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ENTENDERAM MENINAS?

Debora M. Santos, , Leandro Londero, Thirza Pavan Sorpreso

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
29/10/2014
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ENTENDERAM MENINAS?

## 'GIRLS, DID YOU UNDERSTAND?'

## Leandro Londero 1 , Thirza Pavan Sorpreso , Débora Marques 2 2

1

UNESP/IBILCE /Departamento de Educação, leandrolondero@gmail.com 2 UNIFAL/ICEX/Curso de Física, thirza.sorpreso@unifal-mg.edu.br, deboramarques\_alfenas@hotmail.com

## Resumo

A partir da Análise de Discurso de linha francesa, investigamos o posicionamento das estudantes, de um curso de formação de professores de física, sobre questões de gênero na ciência, sobretudo aquelas que remetem ao potencial das mulheres no exercício de atividades científicas e ao posicionamento dos sujeitos docentes (professores) em atividade de sala de aula. Procuramos responder o seguinte problema: Como funcionam os discursos das estudantes de licenciatura em física sobre questões de gênero na ciência e no Ensino da Física? Para tanto, elaboramos um questionário e o enviamos para um total de 67 estudantes. Após, analisamos os discursos materializados nas respostas às perguntas feitas. A análise apontou marcas discursivas sobre a visão de gênero das estudantes. As sequências discursivas apontaram um imaginário no qual os docentes são porta-vozes de um ideário histórico patriarcado, que pode repercutir no rendimento, na baixa estima e na desistência do curso. A reprodução de desigualdades configura-se por meio do tratamento diferenciado de alunas e alunos, evidenciado em discursos como Entenderam Meninas?

Palavras-chave : Gênero na ciência, Análise de Discurso, Ensino de Física.

## Abstract

In order to investigate the opinion of undergraduate Physics students, the French Discourse Analysis was chosen to analyze their positioning in relation to genders in sciences, especially regarding the potential of women when working as teachers or when performing scientific activities. The following question presents the problem researched: how do the discourses of undergraduate students (future teachers) work when questions about gender in sciences are approached in Physics teaching? To do so, a questionnaire was elaborated and it was sent to a total of 67 students. After the analysis of all answers, the viewpoint of the students was manifested through a series of discursive markers. The discursive sequences showed an imaginary where the teachers are the spokespeople of historical and patriarchal ideals. The consequences of such imaginary may interfere in their efficiency, may produce low self-esteem and make many students give up on the course. Besides, reproduction of inequalities also happens; and it can be observed through the different treatment received by male and female students. This treatment is evidenced in classroom discourses, for instance, by questions as 'girls, did you understand?'

Keywords : Gender in Sciences, Discourse Analysis, Physics Teaching.

## O Cenário Inicial

Em outubro de 2013 o jornal americano The New York Times publicou um texto intitulado 'Why Are There Still So Few Women in Science?'. Nele, Eileen Pollack relata o estudo que comprovou que físicos, químicos e biólogos estão mais

predispostos a oferecer um trabalho a um cientista homem do que uma mulher com as mesmas qualificações. O estudo mostrou que apenas 14% dos professores americanos de física são mulheres. Pollack relata que o número de cientistas negros e hispânicos é ainda mais baixo. A autora questiona: O que ainda mantém as mulheres fora de um campo que oferece tanto em termos de perspectivas de emprego, de prestígio, de estimulação intelectual e renda? Uma possível resposta seria o sentimento de desconforto pela subvalorização e os obstáculos que poderiam encontrar ao longo do caminho.

Revisando os estudos que tratam da participação das mulheres na área de ciências localizamos que a obra 'Women in Science', escrita, em 1913, por H. J. Mozans, talvez seja a primeira produção mais detalhada sobre o assunto. Para Schienbinger (2001 apud LETA, 2003) essa obra convidava 'as mulheres a atuarem no empreendimento científico e desencadearem as energias de metade da população do planeta'.

Por outro lado, segundo Mascarenhas (2003), a publicação, na revista Science em 1965, do artigo 'Mulheres na ciência: por que tão poucas' (ROSSI, 1965) é considerado um marco por ser aparentemente o primeiro estudo publicado em periódico científico sobre o tema. Rossi (1965) trata da atuação de mulheres em atividades de Ciência e Tecnologia nos Estados Unidos, nos anos de 1950 e 1960. Os dados mostraram uma participação reduzida em algumas áreas: nas engenharias elas representavam cerca de 1% do total de empregados; nas ciências naturais a participação delas foi de aproximadamente 10%, oscilando entre 5% na física e 27% na biologia (LETA, 2003).

Vale a pena destacar que o International Journal of Science Education publicou em 2013 um artigo intitulado 'What Sort of Girl Wants to Study Physics After the Age of 16? Findings from a Large-scale UK Survey'. Nele, Mujtaba e Reiss (2013) investigaram as características de meninas de 15 anos de idade, que expressaram a intenção de estudar física. A análise baseou-se no décimo ano de escolarização (15 anos de idade) com 5.034 alunas de 137 escolas do Reino Unido como aprendizes da física durante o ano acadêmico 2008-2009.Os autores relatam que as diferenças cruciais entre as meninas que pretendiam estudar física e aquelas que não o fizeram é que as primeiras tiveram maior motivação extrínseca, percepções mais positivas de professores de física, maior competitividade e uma tendência a ser menos extrovertidas. Para os autores esse resultado sugere fortemente que a motivação extrínseca em física poderia ser a chave subjacente crucial que incentiva um subconjunto de meninas (assim como os rapazes) em querer estudar física.

É notório, na última década, o aumento de discussões sobre a presença das mulheres nas áreas científicas, tanto em nível nacional como internacional. No caso da física, os dados apresentados nestas discussões mostram que a porcentagem de mulheres diminui a cada etapa da carreira acadêmica e em cada nível de promoção no exercício profissional. Agrello e Garg (2009), com base no Physics World special issue: Women in Physics, argumentam que:

O número de mulheres na física parece estar crescendo e que é maior no começo dos estudos universitários e se reduz ao longo do mestrado, doutorado e carreiras profissionais. Contudo, no Brasil, a situação é um pouco diferente. Na matemática, em alguns ramos da engenharia e especialmente na física, o número de mulheres é extremamente reduzido, mesmo no nível da graduação (p. 1305-2).

Ainda, as autoras argumentam que não há incentivo específico para as mulheres estudarem ou trabalharem em ciência e tecnologia no nosso país. Ao longo

de sua formação e de sua carreira profissional, a maior parte das físicas recebem pouco apoio da sociedade e dependem extensivamente de seu empenho pessoal (AGRELLO e GARG, 2009).

É no campo das discussões sobre gênero na ciência que se situa a presente investigação. Na próxima seção apresentamos o referencial teórico sobre o qual estaremos apoiados para o desenvolvimento deste estudo.

## Referencial Teórico

Nossa base teórica constitui-se dos aportes teóricos da Análise de Discurso Francesa (AD), a partir de produções de Michel Pe GLYPH<31> cheux. Nessa vertente, o discurso mais do que transmissão de informação é efeito de sentidos entre locutores. Efeitos que resultam da relação de sujeitos simbólicos que participam do discurso, dentro de determinadas condições de produções (ORLANDI, 2010).

No escopo deste trabalho fundamental o entendimento das noções de condições de produção, ideologia, memória discursiva ou interdiscurso e silenciamento/não-dito. De acordo com Orlandi (2010)

As condições de produção incluem pois os sujeitos e a situação. A situação, por sua vez, pode ser pensada em seu sentido estrito e em sentido lato. Em sentido estrito ela compreende as circunstâncias da enunciação, o aqui e o agora do dizer, o contexto imediato (p.15).

A autora também enfatiza que na prática não podemos dissociar o contexto imediato e o contexto em sentido amplo, ou seja, o contexto sócio-histórico, uma vez que em toda situação de linguagem ambos funcionam conjuntamente.

Podemos dizer que o discurso carrega sentidos pré-construídos que são ecos da memória do dizer. Caregnato e Mutti (2006) esclarecem que

Entende-se como memória do dizer o interdiscurso, ou seja, a memória coletiva constituída socialmente; o sujeito tem a ilusão de ser dono do seu discurso e de ter controle sobre ele, porém não percebe estar dentro de um contínuo, porque todo o discurso já foi dito antes.

Por sua vez, o não-dito, nas palavras de Silva (2008), faz parte do discurso que não é palavra. A autora esclarece que, tendo em vista a impossibilidade de o discurso abranger uma enunciação completa, entende-se que o não-dito é constituinte, é fundador do discurso (p.43). O não-dito é subsidiário ao dito. De alguma forma, o complementa, acrescenta-se'. (ORLANDI, 2005, p. 82).

Por meio da análise discursiva, procuramos compreender o significado da palavra no seu sentido social, histórico, cultural e ideológico. Portanto, o processo de análise discursiva tem a pretensão de interrogar os sentidos estabelecidos em diversas formas de produção, que podem ser verbais (textos orais ou escritos) e não verbais (imagens, gestos/expressões corporais), bastando que sua materialidade produza sentidos para interpretação (CAREGNATO E MUTTI, 2006).

## Objetivo, Problema, questões de estudo e justificativa

Objetivamos compreender os discursos das estudantes, de um curso de formação de professores de física, sobre questões de gênero, sobretudo questões que remetem ao potencial das mulheres no exercício de atividades científicas e ao posicionamento do sujeito docente (professor) em atividade de sala de aula, no nível superior.

Procuramos responder o seguinte problema: Como funcionam os discursos das estudantes de licenciatura em física sobre questões de gênero na ciência e no Ensino da Física? As questões que permearam este estudo são:

- 9 Quais e como as questões de gênero são manifestadas nos discursos das estudantes?
- 9 Como as estudantes se posicionam em relação aos discursos dos docentes quando estes manifestam posições que envolvem questões de gênero?
- 9 Quais efeitos de sentidos são identificados nos dizeres das estudantes e dos professores?

Buscamos contribuir para o debate em questão, desvendando posições, efeitos de sentidos e silenciamentos que podem reforçar ou criar imaginários sobre relações de gênero na ciência. O estudo justifica-se uma vez que estudos sobre gênero e ensino de física não são frequentes na literatura da nossa área e menos ainda aqueles que levam em considerarão os discursos escolares das estudantes e dos sujeitos docentes de nível superior por parte das primeiras.

## Desenvolvimento do estudo

Como primeira ação, identificamos as estudantes por meio do acesso ao sistema acadêmico e mediante informações fornecidas pelo Departamento de Registro Geral e Controle Acadêmico DAE uma universidade brasileira. Após, buscamos localizar as estudantes desistentes, concluintes e as matriculadas, mas que não frequentavam o curso, por meio da criação de um grupo intitulado 'Meninas na Física' em uma rede social.

Utilizamos para a coleta de informações um questionário composto por um conjunto de 15 perguntas. Optamos por um questionário composto de perguntas abertas que foi enviado no formato online. O questionário foi encaminhado para o email pessoal das meninas mapeadas e, ainda, disponibilizado em um link no referido grupo das meninas em uma rede social. Solicitamos a colaboração espontânea com o preenchimento e o retorno das respostas.

## Os discursos, os imaginários e os efeitos de sentido

Consideramos importante, primeiramente, registrar alguns dados quantitativos em relação à permanência, conclusão e desistência das meninas no curso. Os dados obtidos mostram que, até o presente momento, dos 272 estudantes que ingressaram no curso, 84 são mulheres e 188 são homens. Do total de mulheres, 11 concluíram o curso, 53 desistiram ou trocaram de curso e 20 permanecem com vínculo institucional, matriculadas (15) ou com trancamento (05). Ressaltamos que algumas meninas, embora estejam matriculadas, não frequentam o curso.

A seguir analisamos alguns pronunciamentos que nos parecem significativos, os quais estabelecem efeitos de sentido e apontam para um possível funcionamento sobre as questões de gênero no curso investigado.

Primeiramente, algo que nos chamou a atenção foram os fatores sociais ligados à questão da presença feminina nos cursos de Física. Observamos que hoje as mulheres não são expressamente proibidas de ingressar na Universidade como foram em outras épocas, no entanto, nem sempre o contexto social no qual se insere a mulher na atualidade é propício para que ela possa realizar seus estudos, conforme apontam as estudantes nos depoimentos a seguir.

- '[…] Acredito que o número de mulheres na física é pequeno pelo fato de ser difícil conciliar profissão e a família. As mulheres também querem ter filhos, o que interfere na busca por emprego. Isso também se deve por questões culturais, pois a mulher só teve

acesso ao ensino superior muito tarde e também davam preferência pela área de humanas.'

'As turmas eram formadas essencialmente por homens, em minha opinião isso se justifica pela falta de apoio que as mulheres recebem, seja de pais, companheiros e até mesmo da sociedade a não seguirem as áreas que possuem predominantemente homens. Mesmo com a facilidade de entrar em uma universidade e seguir uma carreira, é notável que está ainda arraigado o pensamento de que às mulheres cabe a função de cuidar da casa, marido e filhos, deixando a carreira profissional e principalmente as carreiras ligadas à ciência de lado.'

Esses depoimentos indicam que a presença das mulheres nos cursos superiores também depende das condições sociais a que elas são submetidas e a imagem social do papel da mulher. Dessa forma, o problema ultrapassa os limites das escolas e universidades, não podendo ser pensado ou resolvido apenas nesses âmbitos. Por outro lado, a escola tem o papel formativo associado ao desenvolvimento de sujeitos que podem agir visando uma mudança social mais abrangente. As estudantes também se posicionam quanto à relação entre formação e condição social da mulher. Observamos em alguns depoimentos que o preconceito ou a imagem social da mulher estariam associados com essa formação educacional.

'[...] ainda vivemos em uma sociedade predominantemente machista e que mesmo pessoas consideradas 'intelectuais' apresentam pensamentos conservadores e preconceituosos.'

'Na minha opinião existe preconceito, principalmente por parte dos homens que seguem nas áreas científicas. Muitos [...] consideram que uma mulher não é capaz de lecionar aulas de física [...] fato esse que presenciei quando fui tomar a posse de um cargo público para professor da escola básica. No momento da escolha [...] tive prioridade pois tive boa pontuação [...] Os candidatos [...] eram predominantemente homens, mais velhos, por volta de seus 40 anos. Quando escolhi a escola que iria trabalhar e foi anunciado aos demais candidatos, muitos se revoltaram afirmando que uma recém formada não teria capacidade de assumir tal escola, que além de recém formada era também mulher e jovem. Imagino que se fosse um de seus companheiros, tal revolta não aconteceria.'

No primeiro depoimento a estudante parece apontar uma contradição. A formação educacional (intelectual) deveria diminuir os preconceitos de gênero, no entanto, ela afirma que não é o que se observa na realidade. Nesse sentido, podemos supor que na visão desta estudante a escola e/ou a universidade estariam falhando quanto à formação dos sujeitos no que diz respeito à questão de gênero. Subentendese em sua fala que essa seria uma função da escola e/ou universidade.

No segundo depoimento, a estudante considera que aqueles que estudaram nas áreas científicas apresentariam mais preconceito do que os estudantes oriundos de outras áreas. Poderíamos supor que para ela, o preconceito de gênero, além de não diminuir durante a formação, estaria sendo induzido pelos cursos em áreas exatas.

Os depoimentos anteriores nos fazem refletir se as questões de gênero são ou deveriam ser incluídas nos currículos, em especial das ciências exatas, e como. Algumas das estudantes entrevistadas expressaram suas opiniões sobre a inclusão dessas questões nos currículos ao serem questionadas sobre quais as modificações necessárias para que os estudantes permanecessem no curso e especificamente as mulheres. Duas estudantes responderam:

- '[...] devem ser feitas de forma curricular [...] deve ser feita uma maior contextualização da mulher na ciência, pontuar as descobertas e teorias nas quais as mulheres fizeram parte diferentemente como faz a maioria dos professores, abordando somente as descobertas de Marie Curie.'

'Encontros como uma mesa redonda onde pudessem ser discutidos os problemas mais específicos de cada aluna. A exposição (através de seminários [...]) de cientistas do sexo feminino que realizaram grandes feitos para a ciência.'

Observamos nessas respostas dois posicionamentos diferentes. A primeira considera que as questões de gênero deveriam fazer parte do currículo. Para segunda as questões de gênero deveriam ser incluídas como um elemento extra. Talvez ela não considere que a questão de gênero é curricular, mas algo a mais e, talvez, de importância secundária. Ainda, no que diz respeito à inclusão curricular das questões de gênero, algumas estudantes entrevistadas expuseram sua vivência durante o curso de Física:

'A única abordagem foi feita nas aulas de Física Moderna com referência ao trabalho de Marie Currie com a descoberta da radioatividade.'

'Sim, nas disciplinas de história da física e física moderna, é tratado o trabalho e contribuições das mulheres (Hipácia e Curie), como citadas na introdução desse questionário.'

'Foram momentos raros. Alguns professores comentaram sobre o papel da pesquisadora/cientista Marie Curie.'

A abordagem de elementos científicos desenvolvidos por mulheres na Ciência parece ser escassa devido a pequena participação das mulheres nesses empreendimentos, sendo realizada, no caso do curso das estudantes, apenas nas disciplinas de Física Moderna e História da Física. A Física Moderna se desenvolve em um momento histórico no qual há uma maior participação das mulheres em diversas áreas, incluindo as pesquisas científicas, o que nos traz a reflexão de que incentivar as estudantes mulheres, nos cursos de Física, apenas por meio da abordagem de teorias que incluem a participação de mulheres seja um elemento insuficiente.

Também há indícios nessas falas de que essa inclusão se restringe aos conteúdos que foram desenvolvidos por mulheres e não está acompanhada da discussão explícita de questões de gênero na ciência. Nesse sentido, podemos nos questionar se apenas a inclusão de mulheres e suas pesquisas na disciplina são suficientes para que o futuro professor possa lidar com esse problema.

Observamos, ainda que as pesquisadoras citadas também são incluídas no currículo por meio de disciplinas associadas à história e filosofia da ciência, indicando que talvez esse seja um espaço propício para realizar discussões de gênero. A isso se acrescenta o fato de que a participação das mulheres na Ciência é um dos elementos pertinentes nas discussões sobre a forma como ocorre o desenvolvimento científico, a natureza da ciência e sua não neutralidade, elementos constitutivos das disciplinas de História e Filosofia da Ciência.

É interessante notar, no que se refere à neutralidade da ciência, que uma estudante considerou que a ciência provaria a superioridade masculina. A estudante afirma que o pequeno número de mulheres no curso de Física se justifica por:

'Os homens terem mais facilidade com área de exatas e isso é comprovado na neuroanatomia'

A concepção de ciência neutra sustentaria uma visão de que tal superioridade é provada, talvez experimentalmente, ou seja, seria uma verdade. Na fala dessa estudante a visão de ciência neutra está associada à visão de que o resultado científico afirma e sanciona as diferenças de gênero, sendo algo que deve ser aceito e não questionado. No entanto, poderíamos criticar esse tipo de argumentação considerando a perspectiva de que a ciência incorpora elementos sociais,

principalmente se considerarmos que há predominância masculina na produção científica e nesse sentido nossas 'verdades científicas' seriam 'verdades masculinas'.

Nos depoimentos a seguir as estudantes escrevem suas justificativas para o fato do curso de Física constituir-se por uma maioria masculina. Em apenas um depoimento há a afirmação explícita de que isso ocorreria devido a uma pretensa superioridade masculina para o estudo da Física ou das Ciências Exatas, porém, em outros depoimentos, apesar de não explícitos, há indícios de que as mulheres exibiriam qualidades inferiores aos homens.

- '...não, penso que está mudando muito, pois as mulheres atualmente estão mais determinadas e são mais disciplinadas , muitos professores preferem trabalhar com alunas mulheres [...].' (grifo nosso)
- '[...] acho que uma maior assiduidade possa ser uma característica feminina, como exemplos: disciplina, responsabilidade empenho. O que pra mim é mais necessário para concluir esse curso até mesmo que o fato de ser/ou não 'inteligente' (grifo nosso)
- '[...] Isto se deve pelas pessoas falarem que física é curso de homens e não mulheres, por ter muitos cálculos ' (grifo nosso)

'No primeiro semestre eu percebi que alguns professores davam preferência e importância para [...] os rapazes do curso, e que para acontecer o mesmo com as mulheres nós tínhamos que ser mais sérias [...].' (grifo nosso)

- '90% eram homens, não sei o que justifica isso ao certo, talvez pode ser algo ligado à vocação da pessoa ' (grifo nosso)

No primeiro depoimento, a estudante indica que as mulheres de hoje seriam mais disciplinadas e determinadas e, por esse motivo, estariam sendo aceitas nos cursos de Ciências. Esse depoimento indica que, na opinião dessa estudante, em momentos anteriores, as mulheres não participariam da ciência por não terem as qualidades necessárias e não por que historicamente a mulher foi expressamente proibida de participar do empreendimento científico, independentemente de suas qualidades.

No segundo depoimento a estudante parece considerar que o esforço das mulheres compensaria uma pretensa falta de inteligência. O terceiro depoimento indica que os cálculos seriam especialidade dos homens e não das mulheres e o quarto que a provável falta de seriedade das mulheres faria com que elas não fossem aceitas da mesma forma que os homens. O último depoimento indica uma predisposição natural dos homens para as ciências exatas, mas não das mulheres.

Esses elementos nos remetem à questão do imaginário das mulheres sobre as mulheres. Os depoimentos indicam que elas se posicionam como inferiores em alguns sentidos e precisariam superar determinadas características significadas como femininas para poderem estar presentes nas áreas exatas.

Outro elemento importante de nossa análise é como as questões de gênero são implicitamente reforçadas nos cursos de formação de professores. Esse aspecto deve ser ressaltado para que os formadores de professores reflitam sobre seu imaginário. O depoimento a seguir ilustra essa questão:

'Durante [...] uma aula prática o professor sempre falava 'Entenderam direitinho meninas?' e o fato dele mencionar apenas as meninas não era legal, estávamos presentes em todas as aulas e participando de todos os experimentos como os rapazes [...].'

Não consideramos que o professor que trata as estudantes dessa forma esteja mal intencionado, pelo contrário, talvez ele considere que dessa forma estaria

'ajudando' as estudantes. Podemos supor que haveria nesse caso uma naturalização ou institucionalização de um discurso patriarcal.

## Considerações Finais

As análises dos discursos parecem indicar que há uma formação discursiva que silencia/apaga as contribuições das mulheres na Ciência. Este fato é percebido, talvez, pelo ocultamento de discussões, tanto nas disciplinas curriculares como nos discursos dos sujeitos docentes, sobre o papel e participação das mulheres no empreendimento científico.

As sequências discursivas remetem para um imaginário no qual os docentes são porta-vozes de um ideário histórico patriarcado, que pode repercutir no rendimento, na baixa estima e na desistência do curso. A reprodução de desigualdades configura-se por meio do tratamento diferenciado aos acadêmicos e acadêmicas evidenciado em discursos como ' Entenderam Meninas?'. Podemos inferir que os discursos das estudantes não funcionam de modo isolado, eles estão ligados a outros discursos que foram produzidos em uma dada conjuntura histórica, social, política e cultural. Por vezes, os discursos funcionam como sinais por meio dos quais ocorrem apontamentos de silêncios e de desigualdades.

Consideramos imprescindível constituir, na formação inicial, ambientes coletivos de discussões sobre questões de gênero, para que os futuros professores sintam-se preparados para lidar com questões de gênero e debater sobre estas quando do efetivo exercício docente.

## Referências

AGRELLO D. A.; GARG R. Mulheres na física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento. Revista Brasileira de Ensino de Física . v31, n1, p1-6, 2009.

CAREGNATO, R. C. A; MUTTI, R. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo. Texto Contexto Enfermagem . v15, n4, p679-84, 2006.

LETA, J. As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso. Estudos Avançados , n17, p271-284, 2003.

MASCARENHAS, M. G. Mulheres na Ciência Brasileira. Agência FAPESP , 2003.

MUJTABA, T.; REISS, M.J. What sort of girl wants to study physics after the age of 16? Findings from a large-scale UK survey. International Journal of Science Education , v35, n17, p2979-2998, 2013.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso. ORLANDI, E. P.; LAGAZZI-RODRIGUES, S. (Orgs.). Discurso e Textualidade . Campinas: Pontes, 2010.

\_\_\_\_\_\_. Análise do discurso: princípios e procedimentos . 5ed. Campinas, SP: Pontes, 2005.

ROSSI, A. S. 'Women in Science: Why so Few? Social and Psychological Influences Restrict Women's Choice and Pursuit of Carrers in Science'. Science , n148, p11961202, 1965.

SILVA, O. S. F. Os ditos e os não-ditos do discurso: movimentos de sentidos por entre os implícitos da linguagem. Revista da Faculdade de Educação , Salvador, n14, p3953, 2008.

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