O CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA A DISTÂNCIA DA UAB NA UFG NA VISÃO DE SEUS ALUNOS
Abdalla Antonios Kayed Elias, Cleide Aparecida Carvalho Rodrigues, Wagner Wilson Furtado
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 08/11/2012
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O CURSO DE LICENCIATURA EM F"SICA A DIST'NCIA DA UAB NA UFG NA VISˆO DE SEUS ALUNOS
## THE COURSE OF LICENTIATESHIP IN THE PHYSICAL DISTANCE OF UAB IN UFG IN VIEW OF ITS STUDENTS
## Abdalla Antonios Kayed Elias , Cleide Aparecida Carvalho Rodrigues , Wagner 1 2 Wilson Furtado 3,4
1 Instituto Federal de Educaçªo, CiŒncia e Tecnologia Goiano/Campus Morrinhos, kayed@bol.com.br 2 Universidade Federal de GoiÆs/Faculdade de Educaçªo, cleideacr@gmail.com 3 Universidade Federal de GoiÆs/Instituto de Física, wagner@if.ufg.br 4 Universidade Federal de GoiÆs/Programa de Mestrado em Educaçªo em CiŒncias e MatemÆtica.
## Resumo
Neste trabalho, analisou-se a visªo que os alunos formandos do curso de licenciatura em Física da Universidade Aberta do Brasil - UAB na Universidade Federal de GoiÆs - UFG, do polo de apoio presencial de GoianØsia, GoiÆs, possuem desse curso de graduaçªo. O mØtodo se caracterizou como uma pesquisa qualitativa com estudo de caso no qual foram utilizados um questionÆrio e um grupo focal realizado com os alunos e uma entrevista semiestruturada com gestores. Os resultados foram apresentados de forma a expor, na visªo dos alunos, suas motivaçıes e dificuldades e a importância de um curso superior de uma universidade pœblica. Foi observado que o principal fator que levou esses alunos a cursarem uma graduaçªo a distância foi a possibilidade de flexibilizaçªo dos horÆrios de estudo, por serem pessoas que trabalham e por nªo terem que se locomover para outra cidade, motivaçªo essa que Ø a própria justificativa da implantaçªo de cursos a distância. Os alunos apresentam grande satisfaçªo em estar concluindo o curso e afirmaram que a importância de um diploma de uma universidade federal Ø muito grande. Foi observado que o apoio familiar em um curso dessa natureza Ø fundamental para o bom desempenho do estudante, pois somente com a compreensªo e cooperaçªo da família o estudante terÆ tranquilidade para realizar suas atividades a contento. Apesar da importância tanto para os alunos quanto para a regiªo onde se inseriu o curso, ainda ocorre certa resistŒncia dentro da própria universidade em relaçªo a essa modalidade de ensino, onde muitos professores sªo contra sua expansªo. Essa, talvez, seja a maior barreira para uma implantaçªo mais ampla da Educaçªo a Distância -EaD, pois os alunos compreendem sua importância e suas dificuldades, superando-as, e as comunidades onde se inserem os polos querem o apoio das universidades.
Palavras-chave : Educaçªo a distância. Licenciatura em Física a distância. Universidade Aberta do Brasil.
## Abstract
In this study, it was analyzed the view that the graduating students of the licentiateship in the physical degree course at the Universidade Aberta do Brasil UAB at the Universidade Federal de GoiÆs - UFG, in the pole of GoianØsia, GoiÆs,
have this degree course. The method is characterized as a qualitative research with case study in which we used a questionnaire and focus groups conducted with students and a semi-structured interviews with managers. The results were presented to explain, in view of students, their motivations and difficulties and the importance of a college at a public university. It was observed that the main factor that led these students to a distance learning course was the possibility of flexible study schedule, because they are people working and not having to get around to another city. This is the principal motivation that is the justification of implementation of distance learning courses. Students have great satisfaction in being completing the course and stated that the importance of a diploma of a federal university is great. It was noted that family support for such a course is essential for good student performance, because only by understanding and cooperation of the family, the student will have peace of mind to carry out their activities properly. Despite the importance for both the students and for the region where it entered the course, still is some resistance within the university in relation to this type of education, where many teachers are against its expansion. This is perhaps the biggest barrier to wider deployment of Distance Education because the students understand its importance and its difficulties, overcome them, and the communities wants the support of universities.
Keywords : Distance Education. Licentiateship in the Physical distance. Universidade Aberta do Brasil.
## A EaD, a UAB e a licenciatura em Física a distância na UFG
As mudanças que o processo de globalizaçªo promove em todo o âmbito da sociedade e nªo apenas nos mercados, propiciam novos estilos de vida, de consumo, e novas maneiras de ver o mundo e de aprender, como Ø o caso do sistema educacional brasileiro. Especificamente, a Educaçªo a Distância - EaD tem sido um dos focos de discussıes sobre o ensino de qualidade. O crescimento dessa modalidade de ensino no país vai alØm de uma iniciativa apenas de âmbito municipal, estadual ou nacional, pois estÆ orientada por políticas mundiais. Em mais de 100 anos, e mesmo com a falta de políticas pœblicas para o setor, a EaD Ø marcada por uma trajetória de altos e baixos. VÆrios programas foram criados e graças a eles, fortes contribuiçıes foram dadas ao setor para que se democratizasse uma educaçªo de qualidade e que atendesse aos anseios dos cidadªos que se encontram fora dos grandes centros.
A EaD brasileira seguiu o movimento internacional, com a oferta de cursos por correspondŒncia, com remessa de material didÆtico pelos correios. A iniciativa considerada como marco da EaD nªo formal no Brasil, foi o Movimento de Educaçªo de Base, MEB, criado em 1959 a partir da iniciativa da diocese de Natal, Rio Grande do Norte. Dentre os projetos com objetivo de formaçªo geral, o de maior impacto no país foi o Projeto Minerva, criado em outubro de 1970 pelo governo federal como uma soluçªo em curto prazo para os problemas do desenvolvimento econômico, social e político do país (ALONSO, 2005).
JÆ no final da œltima dØcada do sØculo XX, iniciou-se um processo de mudanças em relaçªo a EaD no Brasil. Em 1996, a LDB dispôs sobre a educaçªo a
distância. Apesar dessa lei e de toda regulamentaçªo da EaD, atØ o ano de 2006, dez anos após a aprovaçªo da LDB, o Brasil ainda nªo possuía nem política e nem um sistema pœblico de Educaçªo a Distância. Assim, em 2006, um projeto pœblico, denominado de Sistema Universidade Aberta do Brasil - UAB, foi instituído por um Decreto do Poder Executivo, Decreto n' 5.800, de 08 de junho de 2006.
Atualmente, segundo dados do MEC, o Sistema UAB possui 640 polos, envolvendo 94 Instituiçıes pœblicas de Ensino Superior (BRASIL, 2012) e a oferta em EaD cresce paulatinamente. Segundo dados do Censo da Educaçªo Superior de 2010 (INEP, 2011), os cursos de EaD aumentaram 11,0% em relaçªo ao ano de 2009, enquanto que os presenciais 6,2%. As matrículas nos cursos de EaD representaram, em 2010, 14,6% do total de matrículas na graduaçªo, o que corresponde a 930.179 alunos matriculados do total de 6.363.315.
Em 2004, a Universidade Federal de GoiÆs concorreu ao edital que se referia ao Programa de Formaçªo Inicial para Professores dos Ensinos Fundamental e MØdio, o Pró-Licenciatura. Para participar desse Edital, a UFG filiou-se, entªo, a um consórcio regional, denominado de Consórcio Setentrional, formado pela UFG, UnB e UEG. Posteriormente, a UnB sai do Consórcio Setentrional, que passa a ser formado pela UFG, UEG e pela Pontifícia Universidade Católica de GoiÆs - PUC/GO.
Segundo Faria (2011), na UFG havia, no primeiro semestre de 2011, 5678 alunos matriculados nos cursos a distância, sendo 2295 alunos nos cursos de graduaçªo, 1550 nos cursos de extensªo, 1783 na pós-graduaçªo lato sensu e 50 na stricto sensu .
Quanto ao curso de licenciatura em Física a distância, em maio de 2012, dos 328 alunos matriculados em 2008 pelo Consórcio Setentrional, 97 alunos colaram grau e dos 50 alunos matriculados pela UAB (Edital 1), 15 colaram grau, totalizando 112 formandos. HÆ a previsªo de mais 15 formandos do Pró-licenciatura atØ o final deste ano. Assim, aproximadamente 1/3 dos alunos se formaram, o que Ø um índice excelente, levando-se em conta que Ø um curso de Física e na modalidade a distância.
Assim, consideramos importante pesquisar esse curso nessa modalidade de ensino, pois, alØm de ser uma modalidade que avança dentro das universidades pœblicas, a quantidade de alunos formandos em uma turma de Física Ø inØdita no país. Optamos por analisar os dados obtidos a partir dos alunos formandos da UAB, que se concentravam em apenas um polo de apoio presencial, o de GoianØsia, GoiÆs, ao contrÆrio dos alunos do Pró-licenciatura, que estavam espalhados em 11 turmas em 9 cidades polos diferentes. Vale ressaltar que essa nossa pesquisa seguiu as pistas ainda 'frescas' de fatos e dados que se produziam quase simultaneamente ao seu registro, pois foi realizada durante a segunda metade do curso, em sua forma mais ampla, como dissertaçªo de mestrado.
Assim, nesse trabalho, apresentamos um recorte da pesquisa, no qual apresentamos a visªo dos alunos em relaçªo a essa modalidade de ensino e às particularidades do curso propriamente dito. O objetivo principal foi analisar a visªo que o grupo de alunos formandos pela UAB tinham em relaçªo ao curso, apresentando suas impressıes, dificuldades e anseios.
Em geral, assim como esta, as poucas pesquisas produzidas em EAD sªo provenientes de programas de pós-graduaçªo em vÆrias Æreas do conhecimento: educaçªo, informÆtica, administraçªo, comunicaçªo, engenharia, dentre outras.
Poucos sªo os artigos encontrados que tratam especificamente sobre cursos de licenciatura em Física a distância. Em pesquisa, encontramos os trabalhos de Lemes et al . (2011), de Caetano e Rezende Jœnior (2009), Fernandes, Quartiero e Angotti (2007), Angotti (2006), Cunha (2006) dentre outros nªo tªo específicos. Um provÆvel motivo da falta de trabalhos relacionados a esse assunto pode ter sido ocasionado pelo fato desses cursos serem novos e nªo se ter ainda dados suficientes para uma avaliaçªo mais específica.
## Metodologia
O percurso desenvolvido nessa pesquisa foi caracterizado por uma pesquisa de abordagem qualitativa com estudo de caso, que segundo Lüdke e AndrØ (1986) caracteriza-se pela possibilidade de retratar a realidade de forma completa e profunda, utilizando variedade de fontes de informaçªo, experiŒncias e enfatiza a interpretaçªo de um contexto, o qual requer o exercício da prÆtica reflexiva e por ser um dos mais relevantes tipos de pesquisa qualitativa. Os instrumentos para a coleta de dados foram um questionÆrio, um grupo focal realizado com os alunos formandos e entrevistas semiestruturadas com gestores ligados ao curso. O questionÆrio foi respondido por 12 alunos dos 15 que se formaram e o grupo focal foi realizado com 7 desses alunos. Os sujeitos que participaram da pesquisa estªo identificados, neste trabalho, simplesmente como Alunos ou Gestores da EaD.
## Resultados e AnÆlises
No levantamento realizado com o questionÆrio aplicado aos alunos, destacamos algumas de suas consideraçıes sobre o curso, apresentadas a seguir.
Todos os alunos argumentaram que o fator preponderante na escolha do curso foi a facilidade de estudar em casa e no tempo disponível, pois pelo fato de trabalharem teriam a possibilidade de organizar o horÆrio de estudo. PorØm, afirmaram que essa facilidade deve ser bem trabalhada de forma que a sistemÆtica seja adequada ao tempo disponível.
Quando questionados sobre as dificuldades do curso, nove alunos afirmaram que o conteœdo Ø denso e difícil; que hÆ muitas atividades propostas e pouco tempo para trabalhÆ-las; que eles sentem muitas dificuldades nos cÆlculos que envolvem os problemas; que tŒm dificuldades em relaçªo ao tempo de estudo, pois o mesmo Ø sempre insuficiente; e que sentem dificuldades com os recursos tecnológicos. Outros trŒs alunos afirmaram nªo ter dificuldades em relaçªo ao curso.
Um aluno argumentou que o apoio virtual Ø insatisfatório, devido ao distanciamento entre o professor e o aluno; oito alunos avaliam o apoio virtual de forma razoÆvel, pois para alguns as dœvidas postadas por eles no ambiente virtual sªo respondidas após certo intervalo de tempo, ocasionando, assim, um acœmulo de dœvidas que nªo sªo sanadas em tempo hÆbil. TrŒs alunos consideraram o apoio virtual satisfatório da forma como ele foi desenvolvido.
Os alunos afirmaram que os tutores sªo essenciais durante todo o processo de ensino aprendizagem e que sªo qualificados para os cargos que ocupam, auxiliando-os e orientando-os nos momentos de dificuldades. Para eles, o tutor executa muito bem a tarefa de mediaçªo entre o professor acadŒmico e o aluno.
Quanto ao nœmero de horas de estudos semanais, dois alunos afirmaram estudar em mØdia de 5 a 10 horas; trŒs alunos em mØdia de 10 a 15 horas; cinco de 15 a 20 horas e dois mais de 20 horas. Onze alunos, apesar das dificuldades encontradas durante o curso, indicariam, com certeza, a licenciatura em Física para outras pessoas. Somente um aluno nªo indicaria o curso por considerÆ-lo muito difícil.
Analisando essas afirmaçıes dos alunos, vemos que fazer um curso a distância nªo Ø algo fÆcil como, talvez, pareça. O aluno tem que se dedicar muito ao curso, ter vontade de estudar em grupo e, principalmente, individualmente, ou seja, ter autonomia de estudo. JÆ Ø sabido que o pœblico que busca essa modalidade de ensino Ø atraído pela sua mobilidade e flexibilidade bem como pela facilidade de se organizar. O horÆrio de estudo Ø definido conforme a sua disponibilidade, porØm, conforme argumenta um gestor do curso, hÆ certa demora e dificuldade do aluno entender que essa modalidade Ø diferente do ensino presencial e que, portanto, hÆ necessidade de se fazer ajustes.
A primeira dificuldade Ø convencer o aluno de que ele estÆ num curso superior, que ele estÆ num curso em que ele vai sentar na frente de um computador durante 4 anos, no dia que ele quiser [...] Nªo Ø aula, que ele tem a obrigaçªo de 4 horas por dia diante do computador, sentado. [...] Segundo, Ø o problema do trabalho deles, o camarada tem muita coisa para fazer [...] e chega no curso arrebentado. A terceira grande dificuldade Ø a falta de cultura de trabalhar a distância, isso Ø uma coisa muito nova, entªo ninguØm tem ideia do que Ø isso. [...] o cara acha que pode, que o professor nem vai me ver, como ao contrÆrio do curso presencial. Aí Ø que o professor te vŒ mesmo, se vocŒ nªo entra na sala ... olha cadŒ vocŒ? No presencial nªo tem isso. (Gestor do curso de EaD).
Quanto à motivaçªo para realizar um curso a distância, em geral, sªo as mesmas que norteiam os princípios da EaD: disponibilidade de horÆrio, facilidade de organizaçªo para o estudo, autonomia etc. AlØm dessas, os alunos apresentaram outras motivaçıes:
O porquŒ deu ter escolhido esse curso? Em primeiro lugar eu sou pedagoga e uma pedagoga dando aula de Física no Estado, isso Ø muito mais importante [...] Aí, era um sonho antigo. A minha vida inteira eu sonhei, assim, em fazer Física, porque eu era uma das melhores alunas da escola. Entªo, eu tinha esse sonho de fazer uma licenciatura em Física e jÆ dando aula, entªo, foi para melhorar a minha prÆtica pedagógica. E veio essa oportunidade [...] aí eu me inscrevi, prestei o vestibular, passei e tô aqui realizando esse sonho de ser licenciada em Física. (Aluna 1).
Eu resolvi fazer esse curso foi por uma questªo pessoal mesmo, pela instituiçªo UFG, pois eu jÆ sou formado em MatemÆtica e trabalho MatemÆtica e Física, e pensei em ter um diploma da UFG e Ø só nessa parte mesmo. (Aluno 2).
Eu acho que fazer um curso de Física nessa modalidade, acho que Ø o que o colega falou antes, ter um curso de licenciatura pela UFG Ø um sonho de quase todos. E por ser a distância, eu acho que vocŒ mesmo poderÆ controlar seu horÆrio de estudar, porque muitos nªo estudam por falta de tempo, às vezes, e nessa modalidade vocŒ pode organizar o seu próprio horÆrio. E eu acho que isso foi o que mais pegou, sabe. (Aluno 3).
Eu gosto, assim, de tÆ estudando. Eu jÆ sou formado em MatemÆtica [...] e tambØm assim, para conhecer essa modalidade a distância. Eu tambØm vi os meus colegas prestando vestibular [...] entªo eu tenho que fazer tambØm, se nªo eu vou ficar para trÆs. [...] Assim, eu tô gostando do curso, muito bom. (Aluno 4).
Bom, eu fiz dois anos do curso de MatemÆtica, e desisti por causa do cÆlculo. Eu nªo dava conta do cÆlculo [...] e quando eu vim pra GoianØsia, eu me achei na obrigaçªo de fazer um curso superior. [...] eu nªo tinha feito vestibular antes porque, quando eu fiz vestibular pra Física, eu nªo tinha condiçıes de voltar de Goiânia todos os dias, e eu nªo tinha condiçıes de morar num lugar lÆ. (Aluna 5).
Para esses alunos, a importância de realizar um curso em uma Universidade Federal Ø grande. Para eles, a oferta desse curso a distância trouxe a UFG para perto deles, jÆ que nªo tinham a possibilidade de se deslocar para outra cidade onde houvesse uma unidade dessa universidade ou de outra federal.
PorØm, os alunos percebem as dificuldades ao longo do curso e muitos o abandonam. Analisando as falas desses alunos, observamos dois tipos bÆsicos de dificuldades enfrentadas, das quais apresentamos dois exemplos.
Eu tenho muita dificuldade com o tempo pra estudar mesmo pra faculdade, porque eu começo a trabalhar as sete e meia da manhª e paro às onze e meia da noite, todos os dias. E aí, tem dia que eu chego em casa e fico atØ as duas, duas e pouco da manhª estudando, mas ontem e hoje [...] eu nªo dei conta mesmo. PrÆ falar a verdade, esgotei. Eu cheguei lÆ em casa, liguei o computador, mas nªo dei conta. [...] eu achei que o curso a distância seria mais fÆcil. Sabe, teria assim uma flexibilidade maior na questªo tambØm dos conteœdos, nªo ser muito pesados. Nªo na questªo das atividades, porque as atividades eu acho atØ justo, a gente ter uma quantidade, mas eu imaginei que a grade fosse menos pesada do que tem sido. (Aluna 5).
Eu me estrepei na escolha. Eu estava fazendo cursinho prØ-vestibular pela prefeitura, aí minha professora [...] falou do vestibular para Física. Eu pensei: gente, mas Física? É mais MatemÆtica, e eu gosto muito de MatemÆtica. Só que eu me lasquei. Ô trem danado Ø a tal da Física. [...] Arrependi sim, Ø difícil demais, muita dificuldade. Mas teimosa, nªo vou desistir, nªo desisti e nªo vou desistir agora. Tenho muita dificuldade, e Ø bom o curso. [...] o sonho de todo mundo Ø ter um curso federal, sonho de consumo. Entªo tô aqui, tô aqui engatinhando, mas ainda vou chegar lÆ, se Deus quiser. (Aluna 6).
Em relaçªo à metodologia de estudo, ao tempo de estudo e ao companheirismo, citamos a fala de um dos alunos, que representa a ideia geral de todo o grupo.
Quanto à metodologia, Ø, eu jÆ tenho uma. Eu trabalho com (cita o nome de um colega) no colØgio. Entªo, a gente todo dia troca ideias, na hora do recreio, a gente tem o quŒ? 10, 15 minutos, mas Ø 10, 15 minutos que a gente troca ideias. Isso, senta lÆ um pouquinho, nem participa muito de coisa do recreio. A gente vai pra uma sala lÆ e fica lÆ aproveitando esse tempo, porque a gente sabe que depois a gente nªo tem esse tempo. Entªo, Ø todo dia de manhª. No sÆbado, que a gente tÆ tambØm nos trabalhos coletivos do colØgio, tem hora que a gente senta lÆ e vai resolver porque senªo a gente nªo daria conta. Aí, eu tenho uma certa dificuldade no cÆlculo e ele (aponta para o colega) domina muito bem. Ele tem uma certa dificuldade na Física, aí eu entro e complemento. A gente vai estudando dessa forma, estudo em casa na medida do possível, ele tambØm estuda. Aí, a gente chega pra tentar equacionar e resolver esse pepino, e tÆ dando certo, mas tamo ralando tambØm. (Aluno 2).
Apesar de toda a dificuldade enfrentada, a gratificaçªo pelo empenho e a satisfaçªo com o curso se apresentam atØ mesmo durante sua realizaçªo, como podemos observar das afirmaçıes dos alunos.
E a partir do momento em que vocŒ estuda para fazer o curso, minhas aulas foram melhorando em relaçªo à Física, pois na realidade eu nªo estava
dando aula de Física, mas MatemÆtica na Física, e ai começou os horizontes. (Aluno 2).
E mudou tanto a nossa maneira de dar aula, a gente amadureceu tanto o trabalho da gente, que hoje Ø normal os alunos chegarem na gente e dizer puxa professora eu detestava essa matØria, mas eu adoro a sua aula, e eu vou prestar vestibular para Física. Eu jÆ tenho aluno no 3' ano, agora, que jÆ tÆ prestando vestibular, e jÆ tenho aluno que estÆ lÆ na UFG cursando Física. Sabe, entªo quer dizer que a gente mudou a postura, a maneira, porque atØ entªo a gente dava aula de MatemÆtica mesmo. Agora a gente tÆ envolvendo as fórmulas os conceitos. (Aluna 1).
Eu acho assim, Ø um orgulho atØ da gente de dizer, eu mesmo sinto assim, eu encho o peito e falo: sou aluno da UFG. Mas a dificuldade existe, Ø claro, mas estou satisfeitíssimo com o curso, sabe, a cada dia Ø coisa nova, novidade, estou bem satisfeito mesmo. (Aluno 3)
É, aprendendo a gente tÆ realmente aprendendo. Eu fiz o concurso do Estado e passei. Todo conteœdo que eu tinha visto, inclusive foram 3 do conteœdo de eletromagnetismo que foi perguntado, eu consegui fazer as questıes. Entªo, assim, antes eu nªo passava perto daquilo ali que eu fiz. Entªo, o crescimento jÆ Ø realmente muito, Ø igual ao que os colegas falaram, tem surpreendido. Tem a dificuldade? Tem hora que eu falo, eu nªo vou mais, mas a hora que eu lembro que só falta mais um ano, um ano e pouquinho, ai Ø o que dÆ o estímulo pra gente. (Aluna 5).
Eu acho que Ø a programaçªo, nØ? Que vocŒ cresce bastante, vocŒ vai aprendendo. Cada vez que vocŒ vai sendo mais independente ainda, vocŒ vai aprendendo a estudar sozinho, vai melhorando cada vez mais. (Aluna 7).
No entanto, problemas surgiram ao longo do curso, de natureza administrativa e pedagógica, como podemos perceber nas observaçıes dos alunos.
Entªo, uma das grandes dificuldades pra mim Ø mesmo obter informaçıes. Às vezes, atØ uma declaraçªo que for preciso da faculdade eu tenho que ficar desesperada pra ir lÆ buscar. Eu queria abrir uma conta universitÆria com o documento que a universidade me mandou e ele nªo serve [...] a mulher no banco se referiu: nªo, com esse papelzinho qualquer um faz. Sabe, entªo, Ø tipo assim, no começo deu pra se sentir um descaso. (Aluna 5).
Os fóruns demoram a ser respondidos. Às vezes, eu preciso fazer um exercício e o professor leva trŒs dias pra responder, e daqui trŒs dias eu jÆ nªo tenho mais aquela folga. E outro dia, a gente falou foi com o professor (...) e ele disse: nªo gente, dia de domingo vocŒs nªo enchem o saco com pergunta lÆ pro fórum, nªo. Professor, Ø só o dia que a gente tem. Entªo, vocŒs perguntam, mas sabendo que eu só vou responder na segunda. [...] Às vezes, a gente tÆ mesmo fazendo as atividades e o professor tÆ online, a gente vŒ lÆ o professor online, a gente pergunta e nªo tem resposta. Tivemos dificuldades, eu tive muita dificuldade de comunicaçªo com o professor (...). Ele simplesmente passava aí ou desenhava no quadro e eu nªo sabia nem perguntar o que ele estava fazendo. Entªo a partir do momento que o aluno nem sabe perguntar, eu jÆ fico meio preocupada. (Aluna 5).
Quanto ao apoio familiar, os alunos afirmaram ser de grande importância para vencer em um curso a distância.
O trabalho toma tanto tempo da gente. É tanta coisa, Ø muito rÆpido, nªo Ø? Pra tanta atividade, mas aí, eu tive um apoio, sabe, que Ø a minha esposa. Ela me ajudou bastante, ela me ajuda atØ hoje, muito mesmo, sabe, Ø uma pessoa que eu posso escorar nela. [...] eu vejo nos olhos do meu pai, da minha mªe, quando fala 'nosso filho faz faculdade de Física na UFG'. Sabe, Ø um orgulho assim pra eles todos. Entªo, o que eles podem me ajudar eles estªo lÆ prontos pra ajudar (Aluno 3).
Eu, costureira de 40 anos, prestar vestibular pra Física. Aí a crítica começou no trabalho [...] pra que isso, burro velho nªo aprende mais. Nªo, eu falei, aprende, basta querer moço [...] Minha família, minha mªe, meus irmªos eles nªo falam nada nem que apoiam, nem que nªo apoiam, mas tambØm nªo criticam. Entªo, Ø isso ai e eu tô aqui. (Aluna 6).
Apesar de toda a motivaçªo e entusiasmo dos alunos e aplicaçªo em seus estudos, percebemos por meio das entrevistas com os gestores e do grupo focal, que essa modalidade de ensino sofre certa resistŒncia, para nªo dizer preconceito. O preconceito encontra-se tambØm na desconfiança do professor por nªo acreditar nesse ensino e por achar que o mesmo tem como característica algo fÆcil e que qualquer um faz.
[...] Entªo, hÆ realmente um preconceito, vamos dizer assim, e hÆ uma resistŒncia, inclusive quando professores vŒm atuar como autores, vem atuar como tutores, venham atuar como professores nos cursos a distância. E muitos deles atØ atuam, nªo por acreditar no curso, mas porque no atual momento hÆ uma remuneraçªo, mesmo que pequena, pra essa atuaçªo. Entªo, eu acho que um avanço desejÆvel Ø esse, que a comunidade UFG, especialmente a comunidade nas unidades onde nós temos cursos a distância compreendam o papel e a importância destes cursos, principalmente para aquelas pessoas que nªo tŒm como sair das suas cidades pra vir para uma Universidade nos grandes centros. (Gestor da administraçªo superior da UFG).
Sªo vÆrios os fatores que podem dar origem ao preconceito, e muitas vezes, este nasce da conjugaçªo de diversos fatores. Entretanto, embora muitas vezes nªo seja fÆcil identificar a origem da atitude preconceituosa em determinada situaçªo concreta, Ø possível apontar pelo menos dois dos principais geradores de preconceito, que pode ser a ignorância e a intolerância.
Tanto quem discursa sobre o assunto, quanto quem simplesmente julga saber sobre o assunto, e aqueles que ouviram falar sobre o assunto, mas se declaram avessos a qualquer informaçªo a respeito, tŒm de uma forma ou outra o preconceito em seu interior. É fato, que hÆ pessoas que se dizem adeptos dessa forma de ensino, mas na verdade em seu íntimo hÆ uma forte resistŒncia e atØ dœvida de sua capacidade de interaçªo e ensino.
TŒm pessoas que jÆ ouviram falar, mas em hipótese alguma acreditam nessa forma de ensino, por achar que devido a sua expansªo, a mesma veio com intuito de ocupar um lugar jÆ estÆ estabelecido hÆ muitos anos, tornando assim uma ameaça para o ensino presencial.
## Consideraçıes finais
Com a realizaçªo desse trabalho, consideramos que, na visªo dos alunos do curso de Licenciatura em Física a distância da UAB na UFG no polo de apoio presencial de GoianØsia, GO, esse curso cumpriu sua meta principal que Ø levar ensino de qualidade a lugares onde haja pessoas interessadas em realizar um curso superior em uma universidade pœblica, mas que nªo possuem condiçıes de se mudarem para outra cidade e nem pararem de trabalhar para se dedicar a um curso presencial. Observamos, tambØm, que esses alunos compreenderam o principal aspecto de um curso a distância: o comprometimento, o companheirismo e a autonomia de estudos. Observamos, tambØm, a importância da Universidade Federal de GoiÆs em interiorizar suas açıes, levando ensino de qualidade a cidades distantes de suas sedes.
Notamos, de forma geral, que uma grande causa dos empecilhos encontrados no ensino a distância Ø o fato de nªo acreditar, nªo confiar e nªo internalizar essa modalidade de ensino, o que torna algo que bloqueia qualquer tentativa de aproximaçªo tanto do professor/docente quanto do estudante. Uma anÆlise dos conceitos e fundamentos da EaD, por parte dos professores e gestores da Universidade, Ø necessÆrio e fundamental, pois propicia uma reflexªo teórica e operacional, possibilitando um estudo científico e acadŒmico, essenciais para a evoluçªo e aprimoramento de uma Ærea emergente em um país com grande demanda como o Brasil.
Assim, consideramos que esse trabalho foi produzido bem como embalado pela esperança de poder suscitar reflexıes críticas sobre as visıes que os alunos possuem em relaçªo ao curso de licenciatura em Física a distância.
Financiamento : FAPEG - Fundaçªo de Amparo à Pesquisa do Estado de GoiÆs.
## ReferŒncias
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