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CIRCULAÇÃO DE SABERES SOBRE ENSINO DE FÍSICA EM NARRATIVAS AUDIOVISUAIS DE ESTÁGIOS

Henrique César Da Silva, Marinês Domingues Cordeiro, Jonathan T. De Jesus Neto, Ricardo Luis De Ré, José André Peres Angotti

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XV
Ano
2014
Data
31/10/2014
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CIRCULAÇÃO DE SABERES SOBRE ENSINO DE FÍSICA EM NARRATIVAS AUDIOVISUAIS DE ESTÁGIOS

## CIRCULATION OF KNOWLEDGES ABOUT PHYSICS TEACHING THROUGH AUDIOVISUAL NARRATIVES IN SUPERVISED TEACHING PRACTICES

Henrique César da Silva , Marinês D. Cordeiro , Jonathan T. de Jesus 1 2 Neto 3 , Ricardo Luis de Ré 4 , José André Peres Angotti 5

1

UFSC/MEN, henriquecsilva@gmail.com

UFSC/MEN, henriquecsilva@gmail.com

2 Curso de Física - EaD/UFSC/UAB, marinesdc@outlook.com

3 Curso de Física - EaD/UFSC/UAB, jonathantjneto@gmail.com

4 Curso de Física - EaD/UFSC/UAB, ricardo@cientificamente.com.br

5

UFSC/MEN, angotti@ced.ufsc.br

## Resumo

Analisamos vídeo-depoimentos produzidos por estudantes de uma licenciatura em física à distância na disciplina de Estágio Supervisionado em Ensino de Física. Para produzi-los, a maioria utilizou um canal da disciplina no Youtube e, posteriormente, postaram o vídeo numa revista on-line da disciplina na plataforma do wordpress. Trata-se de parte do trabalho que a equipe docente de Estágios EaD deste curso vem desenvolvendo numa docência coletiva e investigativa, em torno do uso de ferramentas da web 2.0 como mediação tecnológica na produção de saberes docentes pelos licenciandos, e do desenvolvimento de estratégias que articulem saberes e conhecimentos da área de pesquisa em ensino de física como parte dos saberes docentes em construção pelos licenciandos. Perguntamo-nos pelo papel dessas ferramentas da web 2.0 na circulação exotérica de saberes docentes e conhecimentos escolares do campo da física. Mostramos como saberes do campo da pesquisa se interconectam aos da prática docente na narrativa audiovisual dos alunos.

Palavras-chave : saberes docentes, narrativas audiovisuais, Estágios Supervisionados

## Abstract

We analyze video testimonies produced by undergraduates in a supervised teaching practices course. To produce them, most used a channel on Youtube and later posted the video in an online magazine/blog of the course on the wordpress platform. This is part of the work that the teaching team of the discipline has been made from a collective and investigative perspective of teaching work about the use of Web 2.0 tools as technological mediation in the production of knowledge by teaching undergraduates, and the development of strategies that articulate knowledge and expertise in the area of research in physics education as part of teaching knowledge in construction by undergraduates. We ask ourselves the role of

these tools in the web 2.0 movement of exoteric teaching knowledge and school knowledge of physics. We show how knowledge of the field of research to interconnect the teaching practices in the audiovisual narrative of students.

Keywords : teacher's knowledge, audiovisual narratives, supervised teaching practices.

## Introdução

As disciplinas de Estágio em licenciaturas em geral buscam desenvolver soluções didáticas para vários desafios da formação docente, como o estreitamento das relações entre ensino e pesquisa, entre teoria e prática, entre formação inicial e continuada, do diálogo entre universidade e escola. Entre as inúmeras questões levantadas e debatidas nas últimas décadas em torno da identidade do trabalho docente e da natureza epistemológica de seus saberes está a questão da circulação dos saberes que produzem, ou seja, da constituição da voz do professor enquanto produtor de saber, no caso, envolvendo as especificidades culturais e epistemológicas da Física, no espaço de uma comunidade. Considerando que as formações inicial e continuada têm papel importante na constituição dessa posição temos nos perguntado pelo papel que ferramentas da web 2.0 poderiam ter nesse processo, particularmente as narrativas audiovisuais dos futuros professores compartilhadas em rede em plataformas on-line.

## Referenciais teórico-metodológicos

Sabemos que o saberes do professor possuem características epistemológicas específicas (Tardif, 2002; Geraldi, Fiorentini e Pereira, 1998; Varani, Ferreira e Prado, 2007), formando conjuntos heterogêneos envolvendo os saberes da prática, os saberes experienciais e os saberes pedagógicos. Em nosso caso, temos os saberes e conhecimentos pedagógicos específicos do campo do ensino de física produzidos por uma comunidade esotérica (Fleck, 2010), já historicamente consolidada.

Entre as inúmeras questões que remetem à complexidade e especificidade desses saberes, está a da sua circulação. Como esses saberes se constituem enquanto textos para poderem circular se a forma artigo, característica da circulação esotérica não se adéqua à natureza dos saberes da docência?

Segundo Roldão (2007), a comunicabilidade e a circulação representam um gerador de especificidade do conhecimento profissional docente que

'mais afasta, na realidade dominante das práticas actuais de ensino, os docentes da posse de um conhecimento profissional pleno, na medida em que a acentuação da representação da vertente prática do conhecimento docente tem sublinhado as componentes tácitas de conhecimento que de facto a integram.' (p. 101).

Recursos da web 2.0 como youtube e blogs/revistas, proporcionando facilidade em produzir e compartilhar vídeos e permitindo fácil e rápida publicação e trocas de comentários, podem ter algum papel nesse processo de circulação, textualização e comunicação dos saberes dos professores?

Além do diálogo com autores do campo da formação de professores a epistemologia histórico-social de Fleck (2010) contribui para dar visibilidade ao lugar do professor como membro de uma comunidade exotérica de produção de conhecimentos escolares e saberes docentes. Segundo Fleck, toda comunidade de pensamento possui características estruturais comuns. Uma delas reside no fato de se formar um pequeno círculo esotérico e um círculo exotérico maior de participantes dos coletivos de pensamento. O círculo exotérico, segundo Fleck, diz respeito ao que se pode chamar de leigos-informados, ou seja, não são propriamente os especialistas, os do círculo esotérico, mas atuam de alguma maneira na produção do conhecimento e trocas com os membros do círculo esotérico. Em nosso caso, consideramos como círculo esotérico na produção de conhecimentos sobre ensino de física a comunidade acadêmica de pesquisa em física que faz seus conhecimentos circular internamente por meio de periódicos específicos, teses e dissertações e trabalhos em eventos. Assim, buscamos compreender o papel dessas ferramentas web 2.0 na circulação de saberes entre esses círculos e internamente no círculo exotérico, considerando aqui, o licenciando, futuro professor, como futuro atuante neste círculo, e a licenciatura como sua iniciação neste processo de pertencimento e posicionamento nesta comunidade.

Todo processo de circulação de pensamento envolve simultaneamente produção de textos e discursos, nas mais diferentes linguagens. Do ponto de vista da análise de discurso (Orlandi, 2010), a circulação tem relação com a textualização e esta com a posição-sujeito. Não há texto sem sujeito e nem sujeito sem ideologia. Ideologia aqui compreendida como relação imaginária do sujeito com suas condições de produção. Assim, pressupomos que, ao participar da circulação o sujeito assume determinadas posições que o constituem enquanto tal e isso é afetado pelo suporte, pelos meios, pelos processos materiais, no caso, relacionados com os recursos da web 2.0. Formas textuais e formas de pensamento não são separadas de contextos de interações e que as posições sempre se produzem na relação com o outro. Se de um lado, não há dúvida de que o outro-formador seja fundamental, por outro, a voz efetivamente autônoma do professor como parte de um coletivo precisa ser constituída na relação com o outro-colega também professor da educação básica e o outro-pesquisador. Só assim teremos efetivamente instaurado uma circulação entre coletivos dentro da comunidade exotérica e entre esta e a de participantes da esotérica. Pensando poder contar com a potencialidade das redes sociais que caracterizam a web 2.0, foram criados dois instrumentos além do moodle: um canal Youtube e um site do wordpress com formato de revista e recursos de blog.

## O contexto da coleta de dados e a metodologia

A licenciatura em física corresponde a uma iniciação à participação em coletivos de pensamento e produção de saberes docentes e conhecimentos escolares. Nas disciplinas de Estágio Supervisionado temos buscado fazer com que os alunos articulem leituras da área de pesquisa com o planejamento e desenvolvimento e análise de suas ações docentes nas escolas campos de estágio. Entre as atividades propostas, estava a produção de um vídeo-depoimento sintetizando seu trabalho de natureza investigativa em sala de aula. Este vídeo seria feito num canal específico do youtube para a disciplina ao qual os alunos têm acesso com login e senha específicos e depois postados num blog do wordpress no

formato de revista, também especificamente destinado aos trabalhos de estágio, mas com acesso público.

O uso dessas ferramentas da web 2.0 esteve atrelado a uma mudança fundamental que tem constituído o eixo das disciplinas de Estágios EaD da Física no curso em questão: a organização e articulação de todas as atividades em torno de um tema, escolhido pelos alunos, a partir de uma lista derivada das linhas de pesquisa em ensino de física (linhas temáticas de eventos como o próprio EPEF e os SNEFs). As disciplinas de estágio representam o espaço caracterizado pela relação entre saberes da área, ou seja, pelo contato com esses estilos de pensamento da área, com outros tipos de saberes (Tardif, 2002), que constituem os saberes docentes. É este amálgama, esse contato, textualizado na forma de narrativas audiovisuais em recursos da web 2.0, que buscamos analisar neste trabalho.

Trata-se de uma análise realizada pela equipe docente da disciplina de Estágio numa docência investigativa. Os parâmetros de análise foram definidos como: para quem o licenciando está se dirigindo no vídeo-depoimento?; quais e como elementos dos conhecimentos da área de pesquisa fazem parte do seu depoimento?; que outros saberes docentes estão formulados em suas narrativas? que aspectos decorrentes do fato de serem ferramentas da web 2.0 podem ser apontados na constituição dessas narrativas e na circulação de saberes?

A turma analisada era composta por 22 alunos, sendo que dois deles produziram em dupla e alguns produziram mais de um vídeo.

## Análises e síntese dos resultados

## Elementos da linguagem audiovisual

A linguagem audiovisual possibilitou uma síntese verbal oral das ideias dos alunos, da reflexão sobre seu trabalho. Ou seja, o vídeo-depoimento teve um papel de contribuir para: (1) a síntese, a união de elementos dos circulo exotérico e esotérico; (2) o recorte: potencializando a significação sobre a experiência. Pelo tempo curto, obrigação de se ater ao tempo. Isso por conta das instruções que foram dadas, entre elas, dos vídeos terem ente 3 a 6 minutos e conterem necessariamente alguns elementos de conteúdo.

O fato de estar na rede, publicamente aberto suscitou diferenças. Alguns alunos, poucos, não se sentiram à vontade, o que implicou, tanto por parte da equipe docente, quanto pelos alunos, em maior domínio e compreensão das próprias ferramentas da internet, que permitem que o conteúdo fique restrito aos usuários cadastrados . No entanto, embora a maioria tenha aceitado, encontramos 1 poucos indícios de uma fala pública (apenas um caso), de um posicionamento dos alunos voltado para um público amplo, para outros professores, ou seja, para além da turma da disciplina no curso. Os vídeos pareciam se endereçar aos colegas da própria turma, muito deles iniciando com 'Olá, pessoal'. De fato, o compartilhamento de ideias entre os colegas era fator já instituído, inclusive por disciplinas anteriores, como sendo critério de avaliação dos licenciandos. E um deles, endereçado ao

professor, o de Leonardo (Blum) que usou parte de seu vídeo-depoimento para 2 justificar sua mudança de tema de investigação ao longo do período de docência supervisionada.

- O simples uso de uma ferramenta virtual no espaço aberto da rede não parece ter contribuído para um posicionamento que manifestasse intenção de compartilhamento num círculo exotérico profissional mais amplo.

Notamos também uma pequena variação no uso da linguagem audiovisual pelos alunos, lembrando que não houve qualquer formação específica em relação a isso. Embora a maioria tenha feito uma simples narração na frente da câmera, um dos alunos fez o vídeo todo em ambiente externo, em frente à escola em que realizou os estágios, o que, aliás, causou problemas no áudio, e alguns alunos fizeram inserções de filmagens de situações de sala de aula tomadas durante seus estágios.

## Elementos da ferramenta 'blog' no formato de revista

Além de espaço de publicação dos vídeos, a revista/blog permite uma interação pública. Observamos uma nítida comunidade exotérica compartilhando saberes, que se influenciaram mutuamente, constituindo-se socialmente, principalmente pelo compartilhamento de ideias sobre a prática (maior ênfase encontrada). Não se observaram discussões de nível teórico, embora elementos de pesquisa acadêmica estivessem presentes, nem focadas na aprendizagem dos alunos, mas apenas no fazer do professor.

## Relações entre saberes da prática e acadêmicos (do círculo esotérico)

Os saberes docentes construídos pelos licenciandos relacionam conhecimentos do campo esotérico do ensino de física e da prática, mais caracteristicamente exclusivos do círculo exotérico, de maneiras muito particulares para cada um dos 22 casos, sem que se possa, até o presente momento, estabelecer sínteses ou padrões para esses casos, a não ser pequenas semelhanças em alguns deles. Isso indica necessidade de aprofundamento no conhecimento das condições de produção dessas relações dada a complexidade que os dados revelaram. Deste modo, selecionaram-se alguns casos apenas, para exemplificar algo dessa diversidade e complexidade. Além desses casos, detalhados a seguir notaram-se outros modos como essas relações se deram, entre eles: 1) a temática explicitada e trabalhada pelo licenciando pertence ao campo da pesquisa esotérica da área, no entanto, as ideias da literatura lida não foram efetivamente incorporadas em seu discurso, embora seu discurso apresente uma boa articulação revelando uma natureza reflexiva para além de um simples relato de experiência; 2) o licenciando avalia sua primeira intervenção prática em sala de aula pautada na literatura da área como não satisfatória, mantém a temática, mesmo com os resultados não tão positivos em sala de aula, e refaz sua prática. Neste caso, há necessidade de aprofundar a análise e a percepção de que se houve mudança houve avanço nos saberes exotéricos produzidos.

É bastante notória a influência exercida pelos anos de prática docente nas atitudes investigativas dos alunos de Estágio, pois nesta turma, a maioria já atuava como docente com experiência que varia de 1 a 15 anos. Embora tenhamos notado também exceções. Mas, de modo geral, em que pese a relação entre saberes docentes e saberes acadêmicos que permeia suas narrativas, aqueles com maior experiência em sala de aula demonstram considerar mais fortemente essa experiência, desempenhando a pesquisa acadêmica um papel secundário.

Dentre os marcadores dessa inclinação, observa-se, por exemplo, no baixo número de menções explícitas aos artigos lidos ou à fundamentação teórica de seus planejamentos. A aluna Nadia, por exemplo, que investiga o ensino de física com atividades experimentais no nono ano de ensino fundamental, foi a única de seu polo, com seis alunos, a apresentar o artigo que usa como referencial teórico e suas ideias. Gabriel, do mesmo polo, apesar de não citar o artigo explicitamente, menciona que fez leituras tanto para sua linha de investigação, quanto de sua escolha metodológica de usar simulações em sala de aula. É possível notar, no entanto, uma ligação tácita entre seu discurso e o artigo lido (de BROCKINGTON e PIETROCOLA, 2005), quando esse aluno parte do princípio de que, como consta nos livros didáticos, a física moderna - sua linha de investigação - os conteúdos de física moderna prendem pouco a atenção dos alunos, que demonstram ter baixos rendimentos. Esses dois alunos são aqueles que têm menos experiência docente, e aqueles que, nesse polo, suas narrativas demonstraram conexões com as pesquisas acadêmicas, conhecimentos do círculo esotérico.

Com uma longa experiência como docentes de química e matemática respectivamente, as alunas Claudia e Soraia demonstraram ter sido menos influenciadas pela leitura acadêmica e mais por suas práticas de sala de aula. Claudia, por exemplo, ao contextualizar seu ambiente de estágio, centra suas atenções na falta de conhecimentos anteriores pelos alunos, especialmente naqueles referentes à matemática, ou seja, um discurso docente bastante típico. Ela propôs, para o ensino de movimento circular uniforme, uma investigação sobre as possibilidades de enunciados mais contextualizados , problemas que pudessem ser ilustrados com atividades experimentais . Trata-se de um discurso que circula já bastante tipicamente no círculo exotérico, parte dos saberes de docentes nessa área de educação em ciências no momento histórico atual. Nota-se a dificuldade de delineamento da investigação, além da omissão do artigo em que se fundamentou, uma aproximação menor com os conhecimentos do círculo esotérico, que ocorreu também durante a preparação do plano de ensino, com a grande dificuldade de desenvolver um espírito investigativo com bases nos conhecimentos da área de educação científica.

No entanto, se no caso de Soraia (Blum) a presença da pesquisa acadêmica não está tão forte quanto nas narrativas de outros licenciandos, a forma como se conectam esses saberes em sua narrativa é bastante interessante.

Os estagiários que fizeram uma análise mais profunda de suas intervenções ampararam suas reflexões muito mais nas questões afetivas do que naquelas sobre a efetividade de suas escolhas metodológicas em termos de aprendizagem dos alunos. Nota-se associadas esse discurso de natureza afetiva frases de avaliação genéricas como ' foi bem interessante ', ' foi bem jóia ' (Julia, Tub), 'f oi muito legal, pois eu realmente percebi o interesse da parte deles... ' (Silvia, Lag). Isso tem relação com um traço característico dos discursos docentes no círculo exotérico.

Naturalmente, a dimensão afetiva desempenha um papel bastante importante nos processos de ensino e aprendizagem por propiciar uma mudança na relação entre os elementos didáticos - aluno, professor, conhecimento. É bastante interessante a maneira como os estagiários, quando interpelados a analisar suas intervenções, mostraram maior propensão a avaliá-las em termos motivacionais e afetivos. Isso implica em se conceber enquanto professores como se suas inovações metodológicas tivessem como função apenas atrair a atenção dos alunos para a disciplina de física, revelando assim, um saber bastante característico do discurso docente, ou seja, saber exotérico.

O caso de Soraia exemplifica empiricamente o que temos colocado.

'Porém, no semestre passado observando as turmas, eu percebi que teria que colocar um outro foco também, por que eu senti a turma bastante apática e eu precisei pensar em uma maneira de chamar a atenção deles pra mim.' (Soraia, Blum).

' Pensar uma maneira de chamar a atenção deles pra mim ', exemplifica um saber docente, do círculo exotérico, a partir de como seu imaginário configura sua posição de professora. Outras variantes desse discurso, nas narrativas de outros alunos: ' como que o professor estimula a turma '; 'de que forma que o professor consegue fazer com que a turma reaja' (Julia, Tub). Este saber se desenvolve na pratica levando brinquedos para a aula, ' Eu levei muitos brinquedos com o objetivo inicial de chamar a atenção deles para minhas aulas .'. No entanto, se a narrativa de seu próprio trabalho tem esse componente de um saber não acadêmico, tem também um componente do saber acadêmico. O tema escolhido por Soraia para investigação foi a resolução de problemas, como indica o titulo de seu ensaio final ' Uma análise da Importância da Resolução de Problemas e do Lúdico no Ensino de Física ' no ensino de física, tendo lido três artigos da área a esse respeito, sendo um deles o de Peduzzi (2008). Esse saber docente, que ela chama de 'prática lúdica para chamar a atenção dos alunos', ela associa à resolução de problemas.

'Voltando então para a situação de resolução de problemas, na última aula eu trabalhei com eles força de atrito. De que maneira eu trabalhei este conceito com eles? Eu levei uma caixa de papelão... eu já tinha mostrado pra eles a força de atrito agindo em outras situações, mas nesse dia que o objetivo era trabalhar realmente força de atrito...Levei uma caixa de papelão com uma cordinha amarrada, e arrastei aquela caixa pela sala, em várias situações, formando vários ângulos com aquela corda, e tentando fazer com que eles enxergassem realmente, o que a força de atrito faz com o movimento daquela caixa. (Soraia, Blum) .

O trecho anterior mostra que ela mobiliza seu saber sobre uso de materiais práticos em sala de aula, análogo ao que fez com os carrinhos, mas agora, relacionando com a resolução de problemas:

'E, ao final da aula, então, eu deixei um problema no quadro pra que eles resolvessem em casa. Esse problema parece um problema bastante comum (...). (...) mas eu não falei a direção e nem o sentido dessa força que estaria sendo aplicada sobre este corpo. Na verdade eu gostaria que eles enxergassem isso, ou seja, que eles percebessem que essa direção não foi dada e que todas as outras respostas dependeriam então, do desenho que eles fizessem. (...)eu vou conseguir gerar a discussão necessária então pra tá trabalhando esse problema de um modo diferente com eles. 'É que na verdade não existe uma única solução, existem várias soluções, e ai eu acho que todos os conceitos envolvidos nessa aceleração resultante, vão ficar bem claros, eu espero pelo menos.' (Soraia Alves, Blum).

Neste trecho, percebe-se que ela mobiliza um saber do campo esotérico, relacionado com a noção de problemas abertos bastante discutida na literatura da área. Deste modo, seu relato e sua prática interconectam saberes da experiência

(Tardif, 2002) com saberes acadêmicos, evidenciando a circulação entre os círculos exotérico e esotérico, numa forma híbrida de problematização do ensino.

Outro exemplo de conexão entre saberes da prática e saberes acadêmicos pode ser evidenciado a seguir, da aluna Sonia (Lag):

'A pessoa [professor] não pode deixar passar o Jurí, mas numa próxima aula... Anotar as concepções dos alunos... E discutir essas concepções. Para não correr o risco do aluno entender alguma coisa errada, ou assimilar algum conceito errado.'

Trata-se de um saber-fazer, dirigido a um interlocutor genérico membro da comunidade exotérica (outro professor), e ancorado em saberes da área de pesquisa em ensino de física ('anotar as concepções dos alunos').

## Considerações finais

O fato de se ter observado conexões entre os saberes da prática e saberes acadêmicos na constituição de suas narrativas audiovisuais em boa parte dos licenciandos é um indicativo potencial desse recurso para a circulação de saberes docentes no círculo exotérico em conexão com os do círculo esotérico, contribuindo para a comunicabilidade e circulação (Roldão, 2007) desses saberes. No entanto, o fato de não termos observado isso em todos os alunos, e o de termos observado grande variação nas formas com que essas conexões se dão, sugerem a necessidade de outras e mais aprofundadas investigações.

Para a constituição de um posicionamento como sujeito pertencente a um círculo exotérico mais amplo que a própria turma de produção e compartilhamento de saberes docentes parece não ser suficiente o simples utilizar de uma ferramenta publicamente aberta. No entanto, as ferramentas web 2.0 possibilitam que outros atores passar fazer parte da comunicabilidade e circulação de saberes docentes, incluindo os próprios professores supervisores das escolas campo de estágio e pesquisadores da área.

## Referências Bibliográficas

BROCKINGTON, G. e PIETROCOLA, M. O Ensino de Física Moderna necessita ser real? In: Atas do XVI SNEF, Rio de Janeiro, 2005.

FLECK, L. Gênese e desenvolvimento de um fato científico . Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010.

GERALDI, C.; FIORENTINI, D. e PEREIRA, E. M. A. Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a). Campinas, SP: ALB e Mercado de Letras, 1998.

ORLANDI, E. Análise de discurso . Campinas, SP: Pontes, 2001.

PEDUZZI, L. O. Sobre a resolução de problemas no ensino da física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , vol. 14, n.3, 2008, p. 229-253.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional . Petrópolis: Vozes, 2002.

VARANI, A.; FERREIRA, C. R. e PRADO, G. V. T. (orgs.). Narrativas docentes: trajetórias de trabalhos pedagógicos . Campinas, SP: Mercado de Letras, 2007.

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