LEVANTAMENTO DE CONTEÚDOS ENVOLVENDO RADIOLOGIA EM LIVROS DIDÁTICOS DE ENSINO MÉDIO DE FÍSICA E QUÍMICA RELACIONADOS AO PNLEM
Awdry Feisser Miquelin, Mario Sérgio Teixeira De Freitas, Charlie Antoni Miquelin, Alana Caroline França
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 08/11/2012
- Linha de pesquisa
- Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## REFLEXÕES SOBRE OS CONTEÚDOS ENVOLVENDO RADIOLOGIA EM ALGUNS LIVROS DIDÁTICOS DE ENSINO MÉDIO DE FÍSICA E QUÍMICA RELACIONADOS AO PNLEM
## THINKING INVOLVING RADIOLOGY IN SOME PHYSICS AND CHEMISTRY TEXTBOOKS FOR HIGH SCHOOL RELATED TO PNLEM
## Awdry Feisser Miquelin , Mario Sérgio Teixeira de Freitas , Charlie Antoni 1 2 Miquelin , Alana Caroline França 3 4
1 UTFPR/DAFIS/PPGFCET, awdry@utfpr.edu.br
2
UTFPR/DAFIS/PPGFCET, msergio58@yahoo.com.br
3 UTFPR/DAFIS/PPGFCET, charlie@utfpr.edu.br
4
UTFPR/DAFIS/CPGEI, alanacaroline@gmail.com
## Resumo
Neste trabalho apresentamos um levantamento referente a conteúdos de radiologia que apareçam em alguns livros didáticos de física e química relacionados ao Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM). O objetivo foi verificar se a radiologia é contemplada no ensino médio, e quando contemplada se é feita corretamente e ainda se a abordagem é relevante para um melhor relacionamento do estudante com os processos radiológicos. Os tópicos escolhidos para a pesquisa foram os raios X, radioatividade e tomografia computadorizada. Foram pesquisadas quatro coleções de física e uma de química, totalizando 15 livros. Todas as coleções pesquisadas abordam algum dos tópicos sugeridos de radiologia, principalmente os raios X e radioatividade. Somente a coleção de química abordou o tema de tomografia computadorizada. Nenhuma imprecisão científica foi encontrada, mas sim, termos incorretos e conceitos explicados de maneira confusa. Os conteúdos de radiologia quando abordados em qualquer das coleções não contribuíram para assegurar uma relação entre o cidadão e os processos radiológicos. Concluímos que a presença dos conteúdos de radiologia em livros didáticos precisa ser intensamente problematizada devido a ser um conhecimento de fronteira envolvendo tecnologias correlatas à física e à química e que contribuem para a manutenção e tratamento da saúde. As obras disponíveis para a escola e trabalhadas em práticas educativas de física e química podem ser os meios de iniciar e fornecer conhecimento e discussões em relação à sociedade e aos processos radiológicos. Além disso, apontamos para novos trabalhos a discussão das inserções metodológicas destes conhecimentos e também a produção de materiais didáticos alternativos para o estudo dos professores e de seus alunos.
Palavras-chave : radiologia, ensino de física, livros didáticos
## Abstract
This paper presents a survey relating if radiology contents appears in textbooks of physics and chemistry related to the National Textbook Program for High School (PNLEM). The objective was to determine whether radiology topics are covered in high school, and when it is properly contemplated, and even if the approach is relevant for the student to establish a better relationship with radiological procedures. The topics we selected for this study were X-rays, radioactivity and computed tomography. We investigated four collections of physics and one of chemistry, totalizing 15 books. All collections present the suggested topics of radiology, specially X-rays and radioactivity. Only the collection of chemistry raised the issue of computed tomography. No scientific inaccuracy was found, however we found incorrect terms and some confuse conceptual explanations. The contents of radiology, when presented in any of the collections, have no contribution to ensure a better relationship between the students and radiological procedures. We conclude that the presence of the contents of radiology in textbooks is needed to be intensely critical thinking because it is a boundary knowledge which connects technologies involving physics and chemistry, contributing to the maintenance and treatment of the subjects health. The works available in schools, and worked in educational practices of physics and chemistry, may be the means to initiate and provide knowledge and discussions related to society and radiological procedures. Furthermore, we point to be discussed in future works some methodological insertions of this knowledge and also the production of alternative learning materials for the study of teachers and their students.
Keywords : radiology, physics teaching, physics textbooks.
## Introdução
O livro didático é uma ferramenta de extrema importância dentro da sala de aula. Sozinho ou aliado a outros materiais didáticos disponíveis, auxilia no processo ensino-aprendizagem do estudante e em muitos casos serve de suporte para o professor no preparo dos conteúdos das aulas norteando, na maioria das vezes, na conduta das atividades educacionais durante o ano letivo, procurando assim contribuir para a construção de conhecimento escolar. Desta forma espera-se que um dos instrumentos principais de interação pedagógica, em sala de aula, apresente conteúdo de maneira coerente e correta evitando possíveis equívocos na formação dos estudantes.
Essa ferramenta tem sido constantemente debatida nos meios acadêmicos, dada a sua importância no contexto da escola em seus níveis fundamental e médio. O Ministério da Educação (MEC) através do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e do Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) promove a distribuição desses livros, de todas as disciplinas, para os alunos da rede pública de todo o país. É também através do PNLEM que os livros são escolhidos por uma comissão de professores de todas as escolas do Brasil. O PNLD e o PNLEM têm por objetivo melhorar a qualidade dos livros que são utilizados na
educação pública brasileira nas diversas disciplinas. Baseados nestes princípios do papel dos livros didáticos e da melhoria da qualidade destes há uma aparente controvérsia, já que assuntos que permearão toda a vida do estudante não são abordados nos livros didáticos ou se são, não o fazem de forma a contribuir para tornar o indivíduo um cidadão crítico-reflexivo.
- O que queremos colocar é que a controvérsia existe, pois os PCN desde 1999 já apontaram para uma relação de ensino-aprendizagem voltada ao cotidiano e envolta pela discussão tecnológica, sendo apontada também pelos PCN+ e em 2006 pelas Orientações Curriculares para o Ensino. Entretanto ao analisar os livros do PNLEN vemos que temas relacionados à radiologia, quando ligada diretamente à saúde dos sujeitos, notamos estes conteúdos são inseridos de maneira meramente informativa e com problemas de linguagem. Escolhemos o tema radiologia por a alguns anos já pesquisarmos sobre Ensino de Física em cursos da área de saúde em especial no curso de Tecnologia em Radiologia de nossa universidade.
Sendo assim, percebemos a necessidade de rigor da parte dos profissionais em ensino de ciências com as informações contidas nos livros didáticos, como estas contribuirão na formação do indivíduo como cidadão, uma vez que será em muitos casos, a única fonte de consulta de conhecimento por parte dos discentes, principalmente quando envolvem conhecimentos interdisciplinares como os de física para cursos de saúde.
Neste artigo analisamos as informações relativas à área da saúde contidas em algumas coleções de livros didáticos de física e química voltadas para o ensino médio, mais especificadamente questões ligadas à radiologia que estão presentes nesses livros. Ou seja, nossa questão de investigação é: Como são apresentados os conteúdos ligados à radiologia em alguns livros didáticos de física e química sugeridos pelo PNLEM? São eles relevantes para um melhor relacionamento do indivíduo com os processos radiológicos?
## Justificativa / Fundamentação teórica
Este artigo surge de interações investigativas envolvendo nosso grupo de estudos sobre ensino-aprendizagem de física para radiologia Classificamos este . trabalho como uma pesquisa de cunho bibliográfico e análise documental. Para tal foram analisadas cinco coleções de livros didáticos, sendo quatro de física e uma de química, totalizando quinze livros. Estes livros são adotados por professores de escolas públicas que interagem conosco em diferentes projetos. As quatro coleções de física justificam-se por tem o maior trânsito como nossa própria área de formação e a coleção de química foi escolhida justamente por realizar o contraponto de área e pela química no Ensino Médio também tratar de conteúdos ligados ao tema.
A relação interdisciplinar entre física, química e radiologia está clara quando os conceitos são aprendidos de forma correta. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), deve existir uma correlação entre disciplinas e uma contextualização delas para melhor entendimento dos alunos (PCNEM, 1999).
Os conceitos de radiologia podem ser evidenciados nos capítulos dos livros relacionados com raios X, tomografia computadorizada, entre outras tecnologias; ondas eletromagnéticas, efeitos das radiações, etc. Qualquer informação
equivocada poderá induzir o estudante a não compreender basicamente processos científicos e tecnológicos diretamente ligados à manutenção e tratamentos de saúde fundamentais no decorrer de sua vida e assim talvez privá-lo de conhecimentos fundamentais para a defesa e compreensão de seus direitos relativos à radiologia.
Nossos critérios foram norteados principalmente pela obra 'Ciência e Desenvolvimento' de Mario Bunge (1980), na qual se salienta a relevância da articulação entre os conteúdos desenvolvidos pela pesquisa científica e o impacto social das tecnologias que aplicam estes conteúdos.
Por exemplo, consideramos fundamental para qualquer cidadão que deva ser submetido a práticas radiológicas, ser capaz de discernir se estas se destinam a um diagnóstico ou a uma terapia, e em ambos os casos, de que forma estes procedimentos interagem com o seu organismo. Igualmente importante é o conhecimento da necessidade de alguma forma de proteção radiológica. Outros itens a serem contemplados na formação seriam conceitos científicos (como por exemplo, o que exatamente caracteriza a energia de um feixe de raios X), os quais lhe possibilitassem distinguir entre efeitos térmicos e ionizantes das radiações, compreender a formação de radicais livres, ou o aspecto probabilístico da ocorrência de câncer e outras doenças.
Além destas colocações, existem pontos em relação ao trato do conhecimento tanto científico quanto tecnológico que envolve processos radiológicos na relação didática de sala de aula que requer uma atenção apurada e discussão mais ampla.
Segundo Postman (1994):
...aqueles que cultivam a competência no uso de uma tecnologia nova tornam-se um grupo de elite ao qual aqueles que não têm essa competência garantem autoridade e prestígio imerecidos. Há maneiras diferentes de expressar interessantes implicações desse fato. Harold Innis, o pai dos estudos da comunicação moderna, falou repetidas vezes dos 'monopólios de conhecimento' criados por importantes tecnologias. Ele referiu-se precisamente ao que Thamus tinha em mente: aqueles que têm o controle do funcionamento de uma tecnologia particular acumulam poder e, de maneira inevitável, formam uma espécie de conspiração contra aqueles que não têm acesso ao conhecimento especializado, tornado disponível pela tecnologia. (p.19)
O cidadão comum constantemente recorre aos procedimentos de saúde que envolvem a radiologia. Porém conhecimentos básicos como níveis anuais adequados de exposição a radiações, posições e áreas de exposição adequadas a exames, os princípios básicos do funcionamento e fabricação de tecnologias que envolvem estes processos parecem que estão retidos, como Postman (1994) coloca, a grupos restritos afastando os cidadãos das possibilidades argumentativas mínimas para compreender e argumentar sobre estas relações em sua vida cotidiana.
Nesse contexto, se faz pertinente uma analogia com o exemplo mencionado por Bazin (1977) sobre os bairros de Santiago do Chile onde a população se serve de derivações ilícitas da rede de distribuição de energia elétrica, sendo assim motivadas entre estes indivíduos certas discussões técnicas envolvendo sobrecargas, contatos, isolamentos, etc., que não guardam conexões com as leis matemáticas, infelizmente aprendidas, em muitas escolas, de forma mecânica.
Dentro deste contexto, percebemos que o ensino-aprendizagem de física na escola pode ser o palco para instrumentalizar os estudantes com esse conhecimento
mínimo emancipando-os dos monopólios de tecnologias e conhecimentos que envolvem estas relações radiológicas. Por isso nos preocupamos tanto com a intensidade de apresentação de conteúdos correlatos aos livros didáticos de física, quanto com a sua qualidade.
A discussão destes conceitos apresenta-se com grande relevância visto que abusos em interações com radiações podem causar danos irreparáveis a um paciente. Nestes casos, as inter-relações humano-ciência-tecnologia não são fatos banais na vida cotidiana, mas sim acontecimentos que mudam radicalmente nossas percepções. Em paralelo a este tipo de relação construtor/construto Postman (1994) exemplifica com a invenção da prensa tipográfica e da televisão nos Estados Unidos:
... Uma tecnologia nova não acrescenta nem subtrai coisa alguma. Ela muda tudo. No ano de 1500, cinqüenta anos depois da invenção da prensa tipográfica, nós não tínhamos a velha Europa mais a imprensa. Tínhamos uma Europa diferente. Depois da televisão, os Estados Unidos não eram a América mais a televisão; esta deu um novo colorido a cada campanha política, a cada lar, a cada escola, a cada igreja, a cada indústria. (p. 27, grifos nossos).
Com estes exemplos Postman (1994) expressa bem que as relações entre a humanidade, conhecimento e tecnologia não se apresentam apenas para agregar novos elementos e sim para mudar e transformar tudo o que se conhecia. O problema que defendemos é que no caso da radiologia com conhecimentos muito próximos à física, a não oferta, ou a sua apresentação não rigorosa, pode afastar os estudantes de uma futura proficiência básica altamente necessária às suas interações com a saúde.
A problematização destes conceitos é portanto crucial, e sobre esta relação de trato cognitivo e desenvolvimento Vicente (2005) coloca:
Os seres humanos são capazes de fazer algumas coisas realmente notáveis, mas, se nos tornamos alienados da tecnologia, nossas capacidades não se realizarão plenamente. Grandes inovações tecnológicas ficarão subutilizadas e imensos investimentos empresariais em desenvolvimento tecnológico, assim como disponibilidade de novas tecnologias, se desvanecerão como fumaça (p.29)
Isso destaca a essência da problematização da interação de conhecimentos entre a física e os conteúdos que remetam a discussões de radiologia, ou seja, capacitar os estudantes de educação média no patamar mínimo de curiosidade e discussões.
## Metodologia
- O trabalho foi construído em forma de pesquisa bibliográfica dos livros recomendados pelo PNLEM em 2011. Foram analisadas quatro coleções de física e uma de química, sendo três livros em cada, portanto quinze livros. Estas coleções foram escolhidas em particular por serem comumente adotadas por professores de escolas públicas que atuam conosco em projetos como o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE).
A análise dos dados foi realizada seguindo a metodologia da análise documental, pois a mesma objetiva a identificação de informações factuais em
documentos partindo de questões de interesse, como no caso deste trabalho, segundo Ludke e André (1986). Procedemos através da segmentação dos conteúdos principais de radiologia, que foram separados em três categorias: raios X, radioatividade e tomografia computadorizada. Desta forma quando estes três tópicos eram abordados, foi avaliada a precisão científica e a relevância daquele tópico para a melhoria da relação entre os usuários e os exames radiológicos. Outras informações relacionadas com a área de saúde não foram tabeladas.
## Resultados
As coleções dos livros de física de maneira geral apresentaram conteúdos correlatos à área da saúde e dentro destes a radiologia, apontando para possíveis discussões interdisciplinares. Estas coleções demonstram certo padrão na distribuição dos temas da ementa da disciplina de física no ensino médio.
- O primeiro volume em geral trata dos conteúdos de força, pressão, entre outros, pouco correlacionando temas da área da saúde. O segundo volume, apresenta conceitos de energia, calor, luz, espelhos, entre outros. Nesse contexto são abordados assuntos relacionados ao funcionamento do olho humano e suas enfermidades. No terceiro volume, são apresentados em maior quantidade tópicos relacionados à radiologia, uma vez que neste volume são abordados os temas de ondas eletromagnéticas, entre outros.
A coleção de livros de química apresentou a maior quantidade de temas relacionados à radiologia, com maior intensidade no seu primeiro volume, aproveitando o tópico de radioatividade para discutir as radiações X e gama, além de tópicos relacionados a tumores.
Todos os livros abordaram o conceito dos raios X, e suas aplicações práticas. Somente um livro das coleções de física usou a forma equivocada 'chapa' ao se referir à radiografia. Correlacionaram também a geração de energia pelas usinas nucleares com lixo radioativo, contaminações radioativas, englobando a radioatividade de um modo geral. Ainda nas coleções de física, as ondas eletromagnéticas foram focadas no âmbito do espectro eletromagnético e suas aplicações, cores, luz, infravermelho, entre outras. Pouco, ou quase nada, relacionado à radiologia foi apresentado.
A coleção de livros de química apresentou em seu primeiro volume alguns conceitos equivocados, porém de emprego frequente em ambientes de saúde e no senso comum geral, como o uso da nomenclatura inapropriada ('raio-X'), também a colocação do termo 'chapa', é recorrente nessa coleção. Alguns conceitos mais específicos como o funcionamento dos dosímetros de radiações, uso da radiação ionizante em mulheres grávidas, quantidade de radiografias, foram encontrados de maneira pouco esclarecedora nessa coleção e poderiam ser reescritos, a fim de melhorar a qualidade seus conteúdos e a compreensão do leitor. Na seção de ondas eletromagnéticas, foi abordado o uso de telefones celulares e algumas informações relacionadas com o efeito biológico dessas ondas foram colocadas de maneira imprecisa, uma vez que ainda não existem atualmente estudos suficientes que comprovem cientificamente de maneira efetiva os malefícios dessas ondas.
Nesta análise, foi possível observar que os livros de física estudados não apresentam informações cientificamente incorretas sobre radiologia, somente o uso
de nomenclatura equivocada foi encontrado. Todos apresentaram poucas relações dos conteúdos de física com a área de saúde, com pouca relevância na contribuição para um melhor relacionamento do indivíduo com os exames radiológicos. A coleção de química demonstrou grande abrangência na parte de saúde, com boas informações, porém algumas destas informações colocadas de maneira errônea, podendo causar dúvidas ao leitor ou induzi-lo a assimilar incorretamente estes conceitos.
Por se tratar de um objeto de uso comum e de consulta, o livro deve ser escrito de forma correta, sem vícios de linguagem, para que seja uma fonte segura de informações. O uso de vícios como 'chapa radiográfica' quando o correto é radiografia e o uso incorreto da palavra 'raio-x', quando o correto é 'raios X' constrói no estudante, uma cultura errada sobre o tema. Os livros didáticos têm por missão desmistificar qualquer tipo de informação equivocada, utilizando sempre palavras que estejam cientificamente corretas e próximas ao estudante.
Quando se trata de saúde e radiações ionizantes, adquirir conhecimentos precisos é essencial, uma vez que a população em sua maioria (em especial os discentes de ensino médio) não tem conhecimento específico para tal. Colocar um conceito errado pode inviabilizar um exame, e criar no indivíduo um medo desnecessário. Portanto, essas correlações devem ser feitas com muito cuidado e de uma maneira fácil de ser compreendida.
Na tabela abaixo é apresentado um resumo dos resultados obtidos neste levantamento de informações.
TABELA 01 - RESUMO DOS RESULTADOS
## Discussão
Em relação as coleções de livros analisadas é possível perceber a dificuldade que os autores dos livros de física possuem em fazer conexões com temas da área de saúde e tecnologia. Mesmo em tópicos de mecânica o aproveitamento da biofísica é inexistente. Essa constatação aponta uma resposta para a primeira questão de pesquisa proposta neste trabalho: Quando citados, os temas ligados à radiologia nos livros didáticos de física e química sugeridos pelo PNLEM apresentados de forma meramente ilustrativa, como uma espécie de justificativa do porque é necessário estudar o tema.
Isto reflete que a relação de alfabetização científica e tecnológica proposta por Bazin (1977) e proposta por diferentes documentos oficiais, pelo menos nas coleções que analisamos, ainda está longe de ser implementada de forma a instrumentar os professores de física com uma obra didática. Desta forma, as relações sociais, culturais em relação aos temas de radiologia não são tratadas de modo a potencializar o trabalho pedagógico no sentido de compreender o conhecimento científico e tecnológico ligado a área de saúde como algo que reflete as relações de poder relativas tecnopolio que Postman (1994) descreve e que o papel das tecnologias envoltas nestes processos realmente não agregam na sociedade, mas mudam completamente sua configuração como o mesmo autor destaca.
A inserção dos conteúdos da área radiológica nos livros de física se faz necessária na construção da relação que os cidadãos terão ao longo de suas vidas com a radiologia, já que possivelmente usufruirão destes serviços, quer em hospitais ou clínicas particulares. Neste aspecto é possível observar que praticamente nenhum cidadão possui os conhecimentos mínimos necessários que o levem a transitar de maneira tranquila e segura quando usufrui dos serviços radiológicos.
No momento da realização dos exames, perguntas como o que são os raios X? Os raios X fazem mal? O que este equipamento faz? A radioatividade mata? Tais questionamentos poderiam ser discutidos e respondidos ao longo da vida estudantil do cidadão e os livros didáticos desempenham aqui um papel de suporte de extrema importância. Este papel precisa ser diferente do apresentado nas coleções estudadas. A abordagem destes temas de forma conexa aos conteúdos de física precisa incluir conteúdos que ajudem na construção do conhecimento de que o uso das radiações ionizantes se faz baseado na relação entre custo e benefício dos métodos radiológicos e que é preciso compreender estes métodos e como as radiações por eles utilizadas podem ser bem aproveitadas ou predispor o organismo a eventuais doenças. Tal reflexão indica que a aprendizagem dos conteúdos de física e química ligados à radiologia é fortemente relevante para um melhor relacionamento do indivíduo com os processos médicos, o que atende à segunda questão de pesquisa que propusemos.
Quando instruído a este respeito o cidadão passará a ter uma relação confortável com os métodos radiológicos, mas ainda melhor, poderá vir a ser um agente fiscalizador dos processos nos quais ele pode sair prejudicado pelo uso incorreto ou pela falta, muitas vezes, da proteção necessária. Tanto Bunge (1980) e Bazin (1977) discutem sobre a importância social que o cientista possui mediante seus papeis de responsabilidade e conhecimento mediante a sociedade. O professor como agente da mediação de conhecimento possui papel social similar em potencializar a sociedade com o conhecimento científico e tecnológico, porém quando instrumentos didáticos como livros não possuem o mesmo compromisso toda a relação de educação como prática para a liberdade, no caso a proficiência tecnológica mediante métodos radiológicos é colocada em risco justamente no nível de acesso básico de direitos dos cidadãos que é o Ensino Médio, relegando aos mesmos o analfabetismo científico e tecnológico ao qual principalmente Bazin (1977) se contrapunha.
## Conclusão
De acordo com Vicente (2005) muito se perde ao não possuir o transito básico de conhecimento tecnológico e científico para a sociedade. Com a pesquisa bibliográfica conduzida pelos autores em alguns dos livros recomendados em 2011 pelo PNLEM, concluímos que as coleções de física e de química estudadas contemplam muito fracamente os conteúdos interdisciplinares relacionados à área de radiologia, e ainda, que quando abordadas, tais conexões são expostas mediante a adoção de uma linguagem inexata, e inclusive confusa. Tais situações podem prejudicar o processo de alfabetização científica e tecnológica dos conteúdos de radiologia que hoje e futuramente estarão cada vez mais presentes no âmbito vivencial dos estudantes.
Uma possível continuidade deste trabalho apontaria para uma análise desses conteúdos em termos de transposição didática, pois defendemos a importância de uma reformulação desses conteúdos, tendo em vista a formação de cidadãos devidamente integrados às relações humano-ciência-tecnologia.
## Referencias
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