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A FÍSICA DE PARTÍCULAS NA PRÁTICA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA DOS PARTICIPANTES DA ESCOLA DE FÍSICA CERN

Leandro Londero, Marcio Aurélio De Melo Teófilo

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
28/10/2014
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A FÍSICA DE PARTÍCULAS NA PRÁTICA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA DOS PARTICIPANTES DA ESCOLA DE FÍSICA CERN

## THE PARTICLE PHYSICS SUBJECT IN THE DIDACTIC-PEDAGOGICAL PRACTICE OF THE CERN PHYSICS SCHOOL PARTICIPANTS

## Leandro Londero 1 , Marcio Aurélio de Melo Teófilo 2

1

UNESP/IBILCE/Departamento de Educação, leandrolondero@gmail.com 2 Universidade Federal de Alfenas/Instituto de Ciências Exatas, malkcim@gmail.com

## Resumo

A inserção de assuntos de física moderna e contemporânea já foi defendida com justificativas satisfatórias, tanto por professores em atividade escolar como por pesquisadores da área de ensino de física. Para que a inserção desses assuntos ocorra de maneira eficiente é necessária a atualização dos professores em docência escolar, bem como uma formação adequada daqueles que estão em processo de formação inicial. Neste sentido, desde 2010 a Sociedade Brasileira de Física realiza anualmente a Escola de Física do CERN, na qual participam professores brasileiros de física. Perante isso, investigamos como os professores participantes dessa escola abordam a física de partículas em suas aulas após participarem dela. Os resultados que obtivemos, por meio de questionários respondidos pelos participantes, mostram que o ensino de partículas é realizado de maneira muito incipiente, justificado pelo fato do currículo de física ainda ser clássico, pela falta de tempo ou pela cobrança dos exames avaliativos. Aqueles que abordam o ensino de partículas o fazem por meio de uma abordagem qualitativa, com uso de vídeos e simulações. Verificamos discursos antagônicos nas respostas de muitos professores. Ao mesmo tempo em que mencionam abordar a física de partículas eles relatam que assuntos de física moderna e contemporânea não fazem parte do currículo de suas escolas. Concluímos que alguns desses professores não ensinam a física de partículas, mesmo após a participação na escola, ou abordam esse assunto mesmo que ele não faça parte da grade curricular.

Palavras-chave : Física de Partículas, Escola de Física CERN, Prática Pedagógica

## Abstract

The introduction of subjects regarding modern and contemporaneous physics was already defended with acceptable justifications by school teachers as well as researchers from the Physics Teaching Area. In order to have an efficient introduction of such subjects it is demanded an updating of school teachers and also of the future teachers who are in under graduation courses. Considering this, since 2010, The Brazilian Society of Physics annually carries out the CERN School of Physics where Brazilian teachers can participate. Due to this event, it was investigated how the participant teachers approach the Particle Physics subject in their classes specially after taking part in the event. Through questionnaires

answered by the participants it was found that the Particle Physics teaching is carried out in a very simple way having as justification the Physics curriculum, which is still a classic one, the lack of time and the demand for evaluative tests. The teachers who approach the Particle Physics teaching make use of a qualitative approach with videos and simulations. It was verified antagonisms in the answers; at the same time that they mention the approach to the Particle Physics they say that modern and contemporaneous subjects are not part of the school curriculum where they work. It was concluded that some of the teachers do not teach or approach Particle Physics in their classes, even after taking part at CERN, because Particle Physics is not a subject of the school curriculum.

Keywords : Particle Physics, CERN Physics School, Pedagogical Practice

## O Ensino da Física de Partículas Elementares

A inserção de Física Moderna e Contemporânea no currículo do Ensino Médio brasileiro está entre as prioridades de muitos pesquisadores em Ensino de Física que se dedicam a esta linha de pesquisa. Essa inserção também é uma das exigências prescritas na legislação e diretrizes da Educação Básica. Entre os assuntos preconizados está a Física de Partículas Elementares, algumas vezes chamada de Física de Altas Energias.

- A Física de Altas Energias é um campo de pesquisa no qual investiga-se, geralmente a partir de simulações computacionais, as quatro forças fundamentais da natureza: gravitacional, eletromagnética, fraca e forte. Nessa linha de pesquisa se estuda também as partículas mediadoras dessas forças, ou seja, as partículas elementares.
- O ensino desse tópico é justificado pelo fato dele permitir a discussão: a) de uma nova visão de mundo; b) de uma visão mais adequada da ciência; c) da reinterpretação da Física Clássica; d) da dinâmica da Ciência e seu desenvolvimento; e) da contribuição dos diversos cientistas; f) do papel da experimentação; g) do investimento financeiro e cooperativo de diversos países e pesquisadores.

Pesquisas acerca do ensino de Física de Partículas e suas metodologias ainda são poucas. Há uma carência de estudos e pesquisas sobre esse tema. Mediante revisão de literatura, identificamos apenas 7 estudos a nível de mestrado (MAIA, 2011; PINHEIRO, 2011; NETO, 2011; BALTHAZAR, 2008; LOZADA, 2007; SIQUEIRA, 2006; MARTIN, 2005).

Para que o ensino da Física de Altas Energias ocorra de maneira eficiente é necessária a atualização dos professores que já estão em docência escolar, bem como uma formação adequada daqueles que estão em processo de formação inicial. Neste sentido, desde 2010 a Sociedade Brasileira de Física realiza anualmente a Escola de Física do CERN, na qual participam professores brasileiros de física de escolas públicas do Ensino Médio.

## A Escola de Física 'CERN' da Sociedade Brasileira de Física (SBF)

Fundada em 1954, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, conhecida como CERN, localiza-se na fronteira franco-suíça, na região noroeste de Genebra. É o maior laboratório de física de partículas do mundo. A organização possui vinte países membros e, em 2010 tinha aproximadamente 2.400 funcionários,

trabalhando em tempo integral, e 11.000 cientistas e engenheiros, oriundos de 580 universidades e centros de pesquisa, de 80 nacionalidades.

No CERN, físicos e engenheiros investigam a estrutura fundamental do universo por meio do estudo dos constituintes básicos da matéria, ou seja, as partículas elementares. As partículas são postas a colidir em conjunto, com velocidades próximas a da luz. Com este processo é possível obter informações sobre como elas interagem. Neste processo são utilizados basicamente aceleradores e detectores de partículas. Os aceleradores impulsionam feixes de partículas até altas energias antes delas colidirem umas com as outras ou com alvos estacionários. Por sua vez, os detectores detectam e registram os resultados das colisões.

Entre diversas ações, o CERN desenvolve um programa de Educação dedicado a professores de vários países da Europa, no qual são desenvolvidas atividades de visitação às instalações e laboratórios e cursos sobre tópicos de Física, em geral, ministrados no idioma dos participantes.

Fazendo parte deste programa, desde 2007 o CERN realiza a Escola de Professores em Língua Portuguesa, direcionada aos educadores portugueses de escolas secundárias. Nela são ministradas aulas sobre Física de Partículas, realizados experimentos e visitas guiadas ao complexo experimental do CERN, com o objetivo de que seus participantes discutam com os alunos do ensino médio os conteúdos tratados nesta escola. Perante isso, o objetivo principal da escola é capacitar professores para que eles insiram o tópico de Física de Partículas Elementares em nível acessível aos alunos.

De acordo com dados da SBF, ocorreram negociações entre pesquisadores brasileiros do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, da diretoria da SBF e do CERN, com vistas a participação de professores do Brasil e de Moçambique. Como resultado da negociação ocorreu uma ampliação da cooperação do CERN com Portugal, o que possibilitou a participação de professores brasileiros e moçambicanos.

Perante isso, a SBF realiza anualmente, desde 2010, a Escola de Física 'CERN', na qual participam professores brasileiros de física de escolas públicas do Ensino Médio.

## Objetivo, Problema, Questões de Estudo e Justificativa

Nosso estudo partiu da constatação da ausência, na literatura consultada, de um estudo que avalie as contribuições da Escola de Física 'CERN' na docência dos professores de física que dela participaram. Perante isso, objetivamos investigar quais são as contribuições didático-pedagógicas da Escola de Física 'CERN' para a docência escolar dos professores de física, tomando como fonte de informações os discursos dos sujeitos que dela participaram. Buscamos sintetizar as contribuições e as opiniões convergentes e divergentes de seus participantes, com o intuito de contribuirmos com sugestões de melhorias a serem propostas para as futuras edições da escola.

Procuramos responder o seguinte problema: Como os professores participantes da Escola de Física do CERN abordam a física de partículas em suas aulas após participarem dela . Várias questões que parecem relevantes permearam este estudo, são elas: Quais as motivações dos professores para participarem da escola e quais eram suas expectativas iniciais? O que os professores consideram que aprenderam com a participação na escola? O que eles dizem ensinar sobre Partículas Elementares em suas aulas? No caso de não

ensinarem, quais as justificativas para não fazê-lo? Quais recursos, abordagens e metodologias utilizam para ensinar este tópico? O ensino de Partículas Elementares faz parte do currículo das escolas dos professores participantes? Qual a opinião dos professores sobre ensinar assuntos de Física Moderna e Contemporânea e, em especial, a Física de Partículas?

Para respondermos estas questões, realizamos algumas ações investigativas, as quais explicitamos na próxima seção.

## Desenvolvimento do estudo

Para respondermos as questões norteadoras deste estudo, identificamos os nomes dos professores que participaram de cada uma das quatro edições realizadas por meio de consulta ao site da SBF. Ao total, já participaram da escola um conjunto de 100 professores. De posse dos nomes, procuramos localizar possíveis contatos ou perfis eletrônicos dos participantes mediante consulta a redes sociais e procura na internet. Localizados os contatos, entramos em comunicação com os professores mapeados, para os quais enviamos um questionário que possui algumas questões básicas que possibilitam a obtenção de informações para respondermos as questões norteadoras deste estudo.

Organizamos as respostas obtidas e os dados coletados em quadros específicos construídos para a tabulação das respostas. Em continuidade, analisamos os dados sintetizados por meio do referencial teórico adotado. As respostas para as questões do questionário foram analisadas na perspectiva da Análise de Discurso de linha francesa, a partir de produções de Michel Pêcheux ou dos trabalhos publicados ou traduzidos por Eni Orlandi.

Nesta perspectiva, o discurso mais do que transmissão de informação é efeito de sentidos entre locutores. Os efeitos se dão porque são sujeitos dentro de certas circunstâncias e afetados pelas suas memórias discursivas (ORLANDI, 2010). Na análise de discurso não podemos deixar de relacionar o discurso com as condições de produção. Segundo Orlandi (2010)

As condições de produção incluem pois os sujeitos e a situação. A situação, por sua vez, pode ser pensada em seu sentido estrito e em sentido lato. Em sentido estrito ela compreende as circunstâncias da enunciação, o aqui e o agora do dizer, o contexto imediato (p.15).

A autora também enfatizam que na prática não podemos dissociar o contexto imediato e o contexto em sentido amplo, ou seja, o contexto sócio-histórico, uma vez que em toda situação de linguagem ambos funcionam conjuntamente. O que dizemos tem relação com outros dizeres e isso faz parte dos efeitos de sentido de nosso dizer. Os sentidos já ditos por alguém, em algum lugar, em outros tempos, mesmo muito distantes, têm um efeito sobre o que o sujeito diz.

Ao final, inferimos alguns resultados a que chegamos e pontuamos algumas implicações para a formação de professores.

## Respondendo as Questões de Estudo

Vale a pena destacar que obtivemos o retorno de 32 professores, todos vinculados a escolas da rede pública de ensino, sendo 19 de institutos federais e 13 de escolas estaduais do Ensino Médio.

## Motivações para participação e expectativas iniciais

Entre as motivações encontramos a busca pela qualificação profissional, como explicitado no discurso do professor LDO.

Sempre investi na formação continuada , pois acredito que o professor deve sempre buscar a qualificação profissional . A escola de física do CERN é uma oportunidade única de investimento profissional e sabia o quanto ela poderia agregar na minha prática docente . A minha expectativa inicial, além de conhecer um dos maiores laboratórios de física do mundo, estavam centrados em ter contato com pesquisas de ponta, aprofundar mais meus conhecimentos em física de partículas e trocar experiências pedagógicas com os demais colegas da escola . Além disso, penso que as minhas aulas ficariam melhores depois desta experiência. (LDO/2012, grifo nosso)

O discurso de LDO parece indicar que, para ele, o professor deve sempre buscar a qualificação profissional, mesmo após a conclusão da graduação, qualificação que é entendida em seu discurso como formação continuada. LDO parece ser um profissional dedicado e comprometido com a função docente, fato este que pode ser inferido pele leitura de seu discurso ao mencionar ' agregar na minha prática docente '. Por outro lado, seu discurso parece indicar que a formação continuada e, portanto, a qualificação profissional talvez seja entendida como um aprofundamento dos conhecimentos sobre física e como troca de saberes da experiência com outros colegas de profissão. Aspectos semelhantes aos mencionados por LDO são encontrados no discurso de NBJ, reproduzido a seguir.

Candidatei-me pela proposta da Escola de Física do CERN. Entendi que fosse uma oportunidade de complementar minha formação e ter a oportunidade de obter mais informações e subsídios para implantação nas aulas de física moderna que venho ministrando ao longo dos últimos anos. (NBJ/2012)

Por sua vez, uma outra motivação mencionada foi pronunciada por FPC, com o podemos observar mediante a leitura de seu discurso.

Meu principal interesse está na área de ensino, em particular, no ensino de Física Moderna e Contemporânea . É uma questão discutida há muito tempo mais ainda com progressos muitos tímidos. A questão central pode ser resumida da seguinte forma: Por que o ensino de Física (para o ensino médio) ainda não conseguiu incorporar assuntos estudos nos últimos 100 anos de forma eficiente e eficaz? Por que ele 'parou' no final do século XIX? Minha ida lá foi motivada principalmente por essas questões , gostaria de saber um pouco mais sobre Física de Partículas e como os outros países participantes tratavam do tema no ensino. (FPC/2010, grifo nosso)

Além disso, FPC parece estar preocupado em buscar resposta para questão que levanta, ou seja, ele questiona o fato da física escolar não ter incorporado os estudos desenvolvidos nos últimos cem anos no campo da física. Seu discurso parece indicar que a participação na escola irá trazer resposta para sua inquietude. No entanto, em seus discursos posteriores, registrados nas perguntas do questionário, não apontam indícios que ele tenha encontrado resposta para sua inquietude durante a participação na escola. Ao contrário, ao ser questionado sobre as aprendizagens ocorridas, este participante responde:

Aprendi um pouco mais sobre Física de Partículas e sobre a área de engenharia (FPC/2010)

Com base neste discurso é possível questionar a contribuição da escola CERN no que diz respeito as discussões sobre a forma de ensinar partículas elementares. No nosso entendimento, há na escola CERN uma ênfase no conteúdo conceitual em detrimento a uma discussão metodológica sobre o ensino de partículas, discussão que contribuiria para que a inserção deste tema ocorresse de fato nas aulas de física dos professores que dela participaram.

Por outro lado, encontramos vários discursos nos quais é possível evidenciar que os professores não mencionam como motivação, em nenhum trecho, a contribuição da participação na escola para sua futura prática docente. Este é o caso, por exemplo, de LAAF, reproduzido a seguir.

Em 1989, li o trabalho de Felix Bloch, que foi o primeiro diretor Geral do CERN ("elaboração de novos métodos de medidas de precisão do magnetismo nuclear"). Oi então que tomei conhecimento da existência do Centro e das pesquisas que eram realizadas lá. Toda vez que eu lia alguma coisa sobre Física das Partículas, o CERN aparecia de um jeito ou de outro. Em novembro de 2009, quando o LHC foi religado, passei a acompanhar as notícias de lá pela internet. Durante todo esse tempo, eu nutria o sonho de um dia poder estar lá. Por isso, quando fiquei sabendo da Escola de Física, não pensei duas vezes para me inscrever. O que eu esperava era conhecer in loco os laboratórios e ouvir dos próprios pesquisadores sobre o trabalho desenvolvido lá. (LAAF/2012)

Pensamos que os organizadores deveriam ter mais cuidado no momento da seleção dos participantes, selecionando professores que vislumbram a participação na escola como um momento privilegiado de formação continuada, agregando conhecimentos para sua prática docente.

## Aprendizagens ocorridas

Ao serem questionados sobre o que aprenderam na escola CERN, os professores mencionam, em geral, em seus discursos o Modelo Padrão e a estrutura do LHC, como no discurso de LAAF.

Além de atualizar o que sabia sobre o modelo padrão da física de partículas - e é claro, aprender muito mais - pude constatar que a Ciência e o Ensino das Ciências são coisas muito distintas; uma coisa é a Física no CERN, outra bem diferente é a Física que ensinamos em sala de aula . (LAAF/2010, grifo nosso)

Ao mencionar que a Física do CERN é bem diferente da Física ensinada na escola, percebemos que, talvez, para ele, deva ocorrer um processo de transferência de um 'saber' para o contexto escolar. Há, por vezes, aqueles que mencionam um total desconhecimento da Física de Partículas e a escola, portanto, propiciou esta aprendizagem, é o caso, por exemplo, de JML.

Descobrir que não sabia nada de Física de partículas. Foi um experiência muito esclarecedora sobre o modelo padrão do mundo subatômico. (JML/2010)

Poucos são aqueles que explicitaram a aprendizagem sobre o funcionamento dos experimentos, seus objetivos, como ocorrem as colisões, a origem dos prótons para as colisões e como é feita a detecção das partículas. O discurso de MMP é representativo desta constatação.

Aprendi sobre a estrutura do LHC e seus experimentos, sobre como ocorrem as colisões, de onde saem os prótons para as colisões, como é feita a detecção das partículas, os objetivos de cada experimento (ALICE, ATLAS, LHC-b e CMS), os objetivos do LHC, entre outras coisas. (MMP/2010)

Além disso, o que parece ser mais preocupante é que são raros os discursos nos quais e possível identificar aprendizagens referentes a maneira de ensinar os conhecimentos aprendidos na escola em um contexto escolar de Ensino Médio público. Isto ratifica que a escola enfatiza o aspecto conceitual em detrimento aos aspectos metodológicos de ensino. No discurso de FCP encontramos indícios da apresentação de modelos e experimentos que poderiam auxiliar na discussão da física de partículas.

Aprendi um pouco mais sobre Física de Partículas e sobre a área de engenharia. Penso que apesar do CERN ser um local associado às pesquisa de Física, o impacto maior é na área de engenharia, pois quase tudo lá é "estado da arte", construído com um propósito único, superando desafios não antes apresentados. As questões organizacionais também são muito fortes, pois não tem como um empreendimento transnacional funcionar se tudo não tiver muito bem definido e coeso. Além disso, na área do ensino foram apresentados alguns modelos e experimentos que auxiliam na discussão do tema . (FCP/2010, grifo nosso)

Uma possível justificativa para a ênfase conceitual apresentada na escola seja a forte presença de pesquisadores da área de partículas, os quais ministram os cursos frequentados pelos participantes. Assim, sugerimos que a SBF e o CERN incluam na equipe de ministrantes de cursos da escola profissionais da área de ensino de física, suprindo assim uma carência evidenciada em muitos discursos aqui analisados.

## Assuntos, conceitos e processos ensinados

Tendo em vista que nosso foco principal é investigar como os professores participantes da Escola de Física do CERN abordam a física de partículas em suas aulas, perguntamos para eles quais eram os assuntos, os conceitos e fenômenos que ensinavam. Destacamos aqui alguns discursos que consideramos significativos.

No primeiro, é possível perceber que o professor não relata quais são os assuntos e conceitos desenvolvidos. Ele apenas menciona que a discussão do tópico teria mudado, sendo realizada de maneira mais direta, após a participação na escola.

Após a participação na Escola de Física do CERN, a discussão sobre muitos temas mudou . A abordagem sobre partículas elementares tornouse mais direta . Entretanto, a mudança foi mais qualitativa do que quantitativa . Nosso currículo ainda é muito clássico e como o escopo principal é o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a inserção de determinados assuntos ainda deve ser feita com cuidado para não representar perda para os alunos . (LAAP/2012)

Vale a pena destacar, ainda, que o professor faz ressalvas sobre a inserção da física de partículas. A posição dele é que a inserção ' deve ser feita com cuidado para não representar perda para os alunos '. Esta argumentação leva a atender que ele considera os outros conteúdos mais significativos de serem ensinados, tendo em vista a cobrança realizada por meio do ENEM.

No segundo caso, embora o professor relate os assuntos discutidos em suas aulas, ele enfatiza que o tempo é um fator que o impede de abordar tais assuntos de maneira mais detalhada, o que seria próprio de uma escola pública. Talvez o professor considere que um conjunto maior de aulas possibilitaria o ensino mais minucioso, ou ainda, que o ensino detalhado só poderia ocorrer em escolas privadas.

Sim, discuto o tema com os alunos, sobre partículas elementares, como acelerar partículas, colidi-las para encontrar novas partículas, falo sobre o modelo padrão, teoria mais aceita hoje em dia etc. Não consigo

aprofundar muito cada tema por conta da falta de tempo , pois dou aulas em uma escola pública e só tenho duas aulas por semana. (MCIAS/2011)

No terceiro caso, o professor parece explicitar que o ensino é superficial ao usar a expressão ' somente uma discussão, quase uma divulgação científica '. Seu discurso também pode levar a interpretação de que discussões e divulgação científica não são formas de ensino e, portanto, não ocorriam aprendizagens por parte dos alunos.

Sim, mas ainda é somente uma discussão, quase uma divulgação científica. A questão é como realizar a transposição didática do tema, levá-lo para a sala de aula de forma organizada. (FPC/2010)

## Recursos, abordagens e metodologias utilizadas no ensino

Estávamos também interessados em saber como, especificamente, os professores ensinavam partículas, ou seja, os recursos utilizados, as abordagens e metodologias. Os discursos a seguir são exemplos nos quais é possível evidenciar estes aspetos.

Na maioria das vezes, partículas elementares surgem durante a discussão sobre Óptica, Eletricidade e FMC (física moderna e contemporânea), vista no 3º Ano do Ensino Médio. Como recurso, sempre faço uso de vídeos , simuladores extraídos de sites especializados e mesmo os jogos propostos pelo site do CERN para 'crianças'. (LAAF/2012)

As discussões se iniciam pela utilização de Modelos na Ciência e sua importância na busca, pelo Homem, de explicações sobre a natureza e constituição tanto da matéria quanto da própria formação do Universo. As aulas, em geral, têm um caráter de exploração de possibilidades, buscando mostrar que não existe UMA verdade, mas que a Ciência busca explicações plausíveis para as questões a que se sujeita pesquisar. Nossas aulas perpassam pelo desenvolvimento dos modelos de estrutura da matéria utilizados pelo Homem de forma cronológica até o desenvolvimento e justificativa do Modelo Padrão. (NBJ/2012)

...a abordagem é teórica, mas utilizo vídeos , animações e simulações . Além disso apresento o estado da arte e questões que ainda estão em aberto na ciência como problematização inicial. (LDO/2012)

Nos dois primeiros discursos, notamos que os professores mencionam o momento em que abordam o ensino de partículas, na Óptica, Eletricidade, na própria FMC ou quando da discussão dos Modelos na Ciência. É possível também constatarmos que, em geral, eles privilegiam o uso de vídeos e simulações computacionais. Por outro lado, há professores que procuram utilizar outros recursos e abordagens como é o caso de MCIAS, o qual tentará construir uma câmara de nuvens, e de MMP, a qual propõe a leitura de textos.

Também vou tentar inserir a construção de uma câmara de nuvens com material de baixo custo que adaptei às condições de sala de aula. (MCIAS/2011)

Esse tema é discutido com o uso de uma apresentação em Power Point que fiz para dar palestras sobre o CERN/LHC quando de minha volta da Escola. A apresentação é bem detalhada e vou pulando o que considero que não precisa ser mencionado. Também utilizo um vídeo sobre como ocorrem as colisões no anel do LHC e uma simulação de uma colisão com a formação de partículas. Esses dois materiais eu obtive pela participação na Escola. Procuro também propor a leitura de algum texto da mídia sobre o LHC e proponho questões aos estudantes. (MMP/2010)

## A Física de Partículas no currículo das escolas dos participantes

Estávamos também interessados em descobrir se a Física de Partículas fazia parte do currículo das escolas dos participantes. Dos 32 professores que responderam o questionário, 28 afirmam que o tópico de Física de Partículas faz parte do currículo da escola na qual ministram aulas. Obtivemos como exemplos de respostas as seguintes:

Explicitamente, não . A maioria dos professores sequer aborda o tema. (LAAF/2012)

Sim. Porém com a mudança que está ocorrendo no currículo aqui no estado, devido ao ensino politécnico, os conteúdos não têm mais grande validade e não fomos devidamente preparados para essa mudança. Não dá tempo para trabalhar o assunto , já que a física está saindo cada vez mais dos currículos, inserindo projetos e dando mais ênfase a disciplinas como psicologia, filosofia e sociologia. Uma pena, não é? (ACM/2011)

Sim, faz parte do terceiro e quarto bimestre no terceiro ano do ensino médio. Normalmente abordo este tema somente no quarto bimestre , pela falta de tempo para dar conta do restante dos assuntos previsto para esta série. Está inserido na parte de física moderna, onde se fala de laser, fenômenos nucleares, radioatividade, física de partículas elementares, descobrindo partículas, aceleradores de partículas e transistores. (MCISAS/2011)

Temos feito um esforço enorme em introduzir esse temas no EM e na última série do EF, mas ainda não conseguimos . Além do problema já relacionado às questões experimentais, penso que outro ponto fundamental de dificuldade seja o pouco conhecimento que nós professores temos do tema . A transposição didática somente pode ser realizada (do meu ponto de vista) por pessoas que transitem muito bem nas áreas teóricas da disciplina de Física de Partículas e na área da Educação. (FPC/2010)

No primeiro discurso o professor afirma diretamente que o tópico de partículas não faz parte do currículo e que ' A maioria dos professores sequer aborda o tema '. No segundo caso, observamos uma contradição no discurso do professor. Ao mesmo tempo em que declara a presença do tópico no currículo, ele afirma não abordar esse assunto ao pronunciar ' Não dá tempo para trabalhar o assunto ', justificado pela mudança curricular que estaria ocorrendo no estado em que é professor.

No terceiro discurso, podemos supor que para MCISAS a física de partículas não é um conteúdo relevante, uma vez que ele prioriza o ensino dos demais tópicos da física. Assim, o tópico de partículas pode ser deixado para o último bimestre e ser ensinado caso sobre tempo.

No quarto discurso, o professor declara estar fazendo um esforço para inserir a física de partículas no currículo, no entanto não tem obtido sucesso. Por outro lado, menciona o pouco conhecimento que os professores possuem do tema. Não nos parece que este argumento seja válido para não ensinar partículas elementares, uma vez que o referido professor participou da escola CERN, e certamente possui capacidade para buscar maiores informações sobre a física de altas energias em diversos materiais impressos como livros e revista e, também, em materiais disponíveis na internet. Por outro lado, há casos de professores que consideram o tópico em questão importante e, mesmo que o conteúdo de partículas esteja alocado na parte final da programação anual da escola, fazem a inversão dos conteúdos. Este é o caso da professora MMP.

Sim, faz parte. Não são especificados tópicos, mas o tema é indicado para o 3º ano do Ensino Médio. De acordo com o Programa de Física, deveria vir

ao final do ano letivo, mas faço essa inversão , ou seja, começo com Física de Partículas porque acho que isso ajuda o aluno a entender a importância das partículas e suas propriedades, como a carga elétrica, que vai ser estudada ao longo de toda a continuação da matéria, na Eletrostática e na Eletrodinâmica. (MMP/2010)

## Opinião dos professores sobre ensinar assuntos de Física Moderna e Contemporânea e, em especial, a Física de Partículas

Para finalizar, questionamos os participantes sobre ensinar Física Moderna e Contemporânea e, em especial, a Física de Partículas. Em geral, os participantes da escola CERN se posicionam a favor e apresentam diversos argumentos para justificar as suas posições, como pode ser observado no discurso a seguir.

Acho de fundamental importância, desde que no modo informativo. A FMC é sempre um ótimo tema de discussão e essencial para o estudo da Física com uma abordagem mais atual. Entretanto, um número considerável de professores não está preparado para tratar do assunto. (LAAF/2012)

No entanto, observamos aqui mais um contrassenso nos discursos dos professores. Eles afirmam ser importante o ensino de tópicos de física moderna e contemporânea. No entanto, eles não o fazem, como pode ser percebido mediante a leitura dos discursos reproduzidos anteriormente, e justificam esta posição por meio de diferentes argumentos. No primeiro caso, o professor destaca que ' um número considerável de professores não está preparado para tratar do assunto ' e que o ensino deva ser de ' modo informativo '.

Por outro lado, há casos de professores que vislumbram a possibilidade do ensino de física moderna e contemporânea ocorrer ' de uma forma mais dinâmica e menos 'engessada', mais afinada com o contexto, a realidade dos alunos, da escola e do próprio professor ' como é o caso da professora MMP e por meio das informações divulgadas pela mídia e pelas revistas

Acho que Física Moderna e Contemporânea é um tema que deve estar presente na escola básica. Como são muitos conteúdos, alguns mais conceituais, outro nem tanto, acho que nesse momento em que ainda não há uma definição rígida e tradicional do que 'deve' ser ensinado nesse tópico, devemos aproveitar essa oportunidade para inserir esse tema de uma forma mais dinâmica e menos 'engessada', mais afinada com o contexto, a realidade dos alunos, da escola e do próprio professor. (MMP/2010)

Além de toda física clássica, a física moderna e contemporânea deve ser discutida em sala de aula. Os alunos tem contato com estes assuntos, seja pelas mídias, revistas . É papel do professor utilizar isto como atrativo para suas aulas. (LDO/2012)

## Considerações Finais

Em nosso estudo, procuramos encontrar respostas para a seguinte questão: Como os professores participantes da Escola de Física do CERN abordam a física de partículas em suas aulas após participarem dela? As ações realizadas e as análises desenvolvidas respondem as questões norteadoras e permitem inferir uma possível resposta para a questão central.

Tomando por base os discursos dos participantes, é possível inferirmos que o ensino de partículas em suas aulas é realizado de maneira muito incipiente. De maneira geral, os professores justificam essa incipiência pelo fato do currículo de

física ainda ser clássico, pela falta de tempo ou pela cobrança dos exames avaliativos como, por exemplo, ENEM e vestibulares. Aqueles que abordam o ensino de partículas o fazem por meio de uma abordagem qualitativa, com uso, em geral, de vídeos e simulações.

Pensamos que os resultados aqui apresentados podem ser levados em consideração pelos organizados, uma vez que apontamos sugestões de melhorias para as futuras edições da escola de Física CERN.

## Referências

BALTHAZAR, W. F. Partículas Elementares no Ensino Médio: uma abordagem a partir do LHC . Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Ciências). Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

LOZADA, C. O. O essencial invisível aos olhos: uma viagem divertida e colorida pela estrutura da matéria através de uma sequência ensino-aprendizagem para a introdução de física de partículas elementares na 8 série do ensino a funda mental. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática). Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2007.

MAIA, M. C. Uma abordagem do Modelo Padrão da Física de Partículas acessível a alunos do Ensino Médio . Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática). Universidade estadual de Londrina, Londrina, 2011.

MARTIN, G. F. S. A Física de Partículas Elementares nos Cursos de Licenciatura em Física . Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática). Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005.

NETO, J. L. S. Partículas Elementares no Ensino Médio . Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Física). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso. ORLANDI, E. P.; LAGAZZI-RODRIGUES, S. (Orgs.). Discurso e Textualidade . Campinas: Pontes, 2010.

PINHEIRO, L. A. Partículas Elementares e interações fundamentais no Ensino Médio . Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Física). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011.

SIQUEIRA, M. R. P. Do Visível ao Indivisível: uma proposta de Física de Partículas Elementares para o Ensino Médio . Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

SIQUEIRA, M. R. P.; PIETROCOLA, M. A. A transposição didática aplicada à teoria Contemporânea: a Física de Partículas Elementares no Ensino Médio. Anais do X Encontro de Pesquisa em Ensino de Física , Londrina, Paraná, 2006. (CD ROM).

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.