A DISTINÇÃO ENTRE OS CONTEXTOS DA DESCOBERTA E DA JUSTIFICATIVA: CONTRAPONTO COM OS ESTUDOS DE STEPHEN GRAY
Anabel Cardoso Raicik, Luiz O. Q. Peduzzi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 29/10/2014
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A DISTINÇÃO ENTRE OS CONTEXTOS DA DESCOBERTA E DA JUSTIFICATIVA: CONTRAPONTO COM OS ESTUDOS DE STEPHEN GRAY
## THE DISTINCTION BETWEEN THE CONTEXTS OF DISCOVERY AND JUSTIFICATION: CONTRAST STUDIES WITH STEPHEN GRAY
## Anabel Cardoso Raicik 1 , Luiz O. Q. Peduzzi 2
1 Universidade Federal de Santa Catarina/Programa de Pós Graduação em Educação Científica e Tecnológica, anabelraicik@gmail.com
2 Universidade Federal de Santa Catarina/Departamento de Física/Programa de Pós Graduação em Educação Científica e Tecnológica, luiz.peduzzi@ufsc.br
## Resumo
Ao longo do século XX a distinção entre contextos da descoberta e da justificativa (DJ) foi contestada por vários historiadores e filósofos da ciência. Apresentando diversas argumentações, eles buscaram mostrar a incoerência dessa separação para a compreensão e a análise dos pormenores da atividade científica. Nessa perspectiva, este artigo discorre sobre a dicotomia explicitada por Reichenbach (1938), apresenta algumas objeções a essa distinção e expõe a dimensão tomada pela mesma à luz da filosofia da ciência contemporânea. A partir de uma análise sucinta dos estudos de Stephen Gray - um eminente estudioso dos fenômenos elétricos do século XVIII - procura-se contrapor a separação dos contextos da descoberta e da justificativa, no âmbito de um ensino mais contextualizado histórica e epistemologicamente. Salienta-se que, abordagens com esse caráter no ensino de ciências propiciam aos estudantes, sobretudo aos futuros professores de física e aos futuros cientistas, uma compreensão mais adequada de certos aspectos relativos à Natureza da Ciência.
Palavras-chave : contexto da descoberta; contexto da justificativa; Stephen Gray; ensino de ciências.
## Abstract
Over the twentieth century the distinction between contexts of discovery and justification (DJ) has been challenged by many historians and philosophers of science. Presenting several arguments, sought to show the inconsistency of this separation for the understanding and analysis of the details of scientific activity. In this perspective, this paper discusses the dichotomy explained by Reichenbach (1938), presents objections to this distinction, and exposes the dimension it has taken in the light of contemporary philosophy of science. As from a brief analysis of the studies of Stephen Gray - an eminent scholar of electrical phenomena of the eighteenth century - this paper seeks to oppose the separation of the contexts of discovery and justification, under a more historically and epistemologically contextualized education. It is noted that approaches to under such approaches to
science education propitiate, especially future physics teachers and future scientists a better understanding of certain aspects of the Nature of Science.
Keywords : context of discovery; context of justification; Stephen Gray; science education.
## Introdução
O século XX é marcado por grandes (re) considerações sobre a ciência, no âmbito histórico e filosófico. No início do século, por exemplo, Reichenbach (1938) propôs a separação entre os contextos da descoberta e da justificativa (DJ). Nesta perspectiva, estabelecia-se uma dicotomia entre o processo da atividade científica e o seu produto. Consequentemente, os interesses de algumas disciplinas também foram distintos. A filosofia da ciência, puramente normativa, interessava-se apenas pelo contexto da justificativa, que apresentava uma reconstrução lógica da pesquisa científica. As considerações do contexto da descoberta deveriam se estender a outras áreas do conhecimento, como a história, a sociologia e a psicologia.
A partir da década de 1960, Kuhn, Popper, Lakatos, Feyrabend e Toulmin, entre outros, deram início a uma intensa e profícua discussão sobre a natureza da ciência e do desenvolvimento científico. O Colóquio Internacional sobre Filosofia da Ciência, que ocorreu em Londres em 1965 e resultou no livro 'Criticism and the growth of knowledge' (LAKATOS; MUSGRAVE,1970) atesta isso. Vários filósofos, como Hacking e Hanson, deram continuidade a essas discussões, analisando a ciência como uma atividade bem mais complexa, e permeada por aspectos humanos relevantes, do que aquela advogada pela concepção empírico-indutivista.
Em meados do século passado, o ensino de ciências também foi objeto de preocupações, várias delas influenciadas pelas discussões que se seguiram às do Colóquio de Londres. Com efeito, alguns projetos foram desenvolvidos com o intuito de contextualizar a ciência, com diferentes aportes teóricos, como o Projeto Harvard - que atribuía ênfase às concepções históricas, acentuando as dimensões culturais e filosóficas da ciência. A partir daí, intensificou-se o interesse pelo uso da História e Filosofia da Ciência (HFC) no ensino.
O objetivo desse artigo é o de explicitar a distinção entre os contextos DJ na perspectiva de Reichenbach (1938), apresentar objeções a essa distinção, à luz da filosofia da ciência contemporânea e a dimensão tomada pela mesma no âmbito histórico-filosófico. Para isso, faz-se incursões sucintas aos trabalhos de Stephen Gray, visto que seus estudos propiciam uma análise qualitativa da intensa ligação entre elementos inerentes ao contexto da descoberta e o contexto da justificação. Argumenta-se que um ensino contextualizado histórica e filosoficamente propicia aos estudantes, futuros professores de física e futuros cientistas, uma compreensão mais adequada da importância do processo científico, salientando-se as consequências epistemológicas da valorização apenas dos seus resultados.
## A distinção entre os contextos da descoberta e da justificativa
Em 1938, Hans Reichenbach (filósofo, físico e matemático) publicou o livro 'Experiência e Predição'. Nesta obra, ele explicita a distinção entre o contexto da descoberta e o contexto da justificativa (DJ). Para ele, há (e deve haver) uma
diferença entre a maneira como a atividade científica é desenvolvida e a forma como ela é apresentada à comunidade.
Na época de Reichenbach, a filosofia da ciência estava imersa no empirismo lógico. De fato, a gênese das teorias não tinha interesse algum para os defensores da epistemologia científica na década de 30 (ECHEVERRIA, 1995, p. 53). Nesta perspectiva, os estudos apresentados à comunidade eram uma reconstrução lógica da prática científica e não demandavam, necessariamente, uma explicitação do seu desenrolar. Há então, nesse contexto, uma diferença significativa entre como o trabalho dos cientistas são apresentados aos seus pares e a forma pela qual eles foram realmente desenvolvidos. É nesse sentido que Reichenbach (1938) apresenta sua dicotomia; introduzo os termos contexto de descoberta e contexto de justificação para marcar essa distinção (p. 6).
A separação entre os contextos DJ fundamentava e legitimava a filosofia da ciência como um campo autônomo em relação a outras áreas do conhecimento, como a história da ciência, a sociologia e a psicologia. A epistemologia, assim, considera um substituto lógico ao invés dos processos reais. Para este substituto lógico foi introduzido o termo reconstrução racional [lógica] (REICHENBACH, 1938, p. 5-6, grifo nosso).
No âmago desta distinção, o contexto da descoberta engloba os processos subjetivos da atividade científica (as ideias, as hipóteses, a casualidade, os erros, os imprevistos). Esse contexto era considerado 'irracional' e deveria restringir-se ao 1 interesse da história da ciência, da psicologia e da sociologia, disciplinas consideradas fatuais. Para Reichenbah (1953), então, o processo da descoberta escapa de uma análise lógica, já que não possui regras que permitam construir uma máquina descobridora que assumiria a função criadora do gênio (p. 211). O contexto da justifica, por sua vez, equivale à reconstrução lógica da atividade científica; isento de aspectos 'não-lógicos', esse contexto deveria ser analisado pela filosofia e epistemologia da ciência, disciplinas de caráter normativo. Contudo, a partir da década de 1960, diversas críticas foram feitas à essa distinção - dentre as quais, a separação da filosofia e da história da ciência para a análise do procedimento científico.
## Críticas à distinção DJ
Hoyningen-Huene (1987) e Arabatzis (2006) apresentam alguns argumentos, amplamente aceitos entre os que criticam a distinção DJ:
- (i) O contexto da descoberta e o contexto da justificação são processos temporalmente indistintos. Essa argumentação é, normalmente, defendida com o uso da história da ciência, especificamente com a utilização de casos históricos nos quais não há uma distinção temporal entre os contextos.
- (ii) O contexto da descoberta possui aspectos lógicos . Essa alegação contesta a concepção de que o contexto da descoberta deve ser analisado somente
pelos campos empíricos do conhecimento, como a história, a psicologia e a sociologia.
- (iii) O contexto da descoberta e o contexto da justificação são ambíguos. Uma vez que descobrir algo significa adquirir conhecimento e, consequentemente, justificar (implícita ou explicitamente) essa nova aquisição, a distinção entre os contextos adquire peculiaridade dúbia. Neste âmbito, alguns autores defendem que, se uma distinção é demandada ela deve, ao menos, discriminar três processos; a geração, a procura e o teste (por conseguinte a aceitação). No entanto, essas considerações também recaem, de certo modo, a distinção entre a lógica e o empírico.
- (iv) A justificação possui aspectos sociológicos e psicológicos . Essa premissa, cujo principal proponente é Kuhn (2011a, 2001b), argumenta que o contexto da justificativa possui elementos sociológicos - no âmbito da escolha social de teorias pela comunidade, que inclusive varia de uma comunidade científica à outra, ou de uma época à outra - e elementos psicológicos - visto que cada membro de uma comunidade pode interpretar diferentemente determinados valores. Kuhn argumenta que, as decisões fundamentais são justificadas no sentido das escolhas feitas de acordo com valores cognitivos dos sujeitos, ou de uma comunidade.
- (v) A psicologia e outras disciplinas empíricas são relevantes à epistemologia . Nesta perspectiva, argumenta-se que disciplinas fatuais podem ser importantes para a epistemologia. Elas podem oferecer elementos que permitem um melhor entendimento do conhecimento, uma vez que analisa seu processo.
- (vi) O tipo de raciocínio utilizado na atividade da descoberta não difere do raciocínio utilizado na sua justificação . Visto que a geração de hipóteses e teorias se estende, por vezes, à resolução de um problema ou à busca da compreensão de um fenômeno, a investigação científica abrange muitas fases, cada qual envolve, mesmo que parcialmente, uma justificativa.
As diferentes objeções apresentadas na literatura contra a distinção DJ permitem analisar a ciência como um processo que intercala as reconstruções lógicas e normativas com aspectos subjetivos aí presentes. Assim, essas críticas não necessariamente se pautam na diferença entre o que o cientista publica e a maneira com a qual procede em sua pesquisa - um dos aspectos explicitados por Reichenbah para sustentar sua argumentação. Por ter sido motivo para grandes reflexões na ciência, as rejeições a essa separação se pautam sob diferentes vertentes; abrangem outros aspectos que os contextos podem suscitar como, por exemplo, a dimensão lógica presente no contexto da descoberta e, conjuntamente, os aspectos sociológicos e psicológicos inerentes ao contexto da justificação.
## Os estudos de Stephen Gray: contraponto à distinção DJ
Stephen Gray (1666-1736) foi um eminente estudioso da eletricidade. Dentre suas contribuições, cabe ressaltar a 'descoberta' da comunicação da virtude elétrica e a conceitualização dos corpos que permitiam ou não a passagem dessa virtude (BOSS; ASSIS; CALUZI, 2012). Gray se encontra em um momento histórico muito incipiente no âmbito das compreensões dos fenômenos elétricos. Sobretudo, ele desenvolve inúmeros experimentos, com arranjos experimentais bastante simples (ASSIS, 2011). Uma de suas grandes virtudes era o seu estado de alerta para os efeitos imprevistos (HEILBRON, 1979, p. 243).
Sempre instigado a encontrar novas descobertas, no desenrolar de seus estudos, Gray se depara com algo inesperado. Isso ocorre quando ele começa a fazer experimentações utilizando um tubo de vidro à base de chumbo. Sua motivação inicial de que o tubo poderia comunicar sua virtude, uma vez que emitia luz ao ser atritado no escuro, o levou a uma descoberta notória na história da eletricidade. Ao eletrizar o tubo de vidro oco fechado com rolhas, ele observou que uma das rolhas (que não havia sido eletrizada) atraiu para si uma pena. Este fato não era concebível à época, uma vez que não se tinha uma estrutura teórica que explicasse o motivo de um material não eletrizado ter atraído outro corpo. No momento dessa descoberta, Gray se mostra muito surpreso e conclui que havia certamente uma virtude atrativa comunicada à rolha pelo tubo excitado (GRAY, 1731, p.20).
Gray busca analisar e relacionar este novo fato com suas próprias concepções de eletricidade e com aquelas vigentes à época. Ele se entrega a uma busca incansável para compreender esse novo fenômeno e analisar para quais materiais isso poderia novamente acontecer. Realiza diferentes experimentos, levanta novos questionamentos e chega à descoberta da condução elétrica por contato.
A gênese dessa descoberta está em uma casualidade, fator considerado não-lógico na perspectiva da distinção DJ. Diante da falta de uma teoria específica que esclarecesse o incidente, Gray poderia ter ignorado a observação feita, mas, à luz de suas concepções e inserido em estudos envolvendo conjecturas elétricas, ele buscou compreender esse acaso em sua investigação. Importa salientar que em determinadas casualidades emergem e são determinantes as convicções teóricas do estudioso. A sagacidade de Gray em compreender esse fenômeno e percebê-lo como algo digno de atenção o levou a essa descoberta (acidental), que passou a nortear os seus novos experimentos e a consolidar sua hipótese da comunicação da virtude atrativa. De acordo com Heilbron (1979) este é um exemplo clássico de um acaso que favorece uma mente preparada (p. 245). Os passos que dirigiram a pesquisa durante e depois desse evento não podem ser considerados irrelevantes. Afinal, cabe a pergunta: o que vem a ser uma descoberta casual no âmbito científico? Essa análise demanda não apenas um estudo histórico do episódio em questão, mas discussões no âmbito filosófico (KIPNIS, 2005).
No cenário atual, os filósofos e os historiadores da ciência alegam que os contextos da descoberta e da justificativa são entrelaçados de tal maneira que não permitem, satisfatoriamente, uma dicotomia. Como ressalta Kuhn (2011a), até que o cientista tenha aprendido a ver a natureza de um modo diferente, o novo fato não será considerado completamente científico (p. 78). Isso implica em admitir, também, que o tipo de raciocínio utilizado na atividade da descoberta científica não difere, fundamentalmente, do raciocínio utilizado na sua justificação. Afinal, a partir do momento em que se admite o novo, ele passa ser objeto de uma argumentação.
Prosseguindo com seus estudos, Gray se propõe a analisar para quais distâncias a virtude elétrica poderia ser conduzida. Assim, utiliza diferentes materiais com comprimentos extensos em seus aparatos. Em um de seus experimentos - que consistia em manter uma esfera de marfim presa a um tubo de vidro eletrizado por meio de um barbante preso a um prego - ele não constatou a comunicação da virtude atrativa. Em determinadas situações, a espera dos estudiosos pela ocorrência de determinados acontecimentos, pode nortear seus subsequentes
trabalhos (HANSON, 1967). Nesse caso, Gray desiste de fazer tentativas adicionais de transportar a eletricidade horizontalmente (GRAY, 1731, p. 25), devido a frustação de suas expectativas iniciais. Contudo, ele faz algumas demonstrações de seus experimentos a seu amigo Granville Wheller (1701-1770), membro da Royal Society, que, com uma percepção diferenciada, instigou Gray a entender o incidente encontrado no experimento em que não houve a transmissão da eletricidade. Juntos, conjecturam diferentes hipóteses para o problema que, dialogadas com as experimentações que foram desenvolvidas, levaram Gray a constatação de dois tipos de corpos. Os que conduzem a virtude elétrica e os que não a conduzem. Há, nesse episódio, um exemplo do quanto a justificação faz parte do contexto da descoberta. A cada novo procedimento, Gray argumentava, explicitamente ou não, os seus procedimentos; as justificativas eram aferidas a partir do desenrolar da pesquisa. Os contextos da descoberta e da justificativa são temporalmente indistintos.
A princípio, Gray acreditava que a esfera de marfim não havia recebido a virtude elétrica, porque o barbante que a conectava estava em contato direto com um prego, que por ter uma espessura considerável parecia receber toda ou praticamente boa parte dessa virtude e a transferia para o seu suporte (uma viga) e daí para o solo. A partir da hipótese de que a espessura do material interferia nesse fenômeno, começaram a utilizar materiais mais finos, como a seda. Dessa forma, obtiveram sucesso na eletrização da esfera. Todavia, não alcançaram o mesmo êxito quando utilizaram fios finos de ferro e latão. Por fim, Gray conclui que o sucesso que havíamos obtido anteriormente dependia das linhas [do material/tipo] que apoiaram a linha de comunicação, que eram de seda, e não devido ao fato de serem finas (GRAY, 1731, p. 29).
A partir desse momento havia no contexto da eletricidade a conceitualização do que viriam a serem chamados, mais tarde, de corpos isolantes e corpos condutores. Importa salientar que o processo de formação desses conceitos não passou por procedimentos pré-estabelecidos, mas por revisões, por contratempos, pelo desejo de conhecer e compreender novos fenômenos, de verificar, otimizar e variar (STEINLE, 1997), que estão interligados intensamente com o trabalho experimental dinamizado pelas hipóteses.
As hipóteses (lógicas) que regeram os estudos de Gray demandavam uma argumentação. E todo argumento requer 'verificação', 'confirmação', 'observação', 'interpretação', que fazem parte da estrutura conceitual de uma descoberta científica (HANSON, 1967). Logo, fatores inerentes ao contexto da descoberta estão intimamente ligados ao contexto da justificação; basta que se analisem as particularidades de determinados episódios históricos, como o de Gray.
## Implicações para o ensino
Romper com tradições escolares bem estabelecidas, não é uma tarefa fácil. O ensino ainda é majoritariamente orientado por uma concepção positivista da ciência. A perseverança, ainda existente, na dicotomia DJ por parte de filósofos, historiadores e, até mesmo, de cientistas, influencia a imagem de ciência disseminada nas salas de aula. Pela hegemonia dos resultados científicos e a pouca ênfase atribuída à gênese do conhecimento, o ensino de ciências acaba por apresentar a prática científica como um processo estático, neutro, aproblemático,
ahistórico, algorítmico, individualista e rígido (GIL PÉREZ et al ., 2001). A distinção DJ, nesta perspectiva, subestima o trabalho científico, empobrece a sua complexidade e distancia o ensino de ciências das discussões sobre a ciência.
Não raramente, os manuais didáticos detêm-se apenas nos resultados científicos; apresentando uma reconstrução lógica do desenvolvimento científico e omitindo a natureza do seu procedimento. Consequentemente, em diferentes níveis de ensino, muitos alunos acabam se deparando, entre outras coisas, com uma ciência estática e infalível, na qual inexistem fatores subjetivos. A subjetividade na ciência sempre foi vista como uma transgressora à sua objetividade. Contudo, ela faz parte da atividade científica, norteia novas investigações, permeia a escolha de teorias. Kuhn (2011a, 2001b) analisou a história da ciência como um processo, sobretudo, construído humanamente e, portanto, passível de subjetividade. Para ele, existem valores individuais e coletivos que conduzem e influenciam o desenvolvimento da ciência. Hacking (2012) ressaltou, por exemplo, o reconhecimento da ciência pelo que ela realmente é: muitas vezes uma complexa relação entre pensamento e ação, teoria e experimentação. Em suma, os filósofos contemporâneos buscam explicitar que os argumentos ditos 'lógicos' ou 'justificáveis' não se sobrepõem aos condicionamentos psicológicos e sociológicos, declarados pertencentes ao contexto da descoberta. Assim, não é possível separar-se os contextos DJ quando se analisa a Natureza da Ciência.
Como explicita a análise dos estudos de Gray, os elementos motivacionais, os aspectos humanos, as casualidades e os possíveis erros no desenvolvimento da pesquisa podem direcionar (e muitas vezes o fazem) a atividade científica. Ignorar esses elementos pelo apreço apenas ao contexto da justificativa, contradiz o 'verdadeiro' trabalho científico. A explicitação de casos históricos, com reflexões filosóficas pertinentes, propicia ao aluno uma compreensão mais adequada sobre vários aspectos relativos a Natureza da Ciência, e uma melhor assimilação da interferência de aspectos humanos e subjetivos no desenvolvimento científico (PEDUZZI, 2005). Nesse sentido, o ensino pode fomentar discussões sobre a ciência, quando concebe uma abordagem mais contextualizada em diferentes dimensões, como a histórica, a ética, a filosófica e a tecnológica (MATTHEWS, 1995).
Por fim, o contexto da descoberta expõe elementos importantes tanto para as disciplinas fatuais, como a história da ciência, quanto para disciplinas normativas, como a filosofia. A própria compreensão do que vem a ser uma descoberta casual demanda uma análise histórico-filosófica, que transcende a distinção dessas áreas do conhecimento. Como bem enfatiza Lakatos (2009): A filosofia da ciência sem a história da ciência é vazia; a história da ciência sem a filosofia da ciência é cega . Qualquer análise dos pormenores da investigação científica implica em apreciar o contexto da descoberta sob uma perspectiva histórica e filosófica e, consequentemente, estimar concomitantemente as relações entre os contextos da descoberta e da justificativa.
## Referências
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