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A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA NO SÉCULO XXI EM NÚMEROS

Renato Santos Araujo, Deise Miranda Vianna

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
06/11/2012
Linha de pesquisa
Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA NO SÉCULO XXI EM NÚMEROS

## A TEACHER OF PHYSICS IN THE XXI CENTURY IN NUMBERS Renato Santos Araujo¹, Deise Miranda Vianna²

- 1 Centro de Formação de Professores - UFRB/Programa de Pós-Graduação em Ensino, História e Filosofia das Ciências - UFBA, renato.ufrb@gmail.com
- 2 Programa de Pós-Graduação em Ensino em Biociências e Saúde - IOC/FIOCRUZ/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física - IF/UFRJ, deisemv@if.ufrj.br

## Resumo

Discutimos neste trabalho a formação de professores de física no Brasil durante a primeira década do século XXI. Iniciamos apresentando a carência de professores de física para, em seguida, descrever as diversas ações e políticas públicas implementadas pelo governo federal para expandir o ensino superior e, assim, reduzir a carência desse profissional. Nesse contexto, apresentamos um estudo quantitativo longitudinal das vagas, candidatos, inscritos, matrículas e concluintes dos cursos presenciais e a distância de todo o ensino superior brasileiro e dos cursos de Licenciatura em Física. Dentre os resultados, observou-se que a relação candidato/vaga se manteve-se muito baixa e que o percentual de vagas ociosas subiu ao longo do período. O número de candidatos também cresceu, especialmente entre os anos de 2009 e 2010. Um dado já conhecido foi percebido nos resultados, que foi a predominância do setor público na formação de professores de física. Com relação à modalidade a distância, destaca-se que ela foi responsável por quase um terço das vagas ofertadas no país ao longo do período. Porém, isso não foi suficiente para ampliar o número de concluintes, visto que a sua participação nessa estatística foi inferior a 10%. Ao final, os resultados são discutidos frente à realidade do acesso à educação no Brasil e das condições de trabalho dos professores. Constata-se que, mesmo ainda formando poucos professores, inferior à necessidade, há um resultado positivo importante: a redução da evasão. Isso significa que avanços foram alcançados ao longo dessa primeira década, mas eles ainda não foram suficiente para suprir a demanda de professores de física.

Palavras-chave : História da educação; Formação de professores; Políticas públicas.

## Abstract

We discuss in this paper the formation of physics teachers in Brazil during the first decade of this century. We begin by presenting the shortage of physics teachers to then describe the various actions and policies implemented by the federal government to expand higher education and thereby reduce the shortage of these professionals. In this context, we present a quantitative study of the longitudinal waves, applicants, enrollees, enrollments and graduates of the presencial courses and distance courses in physics. Among the results, it was observed that the ratio of applicants / vacancy remained very low and that the percentage of unfilled vacancies rose throughout the period. The number of applicants has also increased, especially

between the years 2009 and 2010. A fact already known in the results was noticed, which was the predominance of the public sector in the training of physics teachers. With respect to the distance mode, it is emphasized that it was responsible for almost one third of the vacancies offered in the country over the period. But that was not enough to increase the number of graduates, since their participation in this statistic was less than 10%. Finally, the results are discussed in the reality of access to education in Brazil and working conditions of teachers. It appears that few teachers even still forming, lower than the need, there is an important positive result: a reduction in evasion. This means that progress has been achieved during this first decade, but they still were not enough to meet demand for physics teachers.

Keywords : History of Education, Teacher Training, Public policies.

## Introdução

O Brasil tem convivido com uma profunda carência de professores de física desde meados do século passado (ARAUJO, VIANNA; 2010). Um levantamento do governo brasileiro (IBAÑEZ; RAMOS; HINGEL, 2007) apresentou a demanda desses profissionais em 2002 e o número de licenciados formados entre 1990 e 2001 e estimados entre 2002 e 2010, de tal forma que ficou evidente que transformações profundas eram necessárias.

Tabela 1: Demanda estimada de professores e licenciados formados e estimados entre 1990 e 2010 (IBAÑEZ; RAMOS; HINGEL, 2007).

As ações do governo para modificar e ampliar o ensino superior na primeira década do século XXI foram diversas, algumas delas focadas nos cursos de Licenciatura. Dentre elas, é possível citar o Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES), o Programa Universidade para Todos (PROUNI) e o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID).

Com o término dessa primeira década, torna-se relevante analisar os resultados obtidos por essas ações, no sentido de ampliar a formação de professores de física para a educação básica. Este trabalho apresenta um estudo quantitativo longitudinal das vagas, candidatos, inscritos, matrículas e concluintes dos cursos presenciais e a distância dos cursos de Licenciatura em Física.

## Metodologia

Essa investigação fez uso da pesquisa bibliográfica para a coleta de dados estatísticos sobre o ensino superior brasileiro, com foco na formação de professores de física, na primeira década do século XXI. Os documentos oficiais publicados pelo governo federal, especialmente o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), foram as principais fontes de dados utilizadas.

A coleta de dados compreendeu o período entre 2000 e 2010, de modo que os anos anteriores não foram estudados porque foi só a partir desse período que os cursos de Bacharelado e Licenciatura e as redes públicas e privadas passaram a ser identificadas. Os dados receberam tratamentos estatísticos com o objetivo de se recolher, organizar, analisar e estabelecer relações entre eles para se fazer inferências.

## Estatísticas do ensino superior

## O ensino superior brasileiro

A Tabela a seguir apresenta os dados sobre todos os cursos presencias do ensino superior brasileiro.

Tabela 2: Total de vagas, candidatos, inscritos, matrículas e concluintes segundo as categorias administrativas e os anos, acompanhado da soma e da variação percentual. Fonte: INEP.

Tabela 3: Total de vagas, candidatos, inscritos, matrículas e concluintes segundo as categorias administrativas e os anos, acompanhado da soma e a variação percentual. Fonte: INEP.

Esses dados mostram que no período analisado, o crescimento das vagas nos cursos presenciais foi igual a 156,5%, com uma participação expressiva da iniciativa privada, responsável pela oferta de 85,7% do total das vagas no ensino superior brasileiro. Ao longo do período, o setor público, que ofertava 20,2% das vagas em 2000, passou a ofertar apenas 14,3% em 2010, o que vai de encontro à linha de ação para a educação superior apresentada por Ristoff (2006):

Ampliar a oferta de ensino público universitário de modo a projetar, no médio prazo, uma proporção de no mínimo 40% do total de vagas, prevendo inclusive parceria da União com os Estados na criação de novos estabelecimentos de educação superior (p.47).

O crescimento total dos candidatos, igual a 65,8%, foi inferior ao das vagas, provocando a redução da relação candidato/vaga. O aumento dos ingressos também não acompanhou as vagas, ampliando as vagas ociosas de 5,1% para 8,3% no setor público e de 31,5% para 55,8% no setor privado. Dentre as conquistas do governo, é possível destacar que o número de matrículas e concluintes cresceu 64,8% e 58,7%, respectivamente, no setor público e a iniciativa privada, aproveitando-se do crescimento tímido do setor público, da demanda crescente e dos financiamentos estatais, expandiu suas matrículas em 120% e quase triplicou o total de concluintes.

Os dados referentes a todos os cursos a distância de graduação do país encontram-se na Tabela a seguir:

Tabela 4: Número de vagas, candidatos, inscritos, matrículas e concluintes segundo as categorias administrativas e os anos, acompanhado da soma e da variação percentual. Fonte: INEP.

As estatísticas sobre o Ensino a Distância, de uma maneira geral, tiveram um intenso crescimento, provocado pelo número reduzido no início do período. A relação candidato/vaga, inicialmente superior a 1,0, tornou-se inferior a esse valor a partir de 2003, quando então o país passou a ter mais vagas que candidatos. O resultado foi uma evolução progressiva das vagas ociosas, que em 2000 correspondiam a 17,8% do total e em 2010 a 76,7%. Com relação às matrículas, 14,6% estão nessa modalidade. E cerca de 14,8% concluíram o ensino superior nessa modalidade.

## Os cursos de Licenciatura em Física

As estatísticas dos cursos presencias de Licenciatura em Física encontramse na Tabela a seguir.

As variações percentuais observadas no curso de Licenciatura em Física foram, com exceção das matrículas da rede privada, superiores àquelas calculadas na Tabela 2. Contudo, vários aspectos se mantiveram inalterados ao longo do período.

A relação candidato/vaga, por exemplo, manteve-se muito baixa, com uma média de 2,7 para todo o período. O percentual de vagas ociosas, igual a 21,4% em 2000, subiu para 36,9% em 2010. Ao longo do período, das 58.324 vagas ofertadas, 21.840 ficaram ociosas, ou seja, 37,4%.

Sobre o número de candidatos, observa-se que entre 2000 e 2009 ele cresceu 62,2%. E entre 2009 para 2010, esse número mais do que dobrou. Esse crescimento abrupto se repetiu também nos cursos de licenciatura em Biologia, Matemática e Química. Não há dados que permitam identificar o motivo dessa

mudança, mas acredita-se que a implementação do Sisu, realizada nesse período, tenha sido a causa.

A distribuição das matrículas mostra que elas estão concentrados no setor público, com 91,4% do total em 2010. O número de concluintes também cresceu ao longo do período, superando, inclusive, o crescimento dos ingressos. Isso indica que outros aspectos, além do aumento de ingressos, estão contribuindo para o aumento do número de licenciados formados.

Os dados estatísticos sobre os cursos a distância de Licenciatura em Física encontram-se na Tabela a seguir.

Tabela 5: Número de vagas, candidatos, inscritos, matrículas e concluintes segundo as categorias administrativas e os anos, acompanhado da soma. Fonte: INEP.

Ao longo do período, das 86.596 vagas ofertadas para o curso de Licenciatura em Física, 32,6% foram oferecidas na modalidade a distância. Essa oferta, contudo, não foi suficiente para ampliar as demais estatísticas proporcionalmente. Com uma relação candidato/vaga inferior a 1,0, cerca de 81,4% das vagas não foram preenchidas. Além disso, o número de concluintes ainda está bastante reduzido. Em 2010, a modalidade a distância detinha cerca de 23,1% de todas matrículas, mas foi responsável por apenas 9,2% dos concluintes.

## Considerações finais

A análise de políticas públicas para a formação de professores de física não pode vir desacompanhada de uma análise mais ampla. As condições de trabalho dos professores da educação básica, por exemplo, são temas frequentes na literatura, geralmente vinculadas à problemática da educação básica e à falta de professores. Araujo (2010), ao entrevistar três professores responsáveis pela organização de cursos a distância de Licenciatura em Física do Sistema UAB das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, identificou duas causas para a carência de professores de física na educação básica: a falta de valorização e a falta de formação adequada. Sobre a evasão nos cursos, as conclusões apontaram para quatro motivos: a falta de valorização; a falta de reconhecimento, a má formação na educação básica; e o desinteresse dos jovens em se tornarem professores da

educação básica. Zanetic (2010), por sua vez, constatou que o número de professores de física formados na USP ' é muito pouco, mas o problema maior é que a quase totalidade desses formandos não vai dar aulas na escola pública... baixos salários, muitas aulas, turmas superlotadas e péssimas condições de trabalho os afugentam' (p. 334). Araujo e Vianna (2008), ao analisarem as remunerações de diversos cargos que um licenciado em física pode ocupar, se impressionaram ao ' constatar que atividades que exigem apenas a formação completa no ensino fundamental e médio sejam duas a três vezes mais bem remuneradas do que a carreira docente, que exige nível superior' (p. 7) .

Essa situação, infelizmente, não é recente. Trabalhos da década de 80 já mencionavam a situação degradante que os professores enfrentavam:

- ' ... não será apenas fazendo modificações na legislação das Licenciaturas e modificando seus currículos que conseguiremos superar aqueles fatores [baixa remuneração do professor, instabilidade de seus contratos, falta de oportunidade para a ascensão na carreira, as condições socioeconômicas dos alunos, a pobreza de materiais didáticos, a mercantilização do ensino, etc.]. Não podemos ignorar também que há uma íntima dependência entre a formação do professor e o exercício profissional: este quando feito sob boas condições de trabalho e remuneração leva à melhoria da própria formação que, por sua vez, condiciona o exercício ' (SBPC, 1981, p. 49, grifo nosso).

Nesse contexto, quando se analisam as estatísticas dos cursos de Licenciatura em Física do Brasil, o que se observa não é apenas a situação desse curso, mas um fragmento da complexa realidade educacional brasileira no início do século XXI.

- O ensino médio ainda não foi universalizado. Nesse sentido, a demanda de professores de física tende a crescer em função do aumento do acesso desse nível de ensino a população. Essa conclusão corrobora com as estimativas de Angotti (2006), que afirma que em 2015 a demanda de professores de física será de 70 mil profissionais.
- As estatísticas mostram também que o país foi capaz de ampliar em 340,7% o total de vagas. Mas isso não impediu que continuássemos a formar poucos professores. No período entre 2002 e 2010, apenas 10.792 pessoas concluíram o curso de Licenciatura em Física. Ou seja, um valor inferior às estimativas do governo apresentadas na Tabela 1.

Embora poucos ainda formados, o crescimento dos concluintes, superior ao de ingressos, mostra um resultado positivo importante: a redução da evasão. Os dados analisados neste trabalho não permitem inferir como as políticas públicas de assistência aos estudantes, como o PIBID e outras ações afirmativas, contribuíram nesse processo. Tampouco se esse resultado foi obtido por outras ações como reestruturações curriculares nos cursos. Mas essa conquista certamente contribui na redução dos problemas relacionados à carência de professores de Física. Outros estudos precisam continuar a ser feitos para que possamos acompanhar se os formados continuarão nos seus postos, tendo em vista que as condições salariais pouco têm sido modificadas.

## Referências Bibliográficas

ANGOTTI, J. A. P. (2006). Desafios para a formação presencial e a distância do físico educador. Revista Brasileira de Ensino de Física , 28 (2), 143-150.

ARAUJO, R.S. (2010). Estudos sobre licenciaturas em física na UAB: formação de licenciados ou professores? Tese (doutorado em ensino em Biociências e Saúde). Rio de Janeiro: Instituto Oswaldo Cruz. p.203.

ARAUJO, R.S.; VIANNA, D.M. (2008). Discussões sobre a remuneração dos professores de Física na Educação Básica. Ciência em Tela, 1 (2).

ARAUJO, R.S.; VIANNA, D.M. (2010). A história da legislação dos cursos de Licenciatura em Física no Brasil: do colonial presencial ao digital a distância. Revista Brasileira de Ensino de Física , 32 (4), 4403.

IBAÑEZ, R.A.; RAMOS, M.N.; HINGEL, M. (2007). Escassez de Professores no ensino médio: propostas estruturais e emergenciais . Brasília: MEC/CNE/CEB.

RISTOFF, D. (2006). A universidade brasileira contemporânea: tendências e perspectivas. In M. Morosini (Org.), A universidade no Brasil: concepções e modelos (pp. 37-52). Brasília: INEP/MEC..

SBPC. (1981). Sugestões para a formação de professores da área científica para escolas de 1o. e 2o. graus. Ciência e Cultura , 33 (3), 369-377.

ZANETIC, J. (2010). Um olhar cético sobre as políticas e ações públicas relacionadas à educação pública em nosso país. In: N.M.D. Garcia (Org.), A pesquisa em ensino de física e a sala de aula: articulações necessárias (pp. 329342.). São Paulo: Editora da SBF.

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