatividade especial. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 27, n. 1, p. 27-36, 2004.
RODRIGUES, T. F.; PEREIRA, M. G.; TEIXERIA, E. S. Análise de conteúdos de relatividade nos livros de Física aprovados pelo PNLDEM (20092011): uma abordagem perspectiva histórica e filosófica. Atas... VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências. VIII ENPEC - Campinas, SP, 2011.
RON, J. M. S. El origen y desarollo de la relatividad . Madrid: Alianza Universidad, 1985.
SANTOS, C. A. O plágio de Einstein . Porto Alegre: WS Editor, 2003.
SILVA, D.A.; PEDUZZI, L.O.Q. O período de desenvolvimento da física newtoniana como contraponto às concepções e opiniões problemáticas a respeito do fazer e do conhecimento científico. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 34, n. 2, 2603, 2012.
SILVA, C. C.; PIMENTEL, A.C. Uma análise da história da eletricidade presente em livros didáticos: o caso de Benjamim Franklin. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 25, n. 1, p. 141-159, 2008.
STACHEL, J. 1905 e tudo o mais. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 27, n. 1, p. 5-9, 2004.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.