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LICENCIADOS EM FÍSICA: QUAIS DISCIPLINAS LECIONAM NO ENSINO MÉDIO?

Sérgio Rykio Kussuda, Roberto Nardi

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
08/11/2012
Linha de pesquisa
Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## LICENCIADOS EM FÍSICA: QUAIS DISCIPLINAS LECIONAM NO ENSINO MÉDIO?

## PHYSICS TEACHERS: WHICH SUBJECTS THEY TEACH IN HIGH SCHOOL LEVEL?

## Sérgio Rykio Kussuda 1 , Roberto Nardi 2

## Resumo

O presente trabalho procura averiguar quais disciplinas os licenciados em Física de uma universidade pública passam a lecionar após concluírem o Curso de Licenciatura nesta disciplina. A questão procura cotejar o discurso presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais, que cobram especificidades no ensino das disciplinas da área Científicas da Natureza e suas Tecnologias (Física, Química, Biologia e Matemática) e a realidade de sala de aula, em escolas do Estado de São Paulo, onde as atribuições de aulas no Estado de São Paulo têm priorizado mais a experiência do candidato à sua formação. Esta forma de atribuição permite que licenciados em Física lecionem aulas de Matemática e Química, assim como os licenciados em Química ou Matemática lecionem Física, mesmo sem possuir conhecimentos específicos suficientes que lhes permitam adquirir as habilidades apresentadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. O levantamento realizado com 33 licenciados que responderam a questionário sobre sua atuação profissional e afirmaram terem lecionado na Educação Básica, demonstra que a maior parte deles lecionou Física em algum momento de sua carreira; contudo, grande parte lecionou outra disciplina concomitantemente, devido a esta forma de atribuição das aulas, evidenciando uma contradição entre forma de contratação de professores e capacitação dos mesmos, conforme exigido pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Uma possível solução para este impasse é a diminuição da quantidade de aulas ministradas pelos professores em sala de aula, sem perdas salariais para que o professor se mantenha trabalhando apenas em uma escola lecionando apenas as disciplinas que possui formação e tenha tempo para planejar as atividades voltadas ao desenvolvimento das habilidades e conhecimentos desejados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Palavras-chave : Licenciatura em Física; atribuição de aulas; políticas públicas.

## Abstract

This paper wants to determine which disciplines graduates in physics at a public university began teaching after graduation, since it is the Parâmetros Curriculares Nacionais (National Curriculum Parameters) have specificity on teaching

of subjects in the area Nature Science and Technology (Physics, Chemistry, Biology and Mathematics) that graduates in other disciplines have difficulty working. Contrary to the need for specific expertise mentioned in the document above, to teach scientific disciplines, the classes choose process in the State of São Paulo have prioritized candidate's experience in the classroom more them the discipline that the candidate has graduated. This form of choose allows graduates in Physics teach Chemistry and Mathematics classes, as well as graduates in Chemistry or Mathematics can teach Physics, even without having specific knowledge that would develop the skills presented by the National Curriculum Parameters. The survey of 33 graduates who responded to the questionnaire and answered that had taught on Basic Education shows that most graduates taught Physics at some point in his career, however most of the graduates taught other discipline while taught Physic, because of the way the classes choose, showing a contradiction between the hiring of teachers through this assignment and how the hire of qualified teachers to develop knowledge and skills desired by the National Curriculum Parameters. A possible solution to this impasse is to decrease the amount of classes taught by teachers in the classroom, without loss of wages for the teacher to keep teacher working in only one school, teaching only specific subjects that was graduated and have time to plan activities aimed at developing the skills and knowledge desired the National Curriculum Parameters.

Keywords : Degree in Physic; classes assignment; public policies.

## Introdução:

A mídia vem apresentando, há tempos, dados sobre a carência de professores em escolas de Ensino Médio, principalmente na área de exatas, com destaque à disciplina Física, como exemplo, a reportagem de Weber (2007) divulgada pelo jornal O Globo, cuja manchete afirma: ' MEC: dos professores de ciências 70% não tem formação na área. No caso de física, a falta de preparo atinge 90% dos que ensinam '. A temática da falta de professores, principalmente em Física, também é apresentada pela academia, como exemplo, o levantamento realizado por Gobara (2007), Penha (2005) e Araújo (2010).

Esta falta de professores tem obrigado, no Estado de São Paulo, as Diretorias de Ensino a contratarem professores em caráter emergencial, respeitando as disciplinas estudadas durante sua formação e, sendo classificado através de processos seletivos anuais.

Os candidatos são classificados, de acordo com a Resolução SE 77, de 17 de dezembro de 2010, dentro de uma grande área de acordo com a disciplina da qual participaram no processo de avaliação, sendo considerado, para sua classificação, a nota desta avaliação e o tempo de serviço como professor, não sendo considerada sua formação específica. Não é negada a necessidade de contagem do tempo de atuação em sala de aula, autores como Schön (2000) enfatizam a importância da experiência adquirida na prática, contudo é necessário o conhecimento do saber disciplinar, como indica Porlán e Riveiro (1998). De acordo com o Parâmetro Curricular Nacional para o Ensino Médio: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias (2000), a grande área à qual a Física pertence é a

denominada 'Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias', que é composta pelas disciplinas: Biologia, Física, Matemática e Química. Esta forma de avaliação acaba beneficiando alguns candidatos, uma vez que os candidatos em Biologia, por exemplo, não precisam calcular equações, como é necessário aos candidatos das disciplinas exatas, sendo o tempo de prova o mesmo para todos os candidatos.

Embora este processo seletivo busque contratar professores para preencher as vagas ociosas nas escolas, ao classificar os professores em grandes áreas não respeitando a formação específica do licenciado e, sendo possível um Licenciado em Física lecionar Química ou Matemática, sem ter estudado matérias pedagógicas destas disciplinas, acaba por desconsiderar a importância do conhecimento pedagógico específico das disciplinas, bem como a história e filosofia das Ciências. Consequentemente o licenciado, muitas vezes acaba por lecionar disciplinas que não domina, podendo causar problemas na formação do aluno e na compreensão da Ciência que o aluno possui.

- O presente trabalho visa averiguar quais disciplinas os licenciados de uma universidade estadual, localizada em uma cidade no interior de São Paulo, com cerca de 300.000habitantes, lecionaram após concluírem o curso de Licenciatura em Física. Para isto foram avaliadas respostas fornecidas por 33 licenciados egressos no referido curso entre os anos de 1995 a 2011, fornecidas através de um questionário online .

Estes 33 licenciados foram escolhidos, de uma amostra total de 52, por terem lecionado em algum momento da sua carreira no Ensino Médio após concluir o curso de Licenciatura em Física, tendo o mais jovem, no momento em que respondeu ao questionário, menos de um ano de experiência como docente e, o mais experiente 19 anos de magistério.

Este trabalho é parte de um projeto maior que visa estudar a escolha profissional dos licenciados de Física de uma universidade estadual, procurando averiguar a escolha profissional adotada pelos licenciados após concluírem o curso de Licenciatura em Física.

## Ensino das Ciências segundo o Parâmetro Curricular do Ensino Médio:

De acordo com o Parâmetro Curricular Nacional para o Ensino Médio: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias (2000), o ensino de das Ciências não devem se pautar apenas no ensino de leis e fórmulas de maneira desarticulada, mas sim devem estimular diversas habilidades específicas propiciadas pelas diversas Ciências.

Espera-se que o ensino de Física, na escola média, contribua para a formação de uma cultura científica efetiva, que permita ao indivíduo a interpretação dos fatos, fenômenos e processos naturais, situando e dimensionando a interação do ser humano com a natureza como parte da própria natureza em transformação. Para tanto, é essencial que o conhecimento físico seja explicitado como um processo histórico, objeto de contínua transformação e associado às outras formas de expressão e produção humanas. É necessário também que essa cultura em Física inclua a compreensão do conjunto de equipamentos e procedimentos, técnicos ou tecnológicos, do cotidiano doméstico, social e profissional. (BRASIL, 2000 pág. 22).

O aprendizado de Química pelos alunos de Ensino Médio implica que eles compreendam as transformações químicas que ocorrem no mundo físico de forma abrangente e integrada e assim possam julgar com fundamentos as informações advindas da tradição cultural, da mídia e da própria escola e tomar decisões autonomamente, enquanto indivíduos e cidadãos. Esse aprendizado deve possibilitar ao aluno a compreensão tanto dos processos químicos em si quanto da construção de um conhecimento científico em estreita relação com as aplicações tecnológicas e suas implicações ambientais, sociais, políticas e econômicas. (BRASIL, 2000 pág. 31).

Nesse sentido, é preciso que o aluno perceba a Matemática como um sistema de códigos e regras que a tornam uma linguagem de comunicação de idéias e permite modelar a realidade e interpretá-la. Assim, os números e a álgebra como sistemas de códigos, a geometria na leitura e interpretação do espaço, a estatística e a probabilidade na compreensão de fenômenos em universos finitos são subáreas da Matemática especialmente ligadas às aplicações (BRASIL, 2000 pág. 40).

Observamos nos excertos acima que as disciplinas das Ciências do Ensino Médio devem contemplar diferentes conhecimentos, sendo desenvolvida cada habilidade em uma disciplina específica, tornando necessários conhecimentos aprofundados sobre diversos aspectos relacionados às Ciências como história, filosofia, conceitos e relação desse conhecimento com os objetos tecnológicos presentes no cotidiano dos alunos e, não penas um ensino pautado em equações e leis.

## Forma de atribuição das aulas em escolas estaduais no Estado de São Paulo:

No Estado de São Paulo, as aulas são atribuídas, baseada na resolução S.E. n 77 de 2010, da seguinte forma: Inicialmente os professores ingressos no o cargo através de concursos para professores efetivos escolhem as salas que pretendem lecionar em uma determinada escola em que está cadastrado. Isso se torna legítimo se pensarmos que a escolha ao iniciar pelo professor admitido através de concurso, além de garantir conhecimento da matéria a ser ensinada, cria vínculos do professor com a instituição. Em seguida, escolhem os professores que participaram da avaliação para contrato de caráter emergencial realizada anualmente para suprir as vagas remanescentes ou de professores que estejam em licença. Este contrato de caráter emergencial permite participar das atribuições de aula durante 1 ano, sendo necessário no ano seguinte realizar novamente o processo seletivo, exceto os docentes estáveis categorizados como 'F'. Estes podem optar por utilizar novamente a nota adquirida em provas anteriores.

À nota adquirida na prova é acrescentada uma pontuação proporcional ao tempo de exercício de magistério. Durante a classificação realizada através desta prova, os professores são divididos em várias categorias, de acordo com o ano de ingresso no magistério. As categorias existentes são: categoria 'F' professores que começaram a lecionar antes de junho em 2007, categoria 'L' professores que começaram a lecionar entre junho de 2007 e junho de 2009 e categoria 'O' professores que começaram a lecionar após junho de 2009, sendo que a atribuição segue esta ordem de classificação. Posteriormente podem se candidatar à vaga bacharéis e licenciados que ainda não concluíram o curso de licenciatura.

## Análise dos questionários:

Através da análise das respostas fornecidas pelos licenciados podemos observar que os 33 licenciados que ministraram aulas no Ensino Médio, foram distribuídos da seguinte forma:

Tabela 1: Disciplinas ministradas no Ensino Médio pelos licenciados em Física da amostra.

Podemos observar que apenas 10 (30,30%) licenciados lecionaram exclusivamente Física e 22 (66,66%) licenciados lecionaram Matemática ou Química concomitantemente à Física.

Observamos também que um dos licenciados afirma ter lecionado disciplinas fora de sua grande área, tendo lecionado Ciências, História e Geografia. Embora estas aulas não possam ser atribuídas aos licenciados de Física, através de vivência em escolas estaduais, sabemos que elas podem ser ministradas como substituição por estes licenciados.

Apenas um dos licenciados não lecionou Física em algum momento de sua carreira docente, esta é uma evidência de que os licenciados em Física, que adotaram a profissão docente, realmente estão lecionando Física após concluírem a graduação, contudo a grande maioria também leciona outras disciplinas.

Dados semelhantes formar levantados por Camargo (2007) ao realizar um estudo com os professores de Física do Ensino Médio de uma cidade do interior de São Paulo. Neste levantamento observou que dos 46 professores de Física presentes em evento realizado para subsidiar a reestruturação do curso de licenciatura em Física local, apenas 18 eram formados em cursos de licenciatura plena nesta disciplina. Os demais passaram por cursos de licenciatura curta com habilitação em Física (5), ou realizaram licenciatura em outras diferentes disciplinas (23); desta amostra constavam ainda professores sem qualquer licenciatura para o magistério.

Esta legislação que permite a contratação de professores sem formação específica contradiz o Parâmetro Curricular Nacional para o Ensino Médio (PCNEM) que apresenta a necessidade de domínio de conhecimentos específicos, pois o professor sem formação específica terá dificuldades em implementar os trabalhos diferenciados que permitem despertar as habilidades apresentadas pelo PCNEM nos alunos. Os conhecimentos específicos para o ensino são adquiridos em anos de estudo nos cursos de licenciatura e não em um dia, pelo licenciado em outra disciplina, durante a preparação de aulas após ter lecionado oito horas, corrigido trabalhos e realizado os afazeres domésticos.

Outra consideração que devemos realizar é o fato de, embora existir uma carência de professores de Física, os licenciados que atuam no magistério, muitas vezes são alocados em outras disciplinas, sendo um dos motivos a forma de atribuição das aulas que não favorece a formação, mas o tempo de experiência no magistério.

Uma das motivações para que o licenciado aceite lecionar disciplinas diferentes à sua formação é a comodidade que ele possui ao poder lecionar perto de sua casa, ou de complementar sua carga horária em apenas uma escola, evitando necessidade de deslocamento, como relata um dos licenciados da pesquisa.

Lecionei matemática porque minha classificação na prova para pontuar os professores temporários não foi muito boa, de modo que eu não tive muitas escolhas: procurei uma escola que estivesse mais perto de minha casa. (Licenciado 1)

## Considerações finais:

Através dos dados levantados e da legislação de atribuição de aulas no Estado de São Paulo, pudemos observar que existe uma contradição entre a política de melhoria do ensino apresentado pelos PCNEM e esta legislação estadual que permite a muitos licenciados ministrarem disciplinas que não possuem formação específica e, consequentemente domínio de seus conteúdos e metodologias de ensino. É necessário melhorar o salário dos professores que atuam na Educação Básica, bem como diminuir as aulas ministradas pelos mesmos a fim de fornecer melhores condições para que este prepare sua aula e possa permanecer em apenas uma escola sem a necessidade de lecionar disciplinas as quais não possui formação.

Podemos afirmar também que parte da falta de professores existente no Brasil é devido à falta de concursos para professores efetivos, evidenciado pela necessidade de realização de concursos anuais para contratação de professores em caráter emergencial. Caso fosse realizado concursos para contratação de professores efetivos periodicamente haveria menor necessidade de realizar concursos para contratação emergencial de professores.

## Bibliografia:

ARAUJO, R. S. Estudo sobre licenciatura em física na UAB : formação de licenciados ou professores. Rio de janeiro, 2010. Tese (doutorado). Instituto Oswaldo Cruz.

BRASIL. Resolução S.E. número 77 , de 17 de dezembro de 2010 Disponível em: <http://siau.edunet.sp.gov.br/ItemLise/arquivos/77\_10.HTM?Time=11/20/2011%201: 55:28%20AM>. Acesso em 20 de jul. 2011

BRASIL, Ministério da Educação, Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio): Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília, 2000. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencian.pdf Acesso em: 29 mai. 2012

CAMARGO, S. Discursos Presentes Em Um Processo De Reestruturação Curricular De Um Curso De Licenciatura Em Física : O legal, o real e o possível. 2007. 287f. Tese (Doutorado em Educação para as Ciências) - UNESP - Bauru.

GOBARA, S.T.; Garcia J.R.B. As licenciaturas em física das universidades brasileiras: um diagnóstico da formação inicial de professores de física. Revista Brasileira de Ensino de Física , v.29, n.4, p. 519-525.

PENHA, S. P. A Carência de Professores de Ensino de Física: um estudo de caso sobre esta carência na região serrana do estado do Rio de Janeiro. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA

, 16., 2005, Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Ciência à mão, 2005. Disponível em: <http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xvi/cd/resumos/T0415-2.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2012.

PORLÁN, R.; RIVERO, A. El conocimiento de los profesores . Ed. Díada: Sevilla, 1998, 213p.

SCHÖN, D.A. Educando o Profissional Reflexivo : um novo design para o ensino e a aprendizagem. Tradução: Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2000, 256p.

WEBER, D. Eles ensinam sem ter aprendido. O Globo , Rio de Janeiro, 01 dez. 2007. O País, p. 3

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