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A diferença entre saber Física e ser cientista na atribuição de estereótipos de alunos de ensino médio

Laís Perini, Felipe Velasquez De Oliveira, Maurício Pietrcola, Ivã Gurgel

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
08/11/2012
Linha de pesquisa
Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## AS DIFERENÇAS ENTRE 'SER CIENTISTA' E 'SABER FÍSICA' NA ATRIBUIÇÃO DE ESTEREOTIPOS POR ALUNOS DE ENSINO MÉDIO.

## THE DIFERENCES ABOUT 'BE A SCIENTIST' AND 'KNOW ABOUT PHYSICS' ON THE HIGH SCHOOL STUDENTS' STEREOTIPES ATRIBUTIONS.

## Laís Perini , Felipe Velasquez de Oliveira , Ivã Gurgel , Maurício Pietrocola 1 2 3 4

1 Universidade de São Paulo/Programa de Pós Graduação em Educação/Faculdade de Educação, laisperini@usp.br

## Resumo

A área de pesquisa em Educação tem verificado em suas investigações, constante desinteresse/apatia por parte dos estudantes. Trabalhos sugerem que os alunos apresentam indisposição aos estudos de disciplinas científicas, antes mesmo de seu primeiro contato formal, devido a estereótipos/crenças desenvolvidos durante sua vivência anterior. Existem pesquisas que visam identificar estereótipos sobre a ciência/cientistas a partir de vários meios de investigação, como a elaboração de descrições ou desenhos, responsáveis por determinar aspectos comuns e consensuais, que provavelmente surgem dentro do contexto social atual. Mesmo apresentando resultados interessantes, como a influência direta que a percepção da imagem do cientista realiza nas crenças de um grupo sobre a proximidade entre 'mundo normal' e 'mundo científico', as pesquisas sobre o estereótipo do cientista não fornecem apontamentos sobre como estes influenciam no processo de adaptação inicial da 'Física' em contexto escolar, uma vez que as crenças pessoais que cada aluno apresenta sobre sua autoeficácia e a Física como disciplina, não deveriam ser determinadas unicamente pelo vínculo estabelecido entre o estereótipo do cientista e o distanciamento deste estereótipo com seu mundo. Visto isso, o presente trabalho visa propor uma metodologia de investigação que utilize elementos como a análise, pelos alunos, de imagens/fotografias de pessoas em atividades cotidianas, a fim de determinar o estereótipo de uma pessoa que saiba/goste de Física dentre pessoas que possuem características pessoais e traços de personalidades variados. Pretende-se verificar se é possível para o aluno utilizar elementos mais próximos da sua realidade para descrever alguém 'relacionado ao meio científico' e como esta descrição ocorre. A análise dos dados possibilitou a verificação de três categorias de atribuição feitas pelos alunos durante a análise das imagens: atribuições pessoais, profissionais e ambientais. As três categorias ofereceram dados significativos para que considere-se a investigação como importante para a área de pesquisa.

Palavras-chave : Estereótipos, identidade, crenças.

## Abstract

Research in education has found in its investigations, constant lack of interest and apathy on the part of students. Studies suggest that students present unwillingness to study scientific disciplines, even before their first formal contact, due to stereotypes/beliefs developed during his previous experience. Exist in the area researches that aim to identify stereotypes about science/scientists from various investigation resources, such as drawings or descriptions, responsible for identifying commonality and consensus enactment, which probably arise within the social context in which we currently live. Although presenting some interesting results, as the direct influence that perceived image of the scientist realizes of one group's beliefs over the proximity of "normal world" and "scientific world", the research of the scientist's stereotype doesn't provide notes on how they influence in the process of initial adaptation of "Physics" in the school context, since the beliefs that each student has on their self-efficacy and physics as a discipline should not be determined solely by the bond established between the stereotype of the scientist and the remoteness of this stereotype with the students world. As such, the present work aims to propose a research methodology that uses elements such as analysis of images/photographs of people in everyday activities in order to determine the stereotype of someone who knows/likes physics among people who have varied personal characteristics and personality traits. We intend to verify whether it is possible for students to use elements closer to their reality to describe someone "related to the scientific community" and, if it is possible, how this description occurs. The data analysis allowed the determination of three categories made by the students during the images' analysis: personal attributes, professionals, and environmental. The three categories provided significant data to consider investigation as an important task for research.

Keywords : Stereotypes, identity, beliefs.

## Introdução

Entende-se que o início do Ensino Médio é uma fase extremamente conflituosa para os alunos. A inserção de novos componentes curriculares, acompanhada muitas vezes de mudanças drásticas no contexto sócio-cultural que compõe o ambiente escolar e a vida cotidiana do aluno, acarretam uma série de ressignificações sobre como o aluno concebe o processo de aprendizagem e seu papel nesse processo. O primeiro contato com a disciplina de Física no currículo é conhecido como marcante na vida escolar dos alunos, sendo, portanto, considerada como um fator relevante nestes processos de ressignificação.

Pensando desta forma, mesmo caracterizando-se como algo marcante, as ideias, concepções e atitudes com relação à disciplina de Física e à própria atividade científica (promotora do desenvolvimento deste campo conceitual) deveriam ser estabelecidas e percebidas ao longo do processo de adaptação dos alunos com a nova realidade imposta. No entanto, o que é verificado, a despeito da relevância ingênua que atribuímos às atitudes geradas pelo processo de adaptação, é a apresentação de um comportamento quase generalizado de indisposição prévia para com a disciplina, por parte dos alunos. Mesmo em ambientes que possuam

metodologias adequadas, boas relações entre os diferentes sujeitos da ação educacional (professores e alunos) e profissionais dedicados em enfrentar os conflitos que possam ser gerados nesta etapa escolar, esta indisposição e distanciamento ainda podem ser observados.

A evidente existência de desinteresse e apatia por conteúdos e atividades científicas tem sido mostrada como um dos principais apontamentos para o fracasso escolar, tanto no âmbito do ensino quanto da aprendizagem, nas disciplinas relacionadas a temas científicos (notadamente, no Ensino Médio, a disciplina de Física). Esta constatação tem se mostrado como um grande desafio para a pesquisa em Educação, e vem se tornando uma preocupação relevante em muitos trabalhos e pesquisas desenvolvidos. Profissionais atuantes na área de Ensino de Ciências estão acostumados a identificar em estudantes concepções e imagens distorcidas sobre a atividade científica, e estas observações tem levado ao surgimento de investigações sobre as concepções elaboradas pelos alunos a cerca da atividade científica e do próprio cientista. Mead e Metraux (1957) mostrou, em uma investigação, que descrições elaboradas pelos alunos sobre cientistas geralmente envolvem um indivíduo muito inteligente e dedicado, que produz trabalhos responsáveis por tornar melhor a vida das pessoas, tendo, desta forma, um papel social muito importante. Porém, os autores ainda indicam que esta imagem também está relacionada a uma pessoa antissocial, de aparência desagradável e que realiza trabalhos tediosos, características que se mantiveram em outras formas de investigação, como os trabalhos Chambers (1983) e Rahm e Charbonneau (1997). Estes trabalhos investigam as representações de um cientista, realizada por alunos através de desenhos, e neles foram observados pessoas desproporcionais, desarrumadas e peculiares, imagens assim identificadas como distantes das perspectivas pessoais dos alunos.

## Estereótipos

A linha de pesquisa apresentada acima caracteriza-se por considerar a temática de estereótipos como ponto fundamental de trabalho, pois esta se torna responsável por investigar um conjunto de crenças consensual de um grupo social específico a respeito de características pessoais e traços de personalidade de um indivíduo pertencente a um grupo social distinto (Lippmann, 1922 apud. Deschamps & Moliner, 2009). Mais especificamente, estereótipos tratam de mapear as atribuições a priori (que são realizadas por um integrante atuando em seu grupo), referentes a outro indivíduo (externo ao grupo), ou seja, os estereótipos são identificados tanto o indivíduo que estereotipa quanto o indivíduo estereotipado, inseridos em seus respectivos ambientes. Desta maneira, os estereótipos de estudantes sobre cientistas são apresentados quando os estudantes estão na escola, e caracterizam o cientista como um membro externo ao seu grupo, já que ele é integrante de um centro de produção científica, e não de uma escola (laboratório, centro de pesquisa, etc).

É importante considerar, neste momento, que uma vez inserido em seu ambiente, um integrante é capaz de 'acessar' os estereótipos característicos de seu grupo social mesmo que não adira a eles. A influência dessas crenças sobre os integrantes do grupo social dependem do grau de controle que estes exercem sobre os processos cognitivos da percepção de outrem (Devine 1989 apud. Deschamps & Moliner, 2009), e sendo assim, no caso de não adesão de um indivíduo aos

estereótipos característicos de seu grupo social, este grau de controle pode definir se estes serão ou não livremente expressados. Isto significa que trabalhos que envolvem o mapeamento de estereótipos de estudantes sobre cientistas e sobre a ciência podem identificar os estereótipos representantes do grupo 'estudantes' sobre um cientista, mas não necessariamente como cada indivíduo simboliza um cientista.

## Proposta

O vislumbrar do panorama exposto permitiu delinear a proposta aqui apresentada, que tem como escopo a realização de uma investigação das crenças dos indivíduos de um grupo sobre um membro externo que esteja relacionado à atividade científica, expressas a partir de imagens e ambientes pré-determinados, dos quais os alunos consigam se identificar mais facilmente. Desta maneira o aluno não se depara, diretamente e de forma isolada, com a missão de descrever um membro do grupo social 'científico', mas é apresentada ao aluno uma situação comum de seu dia-a-dia onde, mesmo fora de contexto, pode ser encontrado alguém relacionado ao meio 'científico'. Este alguém a ser encontrado, incialmente, não será 'descrito', mas sim identificado, a fim de que o aluno não esteja livre a caracterizar o indivíduo com quaisquer elementos que queira, mas observar os elementos presentes e julgar quais são os mais apropriados para a situação.

Neste trabalho propõe-se uma maneira de investigar um modelo de estereótipo focado em descrever 'quem sabe/gosta de ciência' dentre pessoas que possuem características pessoais e traços de personalidades variados, as quais o aluno pode mais facilmente se identificar. A partir deste modelo, será possível verificar a possibilidade de o aluno utilizar elementos mais próximos a sua realidade para descrever alguém relacionado ao meio 'científico' e como esta descrição ocorre.

## Metodologia.

O presente trabalho caracteriza-se como um estudo exploratório qualitativo, se propondo a investigar e mapear alguns fatores relevantes da apatia frente às disciplinas científicas, que podem influenciar significativamente nas atitudes dos alunos em situações de 'primeiro contato' com a disciplina de Física. Como resultado, obtiveram-se apontamentos que nos permitiram montar um 'quadro de crenças' compatível com as concepções dos alunos sobre seu desempenho (autoeficácia), sua relação com a atividade escolar, bem como suas percepções sobre a disciplina de Física, o ambiente ideal para aprender Física, a escola onde estudam, a Física como Ciência e, por fim, alguns apontamentos sobre como estes alunos identificam uma pessoa que sabe/gosta de Física. A pesquisa teve seu desenvolvimento com a aplicação três instrumentos de investigação, identificados na Quadro 01, apresentada abaixo.

Apesar da extensa produção de material, e justamente por este motivo (dada a limitação espacial proposta para o trabalho), as análises serão restritas à investigação dos resultados provenientes do segundo e terceiro instrumentos de pesquisa (determinados pela área hachurada no Quadro 01. Acredita-se que o recorte proposto proverá a possibilidade de uma análise mais substancial sobre como os sujeitos percebem a característica 'saber/gostar de Física' e como esta

característica influencia as atitudes, valores e crenças deste grupo de estudantes, frente à disciplina de Física.

Quadro 01: Instrumentos de investigação para as diferentes etapas de desenvolvimento da pesquisa.

## Resultados

O presente estudo se fundamentou, portanto, em uma abordagem majoritariamente qualitativa dos dados, a partir da realização de análises semânticas das respostas apresentadas em cada item. A análise quantitativa dos dados, contudo, também se fez necessária, em momentos onde julgamos que a frequência de inferências a respeito de determinadas características se fizeram oportunas para apoiar os resultados obtidos na análise inicial. Para isso utilizou-se um software de análise de dados qualitativos, Atlas TI, realizando uma análise em exaustão dos enunciados apresentados pelos alunos durante as respostas às perguntas dos questionários. A análise dos dados possibilitou a formação de ligações diretas entre as diferentes categorias atribuídas e as explicações realizadas pelos alunos para estas atribuições, em cada questão. Por fim, a análise culminou na formação de uma malha de dados que forneceu um material substancial que revela as diferentes relações existentes entre as características apresentadas pelos alunos. A análise destas malhas será apresentada a seguir.

## O Campo de Aplicação

A pesquisa realizou-se com alunos voluntários do Primeiro Ano do Ensino Médio, em escolas da Rede Pública do Estado de São Paulo, de modo que as aplicações dos questionários e atividades foram propostas e realizadas pelo professor da disciplina de Física da própria Unidade Escolar (professor este, pesquisador colaborador e participante do GrAFiE/USP- Grupo de Apoio à Física Escolar), parte em sala de aula (Atividade das Fotografias e Questionário Final), parte em caráter extracurricular (Questionário Inicial). Foram mapeadas as respostas de 33 questionários.

Ao identificar a situação escolar dos sujeitos, percebeu-se que 68% dos mesmos apresentam-se em situação de primeiro contato com a disciplina de Física. Dos 32% restantes, 85% afirmam que já tiveram a disciplina de Física no currículo, mas não como disciplina, ou seja, a Física era apresentada durante as disciplinas de Matemática e Ciências. Ao descreverem as atividades realizadas nestes momentos uma das principais características apresentadas era o forte vínculo entre Física e Matemática, e a associação da Física com o conteúdo específico de Cinemática.

Quando questionados a respeito de quais disciplinas apresentam maior dificuldade, a maioria dos estudantes afirma apresentar dificuldade nas disciplinas de Matemática (29% do total de citações), Física (15% do total de citações) e Química (13% do total de citações). A atribuição destas disciplinas como difíceis é justificada, majoritariamente, por dificuldades específicas como a linguagem estruturante necessária para o aprendizado da disciplina (a saber, a estruturação matemática do conhecimento) e por dificuldades específicas na apreensão do conteúdo. Já para a atribuição das disciplinas às quais apresentam maior facilidade, a maioria das citações são relacionadas às disciplinas de Português (21% do total de citações), Artes (16% do total de citações) e Educação Física (13% do total de citações). As justificativas para a maior facilidade com estas disciplinas se dá pela curiosidade que o conteúdo desperta, bem como a facilidade na apreensão dos mesmos.

## Atividade das fotografias

A atividade das fotografias foi desenvolvida inicialmente como um simples estudo que visava verificar como eram realizadas as ligações entre a apresentação de diferentes imagens e a atribuição de estereótipos referentes à atividade científica, ou à figura do cientista. Optou-se em mudar figura de referência (de cientista para pessoa que sabe/gosta de Física), pois acredita-se que a atribuição de estereótipos para a figura da pessoa que 'sabe/gosta de Física', tem o potencial de estruturar uma aproximação muito mais significativa entre o aluno e a possibilidade do 'saber'. Sendo assim, desenvolveu-se a atividade pautada na seguinte pergunta:

- · Se você precisasse de auxílio para a realização de uma tarefa para a disciplina de Física, a quem pediria? E a quem não pediria?

Junto ao instrumento, foi entregue aos alunos uma folha com seis fotografias distintas, mostrando diferentes pessoas que estivessem disponíveis para auxiliá-lo, de modo que o aluno deveria escolher uma pessoa para solicitar ajuda e, uma outra para a qual ele definitivamente não pediria o auxílio, justificando a resposta. Para que nossa escolha não fosse também determinada por possíveis estereótipos, as fotografias foram escolhidas seguindo-se alguns critérios:

- i. Todas as fotografias mostravam pessoas sozinhas e a seleção de fotografias se deu de forma e escolher a maior variabilidade de ambientes possível;
- ii. Todas as fotografias selecionadas referiam-se à pessoas jovens, com idade inferior à 30 anos, de modo que obtivemos fotografias de estudantes voluntários, graduandos, mestrandos, doutorandos e doutores, todos da área de Física e afins;

- iii. Optou-se por escolher pessoas com biotipos e aparências bem heterogêneas (pessoas bem ou mal arrumadas, mulheres, homens, negros, brancos, etc);

## Foto auxílio versus foto descartada

Quando da verificação das especificidades envolvidas nas atribuições dadas pelos alunos com fim de fornecer uma justificação para as escolhas, observou-se os seguintes argumentos:

- · Atribuições pessoais: São características atribuídas pelos alunos para aferir algum tipo de habilidade pessoal, especificidades na personalidade, aptidões e estilo das 'personagens das fotos escolhidas'. As atribuições pessoais mais presentes para justificar a escolha de uma fotografia são: cara de inteligente/esperto, cara de saber Física/saber a matéria, cara de pessoa culta, cara de ser uma pessoa tranquila e agradável. Já para justificar a exclusão de uma fotografia, são: cara de não ser inteligente, cara de certinho, cara de grosseiro, cara de não saber Física.
- · Atribuições profissionais: São atribuições relativas à inserção dos personagens apresentados pelas fotografias em grupos profissionais ou de atividades específicas, com a finalidade de servirem como categorias para escolha. As atribuições profissionais mais presentes como justificativa para a escolha de uma fotografia são: Cara de quem trabalha com matemática, cara de arquiteto, cara de professor. No entanto, para justificar a exclusão de uma fotografia, são: Cara de domador, cara de modelo, cara de vendedor de loja de roupas, cara de sociólogo, cara de arqueólogo, cara de esportista, cara de advogado, cara de político. Algumas categorias foram citadas tanto na escolha, quanto na exclusão das fotografias. São estas: cara de aluno, cara de pessoa bem sucedida, cara de aventureiro.
- · Atribuições ao ambiente: Estas atribuições referem-se especificamente ao julgamento e análise dos ambientes nos quais as personagens das fotografias encontravam-se. As atribuições ao ambiente mais presentes para a escolha de uma fotografia são: Está na universidade, está em uma escola, está em um lugar com computadores, está em um lugar arborizado, a fotografia mostra um leão. Para justificar a exclusão das fotografias, foram apresentadas duas justificativas já presentes no momento de escolha das fotografias: está em um lugar arborizado, a fotografia mostra um leão.

No momento em que solicitados a julgar qual seria a melhor pessoa para oferecer auxílio na resolução de uma atividade de Física, as escolhas foram bem equilibradas para as diferentes fotografias. Como observa-se no item (a) do esquema 01, abaixo, as fotografias foram citadas entre quatro e sete vezes cada uma (foto 1, 6 citações; foto 2, 5 citações; foto 3, 7 citações; foto 4, 6 citações; foto 5, 4 citações; foto 6, 6 citações), o que leva a pensar que não existe um critério inicial para aferir quem seria uma pessoa que sabe Física em potencial. No entanto, as apresentações das categorias permitem evidenciar que, as atribuições pessoais dadas pelos alunos, apesar de superficiais, parecem muito positivas, o que contraria alguns dos resultados apresentados para o mapeamento de estereótipos, quando o referente era a imagem de um cientista.

É importante notar que, em nenhum momento foi citada alguma relação entre os sujeitos das fotografias e a atividade/profissão cientista. Mesmo assim, as atribuições profissionais foram extensamente citadas. Cerca de 48% das respostas dadas citava algum tipo de atribuição profissional, exceto para a escolha da fotografia 1, que apresentava apenas categorias de atribuição pessoal e atribuição ao ambiente, para a escolha da fotografia no caso de auxílio.

Esquema 01: a) Índice de inferência de fotos para realizar o pedido de auxílio. b) Índice de inferência de fotos para não realizar o pedido de auxílio.

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A mesma homogeneidade não se percebe no momento em que os alunos são solicitados a realizar a atividade contrária (julgar quais fotografias mostravam pessoas às quais os alunos não escolheriam para pedir auxílio), como mostrado no item b do esquema 01. Percebe-se, ao observar o mapa à esquerda, uma inferência maior das fotografias 2 (citada em 9 das 33 respostas) e 3 (citada em 16 das 33 respostas), havendo uma inferência intermediária, mas também significativa, dada para a fotografia 4 (citada em 7 das 33 respostas). Vale ressaltar que, nesta questão, alguns alunos escolheram mais que uma fotografia para excluir, de modo que o total de inferências, para as seis diferentes fotografias, será maior que 33.

Analisando mais profundamente as respostas dadas para justificar a escolha das três fotografias mais citadas como as que apresentariam pessoas as quais os alunos não pediriam auxílio, percebe-se que há uma relação direta entre o julgamento dos alunos e a atribuição de vínculo entre e a imagem de uma pessoa e o fato de não saber Física. Este dado, caracterizado como uma consequência das atribuições pessoais, é muito importante, pois, ao contrário do que é visto na análise das fotografias escolhidas para auxílio, onde apenas características de personalidade e inteligência importavam como atribuições pessoais, verifica-se que padrões como o estilo, o vestuário, e a imagem dos personagem apresentados nas fotografias podem promover um descrédito com relação à sua capacidade de saber Física. Alem disso, cabe ressaltar que, apesar de não ser apresentada, pelos alunos, nenhuma justificativa que relacione os indivíduos das fotografias com a atividade científica, obtivemos um total de 52% de respostas que continham atribuições profissionais como justificativa para a escolha das fotografias. Do total de atribuições observadas, cerca de 39% das respostas (76% de todas as inferências de atribuições profissionais) são dadas para as fotografias 2, 3 e 4. Isto nos aponta para uma relação extremamente tênue entre a credibilidade atribuída a um sujeito e a sua respectiva atividade social/profissional.

## Declaração de estereótipo

Segue a análise do segundo instrumento delimitado para esta exposição (a questão 1 do questionário final), que tinha como pretensão, levantar quais são as possíveis declarações de estereótipo emergentes para uma pessoa que saiba/goste muito de Física. Do total de 33 questionários analisados, apenas 29 responderam à esta questão. Destes, 38% relacionaram a declaração de estereótipo realizada com alguma das fotografias apresentadas na atividade anterior e suas características, mesmo que não se refiram, em momento algum, aos sujeitos das fotografias como cientistas. Dos 62% dos alunos que não apresentaram relações diretas entre as fotografias e a declaração do estereótipo fornecida, foi realizado um mapeamento das principais características vinculadas a este estereótipo declarado. Foram mapeadas 18 diferentes categorias, com inferência total de 54 citações. As categorias mais citadas são: pessoa inteligente/esperta (com 9 citações), pessoa tranquila agradável (com 7 citações), pessoa bem arrumada (com 6 citações), pessoa culta (com 5 citações) e pessoa comunicativa/que estabelece um bom diálogo (com 5 citações). Além disso, verifica-se nas respostas a presença de um forte vínculo entre saber Física e a imagem de uma pessoa (com uma inferência total de 10 citações para as 29 respostas analisadas). Percebe-se com isso, que mesmo as categorias menos citadas estão todas vinculadas a atribuições pessoais, de modo que não são apresentadas, ao contrário dos resultados verificados para a atividade das fotografias, atribuições profissionais ou ao ambiente. Mesmo assim, é possível perceber muito mais características positivas elencadas para a pessoa que sabe/gosta de Física, do que para o cientista, durante a declaração de estereótipos.

## Conclusões

Trabalhos na área de ensino de ciências que investigam crenças sobre ciência e cientistas, em sua maioria, partem da análise de algum tipo de produção livre de estudantes (como desenhos ou descrições), sendo que, desta forma, são mapeados exclusivamente como são os estereótipos do grupo social ao qual os alunos estão inseridos. A imagem de cientista, nestes estudos, é acessada de forma pura, no contexto exclusivo de alguém que pratica ciência. Apesar de gerarem resultados interessantes, tais estudos não dizem muito sobre como estes estereótipos poderiam influenciar na identificação do aluno com a ciência, muito menos geram fomento a propostas pedagógicas que contemplem tais influências, o que pode parecer deveras controverso. O objetivo principal do recorte aqui apresentado foi explorar esta lacuna e analisar as percepções de um grupo de alunos a respeito de como estes consideram que deva ser uma pessoa que sabe/gosta muito de Física. A opção por esta linha de investigação se deu, pois, acredita-se que a apresentação de um novo modelo de estereótipo pode ter resultados significativos e de influência direta nas atitudes, valores e crenças de estudantes.

No mapeamento realizado, percebeu-se a singular relação que os alunos estabelecem entre as características de uma fotografia (atribuições pessoais, profissionais e ambientais) e a possibilidade de saber/gostar de Física. Verificou-se especial destaque na realização de atribuições relacionadas às atividades sociais/ profissionais de cada personagem, uma vez que estas foram responsáveis pelo crédito (ou descrédito) aferido durante os diferentes julgamentos necessários para a resolução da situação problema. Verificou-se também que, em nenhum momento,

foram realizadas atribuições referentes diretamente à atividade científica, o que possibilitou a observação de um caminho para a construção da crença: 'Não é preciso ser cientista para saber/gostar de Física'. Por fim, concluiu-se que a atividade de verificação de estereótipos através de apresentação de imagens resultou em interessantes mudanças (mesmo que inconscientemente) com relação a declaração de estereótipos realizada posteriormente. Nela, apesar de não serem apresentadas características vinculadas à atribuições profissionais ou ambientais, percebeu-se a declaração do estereótipo de uma pessoa que sabe/gosta de Física como alguém muito mais acessível e agradável para a realidade dos alunos, muito diferente do que é apresentado durante o mapeamento do estereótipo de cientistas.

Percebeu-se que a análise a partir de imagens tem o potencial de determinar um novo modelo de estereótipo para os alunos, que passa a ser mais pessoal, justamente por conter elementos que envolvam imagens e atividades (usar ou não óculos, tipo de cabelo, gênero, mas também, profissões e gostos), de forma a estarem mais próximos da identidade do aluno. Além disso, pode-se dizer que o estereótipo de quem sabe/gosta de ciência esta mais de acordo com o que é almejado para a formação dos alunos, que serão pessoas que sabem ciência e não cientistas. De certa forma, o trabalho permitiu indicar que, se há a pretensão, por parte dos educadores, em criar maiores vínculos entre os alunos e a aprendizagem da Física, um caminho possivelmente eficaz seria investigar e fomentar aproximações entre as crenças pessoais do aluno e o estereotipo de quem sabe/gosta de Física, uma vez que tais crenças tem o potencial de estabelecer uma relação menos idealizada entre o aluno e o aprendizado da disciplina.

Sabendo disso, entendeu-se como um apontamento forte para a área a proposição deste modelo de estereótipo. Neste sentido, julgou-se particularmente interessante para o estudo a escolha de fotografias de acadêmicos atuantes na área de Física, já que se apresenta como pretensão futura dar continuidade ao estudo, de modo a formular intervenções didáticas que permitam verificar a reação dos alunos quando reveladas as identidades dos distintos personagens apresentados nas fotografias da atividade proposta atualmente.

## Referências

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CHAMBERS, D. W. (1983). Stereotypic Images of the Scientist: The Draw-a-Scientist Test. Science Education, 67, 255-265.

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GOMEZ-CHACÓN, I. M.: (2003). Matemática emocional: os afetos na aprendizagem matemática. Porto Alegre: Artmed.

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