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HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA E ENSINO: ANÁLISE DA HISTORIOGRAFIA DE ALEXANDRE KOYRÉ SOBRE GALILEU GALILEI E CONSIDERAÇÃO PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA

Maria Fernanda Bianco Gução, Marcelo Carbone Carneiro

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
29/10/2014
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA E ENSINO: ANÁLISE DA HISTORIOGRAFIA DE ALEXANDRE KOYRÉ SOBRE GALILEU GALILEI E CONSIDERAÇÃO PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA

## SCIENCE'S HISTORY AND FILOSOFY ON EDUCATION: AN ANALISIS OF KOYRE'S INTERPRETATION ABOUT GALILEO AND SOME ASPECTS FROM PHYSICS THEACHING FORMATION

## Maria Fernanda Bianco Gução 1 , Marcelo Carbone Carneiro 2

1 Universidade Estadual Paulista 'Julio de Mesquita Filho', Faculdade de Ciências, Programa de pósgraduação em Educação para a Ciência, carbone@faac.unesp.br

2 Universidade Estadual Paulista 'Julio de Mesquita Filho', Faculdade de Ciências, Programa de pósgraduação em Educação para a Ciência, mf@fc.unesp.br

## Resumo

A linha de pesquisa de História e Filosofia da Ciência pode ser hoje considerada como consolidada na área de Educação para a Ciência. Há décadas os estudos mostram as contribuições que tal preocupação pode trazer ao conhecimento sobre o conceito de Ciência. O trabalho desenvolvido tem por objetivo evidenciar a necessidade de reflexão sobre a historiografia das ciências no contexto da formação inicial de professores de física. O conceito de movimento norteou as discussões do período de revolução do conhecimento científico e merece atenção especial no que tange às versões e interpretações múltiplas sobre uma mesma figura. A pesquisa traz uma análise da interpretação de Alexandre Koyré sobre a ciência de Galileu Galilei e faz apontamentos sobre as contribuições que tal discussão pode trazer à formação de licenciandos em Física. Ressalta ainda a necessidade de contextualização filosófica nesta inclusão da história do conhecimento científico no entendimento do conceito de Ciência.

Palavras-chave : História e Filosofia da Ciência, Ensino, Historiografia, Galileu Galilei

## Abstract

The research of History and Philosophy of Science today can be regarded as consolidated in the area of Science Education. For decades, studies show the contributions that concern can bring to the knowledge of the concept of science. The work aims to highlight the need for reflection on the historiography of the sciences in the context of initial teacher of physics. For this, offers an analysis of the interpretation of Alexandre Koyré about the science of Galileo Galilei and makes notes on the contributions that such a discussion can bring the training of undergraduates in physics. Also emphasizes the need for inclusion in this philosophical context of the history of scientific knowledge in conceptual understanding of science.

Keywords : History and Philosophy of Science, Education, Historiography, Galileo Galilei

## Introdução

A aproximação da História da Ciência no processo de formação inicial de professores de ciências vem sendo objeto de estudo intenso, subsidiada pela necessidade de mudança no pensamento sobre a Ciência. Observamos nos últimos anos reformulações dos currículos de licenciatura com o intuito de atender aos apontamentos presentes nestes estudos. Acredita-se que a investigação científica possa instigar o desenvolvimento do pensamento científico. Este desenvolvimento deve estar calcado na inter-relação entre percepção e observação que, através dos diversos estudos científicos e modelos propostos, deu-nos o início da construção da Ciência. E esta ainda não está acabada! A atuação do professor no sentido de compreender e de mostrar a importância da Ciência histórica no processo do desenvolvimento científico pode despertar nos seus alunos o interesse pela essência da Ciência. (BATISTA, 2004, p. 463). O processo de construção tem diversas interpretações e é entendido de várias formas, com base filosófica e epistemológica, é consenso entre as teorias e filosofias científicas a não linearidade deste processo. Conflitos, impasses, disputas, saltos e cortes conceituais desenredaram o que se tem hoje como Ciência. Estes conhecimentos são provisórios; esta ideia pode preparar os alunos de licenciatura para uma realidade de Ciência em contínua transformação. (BASTOS, 1998, p.33; VANNUCCHI, 1996, p.19; SILVA DIAS; MARTINS, 2004, p.517).

A abordagem de conteúdos contextualizados historicamente difere de uma abordagem pseudo-histórica. Esta última que é frequentemente encontrada nos livros didáticos, refere-se a um breve relato pautado em nomes e datas, sem conexão ou exposição do quadro teórico em que determinado conceito foi desenvolvido. A nosso ver, essa perspectiva não contribui para a compreensão do processo de construção da Ciência, nem para um melhor entendimento dos conteúdos específicos. É preciso promover uma reflexão sobre o conhecimento produzido pela Ciência e também sobre a Ciência. Portanto, a utilização da História e Filosofia da Ciência no ensino de Ciências possibilita a identificação da concepção de Ciência subjacente e suas relações com cada momento do contexto histórico. (GUÇÂO, 2012).

Um dos períodos mais estudados da História da Ciência é a passagem do século XVI para o XVII, marcada pelas intensas discussões filosóficas e, sobretudo, 1 pelos questionamentos ao conhecimento elaborado até aquele momento. No entanto, há leitura historiográfica e filosófica que argumenta sobre a inexistência de ciência durante os séculos que separam Ptolomeu de Copérnico, sustentando a ideia de que apenas a teoria geocêntrica prevalecia nos estudos de cosmologia e cosmografia. Kuhn considera que 'a atividade científica, embora intermitente, foi muito intensa durante esta época e desempenhou um papel essencial na preparação do terreno para o nascimento e posterior triunfo da revolução copernicana.' (KUHN, p. 117, 1957). Este período recebe maior atenção com as obras galileanas.

Pensar a novidade trazida por Galileu por meio de sua defesa do copernicanismo implica em fazer uma leitura que preste atenção à questão da historiografia acerca de suas obras. Especificamente na presente pesquisa detivemo-nos em sua principal obra, a mais famosa, o Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano , com o intuito de compreender as diferentes interpretações sobre esta visão de mundo. Julgamos extremamente relevante uma leitura contextualizada e também a análise de diferentes leituras realizadas por historiadores e filósofos da ciência . A partir deste estudo, fazemos apontamentos sobre a relevância de tal estudo, e as implicações que poderia ter na formação do entendimento de ciência do aluno de graduação, para destacar a importância da inclusão da História e Filosofia da Ciência no Ensino de Ciências na formação inicial de professores, sob a perspectiva de leitura realizada por nós no presente trabalho, de maneira a possibilitar uma abordagem da ciência elaborada por Galileu ressaltando suas contribuições para o estudo do movimento, sob outro olhar, para um outro observador, por meio de outro referencial de observação.

Ao elaborar sua defesa ao heliocentrismo, Galileu parte do pressuposto de que o movimento é uma questão relativa, ou seja, depende da forma como o interpretamos e, principalmente, do referencial de observação. Em meio a séculos nos quais a teoria tida como verdade, colocava a Terra no centro do mundo e todos os astros orbitando ao redor dela, ele propõe que esta é a ideia que temos a partir da experiência sensível vivida; que uma observação a partir de qualquer um desses outros astros nos daria a mesma sensação: de imobilidade e centralidade. Ainda, ao propor o Sol como ocupando o centro dos orbes de revolução, propõe a descentralização da Terra e, ao mesmo tempo, centraliza, colocando-o como referencial de movimento, a imagem do homem perante o mundo, o que, para o período, influi em discussões de cunho além do científico, social, teológico e político. (GUÇÂO, 2012).

A metodologia de análise em História da Ciência deveria, assim, incluir uma análise interna das teorias científicas, que buscasse manter-se atenta às concepções da época e à lógica dos conceitos no interior da teoria. Concebemos a análise internalista como imprescindível para a História da Ciência; é, porém, relevante no interior do conhecimento científico em correspondência com a análise externalista. A pesquisa historiográfica procuraria levar em conta o texto (fonte primária) e realizar uma leitura das argumentações (ideias internas ao texto). O objetivo da pesquisa tem características de uma análise mais internalista que externalista, por meio do estudo da teoria exposta na fonte primária, como maneira de evidenciar a preocupação do estudioso em compreender a 'Física' proposta no próprio texto. Consideramos fundamental a análise do texto na sua fonte primária e as diferentes possibilidades de leituras que se apresentam (historiografia). Vemos que não há um Galileu, mas diferentes leituras e interpretações de um autor que tanto colaborou para a discussão das questões cinemáticas na Física (ou Filosofia Natural para ser mais exato) do século XVII e seu legado para os séculos vindouros.

Em meio a estas discussões, algumas questões merecem bastante atenção por parte dos pesquisadores, pois podem questionar a utilização da História da Ciência e o alcance dos objetivos propostos por sua inserção no Ensino de Ciências. Uma destas questões é o tipo de fonte histórica que pesquisadores e professores têm disponível para o trabalho com a História da Ciência em sala de aula. Há carência de material histórico em português de bom nível que possa subsidiar a

inserção da História da ciência no Ensino de Ciências (MARTINS, 2006, p. 24). Além disso, existe uma falta de conteúdo adequado de História da Ciência em livros texto. Isto tem sido apontado por trabalhos que mostram a má qualidade de parte do material histórico disponível para o ensino e os muitos equívocos no conteúdo histórico presente em livros texto do ensino básico e superior, ao discutirem a importância do material histórico para o ensino (MARTINS, 2001; MEDEIROS; MONTEIRO, 2002; OSTERMANN; RICCI, 2004; MARTINS, 2006; CALUZI et al., 2007; HOTTECKE; SILVA, 2011, p. 295; HOTTECKE; HENKE; RIESS, 2010, apenas para citar alguns). Ao procurar referências para tratar a História da Ciência em sala de aula o professor se depara com diversas histórias, trazidas pelos livros didáticos, baseadas em divergentes leituras na historiografia não explicitadas e não articuladas, sendo que muitas vezes ele não tem preparo para lidar com esta situação.

A figura de Galileu é um exemplo que possibilita relacionar as questões que julgamos imprescindíveis para a formação do espírito científico. Seu entendimento não é de fácil compreensão e requer conhecimento físico. Sendo assim, nossas discussões serão voltadas para a formação inicial de professores, mais especificamente, de professores de física. Pensar a localização de Galileu em seu momento histórico nos leva a pensar nas suas contribuições para o desenvolvimento do conhecimento científico, mais ainda, na sua interpretação de mundo, que requer, mais do que a compreensão de novos conceitos, outra forma de perceber as coisas do mundo; a representação galileana de mundo prevê para os mesmos fenômenos um novo observador, com um novo olhar. Nossa proposta de estudo tem por objetivo relacionar a interpretação de Koyré sobre a defesa galileana do copernicanismo e as contribuições que tal reflexão podem trazer na formação inicial de professores de física.

## Breve histórico sobre a discussão da ideia de movimento

Na teoria aristotélico-ptolomaica o conceito de universo é entendido como finito e completo, compreendendo dois mundos, o celeste e o terrestre, segundo o qual para o primeiro são observados movimentos perfeitos e uniformes, enquanto que o segundo é dotado, também, de movimentos violentos e irregulares. No mundo celeste (supralunar), nada existe além do céu, considerado único e completo e é impossível a existência de um espaço vazio. O universo aristotélico é hierarquicamente organizado por um conjunto de esferas cristalinas, ocas e homocêntricas que têm como centro geométrico o centro da Terra, sua estrutura básica é o Universo das duas esferas. A esfera maior, que contém as estrelas fixas, move-se ao redor de uma pequena esfera, a Terra, que permanece imóvel suspensa no centro da esfera que delimita o Universo. (ÉVORA, 1987). Os dois mundos são ocupados por materiais distintos e governados por leis distintas. Estrelas, planetas e esferas cristalinas são constituídos de éter e tudo o que é terrestre pelos quatro elementos fundamentais (terra, ar, fogo e água) ou da combinação deles. (ÉVORA, 1987).

A teoria ptolomaica não representa uma total ruptura ou revolução e baseiase fundamentalmente na teoria aristotélica, no entanto, sua perspectiva prevê algumas adequações e elementos que preservam a teoria das esferas, explicando-a de maneira mais plausível; bem como os problemas qualitativos relacionados ao movimento irregular dos planetas e as variações de brilho dos mesmos. Ptolomeu

explica os fenômenos celestes como produtos de movimentos regulares e circulares; incluindo os epiciclos e deferentes e combinando círculos excêntricos e epiciclos a um deferente básico, faz a adequação de sua proposta de sistema à teoria aristotélica. (ÉVORA, 1987).

A teoria copernicana prevê o Sol ocupando o lugar da Terra, o centro de translação terrestre não coincide com o centro do Sol, mas localiza-se em um ponto próximo dele. O movimento aparente não uniforme dos outros planetas pode ser explicado pelo movimento da Terra e do próprio planeta. (ÉVORA, 1987). Temos neste ponto da teoria copernicana os indícios de sua fundamentação no, hoje denominado, movimento relativo dos planetas; 'toda mudança de posição que se vê ou é devida ao movimento da coisa observada, ou do observador, ou então seguramente de um e de outro.' (COPÉRNICO, 1996, p. 29). Sua argumentação para o movimento e a descentralização terrestre é que os planetas são observados algumas vezes mais próximos dela (da Terra) e, outras vezes, mais distantes; concluindo não ser esta o centro de suas órbitas.

- O conceito de movimento é fundamental nas discussões que aconteceram entre os séculos XVI e XVII, nos quais é repensado o movimento terrestre. Proposições sobre a possibilidade deste são feitas em outros momentos anteriores, como pode ser observado no século XIV, por meio de teorias de Jean Buridan e Nicole Oresme, por exemplo. Estas proposições são alvo de estudos nos dias atuais, podendo citar-se Campos (2008), que discute as teorias sobre o conceito de impetus da época, sob a perspectiva da questão de ser plausível pensar sobre um movimento para o lugar que habitamos. Para o presente trabalho o objetivo é pensar o movimento como tema central da forma de olhar o mundo proposta por Galileu, não por acaso considerada por algumas leituras da historiografia como propulsora da 'revolução científica' do século XVII. Galileu propõe a mobilidade terrestre como explicação do que vemos no céu (movimento aparentes dos astros), na Terra (queda dos corpos) e até mesmo das marés, buscando argumentar como um novo referencial para o movimento permite pensar essa nova percepção dos movimentos produzidos pelos fenômenos terrestres que observamos no nosso cotidiano. (GUÇÂO, 2012).

O objetivo maior de Galileu é argumentar que a Terra não ocupa o centro do universo e que tem movimentos como os dos outros planetas, devendo ser considerada desta maneira; que o Sol ocupa o centro do sistema. Galileu discorre nas três primeiras jornadas sobre outra forma de olhar o mundo, apresentando as argumentações que tornam plausíveis a possibilidade e aceitação da teoria copernicana, que, para ele, tem sua prova final apresentada na quarta jornada, na qual se justifica o efeito das marés pelos movimentos terrestres. Hoje sabemos que sua explicação para tal fenômeno não era adequada, embora para o período fosse plausível e isso porque na época não se dispunha da dinâmica newtoniana dos movimentos, sendo seus argumentos todos fundados na cinemática dos movimentos. Seu objetivo final, o de provar a mobilidade terrestre pelo efeito das marés não é suficiente conforme sua proposta, seu livro deu base, porém, a outras discussões sobre a possibilidade de mobilidade terrestre mostrando como um novo referencial para os movimentos tornava a proposta de sistema de mundo de Copérnico totalmente possível.(GUÇÂO, 2012).

## A HISTORIOGRAFIA DA CIÊNCIA GALILEANA

A História da Ciência é escrita por diferentes historiadores, que imprimem uma variedade de interpretações históricas, isso implica em diferentes perspectivas e finalidades. Fica difícil fazer um julgamento quanto à qualidade dos produtos historiográficos. Há um inevitável enredamento entre os fatos e as interpretações. Provas documentais são interpretadas, ignoradas ou investidas de uma importância desproporcional, sofrendo forte influência e determinação social. Isso torna a História escrita ideológica . Surge, desta forma, a criação de mitos - doutrinas 2 socialmente úteis relacionadas indiretamente com fatos históricos - culminando na mitificação da História da Ciência. (KRAGH, 2001, p. 119-120).

- A 'Revolução Científica', como proposta por alguns intérpretes da História da Ciência, é alvo de intensa discussão sob a perspectiva da historiografia: 'Os historiadores da ciência têm discutido até que ponto a chamada 'Revolução Científica' é ou não real, isto é, se houve um período natural, histórico, desde Copérnico a Newton, durante o qual a filosofia natural se transformou na ciência moderna.' (KRAGH, 2001, p. 86).
- O estudo sobre as diferentes interpretações da teoria de Galileu Galilei neste contexto é um exemplo da diversidade historiográfica que se pode produzir a partir de uma mesma teoria. Kragh (2001) cita-o como uma fonte inesgotável de estudos históricos e considera que as diversas apresentações advêm dos diversos indícios fornecidos por ele sobre a sua forma de olhar o mundo e buscar explicações.

As múltiplas apresentações de Galileu são objeto de intensa reelaboração e reinterpretação. Podemos citar MOSCHETTI (2004), que faz uma comparação entre as diferentes figuras historiográficas de Galileu, com o intuito de expor a variedade de interpretações de um mesmo estudioso da natureza: 'cada um desses 'Galileus' está comprometido com a concepção de ciência particular de quem a criou, como não poderia deixar de ser, pois não existe uma interpretação neutra.' (MOSCHETTI, p. 79, 2004). Ainda, (ZYLBERSZTAJN, 1988, p. 36) apresenta algumas das principais versões a fim de evidenciar a necessidade de atenção ao fato de que a História da Ciência passa por estes quesitos historiográficos que ele julga necessários estar presente nos materiais didáticos como forma de transmitir a ideia de ciência conforme os pressupostos assumidos para a abordagem históricofilosófica no ensino de ciências. (ZYLBERSZTAJN, 1988, p. 36)

Diante do problema assim apresentado vemos a necessidade de se pensar a questão da historiografia da ciência no desenvolvimento de nossa proposta, pois as diferentes versões de Galileu ajudam na articulação da interpretação que teremos do autor. Para o presente trabalho trazemos a interpretação de Alexandre Koyré.

## O GALILEU DE KOYRÉ

Para Alexandre Koyré , o século XVII é marcado pela inovação do método 3 científico, segundo a qual a natureza passa a ser entendida por meio da geometria euclidiana que procura matematizar as explicações dadas para os fenômenos e o universo. Alguns estudos históricos produzidos sobre a época caracterizam uma 'ruptura' com a forma aristotélica de pensar a natureza. Segundo Koyré (1991), a novidade apresentada na teoria copernicana promove, mais que uma 'revolução' no âmbito da filosofia natural, uma 'revolução' no pensamento humano de dimensão muito significativa. Além disso, alguns pensadores desses séculos não só propunham uma maneira matematicamente sistemática de explicar a natureza como também destruíram a representação do mundo presente e substituíram-na por outra. Com o novo conhecimento, o entendimento humano teve de sofrer uma reestruturação, encarando o ser de outra maneira. (KOYRÉ, 1991). Essa 'revolução' constrói uma nova percepção dos fenômenos e dos objetos, um novo observador, um novo referencial, uma nova explicação do mundo. Nesse sentido, o maior problema a ser enfrentado pelos defensores do copernicanismo, entre eles Galileu, era não só as autoridades e a tradição, mas 'a visão comum de mundo', pois o conceito de movimento da Terra é contraintuitivo . 4

A interpretação proposta por Alexandre Koyré para a 'revolução científica' do século XVII descreve a física moderna a partir do estudo do movimento dos corpos pesados, tendo origem nos estudos dos problemas astronômicos. O abandono da concepção clássica e medieval do cosmo - unidade fechada num todo qualitativamente determinado e hierarquicamente ordenado - implica em uma nova concepção de universo - conjunto aberto e indefinidamente extenso do ser - dando uma identidade às leis fundamentais que governam a fusão das físicas celeste e terrestre; esta última utiliza e aplica a seus problemas os métodos matemáticos hipotético-dedutivos desenvolvidos pela física celeste. (KOYRÉ, 1991, p. 182)

Para Koyré a física moderna nasceu com Galileu e completou-se com Einstein, tendo como lei fundamental a lei da inércia. A Ciência Moderna tende a explicar tudo 'pelo número, pela figura e pelo movimento'. Koyré considera justa a menção de Galileu quanto ao princípio de inércia: 'embora Galileu nunca tenha formulado explicitamente o princípio de inércia, sua mecânica está, implicitamente baseada nele.' (KOYRÉ, 1991, p. 182). Koyré aponta como o maior obstáculo enfrentado pelo conceito o fato de que o senso comum é medieval e aristotélico. O princípio de inércia pressupõe: a) a possibilidade de isolar um dado corpo de todo o seu entorno físico e de considerá-lo simplesmente como existente no espaço; b) a concepção do espaço que o identifica com o espaço homogêneo infinito da geometria euclidiana; c) uma concepção do movimento e do repouso que os considera como estados e os situa no mesmo nível ontológico do ser (a ideia de movimento relativo parecia obscura e contraditória para os aristotélicos). (KOYRÉ, 1991, p. 185). Em contrapartida, os fundamentos da física aristotélica são: a)

heterogeneidade entre os conceitos matemáticos e os dados da experiência sensível; b) incapacidade das matemáticas em explicar a remissão das qualidades e em deduzir o movimento (não há nem qualidade nem movimento no reino intemporal das figuras e dos números) e c) movimento como um processo de mudança; apenas o repouso pode ser concebido como um estado: a meta do movimento. (KOYRÉ, 1991, p. 186)

Para Koyré, esta mudança de visão sobre as coisas da natureza causou uma revolução do pensamento humano que depende de uma radical 'mutação' intelectual; a concepção mecanicista da natureza é marcada pela procura do homem moderno por dominar a natureza, de maneira que a filosofia, a ética e a religião modernas dão ênfase à ação, à práxis 5 . A ciência de Galileu e Descartes não é produto de engenheiros ou de artesãos, mas de teóricos e filósofos e 'raramente ultrapassou o domínio da teoria.' (KOYRÉ, 1991, p. 153). Os traços característicos da Ciência Moderna são a observação e a experimentação. Estas afirmações de Koyré é que caracterizam sua apresentação de Galileu como platônico e é alvo de intensas discussões dentro da historiografia da ciência de Galileu, tornando-o um de seus principais e controversos autores. Sua leitura prevê que a observação é guiada pela teoria, de maneira que os apelos à observação e à experiência, que podem ser observados na obra galileana, ultrapassam a experiência de senso comum, tornando-se uma interrogação metódica da natureza - a experimentação. As respostas da natureza são recebidas em linguagem geométrica. (KOYRÉ, 1991, p. 154).

Koyré divide o pensamento científico em três etapas - física aristotélica; física do impetus (pensamento grego e do século XIV pelos nominalistas parisienses) e a física moderna - matemática de Galileu e Arquimedes. Em Galileu há uma forma de desenvolver um conceito novo e original do movimento. Em sua teoria o corpo tem estados, de movimento e de repouso, e estes são colocados no mesmo nível ontológico. Na dinâmica aristotélica e do impetus a ideia de força é que produz o movimento, enquanto que na moderna a força produz aceleração. O 6 movimento retilíneo e uniforme é impossível na física moderna, só podendo ser produzido no vácuo. (KOYRÉ, 1991, p. 162-5)

Koyré aponta para um dos motivos que guiaram o pensamento de Copérnico como o motivo físico (a impossibilidade de uma explicação física ou mecânica da astronomia ptolomaica) e defende a tese que, seguindo a lógica do pensamento copernicano sobre sua astronomia, chegaríamos à astronomia de Tycho Brahe. (KOYRÉ, 1991). O sistema de mundo de Tycho mantém a Terra no centro do universo, porém difere do sistema aristotélico-ptolomaico ao colocar os planetas orbitando em torno do Sol, e não mais da Terra. Desta maneira, apresenta a Terra estacionária no centro do universo sendo orbitada pela Lua e pelo Sol e este é o centro das revoluções dos planetas. Este sistema é proposto de maneira a prever os dados de observação que subsidiam também a teoria copernicana, embora sua proposta não tenha tido a mesma repercussão que a de Copérnico. Dentro deste contexto, temos algumas discussões em torno das possíveis influências de seu sistema nesse novo olhar para o mundo.

- O assunto do Diálogo , na interpretação de Koyré, 'é o direito da ciência matemática, da explicação matemática da natureza, em oposição à explicação não matemática do senso comum e da física aristotélica, muito mais do que o enfrentamento de dois sistemas astronômicos.' (KOYRÉ, 1991, p. 166). O Diálogo não é tanto um livro sobre a ciência quanto um livro sobre a filosofia; a solução do problema astronômico depende da constituição de uma nova física, por meio de uma nova maneira de pensar, as quais, por sua vez, implicam a solução da questão filosófica do papel que desempenham as matemáticas na constituição da ciência da natureza. Neste sentido, a oposição entre Aristóteles e Platão é quanto à 'questão' do papel e da natureza das matemáticas, já que Platão considerava as matemáticas particularmente apropriadas às pesquisas da física. (KOYRÉ, 1991, p. 167). Em Platão, as matemáticas têm posição superior e é decisiva na física. Por Aristóteles as matemáticas são consideradas como uma ciência abstrata, tendo menor valor do que a física e a metafísica '... a física não precisa de outra base senão da experiência e deve edificar-se diretamente sobre a percepção'; a matemática tem papel secundário e subsidiário de simples auxiliar. A grande questão neste ponto não é a geometria em si, mas o ser entendido como estrutura da ciência, estrutura do ser. A justificativa do aristotélico é que a natureza de ser físico é qualitativa e vaga para a ciência do real - a filosofia. A interpretação de Koyré sobre Galileu como platônico se baseia na ideia de conhecer como sinônimo de compreender matematicamente. Nas suas obras, Galileu faz numerosas alusões a Platão, menciona repetidamente a maiêutica socrática e a doutrina da reminiscência. (KOYRÉ, 1991, p. 170). 'O Diálogo e os discursos nos contam a história da descoberta ou redescoberta da linguagem que fala a natureza.' (KOYRÉ, 1991, p. 172). A experiência é substituída pela observação guiada; a nova ciência é uma prova experimental do platonismo.
- O que os fundadores da ciência moderna, entre os quais Galileu, tinham de fazer não era criticar e combater certas teorias erradas, para corrigi-las ou substituílas por outras melhores. Tinham de fazer algo inteiramente diverso. Tinham de destruir um mundo e substituí-lo por outro. Tinham de reformar a estrutura de nossa própria inteligência, reformular novamente e rever seus conceitos, encarar o ser de uma nova maneira, elaborar um novo conceito do conhecimento, um novo conceito da ciência, e até substituir um ponto de vista bastante natural - o do senso comum por outro que, absolutamente, não o é.

## Considerações finais

Entendemos a tese de Koyré como uma defesa da real possibilidade de Copérnico ter reorganizado (nova percepção) os dados de observação dos seus antecessores sob uma nova perspectiva para localizar o observador e seu papel no universo, na tentativa de buscar uma nova forma de conhecer, tendo em vista que as explicações dadas pelas teorias vigentes na astronomia não eram suficientes para esclarecer as incoerências sobre o movimento irregular dos planetas e as variações de brilho dos mesmos em determinados períodos. A nosso ver a interpretação de Koyré está em concordância com a afirmação de Évora de que 'Copérnico não observou novos fatos, nem sentiu falta de explicação de fatos antigos; mas antes a inovação introduzida pela Revolução Copernicana nasceu de uma reinterpretação neoplatônica de fatos bastante conhecidos pelos astrônomos do século XV.'. (ÉVORA, 1987, p. 124). Dessa forma, Kuhn irá afirmar que 'a

Revolução Copernicana foi uma revolução de ideias, uma transformação do conceito que o homem tinha do universo e de sua própria relação com ele'. (KUHN, 1957, p. 17).

O estudo histórico da obra galileana comporta certa complexidade por causa das diferentes 'leituras' que possibilitou a estudiosos de sua defesa do copernicanismo. A historiografia galileana apresenta-se sob diferentes perspectivas e correntes de pensamento. Por um lado, existem leituras sobre a maneira como Galileu desenvolve seu raciocínio e como fundamenta sua argumentação, com base na metodologia utilizada para a discussão, a partir da ideia de experimentação com fenômenos naturais. Um tanto diferente, da perspectiva das influências e também da maneira de interpretar sua proposta de heliocentrismo, a visão da aceitação de sua teoria como revolução no âmbito das ciências, como interpreta Koyré, caracteriza-o como nova forma de percepção. Há os que o enquadram como empirista, Stillman Drake, por exemplo, ressaltando a fundamentação de sua teoria por meio da investigação guiada da natureza. Assim, o estudo realizado procurou evidenciar e discutir essa complexidade na análise feita da história da ciência galileana, de maneira geral. Consideramos que, embora as argumentações de Galileu apontem para a realização de experimentação, esta é guiada pela teoria, proposta e guiada por um conhecimento não empírico.

Concebemos a análise realizada de extrema importância para justificar o estudo desenvolvido. Tomamos como imprescindível a extensão de nossa proposta de estudo e de desenvolvimento no ensino de nível superior, com o intuito de preparar o futuro professor para o uso dos materiais didáticos que ele terá disponíveis. Ainda, e principalmente, para que sua formação científica seja ampliada estendendo-se ao entendimento do desenvolvimento científico e da epistemologia da ciência.

## Referências

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