PROPOSTA PARA UMA INTERFACE MOEBIANA ENTRE FÍSICA E POESIA
Carlos Magno Sampaio, Emerson Izidoro Dos Santos
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 06/11/2012
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## PROPOSTA PARA UMA INTERFACE MOEBIANA ENTRE FÍSICA E POESIA PROPOSAL OF MÖEBIUS TAPE INTERFACE BETWEEN PHYSICAL SCIENCE AND POETRY
## Carlos Magno Sampaio 1 , Emerson Izidoro dos Santos 2
1 Universidade de São Paulo/ Instituto de Física/ Faculdade de Educação, magno@usp.br 2 Universidade de São Paulo/ Estação Ciência, mson@usp.br
## Resumo
Tratamos neste artigo de uma proposta para ensinar física por meio de atividades didáticas baseadas em poesias e demonstrar como determinados conceitos científicos utilizados pelos poetas podem ser identificados, extraídos e analisados, proporcionando uma forma diferente de interpretação da que normalmente é feita pelos professores da área de literatura e língua portuguesa. O poema selecionado foi 'No meio do caminho', de Carlos Drummond de Andrade, por sua temática associável ao conhecimento científico, além de sua inegável qualidade artística. A análise das falas de alguns alunos e de parte de um questionário com questões de interpretações induzidas nos serviu como instrumento de pesquisa para avaliar a possibilidade e a eficácia na aprendizagem de conceitos e as interações sociais que a integração dessas áreas de cultura pode proporcionar e desencadear, uma vez que física e poesia se apresentam distanciadas quando abordadas em sala de aula, mas que se nutrem de elementos de uma cultura comum. Linguagem não é apenas uma expressão do conhecimento adquirido, existe uma inter-relação fundamental entre ela e o pensamento, proporcionando recursos um ao outro e cujo desenvolvimento em termos de dentro e de fora permite uma analogia com a fita de Moëbius. Exploramos que esses aspectos moebianos, digamos, entrelaçam Física e poesia e optamos por adotar uma pedagogia de inspiração vigotskiana, sociocultural, em que a aprendizagem não resulta da atividade em si, mas das interações sociais que decorrem dela, sendo, portanto nosso objetivo, indicar por meio de uma interface moebiana entre Física e poesia, interações sociais que permitam o ensino de determinados conteúdos.
Palavras-chave : Física, Poesia, Vigotski
## Abstract
This article proposes to teach physics by means of educational activities based on poetry and demonstrate how certain scientific concepts used by poets can be identified, extracted and analyzed, providing a different way of interpretation of that is usually done by teachers of Portuguese language. The selected poem was "In the middle of way" by Carlos Drummond de Andrade, by their associable theme to scientific knowledge, and its undeniable artistic quality. The analysis of the words and part of a questionnaire with interpretations induced served us as a research tool to assess the possibility and effectiveness in learning concepts and social interactions, which can strengthen the integration of these areas, physics and poetry are spaced
when covered in the classroom, but that nourish the elements of a common culture of students. Language is not only an expression of knowledge, there is a fundamental interrelation between her and thought, providing resources to one another and whose development in terms of "inside" and "outside", allows an analogy with Moëbius tape. These aspects of Moëbius Tape, say, we explore to approximate the physical sciences and poetry. We chose to adopt the pedagogy of Vygotsky, sociocultural, in which learning is not the result of the activity itself, but of the social interactions that arise from it, therefore, our goal, indicate by means of an interface between physics and poetry, the social interactions that allow the teaching of certain content.
Keywords : Science, Poetry, Vigotski
## Introdução
A aproximação entre literatura e poesia no ensino de Ciências é um assunto já abordado por estudos anteriores (BARBOSA-LIMA et all, 2009; MOREIRA, 2002 e 2005; MECKE, 2004; PIASSI, 2010; ZANETIC, 1989 e 2006), mas ainda são raras propostas didáticas entre a linguagem científica e poética, o que deixa a lacuna: Como realizar atividades didáticas fazendo essa aproximação?,
Zanetic (2006) propõe uma ponte entre essas duas culturas, ao refletir sobre a proximidade entre essas duas linguagens e nos lembra que o precursor desse tipo de atividade é o Físico e escritor inglês Charles P. Snow, mas afinal, qual o sentido da aproximação entre duas linguagens em salas de aula de física?
Optamos por vincular a prática pedagógica que envolve as atividades que entrelaçam esses dois domínios de conhecimento à teoria sociocultural vigotskiana e nela buscamos respostas às indagações e aos questionamentos ligados a essa prática pedagógica, acreditando que esta seja uma boa forma de evitar possíveis equívocos ou incoerências e assim fundamente nossa prática fornecendo indicações e dê respostas a esses questionamentos.
## A fita de Möebius
De acordo com a teoria sociocultural de Vigotski (1992), o cérebro tem uma história genética predeterminada, limitada a uma estrutura básica sobre a qual se constroem as demais estruturas mentais, de origem sociocultural. Não estaríamos fazendo uma boa analogia a essa estrutura básica imaginando-a como uma folha em branco em que pudéssemos escrever com uma tinta permanente, pois uma vez preenchida nós teríamos que pegar outra em branco, além disso, se uma anotação perder seu valor não permitiria apagá-la, o que seria uma desvantagem em termos de capacidade receptiva. O procedimento alternativo de escrever a lápis para depois apagar, conforme a preferência e interesse têm o inconveniente de se ter que destruir uma anotação para que outra venha sobrepô-la. Assim, uma capacidade receptiva teria que ser renovada ou a nota teria de ser destruída. Freud (1950, p.469-74) propôs que essas analogias não servem ao sistema percepçãoconsciência (Pcpt-Cs):
'Que recebe percepções mas não retém traço permanente delas, podendo assim reagir como uma folha em branco a toda nova percepção, ao passo que os traços permanentes das excitações recebidas são preservados em 'sistemas mnêmicos' que jazem por trás do sistema perceptual'.
A analogia a esse sistema encontra concordância com um dispositivo conhecido como lousa mágica que pode ser encontrada em qualquer papelaria.
Podem-se tomar notas nela e mediante um fácil movimento de mãos, as notas podem ser apagadas. Contudo, devido à pressão exercida para se fazer as marcas ou sulcos na lousa, traços permanentes ficam na prancha de apoio, por trás desse dispositivo, que podem ser observados sob luz apropriada.
Considerando essa mesma analogia para compreender ainda a relação entre pensamento e linguagem implicados mutuamente formando essa estrutura, necessitaria que imaginássemos essa estrutura apresentada pela lousa mágica como uma longa fita plana.
Para Vigotski (1992), um claro entendimento das relações entre pensamento e língua é necessário para que se entenda o processo de desenvolvimento intelectual. Linguagem não é apenas uma expressão do conhecimento adquirido pela criança. Existe uma inter-relação fundamental entre pensamento e linguagem, um proporcionando recursos ao outro.
Parece-nos plausível ocuparmos entre o desenvolvimento do pensamento e da linguagem em termos de dentro e de fora da mesma forma e por intermédio de uma longa fita, como dissemos, mas em que pudéssemos localizar o pensamento e a linguagem na mesma superfície, porém em lados opostos. Permita-nos, portanto, fazer uma analogia dessa relação dicotômica entre pensamento e linguagem implicados mutuamente, como uma fita de Möebius, na qual a estrutura mental se assemelha a semi-torção, que vemos na figura 01. Ao percorrê-la, ao longo, passamos de um lado a outro sem interrupções e imperceptivelmente.
Figura 01. Fita de Moëbius.
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A estrutura mental, no pensamento vigotskiano , permite que sejam construídas novas estruturas ao ensinar um novo conceito. Ou seja, as estruturas mentais para a aquisição de um novo conceito só começam a se formar na mente de uma pessoa quando esse conceito é ensinado, sendo preciso apenas não transpor a capacidade cerebral do aluno quando se busca criar novas estruturas mentais. Esse limite foi chamado por Vigotski (1992) de zona de desenvolvimento proximal ou imediato, denominando uma espécie de desnível cognitivo que cada pessoa possui para adquirir um saber novo com a colaboração de um parceiro mais capaz em relação ao conteúdo da interação e capacitado a orientá-la, no caso, o professor.
Dividindo-se a fita de Moëbius em três partes iguais em sua largura e então recortarmos ao longo de seu comprimento, o resultado será duas fitas interligadas. Figura 02.
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Essa ruptura na fita nos serve como demonstração, embora metafórica, à intervenção externa, sociocultural na estrutura mental. Seria a persistência no processo de um novo conceito para a construção de uma nova estrutura, respeitado os limites da zona de desenvolvimento imediato. Algumas pessoas têm a zona de desenvolvimento imediato mais amplo, outras mais estreitas, em que as estruturas corresponderiam analogamente a fitas mais largas ou mais estreitas. Mesmo dentro dos limites da zona de desenvolvimento imediato do indivíduo, a aprendizagem não ocorre no momento em que é ensinado, é preciso tempo para o cérebro construir as estruturas mentais capazes de processar o novo conceito. Novas estruturas seriam formadas mais e mais na medida em que novos conceitos são ensinados, onde o emaranhado de informações e pensamentos apesar de complexos estão entrelaçados e conectados.
Numa pedagogia de inspiração vigotskiana, sociocultural, a aprendizagem não resulta da atividade em si, mas das interações sociais que decorrem dela, insinuando que uma das possibilidades didáticas envolvendo as duas culturas seria promover interações que permitam o ensino de determinado conteúdo de física em que seja propício e plausível um entrelaçamento com poesia, construindo uma interface. Em nosso estudo, essa vinculação entre a interface física-poesia e a interação social será feita por determinados conteúdos específicos, pois nem todos os conteúdos de Física permitem uma interface com poesia e não é nossa pretensão verificar ou redescobrir princípios físicos como a conservação de energia ou a gravidade nem tampouco modelos científicos, como o modelo atômico, mas usar essa atividade para ilustrar e comparar esses princípios ou modelos científicos e agreguem concepções de áreas diferentes de conhecimento, mas que devem integrar uma mesma cultura, como disse Zanetic (2006). Cultura essa que pode conceber figuras de Ciências como dia, noite; genes, ressonância e peso também como objetos de poesia como, por exemplo, no poema 'Filhos da época', da eslava Wislawa Szymborska, Nobel de literatura em 1996, em que a poetisa enfatiza, através de uma linguagem poética, a onipresença da política na vida das pessoas e que foi um dos textos norteadores da prova de redação da Fuvest em 2012.
Comparar um poema com conteúdos teóricos de Física, quando o conteúdo permite, implica comparar a qualidade das interações sociais desencadeadas por ambas e, além disso, nas questões que não pretendem criatividade do aluno e sim a repetição de ideias predeterminadas que constituem argumentos de autoridade científica e que, portanto, não permitem a formulação de hipóteses por parte dos alunos. Não há investigação, não há descoberta, não há criatividade, afetividade,
ideias ou opiniões, é a reprodução sistemática de conceitos, uma mentira, falácia filosófica. (Granger, 1998).
É da interpretação do que está em um poema que pretendemos abordar a interface evocada e é ai que reside um dos pontos importantes e de grande atenção do nosso estudo.
## O sensível, o imaginativo e a criatividade
Paz (1990), Nobel de literatura em 1990, nos diz que a palavra é uma imagem, as imagens são produtos imaginários. Os silogismos, descrições, fórmulas científicas e todas as outras versões que buscamos do real nos servem apenas a representações ou descrições, não recriam aquilo que pretendem exprimir, mas, apesar das diferenças que a separam, todas têm em comum a preservação da pluralidade de significados da palavra, sem quebrar a unidade sintática da frase ou do conjunto de frases. Cada Imagem ou cada poema composto por imagens contém muitos significados e a imagem aproxima ou conjuga realidades opostas, díspares ou distanciadas entre si. Isto é, submete à unidade a pluralidade do real. Conceitos e leis científicas não pretendem outra coisa, porém, a operação unificadora da ciência mutila-as e empobrece-as. O mesmo não ocorre com a poesia.
Quando percebemos um objeto qualquer, este se nos apresenta como uma pluralidade de qualidades, sensações e significados. Esta pluralidade se unifica instantaneamente, no momento da percepção. O elemento unificador de todo este conjunto de qualidades e de formas é o sentido. (PAZ, 1990)
Quando falamos limão pensamos nele. Podemos imaginar limões do tipo galego, verdinhos, brilhando ao sol duma banca de feira livre. Nossa mente permite que o imaginemos tenro, quase explodindo a menor pressão exercida por uma faca. Sendo cortado ao meio, o suco, ácido, escorre abundantemente. Levando metade dele à boca e sendo espremido em seus lábios, você pode sentir seu sabor azedo. Durante essa leitura, e talvez até agora, é provável que sua boca esteja cheia de saliva, fruto da criação de sua mente. O limão não existe. Sequer uma figura dele há, mas seu cérebro não questiona, simplesmente obedece e produz em seu corpo as substâncias. Para descrever essa nossa percepção cientificamente, teríamos que falar sobre as substâncias produzidas no organismo e assim a percepção em si tenderia a ir se perdendo pouco a pouco durante o processo descritivo.
De acordo com Vigotski (1992), esse aspecto é importante para mostrar que assimilação de um conceito científico se diferencia de um conceito cotidiano: azedo do limão e a reação ao ácido.
Na criação científica, a representação sensível ajuda a fixar o pensamento em objetos abstratos. Quando um físico quântico fala de 'ondas' ou de 'corpúsculos', tais imagens recorrem a visada de objetos definidos em referenciais matemáticos, e, se, decerto suas propriedades intuitivas, muito embrionárias, sustentam o curso do pensamento, elas não são levadas em conta pelo raciocínio. Aqui, então, o papel da intuição sensível é auxiliar, e não essencial para a estruturação dos objetos criados. Auxiliar, porém, não significa sem importância no processo de criação. (VIGOTSKI, 1992)
O que buscamos, com o exemplo do limão, é sublinhar que ao mesmo tempo em que existem diferentes determinantes entre elas há uma identidade profunda da criação poética e da criação científica, tal como fez Granger (1998), argumentando o papel do sensível e da afetividade no exercício da imaginação e a criatividade imaginativa. Na acepção do próprio termo, imaginação é a
representação de um objeto por meio de imagens sensíveis: visuais, auditivas, olfativas. Para nós, os conteúdos sensíveis são certamente essenciais no caso da criação poética e apenas auxiliares na criação científica.
Os seres humanos são dotados da capacidade simples e poderosa de produzir imagens mentais e usá-las para conceber situações imaginárias: a imaginação. A Ciência, é uma construção humana e assim sendo, não podemos esquecer que a imaginação tem um papel preponderante, afinal, em Ciências, também se usa imagens e se experimenta situações imaginárias, tal como a poesia. É um equivoco supor que a Física, sendo uma Ciência, prescinde da imaginação, adverte Bronowski (1978, p.37), ao anunciar as semelhanças que interligam Física e poesia e as falácias comuns sobre a ciência:
Muitas pessoas pensam que o raciocínio, e, portanto a ciência, é uma atividade distinta da imaginação- uma falácia que devemos desprezar. A criança que descobre, antes dos dez anos, que pode produzir imagens na sua mente e manipulá-la está trilhando o caminho que leva à imaginação e ao raciocínio. Este é elaborado com imagens cambiantes, tanto quanto a poesia. O leitor pode ter ouvido que a equação E = m.c não é uma 2 afirmativa baseada na imaginação, mas se continua a acreditar nisso, está incorrendo em erro. (Bronowski, 1978)
Os símbolos utilizados na conhecida fórmula de Einstein, com E para energia, m para a massa e c para a velocidade da luz, são imagens representativas de objetos ou conceitos ausentes, exatamente como acontece com a palavra 'pedra' em um poema.
## Uma pedra na interface moebiana
Uma pedra, por exemplo, é muitas coisas ao mesmo tempo, sua imagem existe no campo mental numa totalidade que seria improvável descrever com palavras e é justamente essa tensão que nos interessa provocar. A poesia é essencialmente polissêmica, ou seja, as palavras têm dupla interpretação e ocorrem situações em que um significante tem mais de um significado. Quando Carlos Drummond, em seu poema 'No meio do Caminho', diz: 'No meio do caminho tinha uma pedra; tinha uma pedra no meio do caminho, cada um de nós vê um significado na palavra pedra. Para uns podem ser as dificuldades da vida, e para outros pode ser uma pedra mesmo.
Ao contrário de recorrer a enunciados, apresentamos o poema a uma turma de 27 estudantes do 1º ano do ensino médio, os instigando a interpretar os versos. Na atividade, mediado pelo professor (PROF), destacamos as falas:
(LUI) A pedra representa um obstáculo, um problema a resolver
(PROF) Que está no meio seu caminho, quer dizer, sua vida?
(CAR, LUI, MAR e outros na sala) Sim
(PROF) Agora vamos tentar destacar alguns pontos de cinemática em que seja possível uma associação; O que é a pedra no sentido Físico?
(LUI) uma coisa que impede
(PROF) há movimento?
(CAR, MAR, LUI, GIO e outros) sim!
(PROF) como sabemos? O que é a pedra?
(A SALA- em maioria) A pedra é o referencial.
De acordo com Bronowski (1978, p.38) a imagem da pedra, assim como a do limão, exemplificada anteriormente, está guardada na mente dos alunos e é utilizada por eles para se verem em situações inusitadas e é nesse momento irrompem-se as fronteiras do pensamento imaginativo. De acordo com as falas dos alunos podemos perceber que eles tanto podem imaginar a pedra como um obstáculo na vida, tratando da poética, quanto conceber a pedra como um referencial, tratando da Física. Decorre que dessa tensão, considerando os conceitos de cinemática, os alunos avançaram na ideia de movimento, ou seja, que o caminho é a trajetória e instigados a um movimento que avança na direção da pedra e retorna em movimento progressivo e retrógrado teriam que optar por uma trajetória (caminho) retilínea o que não pode ser considerado se a opção for admitir que se passa pela pedra várias vezes. A aluna (LUI) concluiu que nessa segunda consideração a trajetória deveria ser circular.
Já para uma interpretação poética, os alunos levaram a idéia de obstáculo ou dificuldade a ser transposta no decorrer do poema. Quando apresentamos uma possível alternativa otimista dessa interpretação, houve rejeição.
Esse mesmo aspecto foi reforçado em outra turma de alunos do 1º ano do Ensino médio de outra escola, onde, junto a essa, outras interpretações colhidas foram levadas para um grupo de 31 alunos, para que assinalassem cada afirmativa proposta como verdadeira ou falsa. As impressões do alunado estão expostas na tabela 1.
Tabela 01. Resultados das interpretações
Em relação à disciplina de língua portuguesa as respostas indicam a inclinação negativa, ou seja, que a pedra é um obstáculo, empecilho.
Já em relação aos conceitos físicos, a ideia da pedra como referencial absoluto se apresenta para a minoria, mas que merece certa atenção; A possibilidade de duas trajetórias (retilínea e circular) se mostrou equilibrada; Os alunos admitiram movimento.
Se por um lado a conexão entre poesia e Física possa parecer ocasional e a relação existente entre elas meramente um recurso ou ferramenta para a construção de metáforas e analogias, por outro, sociocultural e histórico, as duas culturas são construções humanas, e o momento histórico em que um poema é concebido é de todo ou em parte, carregado de informações, termos ou palavras emprestadas da interação social onde se inclui os adventos da Ciência, as descobertas e as tecnologias resultantes dessa interação e que, necessariamente, são vividas pelo poeta ou o pelo cientista. Para Bronowski (1978), há uma qualidade comum entre ciência e poesia que seria a imaginação que nos penetra de formas diferentes na ciência e na poesia. Mas também apresentam diferenças em suas identidades. Na Ciência, ela organiza nossa experiência em leis, sobre as quais baseamos nossas ações futuras. A poesia, porém, é outro modo de conhecimento, em que comungamos com o poeta, penetrando diretamente na sua experiência e na totalidade da experiência humana. As modificações das noções de introjeção e projeção podem ser demonstradas, fazendo-se novamente uma analogia, com a Fita de Möebius, mostrando que as categorias de dentro e de fora podem ser questionadas. A imaginação é uma das maneiras de pensarmos a interface Física e poesia cuja ideia lembra a fita de Möebius, como no caso da pedra do poema.
## Considerações finais
Gostaríamos que a Física não fosse interpretada pelos alunos como a pedra no sentido de obstáculo e sim com algo que os alunos, apesar das retinas fatigadas, concebessem como um acontecimento inesquecível. Diante da imagem da pedra, algo nos afeta de maneira particular, transmitindo uma imagem pessoal, resultado de nossas experiências particulares num meio social. No poema, todos vêem a mesma palavra, mas cada pessoa que o lê o transforma até certo ponto diferente e pessoal, ao escolher diferentes pontos de vista distintos e ao criar analogias na mente de cada um. Pela falta de enunciados, que restringem as condições iniciais para que haja procedimentos e respostas convergentes, o que obtivemos foi um estimulo a questionamentos importantes, tanto em relação à Física quanto em relação à poesia, pois não havia respostas rigorosamente corretas e sim as inevitáveis incertezas, ao contrário das atividades teóricas em que as respostas são previamente conhecidas e como as dúvidas e contestações correm o risco de serem refutadas por argumentos de autoridade, os alunos se abstêm de participar fragilizando a interação social. Aqui, a participação dos alunos foi unânime, optando por uma ou outra possibilidade. Isso pode ser explicado pelo envolvimento afetivo do aluno, pois este, dotado de certa liberdade criativa, obtém resposta mais isenta, resultado de sua concepção e apropriação de conhecimento, de sua cultura. De seu pensamento e linguagem.
## Referências
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