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EVENTO ORIENTADO E ANÁLISE EM MULTI-NÍVEL NA PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS

Glauco S. F. Da Silva, Reynaldo Llena, Konstantinos Alexakos, Kenneth Tobin

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
06/11/2012
Linha de pesquisa
Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## EVENTO ORIENTADO E AN'LISE EM MULTI-N"VEL NA PESQUISA EM ENSINO DE CI˚NCIAS

## ORIENTED-EVENT AND MULTI-LEVEL ANALYSIS ON THE SCIENCE EDUCATION RESEARCH

## Glauco S. F. da Silva , Reynaldo Llena , Konstantinos Alexakos , Kenneth 1 2 3 Tobin 4

1 Nœcleo de Pesquisa e Atividades em Ensino de Física, CEFET-RJ, Campus Petrópolis/USP, glaucosfs@usp.br (Bolsista da CAPES Processo 9429/11-5)

2 The Graduate Center of City University of New York, Urban Education Department, reyllena@gmail.com

3 Brooklyn College, School of Education, CUNY kalexakos@gmail.com

4 The Graduate Center of City University of New York, Urban Education Department,

ktobin@gc.cuny.edu

## Resumo

Apresentamos este trabalho com o objetivo de abordar algumas questıes metodológicas relacionadas a uma pesquisa desenvolvida durante o primeiro semestre de 2012, em um curso de formaçªo de professores em um College , na cidade de Nova Iorque. A caracterizaçªo da pesquisa baseada na perspectiva de multi-mØtodos e anÆlise em multi-níveis (Tobin & Ritchie, 2012) Ø o aspecto primordial que vamos dar destaque neste texto. A pesquisa como um todo estÆ centrada no papel das emoçıes no processo de ensino-aprendizagem de ciŒncias, buscando explorar algumas relaçıes com os aspectos fisiológicos. Apresentaremos a ideia da Pesquisa com Evento Orientado como procedimento de anÆlise dos dados e o Clima Emocional (CE) que serÆ usado como exemplo de tal procedimento, recorrendo-se a uma das aulas em que alguns eventos serªo analisados. Acreditamos que o aspecto multi-mØtodo e multi-nível de anÆlises dessa pesquisa fazem com que os mØtodos empregados nªo sejam nem somente quantitativo nem somente qualitativo, mas uma forma de confluŒncia das duas perspectivas, evitando, dessa forma, uma dicotomia ou um determinismo analítico.

Palavras-chave : Evento Orientado, Clima Emocional, AnÆlise em Multi-nível

## Abstract

We address this paper to discuss some methodological questions related to a research that was carried out in a College , in New York City, in a Science Teaching Master Course over the first semester of 2012. The research is laid down on multimethods and multi-level perspectives (Tobin & Ritchie, 2012) and this is the main aspect we will present. The research as whole seeks to understand the role of emotions in the science teaching environment and to establish relationships between emotions and physiology. The conception of mindfulness was also employed as low grade intervention whose idea is to afford students and teacher the control of emotions during the process of learning and teaching. However, for this paper, we will be focused on the Event Oriented Research as way of analyzing the data of the Emotional Climate (EC). To extent the possible we will present some EC graphs of overall semester and EC graphs of some class and will illustrate the Event Oriented Research using the peaks and valley analysis from the variation of EC over time.

Keywords : Event Oriented Research, Emotional Climate, Multi-level analysis

## Introduçªo

A caracterizaçªo de um projeto de pesquisa em Ensino de CiŒncias tem sido alvo de muitas discussıes entre os pesquisadores, seja no âmbito local, nos programas de pós-graduaçªo, seja no âmbito nacional, nos congressos e nas associaçıes de pesquisa, ou ainda âmbito internacional, nas conferŒncias e periódicos de veiculaçªo mundial. O centro das discussıes costuma ser a escolha dos objetos de pesquisa e as formas de proceder para abordÆ-lo. A discussªo sobre os mØtodos e metodologias utilizados nas pesquisas em Ensino de CiŒncias se torna, portanto, fundamental no desenvolvimento de um projeto de pesquisa (VILLANI e PACCA, 2001; LATHER, 2006).

O fato de estarmos ligados às CiŒncias da Natureza se configura em mais um elemento para essa discussªo quando a natureza da pesquisa em Ensino de CiŒncias Ø colocada em pauta. Devido a essa relaçªo, herdamos algumas perspectivas epistemológicas da pesquisa em CiŒncia, ou seja, importamos alguns mØtodos e procedimentos para as nossas pesquisas. Por outro lado, as pesquisas em Ensino de CiŒncias tambØm estªo relacionadas às CiŒncias Humanas, tanto na definiçªo dos objetos a serem investigados, portanto no desenho da pesquisa, quanto na forma de produçªo de conhecimento, ou seja, na maneira como os dados sªo analisados e como os resultados sªo comunicados e publicados (DELIZOICOV, 2004). Podemos dizer, entªo, que os projetos de pesquisa em Ensino de CiŒncias podem apresentar características tanto de uma quanto de outra pesquisa, o que em certo sentido induz uma discussªo sobre a dualidade entre pesquisas quantitativas e qualitativas e as suas formas de uso (LATHER, 2006).

Posto isso, apresentamos este trabalho com o objetivo de abordar algumas questıes metodológicas relacionadas a uma pesquisa desenvolvida durante o primeiro semestre de 2012, em um curso de formaçªo de professores em um College , na cidade de Nova Iorque. A caracterizaçªo da pesquisa baseada na perspectiva de multi-mØtodos e anÆlise em multi-níveis (TOBIN e RITCHIE, 2012) Ø o aspecto primordial que vamos dar destaque neste texto.

A centralidade da pesquisa estÆ no papel das emoçıes no processo de ensino-aprendizagem de ciŒncias, buscando explorar a relaçªo com os aspectos fisiológicos. Outra relaçªo que se busca estabelecer Ø como a ideia mindfulness 1 pode ajudar no controle das emoçıes durante o processo de ensino-aprendizagem de Física a fim de se manter a sala de aula um ambiente saudÆvel (livre de estresses) para o professor e para os estudantes (POWIETRZYNSKA, 2012).

Vamos, entªo, fazer um relato da pesquisa apresentando seus objetivos, o ambiente e os procedimentos metodológicos e analíticos. Devido a limitaçªo de espaço, vamos nos concentrar na ideia da Pesquisa com Evento Orientado como procedimento de anÆlise dos dados e o Clima Emocional (CE) das aulas serÆ usado como exemplo de tal procedimento. Apresentaremos alguns grÆficos do CE em duas aulas para ilustrar a anÆlise de picos e vales como um critØrio orientador do evento. Assim, o aspecto multi dessa pesquisa faz com que os mØtodos

empregados nªo sejam nem somente quantitativo nem somente qualitativo, mas uma forma de confluŒncia das duas perspectivas, o que nos leva ao tema do parÆgrafo anterior.

## A Pesquisa

## O ambiente de pesquisa

O estudo que apresentamos aqui foi realizado em uma disciplina de um curso de mestrado em Ensino de CiŒncias em um College localizado na cidade de Nova Iorque. A duraçªo do curso, bem como de todo o trabalho de coleta de dados, foi de 15 semanas ao longo do primeiro semestre de 2012 (fevereiro-maio). Os temas abordados durante as aulas foram: perspectivas sócio-culturais no ensino de ciŒncias, gŒnero, sexualidade e educaçªo, racismo, etnia e educaçªo; tópicos de filosofia da ciŒncia, evolucionismo e criacionismo; eugenia e bioØtica. A cada aula uma ou duas duplas de estudantes apresentavam os temas e conduziam as discussıes.

A turma era composta por 19 alunos advindos das Æreas de ciŒncias (biologia, física e química). Alguns jÆ tinham licença para dar aulas nas escolas pœblicas da cidade Nova Iorque, pois durante as suas graduaçıes cursaram disciplinas pedagógicas. Outros, no entanto, tinham somente o bacharelado naquelas Æreas. Destacamos ainda como característica da turma a heterogeneidade no que se refere à etnia. A maioria dos estudantes Ø nascida em outros países e nªo tem o inglŒs como primeira língua, incluindo o professor que Ø natural da GrØcia. O grupo de pesquisadores apresenta a mesma característica favorecendo, dessa forma, um aspecto multicultural para a pesquisa.

## A coleta de dados

Para a coleta dos dados foram utilizados diferentes fontes e instrumentos possibilitando obter diferentes níveis de anÆlise, dependendo do objetivo estabelecido. O desenho de pesquisa dessa forma estÆ na perspectiva multi-mØtodo e multi-nível tal como apresentado por Tobin e Ritchie (2012). Em termos gerais, havia duas filmadoras digitais que ficavam fixas em certos locais da sala de aula, possibilitando tomadas mais gerais e outras quatro filmadoras portÆteis com capacidade de atØ duas horas de gravaçªo de posse com alguns pesquisadores, cujo objetivo era focar um grupo de alunos ou somente um aluno (para anÆlise das expressıes faciais).

No que se refere ao Clima Emocional (CE), foram utilizados dispositivos de sistemas de resposta à distância, que sªo um tipo de controle remoto ( clicker ) que funciona via tecnologia de bluetooth . Quanto ao aspecto fisiológico, foram utilizados oxímetros, pequenos aparelhos que medem a pulsaçªo cardíaca e o nível de oxigenaçªo no sangue . Neste caso, os estudantes que iam apresentar o seminÆrio 2 do dia eram convidados por um dos pesquisadores a usar o aparelho durante a aula. Ambos os tipos de medida tinham como objetivo ao final possibilitar o estudante tornar-se consciente das suas emoçıes. Ao se tornar consciente desses aspectos, torna-se possível obter um controle relativo das emoçıes e assim manter um nível

saudÆvel das aulas tanto ali no momento da apresentaçªo quanto em sua prÆtica docente (TOBIN et al, 2012).

Outro recurso utilizado foram os heurísticos, um tipo de questionÆrio ( survey ) com diversos itens sobre um tema específico. Ao longo do semestre foram desenvolvidos quatro desses heurísticos: um sobre mindfulness no dia-a-dia, outro sobre mindfulness em ensino-aprendizagem, mais um sobre codocŒncia ( coteaching ) e por fim sobre diÆlogo cogenerativo ( cogen ) 3 . Os heurísticos cumpriram diferentes objetivos: (a) como instrumento para acessar a ideia dos alunos sobre o tema envolvido no heurístico; (b) como forma de possibilitar os estudantes modificarem suas prÆticas ( low-grade intervention ), na medida em que se tornam conscientes de certos aspectos do tema abordado; (c) como referencial para proceder com anÆlise de certas situaçıes de sala de aula, de acordo com o recorte feito (POWIETRZYNSKA, 2012).

## Os procedimentos de anÆlise

A Œnfase desse artigo estÆ no aspecto dos multimØtodos empregados na pesquisa em questªo e anÆlise em diferentes níveis. Dessa forma

Nossa aproximaçªo da investigaçªo Ø tanto multinível quanto multimØtodo. A metodologia que adotamos Ø o desenho de uma investigaçªo multinível para eliminar o determinismo do que se aprende em cada um dos níveis empregados na investigaçªo. (...) Preferimos empregar os dados atravØs dos níveis adjacentes da

vida social, isto Ø, global ⇔ macro; macro ⇔ meso; meso ⇔ micro; micro ⇔ neural.

Cada um desses quatro níveis completa um ao outro e nenhuma anÆlise em particular Ø considerada mais importante que as outras. Cada um contribui para um retrato da vida social que pode tomar muitas formas (TOBIN, 2010, p.310, grifo nosso).

A dinâmica da anÆlise segue, portanto, de forma complexa, tanto no que consiste no aspecto multinível quanto na presença de diferentes pesquisadores no setting de pesquisa, os quais produzem recortes diferentes. Por outro lado, os multiníveis da anÆlise servem para orientar a busca de situaçıes do cotidiano da sala de aula (retrato da vida social) que podem ser explorados. Por exemplo, (a) os pesquisadores que estªo interessados no estudo da relaçªo entre os aspectos fisiológicos e as emoçıes fazem uso dos dados provenientes dos oxímetros, cruzados com os vídeos das aulas e do cogen e algumas situaçıes fazem uso da anÆlise das expressıes da face; (b) no caso das evidŒncias de mindfulness os pesquisadores envolvidos fazem uso dos heurísticos, dos vídeos dos alunos durante as aulas, das entrevistas e do CE.

Contudo, nªo Ø possível abordar todos os aspectos dos procedimentos metodológicos da pesquisa no escopo deste texto, por isso vamos nos centrar no CE, apresentando os procedimentos de coleta de dados e anÆlise, como um exemplo do multimØtodo e do multinível de anÆlise. Dessa forma, seguimos com a

apresentaçªo dos procedimentos usados no caso do Clima Emocional e em seguida vamos nos focar na apresentaçªo da Pesquisa com Evento Orientado como procedimento de anÆlise dos dados sobre o CE.

## O Clima Emocional

O instrumento usado na medida do Clima Emocional (CE) foi o Turning Techonologies System , que Ø uma tecnologia de resposta à distância. Um receptor de entrada USB Ø conectado ao computador o qual via bluetooth coleta as informaçıes provenientes dos clickers . Estes sªo um tipo de Response Card , no qual contem teclas com nœmeros/letras, e eram entregues aos estudantes e ao professor a cada aula. Na segunda semana de aula foi combinado como deveria ser o procedimento de uso dos clickers : foi convencionada uma correlaçªo entre um nœmero e o CE, tal qual, 1-muito negativo; 2-negativo; 3-neutro; 4-positivo; 5-muito positivo. A cada cinco minutos soava um alarme (suave, mas o suficiente para ser escutado por todos) e estudantes e professor procediam com o clique.

No primeiro dia em que foi implementado o sistema houve uma dificuldade devida à adaptaçªo de coordenar o clique com as atividades da aula, de tal forma que muitos estudantes se esqueciam de clicar quando o alarme tocava. Devido a esses problemas os dados provenientes dessa aula foram descartados. À medida que as semanas foram passando, os alunos se tornaram mais acostumados, e a situaçªo se inverteu, eles aparentemente clicavam sem critØrio nenhum. Entªo, nas semanas 5 e 6 foram feitas intervençıes do professor e de alguns pesquisadores para discutir com os estudantes qual o sentido que eles atribuíam ao nœmero clicado. Em uma dessas aulas foram apresentados grÆficos das mØdias pessoais em comparaçªo com a mØdia coletiva da classe. Eles discutiram em grupos por alguns minutos e depois fizeram uma plenÆria. Como a intençªo inicial era que os cliques fossem usados atØ a semana 6, entªo o professor, ao final da plenÆria da aula 6, perguntou aos estudantes sobre continuidade ou nªo do uso dos cliques, e eles optaram por continuar.

Na ultima aula (semana 15) foi distribuída uma devolutiva aos estudantes e ao professor (que tambØm participava dos cliques) com as mØdias pessoais em comparaçªo com as mØdias da turma referente a cada uma das 15 semanas. Nessa oportunidade, os estudantes puderam refletir sobre os seus critØrios de escolha do nœmero correspondente ao estado emocional, ou seja, por meio desse processo os estudantes e o professor puderam trazer para o nível do consciente como eles vivenciavam e pensavam sobre as suas emoçıes no momento em que elas aconteciam. Ainda na aula 15, um dos estudantes fez um comentÆrio que nos pareceu interessante. Ele disse que estava em outro lugar e escutou o mesmo som do alarme usado durante as aulas para indicar o momento do clique, entªo, naquele momento ele foi capaz de pensar sobre o que estava sentindo e sobre como estava seu estado emocional. Esse relato, de certa forma, vai ao encontro do que objetivamos para esta pesquisa no que se refere ao processo de ensinoaprendizagemos cliques enquanto intervençªo durante as aulasque era possibilitar aos estudantes e aos demais participantes se tornarem conscientes sobre o que ocorre consigo mesmo e à sua volta ( mindfulness ).

## Pesquisa com Evento Orientado

A Pesquisa com Evento Orientado, doravante Evento Orientado, vem sendo usado por Tobin e Ritchie (2012) como uma forma de proceder com a anÆlise dos dados, no que se refere ao tratamento dos dados, isto Ø, à seleçªo de um evento e

ao nível desejado da anÆlise. Dessa forma, dada uma situaçªo social como, por exemplo, a sala de aula, a ideia Ø conduzir a anÆlise procurando entender o quŒ e porquŒ certo evento estÆ acontecendo, garantindo que diferentes perspectivas se cooperem. Dessa forma,

Nós nªo separamos os dados aleatoriamente e nªo diferenciamos as fontes de dados se elas sªo quantitativas ou qualitativas. Em vez disso, nós acessamos diferentes fontes de dados continuamente, em um projeto hermenŒutico que busca dar sentido às prÆticas sociais (...) identificando os eventos salientes (...). Eventos sªo definidos em termos das contradiçıes que aparecem à medida que o processo cultural ocorre. Se as lentes da pesquisa estªo focadas no nível meso durante o estudo interpretativo, entªo os eventos podem ser definidos em termos do que aconteceu em ambos os lados da contradiçªo selecionada (p.118).

A orientaçªo da busca de um evento a ser analisado seria quando se 'identifica alguma brecha que rompe com o equilíbrio social' (ibid). Uma vez identificada a ruptura (o evento), faz-se uma extensªo para um pouco antes e um pouco depois do evento selecionado.

Podemos definir trŒs tipos de critØrios de seleçªo de eventos: (i) instrumental; (ii) fenomenológico (iii) teórico. (i) O critØrio instrumental Ø usado quando algum tipo de instrumento relacionado com a pesquisa Ø considerado como o critØrio de orientaçªo de um evento. Por exemplo, em nossa pesquisa utilizamos os picos e os vales do grÆfico do CE. O grÆfico Ø o instrumento que nos possibilita a escolha do evento cuja profundidade da anÆlise Ø fornecida com as demais fontes (vídeos, notas de campos, oxímetros). (ii) O critØrio fenomenológico se aplica quando algum elemento do campo de pesquisa Ø utilizado, por exemplo, a partir da memória do pesquisador ou a partir da fala de alguns dos sujeitos. Podemos mencionar um caso presente em nosso estudo, quando em um dos cogen que ocorria depois da aula, um dos estudantes disse que percebia a sala como sendo branca, se referindo à etnia. A sua fala se configura num evento uma vez que a sala de aula Ø composta por diversas etnias, tendo uma presença marcante de afroamericanos, Ærabes e orientais. (iii) O critØrio teórico Ø usado quando a busca por um evento a ser analisado parte de uma pergunta referente ao referencial teórico utilizado. Se considerarmos em termos dos referenciais sócio-culturais (ENGESTRÖM, 1987), a busca pela identificaçªo de instrumentos mediadores entre os sujeitos e objetos pode servir como orientaçªo.

Contudo, nªo acreditamos que esses critØrios sejam completamente isolados uns dos outros, pois mesmo quando se usa o critØrio fenomenológico a perspectiva teórica jÆ estÆ embutida na perspectiva do pesquisador. Ou ainda, se pensarmos em termos dos instrumentos, quando os vídeos sªo utilizados, nªo se pode selecionar eventos sem prescindir de uma olhar teórico. Mas de qualquer forma, no processo de anÆlise sempre hÆ um que prevalece sobre o outro. O esforço de explicitar esses trŒs critØrios se deve a uma dimensªo metodológica de como organizamos os dados. Sendo assim, vamos seguir com um exemplo da anÆlise de picos e vales dos grÆficos do CE, que se configura como um critØrio instrumental.

## AnÆlise de picos e vales

A anÆlise de picos e vales dos grÆficos do CE se baseia no pressuposto de que tanto um quanto outro representam momentos em que aparecem as 'brechas que rompem com o equilíbrio social' (TOBIN e RITCHIE, 2012) e, portanto, se

configuram como eventos a serem analisados. Na Figura1 mostramos as mØdias de das aulas ao longo do semestre, o que pode ser considerado como macro-anÆlise, uma vez que se trata de aspectos gerais do CE. Na sequŒncia apresentamos nas Figuras 2 e 3 os grÆficos de algumas aulas configurando-se numa meso-anÆlise. No entanto, micro anÆlise, nos termos em que Tobin e Ritchie (2012) precedem, usando a tØcnica da prosódia e da anÆlise facial, nªo Ø possível para este texto dado que o momento da escrita coincide com o tØrmino do curso, nªo tendo tempo hÆbil para tal procedimento.

Figura 1 - GrÆfico da mØdia semanal do CE (eixo vertical) por semana, W (eixo horizontal).

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O grÆfico da Figura 1 nos apresenta as mØdias semanais do CE. No eixo vertical estÆ a escala do CE variando de 1 a 5, conforme estabelecido no início do semestre. No eixo horizontal estªo as semanas (W). Se orientarmos a nossa busca em termos dos valores da mØdia, encontramos um pico na semana 4 e um vale na semana 12. PorØm, os grÆficos das aulas 5 e 6 nos parecem mais interessantes do que o das aulas 4 e 12 mesmo que o pico e o vale do semestre estejam nestas duas aulas. Embora vamos apresentar alguns grÆficos a mais, vamos concentrar a nossa anÆlise na aula da semana 5, que foi amplamente discutida pelo grupo de pesquisa logo após os eventos que ali se sucederam.

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Figura 2GrÆficos do CE a cada momento das aulas das semanas 4 e 12

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Figura 3GrÆficos do CE a cada momento das aulas das semanas 5 e 6

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Em ambas as figuras, 2 e 3, o CE emocional Ø representado pela mØdia de todos os cliques naquele momento específico, ou seja, nos grÆficos dessa figuras o CE Ø descrito em funçªo do tempo. Assim, na aula da semana 5 podemos observar que hÆ um grande vale entre os instantes 7:10 e 7:30, e que 7:25 Ø um ponto de

inversªo. Nesse sentido, esse intervalo da aula se caracteriza em um evento a ser analisado mais detalhadamente. JÆ na aula da semana 6 o CE tem um aumento entre 6:00 e 6:10 e no instante seguinte começa um decrØscimo nªo tªo acentuado. Mas às 6:25 o CE tem a segunda menor mØdia da aula. Esses intervalos destacados para ambas as aulas sªo os que tŒm a maior variaçªo da mØdia, mas as duas aulas como um todo apresentam grÆficos com bastantes picos e vales. Em contrapartida, nas aulas 4 e 12 hÆ uma constância maior da mØdia do CE, nªo apresentando tantas variaçıes.

Entªo, a partir desses elementos podemos delimitar melhor os eventos que podemos analisar cujos critØrios sªo as variaçıes do CE. Na aula 5 o tema apresentado pelos estudantes foi sobre gŒnero, sexualidade e educaçªo. No momento em que a mØdia começa a decrescer estava sendo apresentado um vídeo sobre os preconceitos que as mulheres sofreram ao longo da história. E no momento em que marca o índice mais baixo, outro vídeo sobre violŒncia que alunos homossexuais sofriam na escola. Na sequŒncia, os demais alunos faziam comentÆrios sobre o vídeo. A atmosfera da classe estava bem leve e o CE, como indica o grÆfico, apresenta um aumento. Logo antes de terminar o seminÆrio, um dos alunos que estava apresentando se sente à vontade diante da turma e diz que Ø homossexual. Este momento coincide com o tØrmino da apresentaçªo. O professor, que estava no fundo da sala, posiciona-se à frente, e pede que a turma faça uma avaliaçªo sobre a apresentaçªo. Uma das alunas que estava apresentando comentou como o clima da aula estava receptivo, salientando o fato de que era o segundo semestre que alguns dos alunos estavam juntos. Esse instante Ø o 7:55 do grÆfico que registra a maior mØdia do CE.

Na aula 6 o tema apresentado foi sobre Etnia e Educaçªo, e diferente da 4 aula anterior teve um clima mais tenso. PorØm antes da apresentaçªo, o professor comentava sobre alguns elementos da docŒncia, especificamente no caso desta disciplina. Sua fala era sobre as intervençıes do professor, como e quando elas deveriam ocorrer, dado que algumas vezes era necessÆrio interromper alguma discussªo em virtude do tempo. Contudo, nesse momento, ocorre uma contradiçªo na fala dele ao dizer que nªo iria mais seguir com a conversa, pois o tempo estava curto e o seminÆrio deveria ser iniciado. Uma das alunas, entªo, diz que lhe parecia um insulto, pois ela tinha algo a dizer sobre o que estava sendo tratado. Esse evento ocorre um pouco antes das 6:25 que tem o menor CE da aula. A mØdia do CE da semana 6 Ø significativamente menor do que a aula anterior. O que nos leva a pensar que o tema 'racismo' parece mais complicado de lidar do que sexualidade, sobretudo numa turma multiØtnica. Após a aula 6, durante o cogen , ficou mais evidente que ninguØm queria comentar nada durante a aula por medo de ser considerado racista. Por fim, a aula 12 registra a menor mØdia do CE. O tema da aula foi Evolucionismo, parecendo ser outro tema delicado de ser abordado em discussıes nas aulas de ciŒncias. O trabalho de Alexakos e Pierwola (2012) analisa em detalhes levando em conta outros aspectos alØm do CE.

## Consideraçıes finais

Ao longo deste trabalho apresentamos a Pesquisa com Evento Orientado como forma proceder com a anÆlise dos dados no que se refere a escolha de eventos a serem estudados e compreendidos. No caso da pesquisa aqui relatada foram utilizados os picos e os vales dos grÆficos gerados a partir do CE durante as aulas, constituindo-se assim em um critØrio instrumental para escolha dos eventos.

A caracterizaçªo da pesquisa, a nosso ver, vai alØm da dicotomia quanti/ quali muitas vezes presentes nas pesquisas em Educaçªo, como discute Lather (2006). A autora apresenta inicialmente um quadro-síntese das principais vertentes das metodologias de pesquisa em diferentes Øpocas. E após apresentar alguns exemplos estudados por outros pesquisadores cujas características nªo se enquadram necessariamente nem em uma nem outra, as consideraçıes da autora sªo no sentido de introduzir nos trabalhos de pesquisa em Educaçªo um 'colorido epistemológico'.

Dessa forma, neste trabalho estamos apresentando alguns aspectos metodológicos de uma pesquisa em Ensino de CiŒncias cujo sentido Ø ir alØm da dicotomia quanti/quali. Ao procedermos com a anÆlise em multiníveis nªo estamos separando as conexıes, mas ao contrÆrio, estamos considerando a complexidade da atividade humana. Nesse sentido, quando escolhemos um nível para proceder com a anÆlise estamos fazendo o recorte do processo e constituindo uma unidade de anÆlise . Os diferentes instrumentos e mØtodos nos ajudam no recorte dessa unidade, por exemplo, na escolha de um evento a ser analisado, bem como na anÆlise em si. A Pesquisa com Evento Orientado Ø um exemplo desse processo de recorte da unidade a ser analisada, cujo caso deste trabalho foi usado um critØrio instrumental a partir da anÆlise de picos e vales.

## ReferŒncias

ALEXAKOS, K., PIERWOLA, A. Learning at the "boundaries": radical listening, creationism, and learning from the "other". Cultural Stud. of Sci Educ . (2012, in press )

DELIZOICOV, D. A pesquisa em Ensino de CiŒncias como CiŒncias Humanas Aplicadas. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v 21 (2), p.145-175, 2004.

ENGESTRÖN, Y. Learning by expanding : an activity-theoretical approach to developmental research. Helsinki: Orienta-Konsultit, 1987.

LATHER, P. Paradigm proliferation as a good thing to think with: teaching research in education as a wild profusion. International Journal of Qualitative Studies in Education , v 19 (1), p. 35-57, 2006.

POWIETRZYNSKA, M. Heuristics for mindfulness in Education and beyond , in press , 2012.

TOBIN, K. Reproducir y transformar la didÆctica de las ciencias en un ambiente colaborativo. Enseæanza de las Ciencias , v 8 (3), p. 301-314, 2010.

TOBIN, K; RITCHIE, S. M. Multi-method, multi-theoretical, multi-level research in the Learning Sciences. The Asia-Pacific Education Researcher , v 21 (3), p. 117-129, 2012.

TOBIN, K. et al. Do learning environments afford wellness? A central conundrum in an emerging science of teaching and learning science, in press , 2012.

VILLANI, A., PACCA, J. Como avaliar um projeto de pesquisa em Educaçªo em CiŒncias. Investigaçıes em Ensino de CiŒncias , v6 (1), p. 7-28, 2001.

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