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O ENSINO DE FÍSICA E O ATUAL SARESP: UMA ANÁLISE PRELIMINAR

Fernando Augusto Silva, Maria Regina Dubeux Kawamura

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
08/11/2012
Linha de pesquisa
Ensino / Aprendizagem / Avaliação Em Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O ENSINO DE FÍSICA E O ATUAL SARESP:

## UMA ANÁLISE PRELIMINAR

## Fernando Augusto Silva 1 , Maria Regina D. Kawamura 2

1 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, fernando.augusto.silva@usp.br

2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, kawamura@if.usp.br

## Resumo

No panorama educacional atual, e através de diferentes instrumentos, enfoques e justificativas, as avaliações vêm ganhando um espaço cada vez maior. As avaliações institucionais, por exemplo, pretendem cumprir um papel estratégico no processo de implementação de reformas educacionais. Algumas delas visam desenvolver ferramentas para o planejamento, monitoramento e acompanhamento das políticas públicas, subsidiando também políticas de formação. Em particular, o SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento do Estado de São Paulo) é uma avaliação da educação básica junto à rede pública do Estado de São Paulo, que vem sendo realizada desde 1996, tendo passado, no entanto, por reformulações recentes. Diante dessas considerações, nossa proposta nesse trabalho é investigar em que medida o SARESP pode atuar tanto como avaliação institucional quanto como avaliação formativa. Particularmente, pretende-se analisar o potencial desse processo, no formato que passou a assumir desde 2007, também como possível instrumento para subsidiar professores no aperfeiçoamento de suas práticas. De forma mais específica, trata-se de uma análise da avaliação referente ao Ensino de Física. Para isso, são identificados e analisados documentos oficiais, matrizes de referência, itens disponibilizados e alguns resultados disponibilizados. Essa preocupação se justifica por acreditarmos que o objetivo último de uma avaliação é o de direcionar ações, de forma coerente e consistente, em busca da efetiva superação das deficiências identificadas. No entanto, os resultados obtidos nessa análise sinalizam claramente um afastamento das potencialidades formativas específicas, restringindo-se a descrições gerais. Para além de dados comparativos, não são fornecidos elementos concretos e suficientes para que professores e escolas possam identificar suas dificuldades e rever suas práticas. Esses indicativos mostram que é urgente uma mobilização dos agentes educacionais para uma mudança nesse quadro.

Palavras-chave : Avaliação, Ensino de Física, SARESP

## Abstract

In the current educational landscape, and through different instruments, approaches and justifications, evaluations have been gaining a growing space. The institutional evaluations, for example, want to play a strategic role in the process of implementation of educational reforms. Some of them are aimed at developing tools for planning, monitoring and keep up with the public policies, subsidizing training policies. In particular, SARESP (System Performance Evaluation of the State of São Paulo) is an assessment of basic education by the public of the State of São Paulo,

which has been held since 1996, having passed, however, by recent reformulations. Given these considerations, our purpose in this paper is to investigate to what extent SARESP can act as both institutional assessment and as a formative assessment. Particularly, we will analyze the potential of this process, the format that has taken on since 2007, also as a possible tool to support teachers in improving their practices. More specifically, it is an analysis of the evaluation concerning the Teaching of Physics. This clearly identified and analyzed official documents, reference matrices, available items and some results available. This concern is justified because we believe that the ultimate goal of an assessment is to guide actions, coherently and consistently in pursuit of effective overcoming the deficiencies identified. However, the obtained results clearly indicate a departure from the formative potentialities specific and restricted to general descriptions. In addition to comparative data are not provided sufficient evidence and that teachers and schools can identify their problems and review their practices. These indications show that it is an urgent mobilization of educational agents for change in this picture.

Keywords : Evaluation, Teaching of Physics, SARESP

## Introdução

No panorama educacional atual, e através de diferentes instrumentos, enfoques e justificativas, as avaliações vêm ganhando um espaço cada vez maior. As avaliações institucionais (internacionais, nacionais e estaduais), por exemplo, pretendem cumprir um papel estratégico no processo de implementação de reformas educacionais. Algumas delas visam desenvolver ferramentas para o planejamento, monitoramento e acompanhamento das políticas públicas, subsidiando a tomada de decisões. Para a sociedade em geral, os resultados por elas obtidos ganham um grande destaque na mídia, permitindo que sejam também interpretadas como prestação de contas das políticas desenvolvidas.

Os diferentes sistemas de avaliação, no entanto, têm cada um deles características próprias, utilizando referências específicas para os objetivos que visam desempenhar, que também variam de caso a caso.

Dentre esses sistemas, podemos situar o SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento do Estado de São Paulo). Nesse caso, trata-se de uma avaliação da educação básica junto à rede pública do Estado de São Paulo, realizada desde 1996 pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Esse sistema tem como finalidade produzir informações consistentes, periódicas e comparáveis sobre a situação da escolaridade básica na rede pública de ensino paulista, visando orientar os gestores do ensino no monitoramento das políticas voltadas para a melhoria da qualidade educacional.

Através de relatórios anuais, os resultados do SARESP são divulgados para todas as escolas e professores da rede estadual. Com essa divulgação, pretendem seus gestores permitir que sejam buscadas ações para a melhoria da educação, especialmente no que diz respeito aos possíveis aspectos identificados como problemáticos. Poderiam constituir-se, assim, em instrumento de melhoria dos processos de ensinar e aprender nas escolas.

Considerando esses aspectos, é possível supor que o SARESP possa tanto assumir o papel de uma avaliação institucional como de uma avaliação formativa. Embora seja desenvolvida em grande escala, de forma externa à escola, através de

instrumentos diretamente vinculados às propostas educacionais vigentes (âmbito institucional), a análise de seus resultados pelos agentes escolares poderia significar para eles, um espaço de avaliação formativa. Alguns relatórios do SARESP, referentes a anos passados, reforçam essa possibilidade.

No quadro de discussões sobre avaliação, proposto por PERRENOUD, este tipo de avaliação, a priori, deve ser considerada como uma ' avaliação seletiva ' (Perrenoud, 1999), pois inevitavelmente criam hierarquias de excelência, tornandose seletivas, ainda que, buscando compreensões em níveis hierárquicos amplos acerca dos sistemas educacionais.

Ao mesmo tempo, e paralelamente, PERRENOUD identifica e discute a prática dos professores como vinculada às avaliações formativas.

'A avaliação formativa assume todo o seu sentido no âmbito de uma estratégia pedagógica de luta contra o fracasso e as desigualdades, (...). Devido as políticas indecisas e também por outras razões, a avaliação formativa e a pedagogia diferenciada da qual participa chocam-se com obstáculos materiais e institucionais numerosos: o efetivo das turmas, a sobrecarga dos programas e a concepção dos meios de ensino e das didáticas, que quase não privilegiam a diferenciação' (Perrenoud, 1999, p.).

Particularmente, focaremos nesse trabalho as possibilidades de avaliação formativa, na medida em que essa dimensão integra as demais e lhes dá sentido. E SACRISTÁN (1998) afirma que o sentido da avaliação formativa 'poder servir para corrigir e melhorar os processos' e tem como objetivo 'conscientizar sobre o curso do processo de aprendizagem, proporcionando informação para detectar erros, incompreensões, crenças, etc., e poder corrigi-los e superá-los, evitando o fracasso antes de que se produza'.

Diante dessas considerações, nossa proposta nesse trabalho é buscar situar uma investigação, ainda que de forma preliminar, sobre em que medida o SARESP pode atuar tanto como avaliação institucional quanto como avaliação formativa. Particularmente, pretende-se analisar o potencial desse processo, no formato que passou a assumir desde 2007, como possível instrumento para subsidiar professores no aperfeiçoamento de suas práticas. De forma mais específica, restringiremos nossa análise à avaliação referente ao Ensino de Física. Para isso, serão identificados e analisados os elementos fornecidos pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que consistem em documentos oficiais, matrizes de referência, itens disponibilizados e alguns resultados. Essa preocupação se justifica por acreditarmos que a melhor maneira de se fazer uma avaliação é direcioná-la de forma coerente e consistente, em busca de uma efetiva superação de suas deficiências, a partir dos resultados obtidos.

## O sentido da avaliação do SARESP para a melhoria do Ensino

Em um primeiro momento, buscamos analisar as diretrizes apontadas nos documentos oficiais do próprio SARESP. O sistema é apresentado como tendo a finalidade de produzir informações consistentes, periódicas e comparáveis sobre a situação da escolaridade básica na rede pública de ensino paulista, visando orientar os gestores do ensino no monitoramento das políticas voltadas para a melhoria da qualidade educacional. E assim é apresentado em seu documento de implantação:

- (...) Defini, também, como um dos pontos essenciais e complementares a estas diretrizes, a implantação de um Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar, buscando subsídios para aprimorar a gestão educacional e, sobretudo o sistema de ensino como um todo.
- (...) Dessa forma, é intenção que se estabeleça um fluxo de informações entre a SEE, as demais Redes de Ensino e as Unidades Escolares, favorável à construção de uma política educacional para o Estado. Espera-se, com isso, que a avaliação se constitua em um subsídio constante para a gestão educacional, contribuindo, notadamente, para o aprimoramento do ensino em São Paulo . (SÃO PAULO, 1996, p.5-6).

Nesse sentido, a proposta oficial do SARESP inclui tanto aspectos de avaliação institucional como formativa: é justificada através da necessidade de melhoria da gestão educacional (ênfase institucional) e, ao mesmo tempo, pretende constituir-se como uma espécie de 'bússola' de orientação na melhoria da qualidade de ensino (ênfase formativa).

Ambos esses aspectos são reiterados em diversos momentos, nesse mesmo documento, ao sinalizar os objetivos gerais, resultantes da necessidade de melhoria:

- . Desenvolver um sistema de avaliação de desempenho dos alunos dos ensinos Fundamental e Médio do Estado de São Paulo, que subsidie a Secretaria da Educação nas tomadas de decisão quanto à Política Educacional do Estado;
- . Verificar o desempenho dos alunos nas séries do Ensino Fundamental e Médio, bem como nos diferentes componentes curriculares, de modo a fornecer ao sistema de ensino, às equipes técnico-pedagógicas das Delegacias de Ensino e às Unidades Escolares informações que subsidiem:
- - a capacitação dos recursos humanos do magistério;
- -a reorientação da proposta pedagógica desses níveis de ensino, de modo a aprimorá-la;
- -a viabilização da articulação dos resultados da avaliação com o planejamento escolar, a capacitação e o estabelecimento de metas para o projeto de cada escola, em especial a correção do fluxo escolar (SÃO PAULO, 1996, p 7-8).

Observa-se, pelos objetivos apontados, que de certo modo, a avaliação é posta tanto como justificativa para a tomada de decisão, como 'sinalizadora' de eventuais distorções detectadas, e, enfim, como agente em todo o sistema, desde as diretorias de ensino, os professores e os alunos. Em especial, ao se reconhecer como instrumento capaz de promover a melhoria das ações educacionais, passa a se reconhecer também como instrumento de ações formativas junto aos professores.

A partir de 2007, os resultados da avaliação do SARESP em Língua Portuguesa e em Matemática passaram a ser passíveis de comparação com aqueles da avaliação nacional (Saeb/Prova Brasil) e aos resultados do próprio SARESP, ano após ano. Deste modo, houve adequação da prova à metodologia baseada na Teoria da Resposta ao Item (TRI) 1 , que relaciona uma ou mais habilidades/proficiência de um indivíduo com a probabilidade deste dar certa resposta a um item (questão). Assim, de certa forma, o SARESP deixa de ser uma avaliação centrada nos resultados diretos dos alunos e passa a ser uma avaliação com as metodologias características de avaliações de sistema.

De qualquer maneira, as informações fornecidas pelo SARESP permitem aos responsáveis pela condução da educação, nas diferentes instâncias, identificar o nível de aprendizagem dos alunos de cada escola nos anos/séries e habilidades avaliadas, bem como acompanhar a evolução da qualidade da educação ao longo dos anos. Esse nível, no entanto, é apresentado apenas na forma de um percentual de acertos, na escala de proficiência.

E concomitante com os conteúdos de Língua Portuguesa e Matemática, atualmente há a alteração do conteúdo 'específico', sendo avaliados nos anos pares em Ciências (para alunos do Ensino fundamental) e Ciências da Natureza , composta por Biologia, Química e Física (Ensino Médio), alternadamente com as disciplinas de Ciências Humanas e tecnologia nos anos ímpares . Além desses conteúdos, há a 2 Redação, que é feita de forma amostral, ou seja, não são todas as classes (e, portanto, não abarca todos os alunos). Assim sendo, a disciplina de Física integra o SARESP somente em anos pares, ou seja, 2008 e 2010, compondo o 'bloco' das Ciências da Natureza.

Ao investigarmos a contribuição de diferentes estudos voltados para o SARESP, observou-se uma carência de informações referentes às práticas escolares e ao uso que está sendo feito do SARESP pelos professores, principalmente no que diz respeito ao Ensino de Física.

FREIRE (2005) acompanha o SARESP em uma escola, desde sua aplicação ao final, com a divulgação de resultados, buscando investigar como a escola corresponde ao SARESP, a eficácia desta política e o impacto gerado. Nesse caso, as provas eram acessíveis aos professores, tendo sido ressaltados vários problemas gerados durante sua aplicação. O autor conclui que algumas decisões do governo do Estado de São Paulo são tomadas 'sem uma direção clara' impedindo o seu aperfeiçoamento e ainda, conclui que a condução da avaliação pelo governo, não se configura como uma política avaliativa de Estado, 'nem favorece a geração de uma cultura que propicie a consolidação da avaliação em larga escala'.

BAUER (2006) busca verificar as relações entre os resultados do SARESP e a 'necessidade' da formação continuada de professores, investigando como isso acontece efetivamente nas diretorias de ensino e escolas, através de documentos, entrevistas e observações. Salienta que no documento de implantação do SARESP há menção à avaliação como orientadora para a formação continuada. Conclui, no entanto, que a articulação entre os resultados do SARESP e as políticas de formação são 'pouco efetivas', sendo pouco explorada pelos gestores.

ARCAS (2009) apresenta as 'implicações' da avaliação escolar relacionados com SARESP e progressão continuada. Busca evidenciar as mudanças, permanências e adaptações que vem sendo realizadas a partir da avaliação externa e da eliminação da reprovação, desenvolvendo uma pesquisa qualitativa com questionários e entrevistas. E conclui referente à avaliação externa, que esta vem sendo consolidada e aceita pelos professores como importante instrumento de aferição da qualidade da escola, pois segundo depoimentos dos professores, os resultados do SARESP fazem parte do planejamento escolar, há a aplicação de

simulados do modelo SARESP e os docentes buscam trabalhar de acordo com as habilidades, competências e conteúdos solicitados pelo SARESP.

Portanto, conclui-se, mesmo com poucos trabalhos pesquisados, que há uma dificuldade de se realizar de maneira efetiva os objetivos postulados pelo SARESP, principalmente pela gestão. E que, apesar disso, uma 'cultura de avaliação' (SARESP: Documento de implantação, p.124) está se consolidando nas escolas, pela aceitação dos professores da avaliação externa, mesmo que isso não implique diretamente na melhoria da qualidade de ensino.

## Os Instrumentos do SARESP: Matrizes de Referência e Itens

Em 2007, muitas mudanças foram introduzidas ao SARESP, com a intenção de torná-lo mais adequado tecnicamente às características de um sistema de avaliação em larga escala, além de poder acompanhar a evolução da qualidade do sistema estadual de ensino ao longo dos anos. Assim, em busca da construção de referências para orientar a estruturação das Matrizes, especialistas em avaliação organizaram as respectivas propostas iniciais (Conteúdos, Competências e Habilidades) das áreas curriculares a serem avaliadas no SARESP, tendo por base a Proposta Curricular do Estado de São Paulo, considerando também os documentos que balizam as avaliações nacionais e internacionais, além dos itens selecionados de avaliações anteriores do SARESP e itens comuns com o Saeb/Prova Brasil, em Língua Portuguesa e Matemática (para assegurar a comparabilidade). De uma maneira geral, entende-se a Matriz de Referência como lista hierarquizada dos conhecimentos de uma disciplina (a serem aprendidos numa determinada série ou ciclo), associadas a competências cognitivas a serem privilegiadas.

As competências gerais são as mesmas tanto para a área de Ciências no Ensino Fundamental como para as disciplinas de Física, Biologia e Química do Ensino Médio (Ciências da Natureza), e incluem, dentre outras, ler e expressar-se com textos, cifras, ícones, gráficos, tabelas e fórmulas; selecionar variáveis e estabelecer relações; relacionar informações e processos com seus contextos e com diversas áreas de conhecimento; identificar dimensões sociais, éticas e estéticas em questões técnicas e científicas; analisar o papel da ciência e da tecnologia no presente e ao longo da História. São enunciadas, portanto, de forma muito genérica, ainda que mantenham uma relação direta com as competências apresentadas na proposta curricular do Estado de São Paulo.

Para efeito de análise, comparamos entre si as matrizes de referência de 2008 e 2010, na área de Ciências da Natureza (Ensino Médio), que foram as últimas avaliações que contemplaram a disciplina de Física, com o objetivo de verificar possíveis modificações nas ênfases a serem avaliadas. Em ambos os casos, a Matriz inclui 47 habilidades, englobando os diferentes conteúdos trabalhados no ensino médio, sendo que apenas algumas delas são contempladas nas provas. Analisando o enunciado dessas habilidades é possível constatar sua equivalência, além de certa similitude com alguns aspectos de outras matrizes de outras avaliações institucionais (especialmente SAEB).

A partir dos resultados obtidos, é construída uma escala de proficiência, para classificar os resultados obtidos pelos alunos. São apresentados quatro níveis de

desempenho - Abaixo do Básico, Básico, Adequado e Avançado. Como as próprias designações indicam, a referência seria dada pelo nível adequado, em que os alunos demonstrariam domínio dos conteúdos, competências e habilidades desejáveis para a série escolar em que se encontram. Para o nível básico, esse domínio seria apenas parcial.

De modo geral, a escala de proficiência é a mesma, somente muda quando é analisado especificamente o que é necessário para cada nível. As provas de Ciências da Natureza incluem sempre 104 questões, variando um pouco a distribuição entre as disciplinas. Contudo, não há informação quanto a qual conteúdo é privilegiado e muito menos justificativas para o mesmo.

Para que se tornasse possível uma compreensão mais concreta da natureza da avaliação e dos resultados disponibilizados aos professores, buscamos analisar os itens de Física presentes na Prova SARESP 2010. Entende-se que é a partir dos resultados desses itens que as propostas e orientações elaboradas pela Secretaria de Educação devam servir de orientação às práticas dos professores.

O documento disponível para isso é o ' Relatório Pedagógico 2010 SARESP ' de Ciências e Ciências da Natureza, acessível a qualquer consulta (site: http://saresp.fde.sp.gov.br/2010/). No ano de 2010, a avaliação de Física para os alunos do terceiro ano do ensino médio foi constituída por 24 itens. No entanto, somente estão disponíveis 6 (seis) dessas questões, no relatório citado. Para cada uma delas, é apresentada a porcentagem geral de acertos em cada alternativa de cada questão, permitindo avaliar o conjunto das respostas de todos os alunos.

Um quadro síntese dessas questões é apresentado a seguir:

De uma maneira geral, podemos constatar que em nenhum item é solicitada uma análise quantitativa, restringindo-se todos a considerações qualitativas, algumas mais diretamente dependentes de informações adquiridas, enquanto outras implicando em reconhecimento de fenômenos físicos propriamente. Em conjunto, há uma ênfase ao tema energia e suas transformações, que é abordado em cinco dos seis itens. Podemos verificar que apenas um item (distinção entre condutores e isolantes) trata da explicação de uma propriedade física.

De qualquer forma, são poucas as questões disponibilizadas (25%), o que a priori quase que inviabiliza a orientação aos educadores. Além disso, todas as

questões são relativamente fáceis, o que representa um aspecto bastante restrito e que impede de inferir o que pode ter sido o instrumento de avaliação. Assim, nada se pode apreender da proposta utilizada na construção do instrumento e, por conseqüência, da própria avaliação.

A partir dos resultados, são identificadas as habilidades a que cada um desses itens corresponde, assim como classificados, na escala de referência, o grau de dificuldade que apresentaram. Assim, as quatro primeiras correspondem a níveis de desempenho básico, enquanto as duas últimas fazem parte da caracterização do nível avançado, o que é bastante surpreendente.

A impossibilidade de divulgar todas as questões, segundo a equipe de avaliação da Fundação para Desenvolvimento da Educação (FDE), deve-se ao fato de que muitas das questões poderão vir a ser utilizadas em anos posteriores, seja pelo próprio SARESP ou pelo SAEB (Sistema Nacional de Educação Básica), dentro da estratégia de garantir a comparação de resultados. Desse ponto de vista, fica mais que explícita a ênfase nas questões gerais do sistema educacional, impedindo praticamente suas contribuições formativas aos professores.

Além da amostra de itens, e baseados nos resultados gerais, o relatório apresenta algumas orientações pedagógicas. No que diz respeito ao desempenho em Ciências, há uma orientação geral destacando:

'necessidade de que os alunos aperfeiçoem suas habilidades de transposição das informações que podem obter em figuras, ilustrações ou outros recursos gráficos, para solucionar as diferentes situações propostas em itens de múltipla escolha'. (SÃO PAULO, Relatório Pedagógico 2010, pg.199).

Ou seja, de forma geral, apresenta-se como um dos fatores que dificultou um melhor desempenho dos alunos, a dificuldade em fazer uma transposição das informações, apresentadas em figuras ou gráficos, em respostas.

No que diz respeito especificamente ao desempenho em Ciências da Natureza, relativo ao 3°ano do Ensino Médio, a principal recomendação é no sentido de que:

'as atividades sejam realizadas com a participação ativa dos alunos, preferencialmente demandando consulta e cooperação com seus colegas e que as temáticas que dialoguem com o contexto da escola e com a realidade do aluno'. (SÃO PAULO, Relatório Pedagógico 2010, pg.202).

Ou seja, elucida que para a melhoria da aprendizagem é necessário envolver os alunos numa aprendizagem ativa (participativa) indicando o 'Caderno do Aluno' para apoiar os professores e os alunos no desenvolvimento das habilidades científicas. E destaca por fim que é necessário fomentar a curiosidade dos alunos, dado que isto seria o 'motor da aprendizagem'. Podemos constatar, de forma inequívoca, que para tais recomendações não seria necessário um instrumento tão abrangente como o desenvolvido.

## Resultados Disponibilizados

Os resultados gerais do SARESP são disponibilizados, no mesmo site mencionado acima, e podem ser acessados por qualquer pessoa . E através da 3 análise desses dados é possível inferir como potencialmente podem ser utilizados pelas escolas, seja em reuniões de planejamento, seja pelos professores ou pela simples curiosidade do educador.

De forma geral os dados disponibilizados são elencados no 'Boletim da Escola' da seguinte forma: a quantidade de participantes, média obtida no SARESP, média no SAEB e Prova Brasil, o desempenho dos alunos em Língua Portuguesa, Matemática, Ciências (e Ciências da Natureza, para as escolas que também possuem séries de ensino médio) e Redação. Esses dados são sempre apresentados de forma comparativa com os alunos do Estado da Rede Pública, da Região Metropolitana (COGESP), da Região do Interior (CEI), da Diretoria de Ensino, do Município e finalmente da Escola.

Os dados de cada área (Língua Portuguesa, Matemática e Ciências e Ciências da Natureza) são apresentados para cada série em que foi aplicado o SARESP. Por fim, são apresentados os níveis de proficiência (com uma distribuição percentual dos alunos nos níveis da escala da Prova Brasil e SAEB para Língua Portuguesa e Matemática), e, especificamente para Ciências e Ciências da Natureza, com uma distribuição percentual dos alunos nos níveis da escala elaborada pelo próprio SARESP.

Como exemplo, apresenta-se abaixo um possível gráfico que pode ser elaborado a partir dos resultados disponibilizados para uma escola, escolhida aleatoriamente, com os dados do 3°ano do EM.

Gráfico 1: Desempenho de uma escola escolhida aleatoriamente no SARESP 2010

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Para cada área, comparecem os resultados percentuais correspondentes aos quatro níveis de desempenho da escala de referência.

Ao mesmo tempo, é possível também situar os dados gerais da rede estadual, referente a quantidade de participantes, apresentado no gráfico 2.

Gráfico 2: Quantidade de Participantes no SARESP 2010, de uma escola escolhida aleatoriamente, comparados ao de todo o Estado.

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Além desses, muitos outros gráficos podem ser elaborados, por exemplo, comparando, ano a ano, os dados gerais, seja do desempenho da escola, seja da quantidade de participantes. Também é possível obter gráficos comparativos entre escolas de uma mesma região, destacando o desempenho por área. Como exemplo, o gráfico 3 compara 10 escolas de uma mesma diretoria de ensino, escolhidas aleatoriamente.

Gráfico 3: Comparação entre 10 escolas estaduais, escolhidas aleatoriamente, referente aos desempenhos dos alunos do 3°ano do EM no SARESP 2010, no nível abaixo do básico.

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Diversas leituras são potencializadas por esses gráficos, dependendo da perspectiva que se deseje privilegiar. Mais do que análises específicas, buscamos destacar, com esses exemplos, apenas a natureza das informações disponíveis.

Em todos os casos, no entanto, é importante enfatizar que para o conteúdo de Ciências da Natureza, não há resultados disponíveis de forma separada por disciplina, mas apenas ao conjunto de Biologia, Química e Física.

## Considerações Finais

O presente trabalho buscou analisar a avaliação proporcionada pelo SARESP após as modificações introduzidas nesse sistema a partir de 2007, no sentido de investigar sua contribuição para uma avaliação formativa.

Embora os documentos oficiais sinalizem intenções formativas, para além do diagnóstico da rede e das eventuais correções, através de ênfases de gestão, é claro e explícito que esse sistema de avaliação passou a se restringir aos aspectos de uma avaliação institucional. É possível fazer comparações entre escolas, permitindo até que se desconsiderem suas características locais e contextos específicos, muito próximos ao estabelecimento de escalas de desempenho oficiais.

Ao contrário, para uma avaliação formativa seriam necessárias informações e orientações mais específicas, a partir das quais pudessem ser modificadas as práticas dos professores e das escolas. Ou seja, seria necessário que seus resultados se constituíssem de fato em uma retroalimentação positiva.

Nada parece justificar um tão grande investimento para que seja desconsiderada a contribuição formativa indispensável à melhoria da educação. Bastaria, por exemplo, em um primeiro momento, que os itens e os resultados obtidos fossem divulgados, que as escalas de referência fossem mais objetivas e que as disciplinas, no caso das Ciências, fossem apresentadas em separado. Todas essas indicações são para informações que já são estabelecidas pelos instrumentos disponíveis, mas apenas não são divulgadas de forma adequada.

Mais do que isso, seria fundamental que se utilizasse esse instrumento para uma efetiva ação educativa, menos do que no sentido de atribuição de bônus, cuja discussão propositalmente deixamos de considerar. Trata-se menos de classificar as diferenças, em relação a uma escala pré-estabelecida, mas de buscar compreender a natureza do conhecimento que está sendo construído e as dificuldades específicas enfrentadas por diferentes segmentos, em diferentes contextos, em busca da diminuição da desigualdade educacional que é, também, social.

## Referências

ARCAS, P. H. Implicações da Progressão Continuada e do SARESP na Avaliação Escolar: tensões, dilemas e tendências . 2009. 178f. Tese (Doutorado em Educação)-Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

BAUER, A. Uso dos Resultados do SARESP: O Papel da Avaliação nas Políticas de Formação Docente . 2006. Dissertação (Mestrado em Educação) - São Paulo: Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

ESTEVES, M. Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo - SARESP : uma ação planejada. 1998. 157f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1998.

FREIRE, L.R.S.C. SARESP 2005: as vicissitudes da avaliação em uma escola da rede estadual. 2008 . 118f. Dissertação (Mestrado em Educação) - São Paulo: Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

FREITAS, L. C. (Org.). Avaliação: Construindo o campo e a crítica. Florianópolis. Insular, 2002.

SACRISTÁN, J.G. A avaliação do ensino. In: GIMENO SACRISTÁN, J.; GÓMEZ, A. I. Pérez. Compreender e transformar o ensino. Trad. Ernani F. da Fonseca Rosa. 4. ed. Artmed, 1998.

PERRENOUD, P., Avaliação: Da excelência à regulação das aprendizagens - Entre duas lógicas , Porto Alegre, Artes Médicas, 1999.

## Documentos Oficiais

SÃO PAULO. Resolução SE n°27, de 29 de março de 1996. Dispõe sobre o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo.

SÃO PAULO. SEE/FDE. Relatório Pedagógico - SARESP 2010. Ciências e Ciências da Natureza - Biologia, Física e Química (2011).

SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO, São Paulo. SARESP : documento de implantação. São Paulo: FDE, 1996.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.