PRODUÇÃO DE SENTIDOS NUMA LEITURA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA SOBRE FÍSICA QUÂNTICA NO ENSINO MÉDIO
Cassiano Rezende Pagliarini, Maria José P. M. De Almeida
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 31/10/2014
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PRODUÇÃO DE SENTIDOS NUMA LEITURA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA SOBRE FÍSICA QUÂNTICA NO ENSINO MÉDIO MEANING PRODUCTION IN A SCIENTIFIC DISSEMINATION READING ABOUT QUANTUM PHYSICS AT THE HIGH SCHOOL
Cassiano Rezende Pagliarini , Maria José P. M. de Almeida 1 2
1 Universidade Estadual de Campinas/Fac. de Educação/Doutorando do Programa de Pós-Graduação Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática, pagliarini@gmail.com (apoio CAPES)
2 Universidade Estadual de Campinas/Fac. de Educação/Dep. de Ensino e Práticas Culturais, mjpma@unicamp.br (apoio CNPq)
## Resumo
Esta pesquisa, que visa contribuir para inserção de conteúdos de Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio, trabalha em sala de aula noções relativas ao início dos desenvolvimentos da teoria quântica, no início do século XX. As atividades se basearam na leitura de um trecho de divulgação científica, uma vez que entendemos que esta favorece uma tomada de posições frente aos assuntos abordados. A pesquisa foi desenvolvida em uma turma da 1ª série do EM de uma escola pública no interior paulista e procuramos analisar a produção de sentidos dos estudantes na atividade elaborada para destacar aspectos das diversas leituras possíveis, seguida da mediação dialogada pelo professor/pesquisador. Como suporte teórico para as análises, baseamo-nos em noções da análise do discurso iniciada por Michel Pêcheux. O estudo aponta que os estudantes interpretam de maneiras diversas, apresentando seus interesses como modo de produzir significados, incluindo equívocos, que sustentam a possibilidade/necessidade da mediação do professor.
Palavras-chave : Física Moderna e Contemporânea, Ensino Médio, Divulgação Científica, Leitura, Análise de Discurso.
## Abstract
This research, aimed at contributing for the insertion of contents from Modern and Contemporary Physics in High School, works at the classroom concepts related to the early developments of quantum theory in the early twentieth century. The activities were based on reading an excerpt of scientific divulgation, once we understand that this favors taking positions face of the subjects covered. The research was developed in a class of 1st grade in High School, in a public school in São Paulo, and we analyzed the production of meanings of the students in activities designed to highlight aspects of various possible readings followed the by the teacher/researcher's dialogic mediation. As theoretical support for the analysis, we rely on notions of discourse analysis initiated by M. Pêcheux. This work point out to different ways of interpreting, presenting their interests as means to produce senses, even misunderstandings, that support the possibility/necessity of teacher mediation.
Keywords : Modern and Contemporary Physics, Secondary Education, Scientific Divulgation, Reading, Discourse Analysis.
## Introdução
Pesquisadores da área de ensino de física têm recomendado a introdução de tópicos de Física Moderna e Contemporânea (FMC) no Ensino Médio (EM) há vários anos. As justificativas para que tal inserção se efetive baseiam-se nos mais variados aspectos, dentre os quais citamos a influência de conteúdos de FMC para a compreensão do mundo atual (TERRAZZAN, 1992), motivação para uma compreensão distinta do modo de apreensão de conhecimento da física clássica, trazendo novas concepções de mundo e maneiras de se pensar os fenômenos naturais (PINTO; ZANETIC, 1999), o reconhecimento da física como empreendimento humano e a possibilidade de atrair jovens para a carreira científica através da abordagem do que se pesquisa atualmente nos laboratórios (OSTERMANN; MOREIRA, 2000).
Dentre os conteúdos de FMC, a física quântica constitui uma das principais temáticas e Menezes e Hosoume (1997) defendem seu ensino no nível médio:
O aprendizado da física quântica está se revelando necessário em diversos pontos de um programa de ensino médio, que desenvolve a física também como instrumento para os estudantes compreenderem os fatos de seu cotidiano, sejam fenômenos naturais ou processos tecnológicos (Ibid., p. 282).
Como destacam Lobato e Greca (2005), é de grande importância a investigação acerca do ensino de FMC no EM sendo particularmente a física quântica de extrema relevância, num sentido em que coloca seus paradigmas como uma nova forma para o pensar e o fazer científico. Exemplos evidentes são conceitos como o de localidade, trajetória ou determinismo que, apesar de culturalmente bem estruturados, foram passíveis de intensa revisão científica e filosófica. Além disso, a física quântica tem condicionado imensamente a investigação científica e tecnológica moderna, caracterizando-se como decisiva para o desenvolvimento de grande parte das tecnologias utilizadas atualmente pela humanidade (Ibid., p. 119). Ao consideramos também a relação estreita que diversas de suas noções fundamentais têm com aspectos filosóficos e epistemológicos, destacamos que Brockington e Pietrocola (2005) atentam para a necessidade de discussões acerca da ontologia, a natureza última por de trás dos objetos quânticos. Assim, concordamos que um ensino de física moderna deve contemplar discussões que também apontem para o fato que os modelos não são cópias da realidade, estabelecendo uma nova relação com o conhecimento.
Procuramos, neste estudo, analisar a produção de sentidos por estudantes de uma escola pública do Estado de São Paulo, ao lerem a introdução de um texto de divulgação científica sobre física quântica, em uma atividade elaborada para destacar aspectos das diversas leituras possíveis de serem realizadas por esses estudantes e mediada pelo professor/pesquisador, primeiro autor deste estudo. Baseamo-nos na Análise de Discurso (AD), na vertente iniciada por Michel Pêcheux, a qual considera a linguagem numa perspectiva em que esta é tomada como sendo não transparente, e não somente suporte para o pensamento, mas sim
[...] como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive (ORLANDI, 2012a, p. 15).
## Leitura no Ensino de Ciências
Assim como vários trabalhos têm sido publicados justificando a inserção de FMC no EM, outros têm sido publicados com ênfase na divulgação científica ou mesmo na utilização de textos originais de cientistas em aulas de disciplinas de cunho científico como complementos aos outros materiais, como o livro didático. Destacamos abaixo alguns desses estudos, bem como apontamentos pertinentes para nosso objetivo.
Martins et al. (2004), investigando o uso da divulgação numa interação entre alunos e texto em uma aula de biologia, observaram que a leitura e as mediações da professora motivaram debates que tiveram grande e diversificada participação dos alunos. Nascimento (2005), mesmo sem observar o uso do texto de divulgação científica em situações de ensino, aponta aspectos relacionados à produção destes textos e à sua introdução na sala de aula. Ferreira e Queiroz (2012) fazem uma revisão bibliográfica sobre a relação destes textos com o ensino de ciências, apresentando, dentre outras, as pesquisas que investigam suas potencialidades didáticas.
Acreditamos que a leitura favorece a tomada de posições e, em se tratando de aulas de física, notamos que os posicionamentos referentes aos conteúdos abordados em sala de aula são barrados pelo uso excessivo da linguagem matemática presente em aulas expositivas e resoluções de listas de exercícios. Almeida (2004), ao analisar representações de alunos que leram trechos de um texto original de um cientista, constata que essas representações
[...] mostram estudantes que se posicionam enquanto leitores, estudantes que, aparentemente, não desviaram sua atenção, como ocorre frequentemente em aulas de física, nas quais o uso quase exclusivo de linguagem formal dificulta qualquer posicionamento de quem não compreende essa linguagem (Ibid., p. 107).
Ainda em relação à física, compreendemos que a ênfase dada à linguagem formal durante as aulas, com alto rigor matemático, parece ser considerada suficiente para que o aluno aprenda. Porém, neste caso, ao resolver exercícios envolvendo a temática do capítulo do livro ou apostila, poucas oportunidades são dadas ao estudante para que ele se posicione enquanto membro participativo do meio em que está inserido, relacionando o tema estudado com a cultura da sociedade em que vive. Pretendemos, no entanto, que as aulas de física contribuam para a formação mais ampla e crítica do estudante e que ele se posicione frente aos avanços e decisões que envolvem ciência e tecnologia.
Sem renegar a importância da matemática, é evidente que sua linguagem em física possui um papel de grande destaque. Isto é deixado claro na fala de Werner Heisenberg (1981, p. 127), um dos físicos envolvidos nas elaborações das teorias da FMC, quando expõe que no processo de clarificação científica em física teórica, usualmente emerge a linguagem matemática. Porém, adiante, o próprio cientista destaca que a linguagem comum é usada pelos físicos como um meio de se possibilitar a exposição do grau de entendimento obtido sobre tal teoria. Assim, existe uma distinção entre ambas as linguagens que não pressupõe uma simples tradução de uma para a outra (ALMEIDA, 2004, p. 81), onde a autora conclui que "[...] enquanto os estudantes que não se sentem seguros no uso da linguagem matemática também não se sentirem capazes de aprender física, [...] a voz dos cientistas terá pouco espaço no ambiente escolar" (Ibid., p. 118).
## Condições de Produção da Atividade de Leitura Desenvolvida
A atividade de pesquisa foi desenvolvida em uma turma da 1ª série do EM de uma escola da rede estadual de ensino no interior paulista, na qual o pesquisador teve a oportunidade de passar um período de ambientação com a turma, assistindo semanalmente as aulas de física da professora responsável pela classe, durante três meses. Após este período, a professora cedeu quatro aulas para a realização das atividades (em duas semanas consecutivas), sendo que na tarde das duas primeiras foi feita apresentação aos alunos de um pequeno trecho introdutório do texto de divulgação científica "Física Quântica: o estranho comportamento do mundo microscópico" (FERREIRA, 2003) para leitura inicial e primeiro contato com o tema proposto. Os primeiros parágrafos do texto, aqueles que foram utilizados para a leitura, destacam que diversos avanços tecnológicos foram decorrentes do desenvolvimento da física quântica no início do século XX, o que também transformou as concepções do homem acerca do universo, permitindo desvendar mistérios sobre a estrutura da matéria. Fazendo um contraponto com os fenômenos do cotidiano, o autor destaca ainda que apesar daqueles presentes no mundo quântico serem inimagináveis para o nosso dia a dia, este seria impensável sem o comportamento bizarro de átomos, moléculas e partículas de luz.
Num segundo momento, este trecho de abertura do capítulo salienta que para uma compreensão dos princípios da física quântica é preciso constatar que as leis que governam fenômenos físicos dependem da escala dos objetos envolvidos: o mundo microscópico se comporta diferentemente dos objetos da vida cotidiana. Passando por uma exemplificação das partículas constituintes do átomo e as proporções envolvidas, o autor destaca alguns problemas do modelo atômico que assume órbitas para os elétrons em torno do núcleo. Em analogia com o movimento dos planetas em torno do Sol, cita o colapso que sofreriam átomos justapostos e conclui que há algo no movimento dos elétrons que faz diferir do movimento planetário. Citando Max Planck como o cientista responsável pelas primeiras ideias que visaram explicar a coerência no comportamento dos átomos, traz um quadro intitulado 'Constante Fundamental da Natureza' para explicar algumas noções de como a constante de Planck surgiu de seu trabalho investigativo acerca das interações entre radiação e matéria no problema da radiação de um corpo negro. Esta parte do texto, que finaliza a parte selecionada para a leitura inicial com os estudantes, traz alguns conceitos físicos como radiação eletromagnética, frequência, intensidade, temperatura, espectro eletromagnético visível, energia do campo eletromagnético e pacotes de energia, se mostrando mais densa em conteúdos uma vez que busca delimitar qual era o problema de investigação de Planck e as ideias incompatíveis da física clássica com o que se observa no fenômeno da radiação do corpo negro, para então colocar a constante h = 6,6261 x 10 -34 como uma escala absoluta para quando um fenômeno deve levar em conta os aspectos ditos quânticos.
Após a realização de leitura individual destes trechos iniciais do texto, foi realizada pelo professor/pesquisador uma mediação dialogada através de um debate sobre as impressões, pontos considerados relevantes, principais ideias e dúvidas específicas, aberta à intervenção dos estudantes. Em seguida, foi disponibilizado a cada um deles uma questão aberta sobre a leitura do texto na aula desenvolvida, inclusive ainda com acesso ao texto lido durante a escrita de suas respostas: se após esta aula você tivesse que contar a um amigo sobre os assuntos
do texto que acabou de ler, o que você contaria? Foi deixado claro que a questão, respondida pelos estudantes ao final da atividade, não visava a avaliação dos estudantes quanto a uma interpretação do texto lido. Era sim uma forma de retorno onde o professor/pesquisador poderia verificar as impressões e opiniões dos estudantes sobre a dinâmica proposta, podendo inclusive auxiliar a maneira como as atividades deste tipo seriam levadas para outras escolas. Visávamos principalmente notar as diferentes formas de leitura que podem ser realizadas por cada estudante na posição de leitor.
## Análise das Respostas dos Estudantes
Baseado em nosso apoio teórico-metodológico na Análise de Discurso, a perspectiva discursiva que adotamos caracteriza o discurso como efeitos de sentidos entre interlocutores e ganha importância então a busca por uma compreensão de como determinado discurso foi formulado, ou seja, o modo como se produzem significados. Para tal processo, além de consideradas as condições imediatas e situações próprias da tomada do discurso, questões que remetem à exterioridade desses dizeres são de grande relevância (ORLANDI, 2012a). Nesta perspectiva, a produção de sentidos se inscreve necessariamente em um já-dito anterior que torna um enunciado interpretável, ou seja, sentidos elaborados passam também por uma repetição necessária em seu dizer (ORLANDI, 2012b). Segundo a autora, é a partir da "cópia" ( repetição empírica ) e passando por outra de reformulação no nível da organização gramatical, o "dizer com suas palavras" ( repetição formal ), até a inscrição de sua memória constitutiva numa formulação que produz um novo dizer no meio de outros ( repetição histórica ), que reside a possibilidade mesma de se constituir uma aprendizagem.
Dentre os doze estudantes que participaram da atividade e responderam à questão proposta após esta primeira leitura, além dos movimentos dentre esses tipos de repetição ao buscar dar sentido às suas compreensões de leitura, a análise discursiva realizada também busca evidenciar o modo como diferentes aspectos do texto chamaram atenção de cada aluno diferentemente.
A estudante Eduarda 1 mostrou-se preocupada em realizar uma síntese do texto como um todo, numa longa resposta passando por todas as noções fundamentais ali tratadas, bem como exemplos citados, num exercício de procurar elaborar com suas palavras. Um ponto singular nessa repetição formal, à primeira vista presa numa literalidade superficial do texto, faz referência a um trecho logo no início em que o autor traz o exemplo acerca da compreensão inicial da estrutura da matéria, os objetos de estudo e o modelo atômico planetário:
Até a década de 1930, sabia-se que os átomos eram formados por três tipos de partículas: prótons, nêutrons e elétrons. Sabia-se também que os prótons e nêutrons formavam um caroço central muito menor que o próprio átomo. [...] Imaginava-se, então, que os elétrons giravam em torno do núcleo de prótons e nêutrons de maneira de maneira muito semelhante àquela do movimento dos planetas em torno do Sol. No entanto, muitos problemas surgiam dessa maneira de ver as coisas. A primeira era a estabilidade dos átomos (FERREIRA, 2003, p. 154).
Porém, na resposta da estudante Eduarda aquilo que o texto coloca como conhecimento estabelecido (" sabia-se, imaginava-se ") aparece como incerteza, indicando um movimento de interpretação desde o início que aponta para as novas maneiras de se conhecer o mundo desenvolvidas pela física quântica:
Há mais ou menos, 100 anos atrás, no início do século 20, começou a se desenvolver uma teoria conhecida como Física Quântica, na qual se estuda a estrutura da matéria, seu comportamento microscópico, invisíveis a olho nu, tais como moléculas, atomos ou particulas subatomicas. Porém muitas duvidas foram surgindo ao decorrer do tempo ( Eduarda , grifo nosso).
De maneira distinta, a estudante Amanda se restringe a uma repetição empírica, porém marca sua resposta destacando o interesse que o assunto lhe causou, bem como em questões seguintes na continuidade das atividades nas aulas que se seguiram, o que mostra possíveis aberturas para os assuntos que envolveram a leitura e discussões em sala de aula.
Um dos ingredientes básicos para compreender os princípios da física quântica é a constatação de que as leis que governam os fenômenos físicos dependem da escala de grandeza dos objetos envolvidos (FERREIRA, 2003, p. 154).
Eu contaria que a Física Quântica é um assunto bem interessante de se estudar e que aprendi bastante coisa, como que a física quantica trouxe para nossas concepções sobre o universo, aprendi também que um dos conceitos básicos para compreender os principios da física quantica é a constatação de que as leis que governam os fenomenos físicos dependem da escala de grandeza dos objetos envolvidos. Isso foi o que eu contaria para um amigo ( Amanda ).
A mediação dialogada com os estudantes, após a leitura através das discussões sobre dúvidas, impressões e pontos interessantes do texto, foi determinante para a elaboração discursiva da estudante Roberta . Como já apontado anteriormente, um dos exemplos utilizados no início do texto de divulgação científica para discutir alguns fenômenos e objetos de estudo da física quântica, é o modelo atômico baseado nas órbitas dos planetas ao redor do Sol. Dúvidas e questões relacionadas às estrelas foram levantadas por alguns estudantes neste momento de diálogo e se fizeram presentes na resposta de Roberta, evidenciando então a grande importância da mediação do professor, decisivo muitas vezes para a elaboração interpretativa dos estudantes. Por exemplo, quando o pesquisador, responde a dúvida de uma aluna sobre a luz das estrelas e o tempo gasto para atingir a Terra, após um colega ter citado que a luz do Sol demora certo tempo:
[...] O céu estrelado da noite, na verdade, é uma foto do passado. Porque aquela luz que a gente está vendo saiu dela muito tempo atrás até vir se propagando pelo espaço, até chegar aqui na Terra. A do Sol, como ele disse, demora alguns minutos pra chegar aqui [...] (fala do pesquisador)
Falaria para ele que a aula foi bem enteressante que eu descobri varias coisas que ainda não fazia idéia como as estrelas de hoje são retrato do passado pois elas demoram em média uns mil anos para aparecer para gente. Falamos também sobre fisica Quantica (foi o principal assunto da aula) ( Roberta ).
A questão colocada pelo texto com relação à ordem de grandeza na natureza, a oposição determinante entre microscópico e macroscópico perante a formulação e funcionamento das teorias na física, mostrou-se presente em outros dois estudantes. Em formulações sintéticas, procurando reelaborar com suas
próprias palavras (repetição formal), o assunto de destaque para Clarice e Carlos aparece marcado na relação entre os objetos de estudo do mundo microscópico na física quântica que também influenciam o funcionamento do universo macroscópico, porém com equívocos na interpretação de Carlos.
Eu diria que a física quantica estuda o mundo das coisas pequenas, onde tudo funciona de maneira estranha ao que a gente conhece, entretanto se o mundo microscópico não fosse como é, isso influenciaria o nosso mundo e mudaria forma como ele funciona ( Clarice ).
Que a física quântica mostro o que é pequeno, e o que é grande. Estuda coisas muito pequenas e coisas muito grandes ( Carlos ).
As diferentes interpretações desses dois estudantes, que abordaram o mesmo foco do texto, evidencia mais uma vez a relevância da mediação do professor após cada tipo de atividade dos estudantes. Tendo em conta a interpretação de Carlos, ele teria a oportunidade de, numa mediação dialogada, retomar a ênfase na escala pertinente para a física quântica.
## Algumas Considerações
A análise, na perspectiva da AD, não toma os sentidos como sendo únicos, fechados ou evidentes. Numa relação dialética, característica que permeia a base materialista deste campo de conhecimento, analisar passa por "compreender, ou seja, explicitar o modo como um objeto simbólico produz sentidos, o que resulta em saber que o sentido sempre pode ser outro" (ORLANDI, 2012b, p. 64). Porém, ao passo que a "interpretação aparece para o sujeito como transparência, como o sentido lá", com efeito, "[...] no momento mesmo em que ela se dá, a interpretação se nega como tal" (Ibid., p. 65). Assim, em nossas análises não a consideramos como "[...] mero gesto de decodificação, de apreensão de sentido, e também não é livre de determinações. Ela não pode ser qualquer uma e não é igualmente distribuída na formação social" (Ibid., p. 67).
Ao buscarmos compreender as interpretações dos estudantes pudemos notar, além do interesse pela atividade que estava sendo desenvolvida, como eles haviam interpretado o texto lido. O professor pesquisador, que já havia passado três meses acompanhando a turma, teve nessa análise das respostas dos alunos a uma questão aberta, a possibilidade de obter um conhecimento específico sobre como haviam interpretado um texto de divulgação de física quântica, adquirindo subsídios para outras aulas e direcionamentos em mediações com os mesmos estudantes.
Um aspecto geral importante, juntamente ao interesse demonstrado pela atividade, é a ausência de referências relativas à parte final do texto, quadro explicativo extratextual sobre a constante de Planck e outros conceitos físicos relacionados, que se assemelha muito à maneira como conteúdos são formatados nos livros didáticos. Igualmente relevante, se mostra o modo como a questão formulada aos estudantes, desconstruindo um papel centralizador do professor e colocando-os numa posição de diálogo mais horizontal na forma do contar a um amigo , contribui para que o foco de suas interpretações se desse nas possibilidades de leitura aberta que a linguagem característica de textos de divulgação científica oferece. Quando na qualidade de professores propomos leituras em aula, além das informações a que a leitura permite ter acesso, queremos que ela "[...] seja o ensejo para que os estudantes formulem suas próprias opiniões sobre o que leram e sobre os interdiscursos que a leitura pode produzir" (ALMEIDA et al. , 2006, p. 74).
## Referências
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