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CIÊNCIA E SATISFAÇÃO CULTURAL: UMA ANÁLISE SEMIÓTICA SOBRE UMA POSSÍVEL INTERFACE ENTRE CIÊNCIA E CULTURA EM SALA DE AULA

Emerson Ferreira Gomes, João Eduardo Fernandes Ramos, Luís Paulo De Carvalho Piassi

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
06/11/2012
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CIÊNCIA E SATISFAÇÃO CULTURAL: UMA ANÁLISE SEMIÓTICA SOBRE UMA POSSÍVEL INTERFACE ENTRE CIÊNCIA E CULTURA EM SALA DE AULA

## SCIENCE AND CULTURAL SATISFACTION: A SEMIOTICS ANALYSIS ABOUT A POSSIBLE INTERRFACE BETWEEN SCIENCE AND CULTURE IN THE CLASSROOM

## Emerson Ferreira Gomes 1 , João Eduardo F. Ramos 2 , Luís Paulo Piassi 3

1 Universidade de Sorocaba/Colegiado de Física/emerson.gomes@prof.uniso.br 2 USP/Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências/ joaoeframos@gmail.com 3 USP/Escola de Artes, Ciências e Humanidades/Departamento/lppiassi@usp.br

## Resumo

Diversos trabalhos da área de ensino de ciências refletem sobre as intersecções entre ciência, arte e cultura. Esses estudos levam em consideração a importância e os aspectos culturais que tanto a ciência quanto a arte norteiam. No caso deste trabalho, iremos abordar de que forma essa interface pode contribuir para o ensino de física, especialmente nos aspectos que tangem a tecnologia e a sociedade quanto ao avanço da exploração espacial pelo homem, utilizando produtos culturais como canções, filmes e textos literários. A coleta de dados foi realizada em entrevistas semi-estruturadas de estudantes matriculados na disciplina 'Ciências da Natureza' do Ciclo Básico da Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Durante a execução dessas atividades na disciplina, foram selecionados cinco estudantes voluntários para uma entrevista semiestruturada, em que o estudante relatava suas percepções quanto à abordagem do curso e de que forma isso contribuiria para a sua formação, de forma a verificar as questões de satisfação cultural apontadas pelo pedagogo francês Georges Snyders. Como metodologia de análise das entrevistas, utilizaremos a semiótica francesa estruturalista, derivada dos estudos de A. J. Greimas e Jean-Marie Floch que permitem uma análise dos objetos de valores enunciados pelos estudantes. A semiótica possibilita a análise do plano do conteúdo discursivo, definindo que os elementos do discurso possuem categorias semânticas de qualificação opostas: euforia e disforia - representando respectivamente os valores positivo e negativo Nesse ponto é possível identificar no discurso do estudante se ele atribui aspectos eufóricos ou disfóricos à ciência, assim como ao diálogo entre arte e ciência.

Palavras-chave : Física e Cultura, Arte e Ciência, Semiótica

## Abstract

Several studies in the field of science education reflect about the intersections between science, art and culture. These studies take into account the importance and the cultural aspects that both science and art guide. In the case of this paper, we discuss how this interface can contribute to the teaching of physics, especially in the aspects that concern technology and society and the advancement of space exploration by man, using cultural products such as songs, films and literary

texts. The data collection was performed in semi-structured interviews of students enrolled in the course "Natural Sciences" of the Basic Cycle from the School of Arts, Sciences and Humanities at the University of Sao Paulo. During the execution of these activities in the discipline, we selected five student volunteers to a semistructured interview, in which students reported their perceptions about the approach of the course and how it would contribute to their training in order to verify the issues cultural satisfaction identified by the French pedagogue Georges Snyders. In the methodology of analysis of the interviews, we will use semiotics derived from studies of A. J. Greimas and Jean-Marie Floch that allows an analysis of objects of values enunciated by the students. This theory allows the analysis of the discursive content of the plan, defining the elements of discourse semantic categories are opposite skill: euphoria and dysphoria - representing respectively the positive and negative values can be identified at this point in the speech of the student if he or assigns aspects euphoric dysphoric science, as well as the dialogue between art and science.

Keywords : Physics and Culture, Arts and Science,

## Introdução

Diversos trabalhos da área de ensino de ciências refletem sobre as intersecções entre ciência, arte e cultura. No caso deste trabalho, iremos abordar de que forma essa interface pode contribuir para o ensino de física, especialmente nos aspectos que tangem a tecnologia e a sociedade quanto ao avanço da exploração espacial pelo homem, utilizando produtos culturais como canções, filmes e textos literários. A coleta de dados foi realizada em entrevistas semi-estruturadas de estudantes matriculados na disciplina 'Ciências da Natureza' do Ciclo Básico da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

Considerar a ciência, como cultura, é um tema que ainda suscita inúmeras discussões. Discussões essas que, curiosamente, não surgem quando a palavra 'ciência' é substituída por 'arte', porque é evidente que arte é cultura. Mas parece que dizer que ciência é cultura exige argumentação. Quando se fala em política cultural, logo se imagina um incentivo ao teatro, à música ou às artes plásticas, não às ciências. Essa questão é antiga, e está ligada diretamente ao debate a respeito da separação entre cultura humanista e cultura científica, que assumiu diversas tonalidades e foi debatida por muitos autores ao longo do século XX. É famosa a conferência do pensador britânico Charles Percy Snow, 'As duas culturas', onde o autor traça os problemas existentes da 'falta de contato' e de 'valorização', e até um desprezo, entre a esfera dos pensadores humanistas, 'mais ligados à arte e literatura' em relação àqueles das ciências matemáticas e da natureza (SNOW, 1995, p. 33). Neste sentido o autor afirma que: 'Essa polarização é pura perda para todos nós' (SNOW, 1995, p. 29).

Defendendo essa aproximação, dentro de nossa área, temos como principal interlocutor o pesquisador João Zanetic que em sua tese 'Física também é cultura' (1990) traz a hipótese de que a ciência embora geralmente excluída da ideia geral de cultura é tão representante do arcabouço cultural humano quanto à literatura, a música e as artes em geral.

É válido ressaltar que os aspectos culturais que tangem a interface entre arte e ciência, nos levam ao conceito de cultura do pensador inglês Raymond Willians que a entende como um 'sistema de significações' envolvido em todas as

formas de 'atividade social', que inclui 'não apenas as artes e as formas de produção intelectual tradicionais, mas também todas as práticas significativas' (WILLIANS, 2008, p.15). Dessa forma, própria prática científica estaria presente nesse sistema, o que caracteriza o aspecto cultural relacionado à ciência.

No caso deste trabalho, procuramos evidenciar nas entrevistas, de que forma a interface entre a ciência e a arte possa trazer o que o pedagogo francês Georges Snyders entende por satisfação cultural. Para Snyders o espaço escolar é um ambiente onde a 'cultura primeira' trazida pelo estudante - sendo esta decorrente de sua 'experiência direta da vida' ou a partir da recepção dos produtos da cultura de massa - deve ser incorporada ao processo educacional, no sentido que traz a satisfação ao educando (SNYDERS, 1988, p. 36).

## O curso e a metodologia de coleta de dados e análise

Esta pesquisa foi realizada com estudantes ingressantes nos cursos de graduação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, localizada no campus USP Leste. Os ingressantes devem cursar determinadas disciplinas pertencentes ao Ciclo Básico, que caracterizam aspectos multidisciplinares às graduações, e a disciplina de 'Ciência da Natureza' é uma das que compõe a grade curricular do Ciclo Básico. No caso da sala analisada por este trabalho, estão matriculados 114 estudantes oriundos dos cursos de Lazer e Turismo (LZT), Sistemas de Informação (SI), Gestão Ambiental (GA), Licenciatura em Ciências da Natureza (LCN), Gestão de Políticas Publicas (GPP) e Ciências da Atividade Física (CAF). Representamos a seguir um gráfico de setores com a distribuição percentual dos estudantes:

Gráfico 1 - Distribuição percentual dos matriculados na disciplina 'Ciências da Natureza' e seus respectivos cursos de graduação

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No caso do curso em questão, iniciado em fevereiro de 2012, o tema escolhido pelo docente foram questões relacionadas à exploração espacial, identificado de que forma a física e a astronomia contribuíram para a evolução e consolidação das missões espaciais e sua relação com a sociedade. Para isto, o docente utilizou diversos produtos culturais - que eram objetos de pesquisa do docente e de seu grupo de pesquisa - como filmes, canções e textos literários que realçavam esse diálogo.

Até o momento em que foram realizadas as entrevistas, haviam sido tratados três temas em sala de aula: (i) Os aspectos históricos que impulsionaram a exploração espacial - nesse momento foram exibidos trechos do filme 'Os Eleitos' (KAUFMAN, 1983), que traz um percurso histórico sobre as missões espaciais realizadas pelo programa espacial estadunidense e a audição da canção 'Space Oddity' (BOWIE, 1969), que simula a decolagem de um veículo espacial, reflete

sobre 'os anseios e os desejos do homem perante o espaço sideral' (GOMES; PIASSI, 2011, p. 4) sendo que o enunciador da canção é um astronauta; (ii) De que forma a ciência e tecnologia contribuem para o desenvolvimento dos veículos espaciais; de que forma as situações de microgravidade - foi utilizado o filme '2001: uma odisseia no espaço' (KUBRICK, 1968), que apresenta algumas formas de simular a gravidade numa estação espacial (PIASSI, 2007, p. 322) e retrata algumas situações de imponderabilidade. Além disso, foram diferenciadas as representações do filme com as situações reais que ocorrem nas estações espaciais; (iii) A representação cultural e científica da Lua, tanto no período que antecede quanto após a chegada do homem ao satélite. Foram lidos em sala alguns textos literários tanto de cientistas como Kepler e Galileu, conforme recomendação do trabalho de João Zanetic (2005, p. 23) quanto contos de ficcionistas como Italo Calvino, Júlio Verne e Arthur C. Clarke, conforme metodologia recomendada por Piassi (2007, p. 407).

Durante a execução dessas atividades na disciplina, foram selecionados cinco estudantes voluntários para uma entrevista semi-estruturada, em que o estudante relatava suas percepções quanto à abordagem do curso e de que forma isso contribuiria para a sua formação, de forma a verificar as questões de satisfação cultural levantadas por Snyders.

Como metodologia de análise das entrevistas, utilizaremos a semiótica derivada dos estudos de A. J. Greimas (1976), que permite uma análise dos objetos de valores enunciados pelos estudantes. Essa teoria permite a análise do plano do conteúdo discursivo, apontando o que Greimas denomina de 'isotopia do discurso' (1976, p. 117) que garante a homogeneidade do discurso enunciado, elidindo suas ambiguidades (GREIMAS e COURTÉS, 2008, p. 248). Dessa forma os elementos do discurso possuem categorias semânticas de qualificação opostas: euforia e disforia - representando respectivamente os valores positivo e negativo Nesse ponto é possível identificar no discurso do estudante se ele atribui aspectos eufóricos ou disfóricos à ciência, assim como ao diálogo entre arte e ciência. Além disso, recorreremos aos estudos Jean-Marie Floch (2000, p. 119), baseada na teoria de Greimas, que estabelece categorias de valores para o discurso.

## As entrevistas e o perfil dos estudantes entrevistados

As entrevistas foram concebidas de forma semi-estruturadas de forma a 'emergir informações de forma mais livre', de forma que as 'perguntas básicas e principais' sejam necessárias para 'atingir a um objetivo' (MANZINI, 2004). Essas entrevistas foram conduzidas pela equipe do grupo de pesquisa do docente da disciplina, representado pela sigla 'E', nas citações. No caso deste trabalho as perguntas direcionadas aos estudantes norteavam os seguintes pontos: Qual a relação prévia do estudante com a ciência, especialmente a física? De que forma os produtos culturais demonstram visões da sociedade sobre a ciência? E como esse tema pode contribuir para a sua formação inicial? Quanto ao perfil dos estudantes entrevistados, que se voluntariaram para a entrevista, segue uma descrição:

Estudante A1: Graduando em Sistemas de Informação. Procurou o curso porque sempre gostou de programação em computadores, e acredita que essa área pode fornecer estabilidade profissional e financeira. Possui certa familiaridade com as disciplinas científicas, especialmente a Física, por conta de serem pré-requisitos para o seu curso de graduação.

Estudante A2: Graduando em Lazer e Turismo. O aluno está fazendo paralelamente à graduação um curso de piloto de avião. Seu curso superior atende à necessidade de ter um curso superior para essa formação e possui uma ligação com essa área. Tinha um pouco de dificuldade com as disciplinas científicas, apesar de achar interessante.

Estudante A3: Graduando em Sistemas de Informação. A procura ao curso vem de um interesse em programação, principalmente quanto ao ato de criação de programas. Interessava-se em questões relacionadas à astronomia e, dentre as disciplinas do ensino médio, a Física era a disciplina que ele tinha menos dificuldades.

Estudante A4: Graduanda em Lazer e Turismo. Tinha interesse inicial em fazer uma graduação em Engenharia Mecatrônica, possui um interesse tanto em disciplinas de humanas (Português e História) e exatas (Matemática e Física). O interesse por essa área surgiu por conta da atuação nos eventos culturais no grêmio da escola em que ela estudou. Afirmou seu contato com a Física de forma eufórica, afirmando que ela possuía resposta para muitas de suas questões pessoais. Neste trabalho é a única representante do gênero feminino.

Estudante A5: Graduando em Gestão Ambiental. Já possui formação técnica em química, trabalha na área de saneamento. Seu interesse no curso é oriundo de sua participação política na sua cidade, quanto às questões ambientais. Seu interesse em ciência se deu principalmente quanto à química. Além disso, possui um grande interesse em cinema e cultura, atuando em cineclubes de sua cidade.

Para este trabalho, vamos no ater às questões que envolvem a relação prévia dos estudantes com os produtos culturais apresentados, e consequentemente analisar se os estudantes atribuíram aos temas vistos em sala, decorrentes do conhecimento em física e astronomia, com o seu curso de graduação.

## Utilizar produtos culturais em aulas científicas trazem satisfações culturais?

Após o estudante relatar os aspectos pessoais que contribuíram para estarem fazendo o curso de graduação na EACH, foi questionada a relação prévia do estudante com os temas tratados em sala e quanto aos produtos culturais utilizados. Observemos o depoimento de dois estudantes quanto à utilização da canção 'Space Oddity', do artista inglês David Bowie. O objetivo dessa aula era que o estudante identificasse as diferentes visões sobre a relação entre ciência e tecnologia em duas diferentes versões dessa música. Enquanto no primeiro videoclipe, gravado em 1969, o artista é retratado como um astronauta em busca do espaço, no segundo, de 1972, o cantor incorpora um extraterrestre, e a narrativa do vídeo prioriza os equipamentos e instrumentos eletrônicos de um estúdio de gravação.

- E: Sobre a música, qual a relação que você teve dela com a disciplina, como um todo? Aos temas que ele tratou no clipe?

A1: A diferença entre os dois clipes eu acho que... aquele negócio do 'Bowie' ser o 'camaleão'. O camaleão, apesar dele mudar a cor dele, o que ele faz é refletir a cor do ambiente. O ambiente inteiro mudou, por isso ele mudou naquela hora. Acho que a visão dele foi totalmente diferente, porque não era mais o foco, aquele negócio de ir para a lua, ir para o Universo... eles já foram para o universo e viram o que era... sabe...não tinha mais aquele negócio. Daí ele reinventou, da mesma forma que ele reinventou a

carreira inteira dele... eu achei isso bem interessante... assim porque as pessoas, geralmente, falam: 'Ah, tá legal. Então são dois clipes diferentes mas...'. Não procuram ver porque eles são diferentes, porque que ele mudou daquela forma.... Geralmente as pessoas tem uma visão superficial, não acho isso tão legal...

Nesse excerto do estudante, podemos verificar que o estudante possuía conhecimento prévio do trabalho do artista, inclusive identificando-o como 'camaleão', termo muito comum ao designar o cantor inglês. Ele ainda utiliza esse conhecimento para relacionar a carreira do cantor com o contexto histórico da exploração espacial, afirmando que após a chegada do homem à Lua, de certa forma, o interesse sobre a exploração espacial diminuiu, pois 'eles já foram para o universo e viram como era'. Podemos verificar no discurso do estudante que ele atribui aspectos eufóricos a relação entre contexto o histórico da ciência e da sociedade. Dessa forma atribui valores positivos a esse conhecimento, em dissonância com 'a visão superficial' que 'as pessoas tem desses fenômenos culturais'. É válido ressaltar que de a isotopia discursiva do estudante caracteriza sua satisfação ao se reconhecer como um sujeito que identifica as conexões entre ciência, sociedade e cultura. Vejamos o que ocorre com as mesmas questões para outro estudante:

- E: Quando a gente falou do David Bowie, você levantou a mão...
- A2: É porque foi a hora que eu mais me identifiquei. Eu gosto de rock também...

E: o que você percebeu com os clipes?

A2: Acho que ficou bem demarcada a visão de antes e depois . Antes era todo aquele lance da ideia que ele tinha de viajar para o espaço, como seria... tipo tudo tecnológico, luxuoso, e tudo o mais...ele interpretava tipo... dois papéis... percebia que ele tava bem, percebe que ele tinha um... era um entusiasta do assunto assim... e o segundo, que o homem já tinha ido para a lua, não expressou do mesmo modo que expressava... com tanta empolgação assim. Ele só... recompôs a música.

No discurso desse estudante, assim como o discurso do primeiro estudante, afirma que não havia o mesmo interesse nas missões espaciais em 1972, da mesma forma que havia o interesse no clipe de 1969. No entanto sua euforia com o produto cultural está mais relacionada ao gênero musical do que ao tema em que ela aborda ou ao artista em questão, afinal a transposição da música para outro momento histórico foi apenas uma 'recomposição'. É importante notar que o discurso do estudante ainda faz uma relação com o filme '2001: uma odisseia no espaço', que foi conjuntamente, pois ao ser questionado sobre a relação do conteúdo visto em sala com o seu curso - Lazer e Turismo - afirma:

- E: Essa relação desses temas que a gente tem trabalhado com a questão do Lazer, você vê alguma aproximação?

A2: Então, eu vi quando você mostrou o filme lá da 'Odisseia', que você falou lá dos ônibus espaciais, que eram luxuosos e tudo... aí tem uma relação bem ligada ao turismo, porque a estação daquele filme é como se fosse um hotel.

A cena do filme em questão mostra um momento em que os personagens do filme estão a bordo de uma estação espacial e a representação desta mostra um ambiente luxuoso, em que os tripulantes não estão expostos aos efeitos da microgravidade, pois a estação possui um sistema de rotação, por conta disso o estudante compara a estação a um hotel. Nesse ponto, podemos verificar que o

estudante relaciona o tema ao Lazer e Turismo, reconhecendo assim uma aproximação do tema tratado da disciplina com o seu curso de graduação, o que denota consonância entre os temas e a formação do aluno. Do ponto de vista semiótico, observamos um objeto de valor do ponto de vista do docente é o reconhecimento por parte de seu estudante do valor da sua disciplina para a sua respectiva formação.

No entanto valores disfóricos quanto ao uso de produtos culturais podem ser identificados no discurso do estudante. Numa outra situação de entrevista, um estudante afirmou que não teve contato prévio com nenhum dos produtos culturais e quando questionado sobre se esses produtos havia lhe suscitado algum interesse na relação entre ciência e cultura, o estudante respondeu:

A3: Eu dei uma olhada lá... os vídeos postados no grupo... mas ainda não pensei nisso, para fazer o trabalho...mas por mim, vou fazer alguma coisa falando sobre a ciência mesmo... sobre o que aconteceu, nada fictício.

No caso desse estudante, percebe-se que ele atribui valores eufóricos aos temas científicos, no entanto ele entende que não há a necessidade de produtos culturais para permitir uma reflexão sobre o fazer científico. Podemos identificar no discurso desse estudante uma visão prática da ciência, sem a necessidade de privilegiar o contexto histórico e cultural. Esse discurso entra em dissonância com o seguinte depoimento:

- E: Teve algum produto que já te empolgou, novidade ou não, que já deu vontade de fazer um trabalho ou pesquisar mais sobre isso.
- A4: A aula mais inspiradora foi a da Lua [...] e quando quando vocês começaram a citar as músicas, os contos sobre a lua, eu achei assim... fantástico.

E: E daqueles produtos que a gente trouxe sobre a lua, o que você viu mais no contexto? A questão poética, política, a questão do homem buscar o espaço lunar?

A4: Bom, eu gostei mais do lado poético mesmo...do que dos outros... [...] e eu achei muito interessante, é ... a maneira de como o homem retrata isso no livro... eu adorei... do Kepler... do tipo, você precisa entrar em contato com um demônio para chegar na Lua, tipo... o quê? Eu achei magnífico, os textos em si, com a viagem do homem... o quanto o ser humano é capaz de fantasiar sobre uma coisa que lhe desperta curiosidade.

Neste excerto, podemos verificar que a estudante atribui valores eufóricos aos aspectos imaginativos da ciência. Neste caso o estudante reconhece que o texto de um cientista pode possuir aspectos poéticos, característica que Zanetic (2005, p. 23), atribui a 'cientistas com veia literária'. É válido ressaltar que o aluno afirmou conhecer a maior parte dos produtos culturais utilizados no curso e que a utilização desses produtos deixou a aula 'mais leve'. Neste caso a isotopia discursiva aponta a denotação eufórica para a relação entre cultura e ciência, pois implica no reconhecimento de produtos midiáticos que trazem satisfação cultural ao educando, algo que podemos identificar no discurso do próximo estudante.

Este aluno, ao ser questionado sobre qual obra que lhe proporcionou maior interesse na disciplina, respondeu que seria o filme '2001: uma odisseia no espaço', pois a importância dessa obra é válida em qualquer 'contexto'. Quanto às expectativas em relação à disciplina relatou:

A5: Esperava algo padrão, o cara vinha e falava sobre as tecnologias... as ciências... foi aquele primeiro choque. Primeiro, o cara tá usando uma

ferramenta muito legal que é o cinema, uma mídia que você consegue assim... cada um vai absorver de uma maneira o '2001', cada um vai ter uma relação com a obra diferente. Eu até brinquei.. falei 'Meu, você tem os caras fazendo... os caras são físicos fazendo... usando o cinema para explicar física e corrida espacial, usando a literatura, usando a música, só faltou o cara... o quadrinista... só faltou o cara usar o vídeo-game ali, que tá super no... no contexto. A matéria ela atrai mais, o pessoal tem mais gosto, porque o filme tem um discurso... tomada para a questão espacial e para a questão ambiental que tá funcionando muito legal... e assim, dá aquele gosto vir para a aula.

A isotopia discursiva desse estudante identifica nos produtos culturais, um recurso que permite o educando atribuir valores eufóricos ao conhecimento inerente entre a relação entre ciência e cultura, um ponto que a teoria de Snyders privilegia. Para a teoria semiótica, uma narrativa - seja ela verbal ou não verbal - possui um percurso que dá um sentido isotópico ao discurso e para isso é necessário um objeto de valor, que no caso do estudante pode ser o conhecimento (ou reconhecimento em sala perante aos seus professores, pares ou familiares). Além disso, para que seja sancionado esse objeto de valor, é necessário um 'objeto modal', que permite o 'fazer/saber' (FIORIN, 2009, p. 37). Entendemos que no caso dos dois últimos estudantes, os produtos culturais se consolidam como objetos modais para o conhecimento e para a sua satisfação cultural.

## Considerações Finais

Podemos estabelecer algumas categorias ao discurso dos estudantes, baseadas nas categorias semióticas estabelecidas por Floch (2000, p. 119-120): 'Prático; Lúdico e Utópico'. No caso do Utópico, se enquadram os estudantes que atribuem enfaticamente de forma eufórica a relação entre cultura e ciência e identifica no conhecimento científico - cultura elaborada, do ponto de vista de Snyders - um conhecimento que transcende apenas os conceitos e a formalidade matemática. Quanto à categoria Lúdica, entendemos que o estudante reconhece o conhecimento científico como inerente à sociedade e que os produtos culturais refratam essa realidade, no entanto, essa conexão não é primordial para estabelecer relações entre a ciência e a sociedade. Consideramos a categoria Prática relacionada aos estudantes que acreditam não haver a necessidade de vincular a ciência com cultura para pensar sobre o fazer científico, sendo assim, o próprio conhecimento científico e suas relações internas seriam suficientes para trazerem satisfação cultural ao educando. O que no permite estruturar o discurso dos estudantes da seguinte forma:

Tabela 1 - Categorias

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Os estudantes A1, A4 e A5 estão na categoria "Utópico" por considerarem primordiais a conexão entre ciência e cultura e que seus discursos refratam uma satisfação cultural por conta do uso desses produtos culturais nos seus contextos educacionais. O estudante A2, considera interessante esse diálogo, ressalta euforia no uso do produto cultural, mas não enfatiza a necessidade desse diálogo. O

estudante A3 se caracterizou por entender que não há a necessidade dos produtos culturais utilizados para refletir sobre a ciência.

Entendemos que a análise semiótica do discurso dos estudantes permite identificar quais valores são atribuídos à relação entre ciência e cultura e de que forma ocorre a recepção da interface entre ciência e cultura na sala de aula. No caso deste trabalho, a física entrou como um arcabouço conceitual que permitiu ao homem a exploração do espaço, que ao se relacionar com seu contexto histórico, produziu diversos produtos culturais que exemplificam os aspectos sociais e culturais que tangem a ciência. No caso deste trabalho, esse diálogo se enquadra na temática 'Controvérsia', proposta neste Encontro de Pesquisa em Ensino de Física.

## Referências Bibliográficas

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