O USO DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA EM SALA DE AULA: A APROPRIAÇÃO POR MEIO DO DISCURSO CITADO
Guilherme Da Silva Lima, Marcelo Giordan
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XV
- Ano
- 2014
- Data
- 31/10/2014
- Linha de pesquisa
- Formais
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O USO DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA EM SALA DE AULA: A APROPRIAÇÃO POR MEIO DO DISCURSO CITADO
## THE USE OF SCIENTIFIC DISSEMINATION IN THE CLASSROOM: APPROPRIATION THROUGH THE CITED DISCOURSE
Guilherme da Silva Lima , Marcelo Giordan 1 2
- 1 Universidade de São Paulo/ Faculdade de Educação/ guil.lima@usp.br
2
- Universidade de São Paulo/ Faculdade de Educação/ giordan@usp.br
## Resumo
Esse trabalho apresenta uma investigação acerca do uso da divulgação científica em sala de aula. A divulgação científica não é produzida originalmente para o uso em situações formais de ensino, todavia é um recurso frequentemente utilizado por professores de ciências enquanto ferramenta para introduzir, refletir, explicar e contextualizar conceitos científicos. O trabalho contempla um estudo de caso em que um professor de ciências do ensino fundamental utiliza um livro de divulgação científica, Bilhões e bilhões de Carl Sagan, para explicar e contextualizar a notação científica em uma sequência didática sobre o micro e o macrocosmo. A investigação está pautada nas contribuições teóricas de Mikhail Bakhtin e busca compreender as modalidades discursivas utilizadas pelo professor durante o uso do livro. Para tanto, foi feito o acompanhamento e gravações das aulas de uma sequência didática aplicada para o 9º ano do ensino fundamental em uma escola da rede estadual de ensino de São Paulo. Após a seleção do episódio e de sua transcrição, foi possível notar que o uso da divulgação científica ocorreu, predominantemente, por meio do discurso direto e os propósitos de ensino do professor coincidiu com os propósitos narrativos da divulgação científica. Tal coincidência, não é uma regra e, nesse caso, expressa uma modalidade de uso desse recurso em situações de ensino.
Palavras-chave : Divulgação científica, ensino de física, discurso citado.
## Abstract
This paper presents an investigation of the use of science communication in the classroom. Science communication is not originally produced for use in formal education, but is a feature often used by science teachers as a tool to introduce, reflect, explain and contextualize scientific concepts. The work describes a case study in which a science teacher of elementary school uses a popular science book, Billions and Billions by Carl Sagan to explain and contextualize scientific notation in a teaching sequence on the micro and macrocosm. The investigation is guided on the theoretical contributions of Mikhail Bakhtin and seeks to understand the discursive modalities used by the teacher during the use of the book. For both, were monitored and recordings of classes of a didactic sequence applied to the 9th year of primary education in a state school teaching of São Paulo. After selecting the episode and its transcript, it was noticeable that the use of science communication occurred predominantly through discourse quoted and purposes of teacher education coincided with the purposes of the discourse of science. This coincidence is not a rule and expresses a way of using this resource in teaching situations.
Keywords : Scientific dissemination, teaching physics, cited discurse.
## Introdução
As situações de ensino podem ser caracterizadas pela diversidade de abordagens e métodos. Dentro das possibilidades e recursos, o uso de suportes de divulgação científica (DC) tem sido frequente, de modo que são adotados por professores para desenvolver conceitos e abordar o conhecimento científico.
- O uso de suportes de DC tem sido objeto de estudo da pesquisa em ensino de ciências e no ensino de física. Trabalhos desenvolvidos por Almeida e colaboradores tem sido uma referência para a investigação sobre leitura e o uso de DC em sala de aula. Na mesma linha pesquisadores como Silva e Almeida (1998), Almeida (2004), Cunha (2009), Cunha e Giordan (2009) e Almeida (2011) tem contribuído significativamente para a reflexão e investigação do uso DC em situações de ensino.
Por ser objeto interdisciplinar, a reflexão e discussão acerca da DC é fomentada por diversas áreas do conhecimento além da educação, como a comunicação, a sociologia e a linguística. Trabalhos como aqueles desenvolvidos por Authier (1998), Godin e Gingras (2000), Zamboni (2001), Lewenstein (2003), Vogt (2003), Grillo (2006; 2008), Bueno (2009) e Epstein (2012) tem colaborado para a compreensão da natureza da DC, com a tentativa de estabelecer as características linguísticas, bem como o estabelecimento das esferas de atuação humana que são articuladas para a produção da DC.
Este trabalho tem como foco a investigação do uso da DC em situações de ensino. A investigação está pautada na teoria da enunciação proposta pelo círculo de Bakhtin, ao passo que as análises estão focadas nos processos qualitativos que indicam a apropriação do discurso de DC e a composição do discurso escolar.
Assim, o objetivo da pesquisa é compreender a apropriação da DC por professores de ciências. Devido a amplitude dos processos que compõe a apropriação de ferramentas culturais, este trabalho investiga especificamente os processos de apropriação das ferramentas da linguagem, isto é, o discurso de DC.
## A divulgação científica enquanto gênero discursivo
Tradicionalmente o discurso de DC é compreendido como sendo uma simplificação, reelaboração ou reformulação do discurso científico, trata-se de um discurso derivado. Authier-Revuz (1999) compreende a DC enquanto conjuntos de práticas de reformulação, que se 'designa continuamente, como dois exteriores, o discurso científico fonte e o discurso familiar do grande público, entre os quais ela se coloca em cena como atividade de reformulação' (AUTHIER-REVUZ, p. 10, 1999).
Tal intepretação segrega o principal sujeito da DC, como também acentua os extremos dessa cadeia comunicativa, que é composta pelos especialistas em um extremo e o público no outro. Assim o divulgador da Ciência tem o papel de 'construir' uma ponte entre o discurso do especialista e o discurso do leigo.
Uma contraproposta a interpretação tradicional da DC surge com Zamboni (1997; 2001) que defende a DC enquanto um gênero discursivo próprio. A autora tece uma crítica acerca da proposição de Authier, em suas palavras, Zamboni (p. 82, 2001) caracteriza 'o discurso de DC como um gênero particular no conjunto dos demais discursos das diferentes áreas de funcionamento da linguagem, e não
apenas como um gênero que particulariza no subconjunto das práticas de reformulação'.
Para sustentar a argumentação, Zamboni se pauta nas contribuições de Bakhtin e compreende que a DC comporta enunciados relativamente estáveis no ponto de vista temático, composicional e estilístico. A autora aponta que, do ponto de vista temático o gênero DC é caracterizado pela concentração do assunto ciência e tecnologia, do ponto de vista composicional destaca a 'recuperação de conhecimentos científicos tácitos, fórmulas de envolvimento e segmentação da informação' (ZAMBONI, p. 89, 2001) e, por fim, do ponto de vista estilístico a autora aponta o emprego de analogias, generalizações, aproximações, comparações, simplificações, que visam suprir as dificuldades de um público não especializado.
Este trabalho está pautado na compreensão da DC enquanto gênero discursivo, uma vez que é produzida por contextos específicos articulados por uma determinada estrutura composicional, temática e estilística. Tal compreensão particulariza o uso da DC em situações de ensino, uma vez que trata-se de um discurso próprio que versa sobre a cultura científica e não como uma simplificação do discurso científico em questão.
## O discurso citado
Quando existe o uso da DC em sala de aula, a linguagem e a interação verbal nesse espaço, ou melhor, as novas ações de interação, passam a contar com um discurso dentro de outro discurso, fato que é compreendido por Bakhtin (2009) por meio da dialogia e do discurso citado.
Do ponto de vista da dialogia, o discurso citado é um fenômeno em que a dialogia é extrapolada para a estrutura composicional do enunciado, isto é, quando o enunciado é composto por discursos de outros. Assim, é possível notar que a dialogia pode ocorrer tanto no plano interno das enunciações, quanto em um plano 'externalizado' pelo enunciado, onde as relações entre os enunciados ficam evidentes devido à demarcação das vozes.
De acordo com Bakhtin (2009) o discurso citado é utilizado para transmitir e integrar enunciações de outro(s) num contexto monológico coerente. Para o autor, 'O discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de uma outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo.' (BAKHTIN, 2009, p. 150). Isso significa que o discurso citado conserva a autonomia discursiva do enunciado produzido por outra pessoa.
Pelo fato do discurso de DC ser produzido pela esfera da cultura científica e possuir relações dialógicas com outras esferas distintas, é possível encontrar diversos recursos alheios e características de outros gêneros discursivos que são utilizadas pelo discurso de DC, bem como 'vozes' típicas dos gêneros educacionais, científicos e jornalísticos.
Bakhtin (2009) pontua as principais formas de discurso citado, bem como seus modelos estilísticos, quais sejam: discurso direto - quando o enunciado alheio é incorporado literalmente no discurso; discurso indireto - quando o enunciado produzido é uma interpretação do enunciado alheio e o seu conteúdo é conservado; discurso indireto livre - quando há uma sobreposição do discurso do autor e do
discurso citado, portanto, não é possível distinguir fronteiras absolutas entre os discursos; paralelamente o estilo linear - conserva a integridade e autenticidade do discurso alheio e estilo pictórico - atenua os contornos e fronteiras externas do discurso alheio.
## Metodologia
A investigação contou com o acompanhamento e gravação de uma sequência didática desenvolvida por um professor de ciências para o 9º ano do ensino fundamental. A sequência didática era composta por nove aulas acrescida de uma visita a um museu de ciências e tinha como tema o macro e o micro cosmos.
A pesquisa foi realizada na escola EE Profª Olivia Bianco localizada no município de Piracicaba - SP. Os convites e a coleta de informações, por meio da gravação em sala de aula, foram realizados respeitando as diretrizes e os princípios éticos na pesquisa com seres humanos, conforme as orientações da resolução do CNS 196/96. As gravações, portanto, foram realizadas com o consentimento livre e esclarecido por parte de todos os sujeitos envolvidos, bem como de seus representantes legais.
Para as gravações foram utilizadas duas filmadoras que coletavam informações da sala de aula simultaneamente e que foram colocadas em posições estratégicas para que o maior número de informações ficasse registrado.
Após as gravações foram elaborados mapas das aulas para a seleção de episódios tal como proposto por Silva (2008). Em seguida, foi selecionado um episódio que foi transcrito e os principais trechos estão apresentados a seguir.
No episódio selecionado, o professor faz a leitura do livro: Bilhões e bilhões, escrito por Carl Sagan; com o propósito de introduzir o conceito de notação científica. Boa parte do episódio se restringe à leitura do primeiro capítulo do livro, entretanto, há alguns momentos de interação onde o professor e os estudantes interpretam e comentam os conceitos e fatos apresentados pelo livro.
## Resultados e análise
Para organizar e facilitar compreensão da transcrição, produzimos uma tabela onde as linhas correspondem aos turnos de falas. Para diferenciar o sujeito que enuncia, utilizamos a seguinte correspondência: P, para as falas produzidas e elaboradas predominantemente pelo professor; PL, para os enunciados compostos predominantemente pelos discursos presentes no livro lido pelo professor; A, para as falas dos alunos - para diferenciar os estudantes foi utilizada uma letra depois do 'A' em forma de subscrito.
58
59
Am. Vimos isso em matemática.
60
P. Vocês viram isso em matemática
61
Am. Ele tava pedindo para... é (...) sobre contagem de
62
P. Certo! Então ele vai, então ele fala assim: para
63
As. Nove zeros.
64
P. Nove zeros, tá!?. E assim por diante. Para vocês... hã?
Aluno interrompe
65
At. Dez elevado a vinte e cinco
66
P. dez elevado a doze, aí ele vai dando e assim por
diante.
expressar, né!? dez elevado a nove, tá!? então seria o
que? O número 1 com...
números mesmo, daí quanto tempo levaria para as
pessoas para concluírem [incompreensível]
P. né!? Dez elevado a seis, significa o que? O número 1
seguido de seis zeros, tá!?
6
na lousa: 10 =
1.000.000
Alguns alunos falam
com o professor seis
zeros
O professor lê trechos
do livro.
Ambos os trechos transcritos são compostos por abordagens interativas, que intercalam os sujeitos locutores: o livro por meio da leitura do professor, o professor e os estudantes. Além disso, é possível notar que o centro de articulação da interação está alocado nos discursos apresentados pelo livro, isto é, tanto o professor, quanto os estudantes comentam e se posicionam perante o que Carl Sagan escreveu.
O uso do livro, nesse caso, ocorre exclusivamente enquanto modalidade de discurso direto, por isso não é possível encontrar fragmentos em que o professor desloca o centro gerador da interação, que é sempre o livro. Não há trechos significativos de uso do discurso indireto, quão menos do uso do discurso indireto livre.
É importante ressaltar, que a ausência de outras modalidades discursivas não deprecia a qualidade da aula produzida pelo professor, trata-se de questões estéticas, como o perfil de aula do professor, bem como propósitos e objetivos traçados para a aula.
Além disso, o estilo utilizado varia entre os turnos em que o discurso citado está presente. Nos turnos 57, 58, 73 e74 o estilo utilizado está mais próximo ao estilo pictórico, que atenua as fronteiras discursivas entre o discurso do professor e o discurso de Carl Sagan. Os trechos produzidos pela leitura do livro contêm vícios de linguagens e pequenas inferências feitas pelo professor, ações que aproximam o discurso do professor e o discurso presente no livro. Por outro lado, no turno 72 e 93 o estilo utilizado está mais próximo do estilo linear, uma vez que conserva a integridade e autenticidade do discurso alheio e não há inferências que atenuem as fronteiras entre o discurso do professor e o discurso citado.
É possível notar, que nas duas sequências interativas o propósito de ensino do professor coincide com os propósitos narrativos do livro. De modo, que na primeira sequência interativa o propósito de Carl Sagan é introduzir o conceito de notação científica e é o mesmo do professor. Mais especificamente o professor se apropria do discurso de Sagan para introduzir o conceito, ainda que o propósito imediato seja o mesmo.
Além das modalidades e estilos de uso da DC, nos turnos 57, 62 e 63 é possível identificar o propósito explicativo tanto do livro, quanto do professor. Ambos têm o propósito de explicar, ainda que simplificadamente, a estrutura da notação científica. O propósito do livro está num primeiro plano, ao passo que é possível encontra-lo devido aos sentidos contidos no discurso e no tipo da abordagem utilizada. Em contrapartida, o propósito do professor é explicitado indiretamente, por meio da escolha e da leitura do capítulo do livro.
Na segunda sequência interativa, ocorre algo muito parecido, mas o propósito tanto do livro, quanto do professor são reformulados, no caso a narrativa
busca contextualizar e trazer exemplos concretos do uso da notação científica para a compreensão de ordem de grandeza.
- O episódio aponta que o uso da modalidade de discurso direto pode ser um ótimo recurso para contextualizar o ensino de física, uma vez que traz informações de interesse dos estudantes e que condiz com os conceitos desenvolvidos pelo professor, como podemos ver nos turnos 73, 74, 77 e 78.
Além disso, o uso dessa modalidade discursiva também pode gerar discussões e situações de interação verbal em sala de aula. Entre os turnos 78 e 92 há um ótimo exemplo da possibilidade de geração de debates a partir da leitura direta de um material de DC. No caso estudado, o professor não faz uso dessa estratégia e o debate acerca dos sentidos que estavam sendo produzidos pelos estudantes é silenciado pela abordagem interativa/ de autoridade utilizada pelo professor (MORTIMER e SCOTT, 2002). O não uso de uma abordagem dialógica em que os estudantes poderiam expor, discutir e refletir sobre suas percepções não desqualifica o uso da DC em sala de aula, trata-se de uma questão de propósitos de uso do suporte em situações de ensino, bem como do planejamento feito pelo professor.
## Considerações finais
O trabalho apresentado nos indica algumas características do uso da DC em situações de ensino. Compreender as modalidades de uso da DC na educação formal pode contribuir significativamente para a proposição de aulas que façam uso desse recurso e, ao mesmo tempo, contribuir para orientação e produção de suportes dessa natureza que tenham o professor como destinatário.
Destacamos apenas a modalidade de uso compreendida pelo discurso direto, que está pautada no uso literal do discurso de DC, que nesse caso se deu pela leitura de um capítulo do livro de Carl Sagan: Bilhões e bilhões.
- O uso da DC se deu por meio do estabelecimento de dois propósitos de ensino o primeiro foi explicativo e o segundo contextual, que coincidiram com os propósitos narrativos do livro. Tal coincidência não é uma condição para o uso da DC em situações de ensino, uma vez que após apropriação dessa ferramenta cultural, o professor pode utilizá-la para seus propósitos específicos. Sendo assim, o caso estudado evidencia a composição da narrativa do professor, bem como do discurso escolar, que são produzidos por meio da apropriação do discurso de DC e em seguida utilizados em situações de ensino.
Essa investigação não esgota as possibilidades de pesquisa do uso da DC em sala de aula, muito pelo contrário, evidencia uma prática recorrente em situações formais de ensino de física que merece destaca.
Por fim, as modalidades de uso do discurso alheio em situações de ensino pode nos indicar caminhos e propostas para a investigação e para o planejamento de situações de ensino de física, que pode corroborar tanto para a aprendizagem de conceitos científico, quanto para a criação de uma prática de aproximação da cultura científica e tecnológica.
## Referências
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