A HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS: O CASO DA HISTÓRIA DA ASTRONOMIA NO ENSINO FUNDAMENTAL
Boniek Venceslau Da Cruz Silva, Hermano Ribeiro De Carvalho, Lucas Albuquerque Do Nascimento
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 28/10/2014
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS: O CASO DA HISTÓRIA DA ASTRONOMIA NO ENSINO FUNDAMENTAL
## THE HISTORY AND PHILOSOPHY OF SCIENCE IN SCIENCES TEXTBOOK: THE CASE OF HISTORY OF ASTRONOMY IN BASIC EDUCATION
Boniek Venceslau da Cruz Silva , Hermano Ribeiro de Carvalho , Lucas 1 2 Albuquerque do Nascimento 3
1 Universidade Federal do Piauí/Pibid de Ciências da Natureza/Grupo de Estudos e Pesquisa em História e Filosofia da Ciência, boniek@ufpi.edu.br
2 Universidade Federal do Piauí/Pibid de Ciências da Natureza/Grupo de Estudos e Pesquisa em História e Filosofia da Ciência, hermanoribeirodc@hotmail.com
3 Universidade Federal do Piauí/Pibid de Ciências da Natureza/Grupo de Estudos e Pesquisa em História e Filosofia da Ciência, luks\_993@hotmail.com
## Resumo
A História e a Filosofia da Ciência vem sendo discutida, há algum tempo, em revistas e eventos da área de Ensino de Física, principalmente a sua relação com a sala de aula. Uma das formas de sua inserção é feita por intermédio do livro didático de Ciências. Neste artigo apresentamos os resultados iniciais de uma pesquisa que teve como objetivo investigar a qualidade da inserção dos relatos históricos relacionados à História da Astronomia em livros de Ciências, no Ensino Fundamental, utilizados em escolas da rede pública da cidade de Teresina-PI. Dessa forma, tomando como ponto de partida os estudos realizados por de Whitaker (1979), Allchin (2004) e Martins (2004), montamos o nosso instrumento de pesquisa, centrado nas categorias: presença de historiografia whig, pseudo-história e quasehistória. Como resultados iniciais, podemos notar a presença de uma História da Ciência de natureza positivista nas obras, às quais, em vários casos, reforçam uma concepção de ciência distorcida.
Palavras-chave : História e Filosofia da Ciência, Historiografia da Ciência, Vícios Metodológicos, História da Astronomia.
## Abstract
The History and Philosophy of Science has been discussed for some time in magazines and events in the area of Physics Education, especially its relationship with the classroom. One of the forms of insertion is through the Sciences Textbooks. This article shows the initial results of a research that aimed to investigate the quality of the insertion of historical reports related to the History of Astronomy in books of Sciences used in the public schools of the city of Teresina-PI, in basic school. Thus, we use studies of Whitaker (1979), Allchin (2004) and Martins (2004), and then we elaborate our research instrument. It was based on the categories: presence of Whig historiography, pseudo-history and quasi-history. As initial results, we note the
presence of a history of science positivist nature in the books. They reinforce a view of science distorted.
Keywords : History and Philosophy of Science, Historiography of Science, Methodological Defect, History of Astronomy.
## Introdução
A inserção da História e Filosofia da Ciência (HFC) na sala de aula, há algum tempo, vem sendo alvo de discussões em pesquisas, eventos e revistas especializadas em Ensino de Ciências.
Um dos vários resultados expostos pela literatura especializada (veja, por exemplo: MATTHEWS, 1995) é que a compreensão da construção do conhecimento científico, por intermédio da História da Ciência, favorece a problematização de concepções distorcidas da Ciência. Algumas dessas concepções são conhecidas e amplamente divulgadas pela literatura especializada (cf: LEDERMAN, 1992; SILVA, 2010), a saber: (a) visão empírico-indutivista e ateórica da ciência; (b) a ciência é uma forma de conhecimento superior às demais, incontestável e imutável; (c) conhecimento científico como sendo acumulativo de crescimento linear; (d) para ser um cientista é preciso ser um gênio; (e) crença na existência de um único método científico; (f) fatores extracientíficos, como religião e política, não influenciam na ciência, dentre outras.
Desde a década de 90, do século passado, presenciamos uma discussão ampla sobre o Ensino Fundamental, no Brasil, na qual o livro didático ganha um grande destaque (MEGID NETO; FRACALANZA, 2003 ). Passados quase três décadas, muito devido à exposição de suas deficiências, podemos notar uma melhoria na qualidade dos livros adotados pelo Ministério da Educação (MEC). Embora as avaliações criteriosas das obras sejam feitas por um grupo de especialistas, sabemos que a escolha e a utilização de tais obras cabem aos professores.
Portanto, inicialmente, deve-se questionar a forma como a HFC está sendo inserida nos livros didáticos, pois o mesmo é tanto o primeiro contato dos alunos com a Ciência como, em alguns casos, instrumento de capacitação de professores.
Dessa forma queremos alertar também que uma das possíveis transmissões de concepções distorcidas sobre a Ciência na sala de aula possa ser pelo livro didático e por intermédio da História da Ciência (HC). Ela dar-se-á, principalmente, pelos professores desavisados e sem um mínimo conhecimento, por exemplo, de elementos de Historiografia da Ciência e Epistemologia da Ciência. Por isso, reforçamos a importância dessas discussões na formação do professor, pois assim poderemos estar tanto preenchendo lacunas na formação do mesmo bem como lhe possibilitando elementos que oportunizem uma melhor escolha do livro didático no que diz respeito à HFC.
Neste trabalho trazemos um recorte de uma pesquisa mais ampla, a qual busca não só avaliar a qualidade dos relatos históricos contidos nos livros de ciências do ensino fundamental, mas também analisar a qualidade das atividades propostas, como também, por se tratar de livros dos professores, as recomendações que os autores das obras direcionam aos docentes.
Contudo, neste primeiro momento, procuramos analisar a qualidade da História da Astronomia inserida nos livros didáticos de Ciências, do sexto do Ensino Fundamental, da rede pública de Teresina-PI, das escolas conveniadas ao Projeto Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência da Universidade Federal do Piauí PIBID/UFPI, na área de Ciências da Natureza.
Pretendemos, com a análise destas obras, problematizar como a História da Astronomia é apresentada nos livros didáticos.
## Historiografia da Ciência e Ensino de Ciências
A História da Ciência se preocupa em estudar o processo de construção do conhecimento científico. Ela tem como objeto de estudo não somente o que é considerado ciência, nos moldes atuais, mas, sim, o que foi considerado em algum momento da História como Ciência (MARTINS, 2004).
Um episódio histórico adequado não se preocupa em excluir os supostos vilões da Ciência, apresentando somente o que deu certo em contrapartida ao que foi declarado como errado nos tempos atuais. Nestes tipos de textos históricos, que devem ser evitados, é frequente a busca do entendimento de teorias do passado à luz de teorias atuais. Na literatura especializada, tal equívoco, resulta numa visão anacrônica da Ciência.
Dessa forma, ao tomar como bases fontes históricas não confiáveis, podemos chegar a resultados errôneos, recaindo em vícios metodológicos e escolhas equivocadas em sala de aula.
Portanto, defendemos aqui a necessidade dos docentes de Ciências, no sentido de evitar escolhas inadvertidas sobre relatos históricos da Ciência, possuam algumas discussões sobre a Historiografia da Ciência Contemporânea, que, assim, possam amenizar o problema da inserção da HFC de forma inadequada, amenizando, por exemplo, compreensões errôneas sobre a construção do conhecimento científico.
Neste trabalho, sinalizamos três elementos que devem ser evitados pelo professor ao inserir a HC em sala de aula pelo livro didático de Ciências ou por qualquer outra fonte de consulta.
Primeiro ponto que cabe ressaltar é o whiggismo . Nele, a HC analisa o passado à luz do presente. Nesse tipo de relato encontramos uma busca por uma visão geral e abreviada da história, gerando relatos distorcidos e anacrônicos. Um bom exemplo disso é possível ser visto em alguns livros de Física, os quais atribuem características ondulatórias à teoria de Christian Huygens (para uma discussão fundamentada sobre esse equívoco, consulte Silva (2011).
Segundo, a quase-história, no artigo History and quasi-history in physics education , Whitaker (1979) apresenta uma História da Ciência numa reconstrução dos fatos históricos, posicionando os acontecimentos do passado numa cronologia
até o presente. É comum prevalecer à ideologia científica do autor ou do historiador da ciência, que narram os fatos históricos.
Dessa forma, é usual serem renegados ou até apagados da história escorregões de grandes cientistas, como Isaac Newton, Galileu e Einstein, com a finalidade, quase sempre previamente definida, de enaltecer o lado genial destes.
Terceiro, a pseudo-história, Allchin (2004), no seu artigo Pseudohistory and Pseudoscience , apresenta os problemas que essa vertente pode ocasionar no ensino de ciências. Para o autor, neste tipo de relato da história, é comum ocorrer a romantização de cientistas, onde suas descobertas são infladas e perfumadas de dramas.
- O autor também chama a atenção para alguns sinais que podem denotar a presença da pseudo-história em um texto histórico. Para ele são características as presenças de romantismo, descobertas por insight , a presença apenas de experimentos crucias, a exclusão total de erros dos cientistas, a interpretação sem problematização dos experimentos, conclusões de natureza ideológicas, dentre outras.
No próximo tópico abordaremos os aspectos metodológicos da pesquisa, onde apresentaremos nossas categorias de análise e as obras consultadas.
## Materiais e métodos
Os livros didáticos analisados são do acervo próprio dos autores do trabalho ou das bibliotecas das escolas conveniadas com o PIBID/UFPI. Procurou-se a investigação de livros, do sexto ano do Ensino Fundamental, utilizados principalmente nestas escolas e que foram submetidos à análise do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) de 2014 ou de anos anteriores. No total encontramos 6 (seis) obras , estas foram analisadas e classificadas conforme o quadro 1, abaixo: 1
Quadro 1: Coleções analisadas com título, autor e ano da edição
Os critérios para análise emergiram das discussões sobre a História da Ciência desenvolvidas por Whitaker (1979), Allchin (2004), Martins (2004) e, principalmente sobre o que diz respeito à relação entre a HC e a sala de aula, a
saber: Whiggismo, Quase-História e Pseudo-História. Não descartamos a relevância de outros elementos da Historiografia da Ciência Contemporânea, mas, neste trabalho, centramos nossos olhares sobre estes.
Por fim, embora não seja um dos elementos evitados pelos docentes ao inserir a HC na sala de aula, defendemos que os mesmos sejam conhecedores delas: as fontes primárias. Decidimos por inseri-la como categoria pela própria natureza dos livros pesquisados serem dos professores, onde os autores das obras tecem recomendações sobre o seu uso.
Diante do exposto, desenvolvemos o nosso instrumento de análise dos livros, o qual pode ser visto no quadro 2, a seguir.
Quadro 2: Instrumento de análise dos livros
## Análise dos dados
Foi identificada e quantificada há presença de vícios metodológicos na construção dos relatos históricos contidos nas obras estudadas. Observou-se a presença de um total de 37 aparições, média de quase 6 (seis) por obra. Destas, quase 43% são menções somente de biografias dos estudiosos, do tipo: data de nascimento e de sua morte, seus feitos - quase sempre heroicos - e os prêmios recebidos.
Notou-se, também, que nenhuma obra faz menção às fontes primárias no corpo dos textos, nem muito menos auxiliam o professor a buscar leituras sobre a História da Astronomia, inclusive nos manuais dos professores.
## A presença de indícios de Historiografia Whig
Este tipo de História ficou contabilizado, dentre outras características, pelo estudo do passado decorrente de teorias atuais, uma vertente do whiggismo que recebeu o nome de anacronismo. Em todas as obras estudadas encontramos a sua presença. Como exemplo, mostramos as encontradas em LD2 e LD5:
- […] Hoje o feito de Galileu pode ser repetido por qualquer câmera digital de baixo custo. No entanto, há 400 anos, este foi um dos marcos mais importantes da ciência [...] (LD2, p.21).
- [...] O movimento aparente da Lua, do Sol e de outras estrelas - que aparecem a leste e desaparecem a oeste - induziu os sábios, até aproximadamente o século XV, ao erro de afirmar que a Terra está no centro do Universo e que todos os astros circulam à sua volta [...] (LD5, p.275).
Os autores retratam as contribuições dos estudiosos do passado como ideias simplistas à luz das teorias aceitas no momento. Geralmente, repassam a ideia que o trabalho do estudioso do passado é simplista ou até mesmo totalmente equivocado em relação ao trabalho do pesquisador atual.
## A presença de pseudo-história
Douglas Allchin (2004), no seu artigo Pseudohistory and Pseudoscience , discute sobre esta vertente e os problemas que pode trazer ao ensino de ciências. O autor chama atenção para alguns sinais que podem denotar a presença da pseudohistória em um texto histórico.
Nos relatos são características as presenças de romantismo, descobertas por insight , a presença apenas de experimentos crucias, a exclusão total de erros dos cientistas, a interpretação sem problematização dos experimentos, conclusões de natureza ideológicas, dentre outras. Em todas as obras encontramos a sua presença. Como exemplo, mostramos algumas em LD1, LD2 e LD6:
- [...] Cerca de um século depois, o sábio italiano Galileu Galilei (1564-1642) apontou para o céu uma luneta por ele construída. Fez então importantes descobertas: Júpiter tinha vários satélites; os planetas circundam o sol e brilham refletindo a luz [...] (LD1, p.243).
- […] Entretanto uma pessoa com extraordinário talento descobriu que poderia utilizar uma combinação de lentes para ampliar o alcance de sua visão [...] Ao apontar para o firmamento esses equipamentos, o céu nunca mais foi o mesmo; o responsável por essa revolução: o italiano Galileu Galilei [...] (LD2, p.21).
- [...] O italiano Galileu Galilei, nascido em Pisa, Itália, em 1564, desde criança se mostrava muito curioso e criativo, imaginando e construindo brinquedos [...] (LD6, p.19).
Conforme relatam Forato, Pietrocola e Martins (2011), a presença de possíveis vícios metodológicos, que divergem do que prega a Historiografia da Ciência Contemporânea, podem ocasionar uma compreensão distorcida sobre a natureza do conhecimento científico.
Este fato pode-se observar nas obras LD1, LD2 e LD6, as quais retratam um Galileu praticamente mítico, romantizando-o e apresentando suas descobertas como algo inevitável e individual, muito devido a sua face genial.
## A presença da quase-história
Ela é o resultado do sentimento e da necessidade de autores darem vida a fatos, construindo a Física com propósitos próprios: sustentar uma versão metodológica científica. Também notamos a presença dessa vertente em todas as obras, selecionamos algumas contidas em LD2, LD5 e LD6:
- […] o maior feito de Galileu, naquela época foi, segundo ele próprio, a descoberta de 'novos planetas' ao redor de Júpiter. Galileu descobriu quatro satélites na órbita desse planeta em janeiro de 1610 […] (LD2, p.21).
- [...] Em 1530, baseados em estudos realizados ainda sem a utilização de instrumentos de observação do céu, Nicolau Copérnico, astrônomo polonês, propôs o chamado modelo heliocêntrico [...] (LD6, p.9).
- [...] Em 1609, Galileu Galilei adaptou uma luneta e a apontou para o céu. As lentes desse primeiro telescópio ampliaram a imagem da Lua aproximadamente trinta vezes e pôde-se constatar que na Lua há montanhas e vales. Utilizando a luneta, Galileu pôde, ainda, identificar que há manchas no sol, que existem satélites ao redor de Júpiter e que o planeta Vênus apresenta fases, semelhantes às da Lua [...] (LD5, p.276).
Nas menções apresentadas acima podemos notar a transposição de um Galileu notável e genial, onde seus escorregões são excluídos do relato. Na obra LD5, a chamada para a discussão traz o título: Galileu -o pai da Física Experimental . No decorrer da apresentação histórica tal vertente é enaltecida, bem como o lado genial do estudioso.
Zylbersztajn (1988), em seu artigo, intitulado Galileu - um cientista e várias versões, traz à tona outras vertentes do estudioso italiano, como a platonista. Contudo, a imagem de Galileu, como pai da Física Experimental, é amplamente difundida nos livros didáticos de todos os níveis de ensino.
## Considerações finais
O estudo desenvolvido aponta para uma inserção da História da Astronomia de forma precária nas obras analisadas. Nele, evidenciamos uma excessiva quantidade de vícios metodológicos na escrita dos relatos históricos, o que pode ocasionar, por exemplo, um entendimento distorcido sobre como a Ciência é feita. Nas obras podemos notar também uma predominância da Historiografia de natureza positivista, onde a concepção de ciência é embasada no empirismo e no indutivismo.
Outro ponto, que vale ressaltar, é a pouca preocupação dos autores em humanizar os seus relatos históricos, renegando, por exemplo, a inserção de fatores extracientíficos na ciência, como a política e religião.
Acreditamos que a concepção de História da Ciência, presente nas obras, contribui para a formação dogmática da Ciência, favorecendo à falsa ideia do gênio da ciência, pessoa iluminada e extremamente vocacionada para tal função.
## Referências
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