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UMA ANÁLISE DAS CONCEPÇÕES DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO E ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS SOBRE O PROCESSO DE INTERAÇÃO NA FÍSICA NUMA PERSPECTIVA KUHNIANA

Moacir Pereira De Souza Filho, Donizete Aparecido Buscatti Junior, Allan Victor Ribeiro

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
08/11/2012
Linha de pesquisa
Ensino / Aprendizagem / Avaliação Em Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## UMA ANÁLISE DAS CONCEPÇÕES DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO E ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS SOBRE O PROCESSO DE INTERAÇÃO NA FÍSICA NUMA PERSPECTIVA KUHNIANA

## AN ANALISIS OF THE CONCEPTIONS FROM STUDENTS OF THE HIGH SCOOL AND COLLEGE STUDENTS ON PROCESS OF INTERATION IN THE PHYSICS BY KUHN'S EPISTEMOLOGY

## Moacir Pereira de Souza Filho , Donizete Aparecido Buscatti Junior , Allan 1 2 Victor Ribeiro 3

1 Unesp - Univ. Estadual Paulista/Faculdade de Ciências e Tecnologia/Depto. de Física, Química e Biologia - P. Prudente, moacir@fct.unesp.br

2 Unesp - Univ. Estadual Paulista/Faculdade de Ciências - P. Prudente/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências - Bauru, djrbuscatti@hotmail.com

3 Unesp - Univ. Estadual Paulista/Faculdade de Ciências/Depto. de Física e SESI - Bauru, allan\_vr@fc.unesp.br

## Resumo

A forma dogmática que caracteriza o ensino de física é certamente um dos fatores que desmotiva os estudantes. Partindo do pressuposto que a utilização adequada de história e filosofia da ciência no ensino pode mudar esse quadro, procedemos um estudo de caso envolvendo alunos do ensino médio e alunos ingressantes e concluintes de um curso superior de licenciatura em Física. Os dados foram coletados na forma de respostas abertas, que buscaram avaliar a forma pela qual esses estudantes compreendiam as interações entre corpos, que podemos considerar baseada em duas teorias que teve um embate ao longo do processo histórico: ação à distância e noção ou teoria de campo . A primeira defende que não é necessário haver matéria entre dois corpos que interagem mutuamente, e a segunda, diz que a presença de matéria é uma condição fundamental. Os dados foram analisados a luz da epistemologia de Thomas Kuhn. O filósofo considera que no progresso científico surgem algumas anomalias; caso a ciência normal não consiga solucionar esses problemas, o paradigma vigente entra em crise. Essas crises provocam rupturas e revoluções podendo emergir um novo paradigma. Os resultados revelam algumas concepções referentes noção de campo, embora a maioria dos concluintes se mostrasse adeptos do modelo da ação a distância. Porém, pôde-se observar que os estudantes defendem suas posições de forma confusa. Ademais, ficou evidente nos dados, uma falta de clareza no que se refere à definição e a natureza dos campos elétrico e magnético. Provavelmente, esse fato que não teria ocorrido, caso os estudantes tivessem tido contato com o pano de fundo histórico relacionado a esse tema.

Palavras-chave : Ensino de Física, Eletromagnetismo, Thomas Kuhn

## Abstract

The way that characterizes the dogmatic teaching of physics is certainly one of the factors that discourage students. Assuming that the appropriate use of history

and philosophy of science in education can change that, we did a case study involving high school students and the entering and graduating from a degree course in Physics. Data were collected in the form of open questions that investigated the way in which these students understand the interactions between bodies, which can be considered based on two theories that had a clash over the historical process: action at a distance and concept or theory field. The first argues that there need be no issue between two bodies interacts, and the second says that the presence of matter is a fundamental condition. The data were analyzed in light of the epistemology of Thomas Kuhn. The philosopher believes that scientific progress in some anomalies arises, if the normal science can not solve these problems, the current paradigm is in crisis. These disruptive crises and revolutions may emerge a new paradigm. The results reveal some ideas regarding the notion of field, although most graduates proved adept model of action at a distance. However, it was observed that students defend their positions in a confused manner. Moreover, it was evident in the data, a lack of clarity regarding the definition and nature of electric and magnetic fields. Probably, this fact would not have occurred if students had been in contact with the historical background related to this issue.

## Keywords : Physics education, Electromagnetism, Thomas Kuhn

## Introdução

Alguns autores defendem a inserção da história e da filosofia da ciência como abordagem metodológica para o ensino. Matthews (1995), por exemplo, acredita que recursos históricos e epistemológicos devem ser discutidos entre professores e alunos para que seja possível ministrar uma aula mais motivadora e de forma não dogmática, mostrando que a ciência não é estanque, mas sim, faz parte de um desenvolvimento histórico, de uma cultura, de um mundo humano, sofrendo influências e influenciando muitos aspectos da sociedade. O trabalho de Martins (2006) enfatiza que a história das ciências possibilita apresentar uma visão a respeito da natureza da pesquisa e do desenvolvimento científico que não costumamos encontrar nos livros-textos. Assim, aceitamos a teoria do conhecimento cientifico sem questionar alguns aspectos, tais como: de que maneira as teorias e os conceitos se desenvolvem? Como os cientistas trabalham? Quais idéias que aceitamos atualmente e, quais foram aceitas em uma determinada época? Qual a relação entre o desenvolvimento científico e seu contexto histórico? Neste sentido Moreira (2009) salienta que é importante a percepção dos professores e dos estudantes de que o trabalho dos cientistas pode influenciar no ensino e na aprendizagem; é preciso que os professores tenham consciência de que as teorias científicas não são definitivas e que existem explicações alternativas e controvérsias em torno dessas teorias; uma visão criativa e aberta da ciência pode influenciar positivamente na imaginação e na motivação dos estudantes; e mais ainda, mostrar o processo histórico no sentido de introduzir visões contemporâneas.

Tendo em vista a literatura apresentada, nossa pesquisa teve como objetivo analisar a concepção dos estudantes acerca de um tema relevante em Física: a discussão de como ocorre a interação entre os corpos. Mostrar que houve um acirrado embate histórico entre duas concepções, a saber: defensores da ação a distância, que afirma que corpos podem agir mutuamente na ausência de matéria e, da teoria de campo - sendo entendido como região do espaço - que sugere a presença de um meio de propagação dessa ação. O referencial epistemológico do

trabalho está fundamentado na obra de Thomas Kuhn (1922-1996), que nos possibilitou a análise dos dados que foram coletados em três momentos: com alunos do ensino médio e em um curso universitário, com alunos ingressantes e concluintes do curso de licenciatura em Física da Unesp de Presidente Prudente.

## Fundamentação Teórica

Uma questão que sempre intrigou os cientistas se refere à transmissão da força que atua entre dois corpos. A 3ª. lei de Newton (ação e reação), diz que o somatório das forças aplicadas é zero. Consequentemente ao empurrarmos ou puxarmos um corpo ele se movimenta no sentido da força aplicada, pois essa força vence a força de atrito entre o objeto e o solo. Um exemplo de que as forças estão no mesmo sentido pode ser notado no choque das bolas de bilhar que ocorre pelo contato direto. Mas, e quando esses corpos não se tocam? Existe um meio entre eles? Maxwell questionou se haveria algum agente intermediário ou se essa intervenção ocorria num espaço vazio, sem a presença de matéria e se essa ação ocorria de maneira instantânea (KRAPAS e SILVA 2007, p. 472; MAXWELL, apud TORT et al ., p. 274; SOUZA FILHO, 2009, p. 92).

Em um concerto musical, por exemplo, as vibrações mecânicas dos instrumentos musicais são transmitidas pelo ar até a platéia, com uma velocidade finita, fazendo com que vibrem os órgãos sensoriais do espectador e, ele possa apreciar a obra musical (ASSIS, 2006, p.92). Mas, a luz do sol, que corresponde a uma onda eletromagnética, precisa de um meio para se propagar, antes dessa onda luminosa atingir a Terra? Esta 'viagem' ocorre instantaneamente, ou leva um tempo para se propagar de um ponto ao outro, ou seja, do Sol a Terra?

Se colocarmos um rádio em um tubo de vácuo, podemos perceber que com a retirada do ar do interior da campânula, deixaremos de ouvir o som. Porém, se colocarmos um telefone celular, na mesma situação, ele continua recebendo ligações, o que mostra que o som precisa de um meio para se propagar, e que as ondas eletromagnéticas, não.

A ação a distância e a noção de campo são teorias distintas que tiveram um grande sucesso na explicação dos principais fenômenos. Maxwell considerou importante comparar esses dois métodos, para ele, radicalmente diferentes (ASSIS, 2006, p. 96; GARDELLI, 2004, p. 83). Basicamente, a diferença entre elas é que a ação a distância não considera que haja um meio material entre os corpos interagentes e a ação ocorre de maneira instantânea. Para a teoria de campo , a interação se dá exclusivamente por mediação; por isso, esse tipo de interação também pode ser denominado como mediado ou por contato (ASSIS, 2006, KRAPAS e SILVA 2007, SOUZA FILHO, 2009). Essa interação ocorre 'passo a passo' e, portanto, não é instantânea levando um tempo para ocorrer.

Utilizamos como referencial teórico a obra 'A estrutura das revoluções científicas' de Thomas Kuhn (1922-1996) que considera que o progresso científico se dá por transições bruscas ou aquilo que o autor denomina de revoluções . Um dos conceitos mais relevantes da obra de Kuhn é o termo paradigma . Paradigma é o conjunto de crenças e valores segundo os quais uma dada comunidade científica trabalha e acredita. Uma situação peculiar, denominada crise , acontece quando os cientistas se deparam com anomalias as quais o paradigma vigente não consegue explicar. Essa tentativa desesperada de solucionar o problema, Kuhn intitula de quebra-cabeça . Quando se esgotam as possibilidades da resolução dos problemas

encontrados, surge um novo paradigma. Nas palavras do próprio Kuhn, os cientistas passam a 'viver em mundos diferentes' (KUHN, 1982).

Neste sentido, consideramos que o experimento de Oersted provocou anomalias nas concepções vigentes originando uma revolução ou uma ruptura entre esses paradigmas : a ação a distância e a teoria de campo . Com base nisso iremos conduzir nossa investigação em sala de aula.

## Metodologia

Esse trabalho é fruto de um trabalho de conclusão de curso (TCC), que é um dos requisitos básicos para a conclusão do curso de licenciatura em Física da Unesp de Presidente Prudente. A metodologia consistiu num estudo de caso, envolvendo 28 alunos que cursavam a 1ª. Série do Ensino Médio, em uma escola particular; 15 alunos ingressantes e 15 estudantes concluintes de um curso de licenciatura em Física da Unesp de Presidente Prudente. O instrumento de análise foi um questionário contendo três (3) questões abertas, e que deveriam ser respondidas pelos participantes. Esses instrumentos foram precedidos por experimentos simples. Os experimentos foram: empurrar e puxar uma mesa (ação direta), demonstração de aproximar um bastão eletrizado de bolinhas de isopor e o experimento de Oersted, no qual uma corrente elétrica ao passar pelo fio condutor provoca o distúrbio em uma agulha imantada da bússola.

- O objetivo foi identificar as anomalias que ocorrem no pensamento do sujeito, relacionado-as as anomalias que surgem nas revoluções paradigmáticas.
- A seguir, apresentamos nosso instrumento de análise (questões 1 a 3):
- 1) Para você movimentar um objeto, é necessário você empurrar ou puxar esse objeto, ou seja, agir sobre ele. Você concorda com essa afirmação? Por quê? O objeto sempre se deslocará no sentido em que você agiu sobre ele?
- 2) No experimento de atração da caneta sobre as bolinhas de isopor, as bolinhas sofrem a ação antes de a caneta ter encostado sobre nelas. Você considera que existe alguma coisa entre o bastão e o objeto atraído? O quê?
- 3) No experimento do fio e da bússola, o que existe entre eles para fazer com que a força exercida pela corrente elétrica desloque a agulha magnética da bússola? Por que a agulha da bússola se desloca perpendicular ao fio?

O experimento de puxar ou empurrar um objeto reforça o paradigma da ação por contato direto . Posteriormente, realizou-se o experimento de eletrização. As bolinhas de isopor foram atraídas antes que houvesse contato. Pode haver neste caso, uma concepção baseada na ação a distância . Por fim, executou-se o experimento de Oersted, que podemos considerar que existe no entorno do fio um campo magnético responsável pelo deslocamento da bússola, que se baseia na teoria de campo .

## Resultados e Discussão

A amostra investigada como dissemos foi composta por 28 alunos do ensino médio, 15 alunos ingressantes e 15 alunos concluintes do curso de licenciatura em Física da Unesp de Presidente Prudente. Os gráficos 1, 2 e 3, representam respectivamente, os resultados de cada nível escolar.

Elaboramos quatro categorias para enquadrar as respostas das questões investigadas. Porém, no caso dos estudantes universitários apenas três categorias foram utilizadas, uma vez que todos os participantes responderam as questões:

- · Categoria A: Respostas corretas;
- · Categoria B: Respostas corretas, mas inconsistentes;
- · Categoria C: Respostas incorretas e inconsistentes;
- · Categoria D: Não responderam a questão.

Na categoria A enquadramos todas as respostas que consideramos corretas do ponto de vista aceito pela comunidade científica; na categoria B foram consideradas as respostas que apesar de estarem aparentemente corretas em relação a questão formulada, não tinha coerência com conceitos científicos; na categoria C consideramos as questões que além de estarem incorretas do ponto de vista da pergunta aplicada, era totalmente inconsistente e, finalmente, na categoria D se enquadrou os alunos que não responderam determinada questão. A seguir apresentamos exemplos das categorias para cada questão:

## Questão 1

Corretas: Sim. (...) se o corpo for móvel como uma mesa ou cadeira ele se deslocará no sentido da força aplicada. (...) se for imóvel como uma parede, não haverá deslocamento.

Corretas, mas inconsistente: Para que um objeto se desloque é necessário que se aplique uma força maior que a força peso (...) ele pode atingir o local que queremos por trajetórias diferentes. Há outras maneiras de deslocar o objeto sem tocá-lo.

Incorretas e inconsistente: Não houve, nem para alunos do Ensino Médio, nem ingressantes, nem para os concluintes do curso de licenciatura.

## Questão 2

Corretas: Não há necessidade da existência de algo material. Apenas o espaço. Neste caso, a força elétrica prevê a existência de cargas elétricas em ambos os objetos.

Corretas, mas inconsistente: Sim. O ar.

Incorretas e inconsistente: Sim. Considero que haja uma atração magnética para [os corpos] se atraírem.

## Questão 3

Corretas: A agulha magnética da bússola é inicialmente orientada pelo campo magnético da Terra. Mas, quando ela se aproxima do fio eletrizado, ela é reorientada pelo campo magnético do fio.

Corretas, mas inconsistente: Porque o vetor campo magnético é perpendicular ao vetor velocidade e a corrente elétrica.

Incorretas e inconsistente : O ponteiro da bússola se move no sentido da corrente por causa do campo liberado pelo fio.

## Alunos do Ensino Médio

Podemos verificar através do Gráfico 1 que na primeira questão, a maioria (cerca de 90%) relatou que é preciso haver contato, e que o objeto se deslocou no sentido da força aplicada. Isso evidencia que esses estudantes estão fortemente arraigados na concepção de que é necessário o contato direto. Nas questões 2 e 3, houveram respostas que embora estivessem corretas em relação a questão proposta, apresentavam incoerência lógica (cerca de 50% e 30%) e respostas que estavam incorretas e equivocadas ou inconsistentes (acima de 20% para ambas as questões). Nota-se que os alunos usam termos que já ouviram falar, mas que não

compreendem efetivamente o que significam. Alguns participantes do ensino médio não souberam responder e deixaram as questões 2 e 3 em branco.

Gráfico 1 - estudantes do ensino médio

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## Alunos Ingressantes do curso de licenciatura em Física

O gráfico 2 nos mostra que os alunos ingressantes embora tenham respondido corretamente as questões 1, 2 e 3, a grande maioria das respostas estavam inconsintentes com o conhecimento científico (cerca de 88%, 70% e 38%, respectivamente. Houve poucas questões corretas (abaixo de 20% para as questões 1 e 2), porém a questão 3 apresentou aproximadamente 45% de acerto. Para a categoria das respostas incorretas e inconsistentes foram encontradas aproximadamente 0%, 10% e 10% para as questões 1, 2 e 3, respectivamente.

Gráfico 2 - Alunos ingressantes do curso de licenciatura em Física

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## Alunos concluintes do curso de licenciatura em Física

O gráfico 3 apresenta uma evolução conceitual dos estudantes quanto as interações da Física: por contato, ação a distância e noção de campo (questões, 1, 2

e 3, respectivamente), pois os resultados mostram que houve por volta de 50%, 30%, 70% de acertos e 45%, 45% e 25% de respostas que apesar de estarem corretas apresentaram inconsistências. Só houveram respostas incorretas e inconsistentes para a questão 2, uma vez que os resultados foram nulos para as questões 1 e 3.

Gráfico 3 - Alunos concluintes do curso de licenciatura em Física

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Os resultados revelaram que os alunos do ensino médio (comunidade científica) estão fortemente aderidos ao paradigma da ação por contato direto (ciência normal). Os conceitos referentes aos paradigmas da ação a distância e concepção de campo se constituem em dificuldades (anomalias) para esses estudantes. As anomalias estão relacionadas principalmente quando a ação não ocorre diretamente, como é o caso da ação a distância e de campo. Eles não têm noção clara do meio que envolve os corpos e a direção em que essa ação ocorre.

No Gráfico 2 e 3 não foram observadas respostas totalmente equivocadas para a questão 1. Partindo do pressuposto de que esses alunos já estudaram em algum momento as forças gravitacionais, era de se esperar que ao menos esses alunos considerassem que o ato de movimentar objetos implica em contato direto (empurrar/puxar). Embora esses estudantes tivessem algumas dificuldades ao explicar corretamente esta questão, trata-se de uma experiência vivenciada no cotidiano. Mesmo assim, os alunos concluintes tiveram um maior número de acerto e uma diminuição das respostas corretas e inconsistentes, e talvez o curso tenha contribuído para isso ocorresse.

Em relação a questão 2, não há uma diferença perceptível entre os alunos ingressantes e os concluintes, pois embora o número de questões corretas seja maior para os concluintes, as respostas inconsistentes também são. A análise das respostas mostrou alto índice de inconsistência e confusão, o que evidencia a carência de um entendimento pleno do conceito. Nesse sentido, os alunos são capazes, naturalmente, de resolver problemas de diversos tipos. Contudo, esses alunos possuem pouca clareza no que se refere à natureza do campo elétrico, inclusive com respeito a sua própria definição e condição de existência. A maneira como ocorre a atração elétrica ainda é meio confusa para esses alunos. Muitos ficam divididos entre as duas concepções: a ação a distância e a noção de campo , mas não tem consciência da controvérsia que existiu e existe entre essas duas concepções.

Foi possível observar que a idéia de que existe um campo magnético ao redor do fio esteve bastante presente nas respostas dos licenciandos. Neste sentido os estudantes concluintes se sobressaíram com as respostas mais coerentes. A análise das respostas dadas para a questão 3, forneceram fortes evidências de uma mudança paradigmática com respeito a compreensão da interação e, principalmente com a diferenciação entre os dois paradigmas ( ação a distância e campo ).

Em síntese, os dados apresentados revelaram que a concepção por contato direto ( questão 1 ) está presente nos alunos universitários. Não foram observadas respostas inconsistentes. Entre os alunos ingressantes e concluintes, verificamos um aumento de respostas corretas e uma consequente diminuição das respostas corretas, mas consistentes. Em relação a ação a distância ( questão 2 ) começa a haver algumas anomalias verificadas pela presença de respostas incorretas e inconsistente, e também pela diminuição das respostas corretas. A noção de campo ( questão 3 ) está fortemente presente principalmente nos estudantes concluintes, fato que pode ser inferido pela maior porcentagem de respostas corretas. Percebese que os alunos concluintes, ao menos a maioria, não estão aderidos a somente um paradigma com respeito a interação; uma vez que as respostas das questões 1, 2 e 3 contém uma certa homogeneidade.

Outro ponto a se ressaltar foi o fato de que nenhum aluno teve conhecimento do debate histórico acerca das interações, o que muito provavelmente, influenciaria de forma positiva na compreensão do assunto.

A despeito dos dados, de uma forma geral, pode-se inferir que grande parte dos estudantes do ensino médio, e também os calouros, incorporam a concepção de que toda força é mediada de forma direta (ciência normal). Trata-se de um paradigma vigente, pois os outros experimentos (bastão/bolinhas de isopor e o fio/bússola) não foram capazes de afetar por completo a sua validez. Termos sobre a ação a distância e concepção de campo fazem parte do vocabulário dos sujeitos, mas, não existe por parte deles um pleno entendimento, como evidenciaram os dados coletados. Ressalta-se que essa situação ocorreu também com os alunos do ensino médio. Enfatizamos que os referidos estudantes são, provavelmente, capazes de resolver vários problemas de livros técnicos envolvendo campo elétrico e magnético, contudo, detectamos que os estudantes não têm muito clareza sobre a natureza e a maneira pela qual se dá as interações na Física, e talvez essa lacuna, poderia ser suprida por uma contextualização histórica.

Com os experimentos realizados e as questões serviram como ponto de reflexão. Podemos inferir que para os estudantes de modo geral (ensino médio, graduandos ingressantes e concluintes), o conceito 'força' ganhou um significado mais completo na medida em que avançamos o nível escolar, tanto no que se refere ao espaço entre os corpos, quanto à direção em que esta força atua. Essa nova visão certamente se mostrará relevante quando os sujeitos forem lecionar este assunto nas escolas. Isso mostra também a importância que um tratamento histórico sobre um assunto pode ter na formação do futuro professor.

## Considerações finais

De uma forma geral, os estudantes desconheciam por completo o debate histórico que teve (e ainda tem) sobre o conceito de interação. Como se trata de um assunto de relevância para a formação do sujeito, independente se é para lecionar ou não, isso consiste em uma lacuna significativa no ensino de Física.

Para os estudantes do ensino médio, observou-se forte adesão, a princípio, ao paradigma da ação mediada por contato direto. Ao fim dos experimentos, observamos anomalias referindo-se ao meio em que a ação ocorre e a direção na qual a força atua. Com respeito aos estudantes universitários, o conceito de interação mostrou-se dividido entre os dois paradigmas; entretanto, foram identificadas anomalias e inconsistências que poderiam ser, ao menos, minimizados se os sujeitos tivessem um mínimo de formação em história da ciência, pelo menos no que diz respeito aos conceitos de interação. Como conseqüência das atividades, notamos que, para ambas as amostras dos sujeitos universitários, o termo 'força' passou a ter um significado mais amplo.

Como conclusão geral, a epistemologia de Thomas Kuhn, aplicada da forma que foi exposta aqui, forneceu evidências, através de anomalias e paradigmas, a respeito do entendimento dos estudantes acerca do conceito de interação e, devido a isso, foi possível observar carências que poderiam não existir caso os estudantes tivessem contato com o contexto histórico sobre o referido conceito.

## Referências

ASSIS, A. K. T. Interações na Física - Ação à distância versus ação por contato. In: Estudos de História e Filosofia das Ciências: Subsídios para Aplicação no Ensino, C. C. Silva (Org.), (Editora Livraria da Física, São Paulo, 2006), pp. 87-102.

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GARDELLI, D. Concepções de interação física: subsídios para uma abordagem do assunto no ensino médio. 2004. 127f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências) - Faculdade de Educação - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004

KUHN, T. As estruturas da revolução científicas, Perspectiva: São Paulo, 1982.

MARTINS, R. A. Introdução: a História das Ciências e seus usos na educação. In: SILVA, C. C. (Org.). Estudos de história e filosofia das ciências : subsídios para aplicação no ensino. São Paulo: Livraria da Física, 2006.

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