CIÊNCIA, FÉ CRISTÃ E ENSINO DE FÍSICA - DIÁLOGO COMO ALTERNATIVA AO CONFLITO
Glênon Dutra
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 06/11/2012
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CIÊNCIA, FÉ CRISTÃ E ENSINO DE FÍSICA - DIÁLOGO COMO ALTERNATIVA AO CONFLITO
## SCIENCE, CHRISTIAN FAITH AND TEACHING PHYSICS DIALOGUE AS AN ALTERNATIVE TO THE CONFLICT
## Glênon Dutra 1
1 Universidade Federal do Recôncavo da Bahia/Centro de Formação de Professores/glenon.bh@gmail.com
## Resumo
Procuramos, neste trabalho, uma compreensão, diferente da popular, do significado do 'conhecimento científico', identificando as possibilidades de relação entre a religião e ciência e reconhecendo a influência do pensamento cristão no desenvolvimento da ciência moderna. Não pretendemos com isso, fornecer respostas para problemas de interpretação do texto religioso, mas sim, fornecer subsídios para o desenvolvimento de uma postura crítica e conciliadora frente ao conhecimento científico e o religioso. Acreditamos na relevância desse debate para o ensino de ciências, mais particularmente a Física.
Palavras-chave : Filosofia da Ciência, Ciência e Religião, Ensino de Física.
## Abstract
In this work, we seek an understanding, not popular, the meaning of "scientific knowledge". We intend to identify the potential relationship between religion and science. We also want to recognize the influence of Christian thought in the development of modern science. We do not intend thereby to provide answers to problems of interpretation of religious text. We want to provide subsidies for the development of a critical and conciliatory face of scientific knowledge and religious. We believe in the relevance of this debate for the teaching of science, particularly physics.
Keywords : Relations between Science and Religion, Physics Teaching.
## Introdução
Em outubro de 2012, como parte das atividades da VII Semana de Ciência e Tecnologia num Shopping de Salvador, o projeto Astronomia no Recôncavo da Bahia promoveu uma série de exibições públicas de um filme sobre a origem do 1
universo e da vida, sob a perspectiva neodarwinista e do Big Bang. Após o evento, durante uma reunião de formação, perguntou-se ao grupo de monitores que participaram do evento quais deles seriam cristãos. Mediante a resposta afirmativa 2 da maioria, perguntou-se também, quantos aceitavam a explicação científica para a origem do universo e da vida apresentada no filme. Para nossa surpresa, quase todos monitores de origem cristã não concordavam com o modelo apresentado, apesar de participarem ativamente das atividades de um projeto que divulga justamente esse tipo de modelo, sendo, até mesmo, alguns deles, voluntários, não recebendo nenhuma bolsa para isto.
Além da preocupação óbvia referente à formação desses futuros professores e sobre qual tipo de ciência será ensinada pelos mesmos quando no exercício de sua profissão, mais preocupante ainda é a postura acrítica frente a esses conhecimentos com os quais discordam. Seria o conhecimento científico tratado por eles como algo que deve ser suportado visando uma aceitação social ou profissional? Aparentemente esses alunos apresentam uma mentalidade 'bipolar', assumindo uma forma de pensamento durante sua vida particular-religiosa e outra, oposta, em sua vida social-secular. Os pontos de conflito são ignorados e convive-se com as duas formas de pensar como se fossem universos paralelos. Supomos ser, essa postura acrítica, o reflexo de uma atitude defensiva frente à popular ideia de conflito religião-ciência.
De acordo com o Novo Mapa das Religiões (Neri, 2011) a grande maioria do povo brasileiro (cerca de noventa por cento) afirma seguir algum tipo de religião cristã. Por conseguinte, podemos aferir que a maioria de nossos estudantes e professores das disciplinas científicas, aceita ou é simpática à fé cristã . Não seria 3 difícil encontrar uma postura semelhante a dos monitores acima descritos em outras escolas e universidades pelo Brasil afora. Procuramos, neste trabalho, uma compreensão, diferente da popular, do significado do 'conhecimento científico', identificando as possibilidades de relação entre a religião e ciência e reconhecendo a influência do pensamento cristão no desenvolvimento da ciência moderna. Não pretendemos com isso, fornecer respostas para problemas de interpretação do texto religioso, mas sim, fornecer subsídios para o desenvolvimento de uma postura crítica e conciliadora frente ao conhecimento científico e o religioso. Acreditamos na relevância desse debate para o ensino de ciências, mais particularmente a Física.
## Sobre o Conhecimento Científico
É perceptível a grande importância dada ao conhecimento científico por nossa sociedade. Basta observarmos o forte apelo popular de produtos possuidores de qualidades cientificamente comprovadas ou a procura da opinião de 'cientistas' para validar afirmações em reportagens jornalísticas. Episódios históricos como a condenação de Galileu, a reação negativa de parte dos cristãos à Teoria da Evolução de Darwin ou questões éticas atuais como o uso de células tronco embrionárias em pesquisas científicas são explorados de modo a deixar uma
impressão de constante conflito entre ciência e religião, principalmente as de origem judaico-cristã.
Por outro lado, entendemos que essa ideia de conflito constante é fruto de uma leitura equivocada do real significado da ciência, uma ideia popular de que o conhecimento científico é totalmente objetivo e impessoal, livre das crenças do cientista e comprovado pela experiência, nos grandes laboratórios das universidades e centros de pesquisa. Acreditamos que essa leitura equivocada acaba por estabelecer uma tensão entre o establishment científico, os conhecimentos populares e as crenças religiosas de alunos e professores de ciências. Mas, se a leitura é equivocada, o que é ciência?
- A pergunta acima não é nem um pouco simples de ser respondida. Literalmente, a palavra ciência significa conhecimento porém,
'é apenas no século XIX que esse termo passa a ser utilizado não mais para designar a totalidade dos conhecimentos, mas tão só os conhecimentos propriamente científicos, suscetíveis de adotar o chamado 'método experimental', codificado por Claude-Bernard em 1865.' (Japiassu, 2011)
Seria, portanto, uma forma de conhecimento singular, diferente do senso comum e do conhecimento religioso. Uma forma estruturada de conhecimento, produzida a partir da observação de fenômenos, uma descrição de mundo sob diversos ângulos diferentes (natural, social, político...) com o pressuposto de que existe uma ordem por trás de todas as coisas. Uma tentativa de identificar esta ordem e relacionar causas e efeitos.
De acordo com Chalmers (1993), no final do século XIX, o positivismo lógico procurou identificar a ciência como uma forma de conhecimento objetiva, fundamentada na observação e na experimentação, onde o cientista, após cuidadosa coleta de dados, derivaria leis e teorias por meio de um procedimento lógico. O resultado disso tudo seria uma forma de 'conhecimento provada', bem fundamentada e livre de contestações, opiniões pessoais ou de especulações, capaz de 'submeter toda verdade humana à prova da verificação experimental' (Japiassu, 2011, p.10). A ciência apresentava-se como o conhecimento supremo, de acordo com o qual, todas as outras formas de conhecimento deveriam se orientar:
'A arte, a religião, a filosofia, os mitos e a vida afetiva; enfim, tudo o que não se deixava reduzir à obediência das normas físico-matemáticas era sumariamente desacreditado. Como se a experiência humana em geral pudesse ser confundida com a científica em particular! Como se a preponderância das preocupações científicas e técnicas pudesse ser considerada uma verdade eterna! Como se a totalidade dos valores devesse submeter-se à jurisdição da verdade científica.' (Japiassu, 2011, p.10)
Essa visão, embora ultrapassada, ainda é encontrada em alguns livros de ciências, nos laboratórios, centros de pesquisa, nos círculos acadêmicos e, principalmente, na mídia.
As tentativas posteriores de se caracterizar ou definir a ciência podem, de acordo com Chalmers (1993), se destacar em duas linhas gerais de pensamento, o racionalismo e o relativismo.
- O Racionalismo, afirma a existência de um critério único, atemporal (não histórico) e universal com referência ao qual se podem avaliar os méritos relativos de teorias rivais. Para o racionalista, as decisões do cientista são guiadas pelo método universal. Ele rejeita as teorias que não correspondam a esse método. Segundo ele as teorias são tanto mais verdadeiras quanto mais se aproximarem dos critérios universais. Deste modo, seria fácil estabelecer a fronteira entre o que é e o que não é ciência. Esse modo de pensar dá grande valor ao conhecimento científico. Popper e Lakatos seriam dois grandes representantes do racionalismo.
Popper define que uma teoria científica válida pode ser falsificável, ou seja, pode ser colocada à prova, há possibilidade de ela se revelar falsa por meio de um teste experimental. O problema é que teorias reconhecidamente (e historicamente consideradas como) científicas poderiam ter sido rejeitadas logo em seu nascimento justamente por serem falsificáveis por inúmeras observações. A própria teoria gravitacional de Newton seria falsificada na época em que foi proposta por observações na órbita lunar. Lakatos, ciente desse problema, propõe um critério universal que não dependeria apenas da lógica mas que seria testado pela história da ciência. Chalmers (1993) ressalta, porém, que sua metodologia funciona mais para o historiador da ciência do que para o cientista.
- O Relativismo nega a existência de um padrão universal e não histórico de racionalidade. O conhecimento dependerá do que é importante e valorizado pelo indivíduo e pela comunidade em que está inserido. As decisões feitas pelos cientistas serão governadas por aquilo a que eles mesmos (ou o grupo onde estão inseridos) dão valor. A distinção entre ciência e pseudociência variará entre grupos e ou épocas diferentes, é uma imposição social. O conhecimento científico deixa de ser uma forma superior de conhecimento para ser apenas mais uma expressão do conhecimento. Este grupo pode ser representado por Kuhn e Feyerabend.
Kuhn propôs um certo número de critérios que poderiam ser usados na avaliação de teorias rivais. Embora negasse ser relativista, estabeleceu critérios que se baseavam nos valores da comunidade científica. Para compreender o conhecimento científico deveríamos também compreender as características dos grupos que criam e usam esse conhecimento (a comunidade científica).
Feyerabend acreditava que as teorias científicas não poderiam ser conclusivamente provadas ou desaprovadas, desistindo de vez da ideia de que a ciência é uma atividade racional, que opera de acordo com um método ou métodos especiais. Segundo ele, a ciência não tem características especiais que a tornem intrinsecamente superior outros ramos de conhecimento (como o conhecimento religioso).
Menos citado, mas considerado importante na compreensão das relações entre ciência e religião, o químico húngaro Michael Polanyi, para ele, 'a objetividade completa, que é habitualmente atribuída às ciências exatas, é uma ilusão e, na realidade, é um ideal falso' (Polaniy, 2009, p.17). Propõe então, que todo conhecimento (científico, religioso ou filosófico) seja de natureza pessoal. Embora o conhecimento envolva conceitos e ideias, envolve também algo mais profundo, um compromisso pessoal, um envolvimento pessoal com seu objetivo. As idéias de Polanyi são melhor entendidas quando comparadas com a tradição cartesiana, onde o comprometimento pessoal é incompatível com a objetividade. Para Polanyi esse compromentimento é parte integrante do processo de conhecimento. As ciências
naturais seriam resultado de um conhecimento pessoal, compromisso intelectual e uma busca apaixonada por modelos da natureza.
A partir dessa pequena exposição sobre a natureza do conhecimento científico, consideramos ser razoável admitir a sua não neutralidade. Isto é, a construção e a aceitação de teorias científicas são influenciadas pela nossa forma de ver o mundo. Ou, como afirma Japiassu (2011, p.29):
'(...) Quer os cientistas queiram, quer não, suas iniciativas emanam de sua subjetividade. Quase sempre refletem suas ideologias pessoais.' (Japiassu, 2011, p.29).
Indo mais além, consideramos que a ciência não é religiosamente neutra. A posição religiosa do pesquisador: teísta, ateu ou agnóstico, por exemplo, será determinante na escolha de pressupostos e caminhos a escolher durante sua atividade de pesquisa. Assim como Japiassu (2011, p.87) afirma que todo cientista serve a um projeto político, afirmamos que todo cientista serve a um projeto religioso. Reconhecer isto pode ajudar no estabelecimento de diálogos mais produtivos entre religião e ciência do que a alternativa do conflito.
## Relações entre Ciência e Fé
A partir do momento em que se admite que a ciência não seja mais encarada como uma forma superior de conhecimento, como uma verdade única e absoluta, as possibilidades de diálogo entre fé e ciência tornam-se mais visíveis. Teólogos e cientistas do mundo inteiro têm se esforçado por estabelecer as possíveis pontes entre essas duas formas de conhecimento.
Bennett e Peters (2003) pressupõem um tipo específico de parceria cooperativa entre fé e ciência, a consonância hipotética. Essa parceria resume-se na hipótese de que a ciência e a fé possam 'soar juntas' uma vez que procuram expressar a mesma realidade única, mas multifacetada. A questão é: podemos dizer que ciência e fé fazem afirmações sobre a mesma realidade? Caso a resposta seja positiva, essas afirmações poderiam se reforçar, se criticarem ou se iluminarem. Ciência e fé seriam então 'companheiras de viagem'.
Eles prosseguem afirmando que a consonância hipotética apresenta riscos tanto para a ciência como para a religião. A religião sujeitaria seus pressupostos à ciência. A ciência, admitiria que discernimentos religiosos poderiam revelar-se cientificamente corretos. Apesar disso, a hipótese de que fé e ciência possam 'soar juntas' permite que ambas não renunciem à sua integridade intelectual, isto é, os teólogos não teriam que discutir seus critérios com a ciência e nem o contrário. Além disso, evitar-se-ia afirmar que a religião ou a ciência possua a chave da verdade. Assim, a relação entre a fé e ciência não se torna uma guerra.
Barbour (2004) propõe quatro modelos de interação entre a ciência e a fé, conflito, independência, diálogo e integração. Seus modelos têm sido amplamente usados por filósofos e cientistas que se envolvem nesse debate:
- I. Conflito - no caso da fé cristã: materialismo (a ciência é a única fonte de verdade) versus literalismo bíblico (só a Bíblia oferece conhecimento verdadeiro a respeito do mundo).
Barbour (2004) tece críticas às duas posições. Quanto ao materialismo, observa que muitas vezes a filosofia materialista é promovida como se fosse parte
da ciência. Quanto ao literalismo, que a ciência da criação 'não é ciência', segundo sua avaliação.
Bennett e Peters (2003) expandem Barbour (2004) identificando novos focos de conflito, os materialistas científicos ateus, rejeitam Deus e qualquer possibilidade de diálogo entre ciência e religião. Os Imperialistas científicos entendem que apenas a ciência produz conhecimento genuíno, mesmo o conhecimento de Deus.
- II. Independência: ciência e religião buscam métodos contrastantes e linguagens diferentes e estão isoladas uma da outra, sem interação ou conflito. A ciência trabalha com fatos e é objetiva enquanto a religião trabalha com valores e é subjetiva. Polkinghorne (2007) rejeita essa ideia, segundo ele:
'Uma série de considerações mostra que a hipótese da independência entre ciência e teologia é muito ingênua para ser convincente. 'Como?' e 'Por quê?' são questões que podem ser levantadas simultaneamente e, muitas vezes, ambas devem ser consideradas se quisermos obter uma compreensão adequada da realidade. Um bule ferve tanto porque o gás em chamas aquece a água quanto porque alguém quer preparar um chá. As duas questões são, sem dúvida, logicamente distintas, e não há uma conexão inevitável ligando as duas respostas, embora deva existir um grau de consistência entre elas.' (Polkinghorne, 2007)
III. Diálogo: a ciência nos diz algumas coisas sobre o mundo e a religião outras. Há, portanto, fronteiras e paralelos metodológicos. A ciência trabalha com fatos empíricos e a religião com o texto sagrado. Polkinghorne (2007) defende a necessidade de a teologia ouvir a ciência. Defende também a necessidade de revisões mútuas em casos de discordância, criticando a atitude de fundamentalistas religiosos de sempre supor que a revisão deva acontecer do lado da ciência ou a atitude de fundamentalistas cientificistas que consideram a religião irrelevante para a compreensão do cosmo. Para ele
'uma visão mais equilibrada seria a de que ambas as explicações merecem ser escrupulosamente abordadas em seu relacionamento mútuo, o que nos dá uma agenda criativa para o debate entre ciência e religião.' (Polkinghorn, 2007)
IV. Integração: Teologia natural. Começa com teologia e busca incorporar a ciência natural. Reformula a teologia a luz dessas descobertas. O objetivo é o de unir ciência e religião em uma única estrutura. A integração pode ser racional, quando considera a ciência como neutra e, por isso, adaptável à religião ou pode ser pressuposicional, quando considera a necessidade de se reformular os conceitos pois a ciência já viria com pressupostos teológicos.
Apesar de Barbour(2004) apresentar uma boa perspectiva das relações entre ciência e religião, sua tipologia ainda apresenta alguns problemas no que diz respeito às relações entre a fé cristã e a religião. Primeiro, ele trata a religião como uma esfera separada da vida, que precisa ser 'integrada' com a ciência. Na perspectiva de um cristão coerente, não há neutralidade religiosa no pensamento ou em qualquer área de sua vida. A religião está presente em todas as suas esferas de existência. Barbour assume o dogma da neutralidade religiosa da razão, procurando resolver o problema religião/ciência no nível teórico. Para o cristão coerente não é possível estabelecer uma relação entre a ciência e a religião sem pressupor a veracidade de sua fé. Ou seja, essa neutralidade é para ele um mito. Qualquer tentativa de se buscar um ponto de vista neutro seria contrário à sua posição como cristão. Barbour não leva tão a sério o fato de que a ciência moderna dependeu da
cosmovisão cristã para o seu surgimento. O ponto aqui é: será que o cristão comprometido com sua fé seria capaz de fazer e discutir ciência de qualidade? A história aparentemente nos mostra que sim, embora muitos insistam hoje ser necessário ao cristão (ou ao religioso em geral) sufocar a sua fé no momento de se 'fazer ciência'.
## Fé cristã e o nascimento da ciência moderna
Dennett (1998), ateu convicto, defende uma liberdade religiosa que busque preservar as religiões como sendo parte (ingênua) da cultura humana. Do mesmo modo que se preserva uma obra de arte ou um animal em extinção. Para ele, as 'mentiras' ensinadas às crianças pelos cristãos devem ser desmascaradas pela 'verdade' da ciência. Fazendo alusão à posição da Igreja frente à Revolução Copernicana, às ideias de Galileu ou à Teoria Evolucionista de Darwin, deixa transparecer a noção de cristianismo como algo pernicioso, que impede o desenvolvimento da ciência. Os cristãos são quase que chamados de imbecis e o cristianismo torna-se parecido a uma peste que teima em impedir o desenvolvimento da ciência.
Livros de divulgação científica, além do material impresso nos livros didáticos de física a respeito da história da ciência (principalmente tratando-se de Galileu), apresentam a igreja e o cristianismo como inimigos da ciência e pedras no caminho de quem deseja fazer com que a verdade da ciência resplandeça no meio de um mundo nas trevas obscuras do dogmatismo religioso. A religião, em particular o cristianismo, é quase sempre apresentada como um mecanismo retardador do desenvolvimento científico.
Mas será que podemos enxergar o cristianismo apenas por essa ótica? Será que a única contribuição do cristianismo para a história da ciência foi a de atrapalhar o seu desenvolvimento? Para responder a essas questões, Hooykaass (1988), afirma:
'Mas, à época em que surgiu a ciência moderna, a religião constituía um dos fatores mais poderosos da vida cultural. O que as pessoas pensavam de Deus (ou dos deuses) influenciava sua concepção da natureza, o que, por sua vez, influenciava os seus processos de investigação da natureza, ou seja, sua ciência'. (Hooykaass, 1988, p.16)
Seria então o cristianismo tão pernicioso assim para o desenvolvimento científico como apregoam alguns? Hooykaass (1998) reconhece a herança grega não nas teorias científicas geradas nesse período, mas em instrumentos mentais fundamentais como a lógica e a matemática. Ele pergunta se não existiriam, da mesma forma, traços da mentalidade judaico-cristã na ciência nascente nesse período? Ele prossegue identificando alguns desses traços:
- I. Ao contrário da matriz grega, a natureza não é vista pelo cristão como uma divindade a ser temida ou adorada, mas uma obra de Deus, que deve ser admirada, estudada e acima de tudo, controlada. Essa ideia está bem expressada nas palavras de Boyle :
'A veneração com a qual os homens estão imbuídos àquilo que chamam de natureza tem sido um impedimento desanimador para o domínio do homem sobre as criaturas inferiores de Deus: isso porque muitos consideram a remoção dos limites que a natureza parece ter imposto e determinado entre as suas obras um ato não apenas irrealizável, mas também uma tentativa ímpia. E, enquanto olham para a natureza como algo
venerável, alguns demonstram um escrúpulo da consciência no tocante à iniciativa de imitar e ir além de qualquer obra da natureza.'( Boyle, apud Pearcey e Thaxton, 2005, p.297)
- II. Contribuição para uma visão mecanicista do mundo. Sendo obra de um criador, a natureza passa a ser encarada como um mecanismo que possui leis definidas que regem o seu funcionamento.
- III. Contribuição para a valorização da ciência experimental. O cristianismo (principalmente a sua vertente reformada) valoriza o trabalhador, ao contrário da matriz grega que valoriza o pensador.
No prefácio de COTES à segunda edição dos Principia de Newton estão explícitas as duas últimas ideias defendidas acima:
- '...Sem qualquer dúvida, este mundo tão diversificado com esta variedade de formas e movimentos que nele encontramos, não poderia ter outra origem que não o livre arbítrio de Deus dirigindo e presidindo tudo.
- É desta fonte que aquelas leis, que chamamos leis da Natureza, fluíram nas quais aparecem muitos traços da maior engenhosidade, mas sem a menor sombra de necessidade. Portanto, não devemos buscar estas leis a partir de conjecturas incertas, mas aprendê-las com base em observações e experimentos...'(Newton, 2002, p.33)
Se a fé cristã fosse realmente um empecilho para o desenvolvimento da ciência como alguns apregoam, como explicar o grande número de filósofos e cientistas considerados fundadores da ciência moderna e que professavam o cristianismo.
Chega a ser irritante como alguns historiadores e divulgadores da ciência ignoram as crenças pessoais de cada um desses pensadores apresentando-os ao público em geral como pessoas agnósticas e isentas de religião. É como se a ciência produzida por esses homens não fosse de modo algum 'contaminada' por sua fé. Seria possível suas mentes funcionarem de uma forma quando escreviam teologia (ou se congregavam) e funcionarem de outra forma quando estavam 'fazendo ciência'?
## Considerações Finais
Boa parte dos livros didáticos apresenta o método científico como sendo algo fechado, um conjunto de passos que todo cientista percorre na construção de uma teoria científica. O cientista é apresentado como um observador neutro que descobre, por meio de experimentos, a verdade da ciência oculta na natureza. Materiais como estes reforçam a visão positivista da ciência e os próprios Parâmetros Curriculares Nacionais alertam para a consideração de aspectos históricos e sociais na construção do conhecimento científico.
Numa sociedade fortemente influenciada pelo pensamento cristão, o estabelecimento do diálogo entre a fé cristã e a ciência pode ajudar o aluno a perceber na discussão sobre o processo de construção do conhecimento científico, a identificação dos pressupostos metafísicos envolvidos na formulação de teorias e a influência das crenças pessoais na aceitação das mesmas por parte da comunidade científica. Essa identificação pode ajudar aqueles alunos que amam a ciência, mas não desejam abandonar suas crenças, a adotarem uma postura mais crítica frente ao conhecimento científico e aos conteúdos de sua fé, propriamente dito.
## Referências
BENNETT, Gaymon e PETERS, Ted (orgs.); Construindo Pontes Entre A Ciência e a Religião. Tradução Luís Carlos Borges, Supervisão científica Eduardo R. Cruz. São Paulo, Edições Loyola, Editora Unesp, 2003, 317 páginas.
BARBOUR, Ian G. Quando a ciência encontra com a religião. São Paulo: Cultrix, 2004.
CHALMERS, Alan F.; O que é Ciência Afinal?.Tradução Raul Fiker, 1ª edição, São Paulo, Editora Brasiliense, 1993, 226 páginas.
DENNETT, Daniel C.; A Perigosa Idéia de Darwin: a Evolução e os Significados da Vida, tradução Talita M. Rodrigues; revisão técnica, Rui Cerqueira, Rio De Janeiro, Editora Rocco, 1998, 610 páginas.
HOOYKAASS, R.; A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, tradução Fernando Dídimo Vieira, Brasília, Editora universidade de Brasília, 1988, 196 páginas.
JAPIASSU, H. Ciências Questões Impertinentes. Aparecida, SP, Ideias e Letras, 2011, 254 páginas.
NERI, Marcelo. 2011. Novo Mapa das Religiões. Rio de Janeiro: FGV/CPS.
NEWTON, Isaac, Sir. Principia: Princípios Matemáticos de Filosofia Natural Livro I, vários tradutores, 2ª edição, São Paulo, Editora Universidade de São Paulo, 2002, 325 páginas.
PEARCEY, Nancy e THAXTON, Charles B. Thaxton. A Alma da Ciência, tradução Susana Klassen, São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2005, 352 páginas.
POLANIY, Sobre o Conhecer Pessoal, in Working papers 'Mercados e Negócios', tradução Eduardo Beira. Braga, Portugal. Universidade do Minho, 2009, 36 páginas. Disponível em http://www3.dsi.uminho.pt/ebeira/wps/ WP86conhecerpessoal.pdf , acesso em 10/06/2012.
POLKINGHORN, J. O Debate Sobre Religião e Ciência uma Introdução, in Faraday Paper, n.1, tradução Guilherme de Carvalho. Instituto Faraday para a Ciência e Religião, Cambridge, UK, 2007.
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