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AS POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA REVISTA SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL PARA O ENSINO DE FÍSICA

Ana Luiza De Azevedo Pires Sério, Maria Regina Dubeux Kawamura

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
06/11/2012
Linha de pesquisa
Formais
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## AS POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA REVISTA SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL PARA O ENSINO DE FÍSICA

## POSSIBLE CONTRIBUTIONS OF SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL MAGAZINE TO PHYSICS TEACHING

Ana Luiza de Azevedo Pires Sério , Maria Regina Dubeux Kawamura 1 2

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Colégio Equipe e Colégio Miguel de Cervantes, analuserio@gmail.com Universidade de São Paulo/ Instituto de Física, mrkawamura@if.usp.br

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## Resumo

A divulgação científica é uma forma importante de estabelecer contato com conteúdos de ciência, quer seja dentro do ambiente escolar ou fora dele. Desta forma é indiscutível a sua contribuição para a alfabetização científica dos indivíduos. Nesse sentido, sua relação com o ensino de ciências têm sido, com freqüência, objeto de estudo de diversos investigadores. Com esse trabalho, procuramos identificar quais as possíveis contribuições da revista Scientific American Brasil para a formação de visões da ciência, através da análise de algumas de suas reportagens. Essa análise foi realizada a partir da Análise de Conteúdo com categorias pré-definidas, e incluiu a construção de um instrumento específico de análise, uma matriz de categorias. As categorias foram estabelecidas a partir de três eixos: imagem de ciência ; possibilidades de entendimento; e diálogo entre divulgador e leitor. Com base em nossos resultados, foi possível identificar quatro perfis de divulgação científica, presentes na revista, que classificamos como: conhecimento conceitual, cuja ênfase é centrada na discussão de conceitos e fenômenos; conhecimento relacional, em que se privilegiam as relações entre diferentes conhecimentos , deixando aos leitores futuros aprofundamentos ; conhecimento fantástico, que valoriza os aspectos sedutores da ciência, ainda que pouco esclarecidos conceitualmente e conhecimento informativo . Esses perfis apresentam, principalmente, uma nova relação entre a divulgação e o ensino de ciências: reconhecem que o papel que a divulgação científica tem no ensino de ciências vai além de apresentar (ou traduzir) conceitos para um público não especialista. E, além disso, indicam que ao procurar entender as contribuições da divulgação científica devemos levar em consideração, além das características da divulgação em si, a natureza do tema divulgado.

Palavras-chave : Divulgação científica, Scientific American Brasil

## Abstract

The popularization of science is an important way to establish contact with science content, whether inside or outside the school. Thus we can recognize its contribution to the scientific alphabetization. In this sense, its relation to science education have often been studied by several investigators. With this work, we identify the possible contributions of the magazine Scientific American Brazil to form views of science, through the analysis of some of their articles. This analysis included the construction of a specific instrument, in which was used the content analysis with pre-defined categories. Based on our results, we identified four profiles, which we

named as conceptual knowledge, whose emphasis is focused on discussion of concepts and phenomena; relational knowledge, which emphasize the relationships between different knowledge, leaving readers with insights into future; great knowledge, that values the enticing aspects of science, yet poorly understood conceptually information and knowledge. These profiles present with a new relationship between the disclosure and teaching of science: they recognize the role that science communication is the teaching of science goes beyond the explanation (or translation) of concepts to a non-specialist audience. And, moreover, indicate that the attempt to understand the contributions of scientific must take into account, besides the characteristics of the diffusion itself, the theme disclosed.

## Key words : Science popularization, Scientific American Brasil

## Introdução

A divulgação científica é uma forma importante de estabelecer contato com conteúdos de ciência, quer seja dentro do ambiente escolar ou fora dele Desta forma, ocupa um papel importante na relação estabelecida entre a sociedade e a produção do conhecimento científico. Durante a educação formal, textos de jornais e revistas, programas de televisão, sites e outras formas de divulgação vêm sendo, muitas vezes, utilizadas como recurso didático. Depois da educação básica, a relação com a ciência se mantém a partir da própria divulgação. Assim, muitos pesquisadores estudam e estudaram esta relação jornalismo científico/educação, seja a partir da sala de aula, ou fora dela. De acordo com Zamboni (2001) o discurso da divulgação científica deve ser reconhecido como um discurso próprio, que se relaciona com o conhecimento científico, mas que se estabelece com um novo discurso.

Alguns pesquisadores se voltaram para esse tema, com diversos olhares para a relação entre divulgação científica e educação. Sariego (1995) tratou das preocupações voltadas para questões ambientais; Marandino (2004) discutiu as contribuições da divulgação para a educação científica a partir de ambientes não escolares; Silva e Almeida (2005) e Almeida e Gama (2005) analisaram a formação dos estudantes a partir concepção que apresentam de divulgação científica. Do ponto de vista das perspectivas educacionais, Ribeiro (2007) concluiu que as pesquisas na área têm diversas motivações, incluindo desde práticas de leitura na sala de aula, complementação de conteúdo, formação de leitor, até ao uso da divulgação científica como agente motivador.

Do ponto de vista da própria divulgação, Nascimento e Junior (2010) fizeram uma investigação da área, procurando identificar quais as principais temáticas utilizadas pelas pesquisas sobre Divulgação científica entre 1997 e 2007. Nesse trabalho, identificaram três principais tendências: a divulgação científica com foco em educação não formal (espaços de divulgação fora da sala de aula, como museus, feiras de ciência, e outros); tipos de textos de divulgação científica (a utilização de textos de divulgação como recurso didático) e ensaios teóricos (que inclui revisões bibliográficas)

Dentro do quadro de preocupações acerca das contribuições da divulgação científica para o Ensino de Física, nosso objetivo, neste trabalho, é investigar a natureza do conhecimento que é apresentado em uma divulgação científica de qualidade. Nossa intenção, portanto, não é de estabelecer críticas quanto ao

enfoque ou conteúdo científico da divulgação, mas investigar as possíveis imagens e formas de entendimento que meios dessa natureza podem propiciar. No entanto, nosso desafio é procurar caracterizar essas formas de entendimento a partir da análise dos próprios textos, sem recorrer a pesquisas que envolvam diretamente a sala de aula ou fazer levantamentos acerca das compreensões de alunos/leitores. A justificativa para isso é parte da própria pesquisa: em que sentido os próprios textos de divulgação possuem características e especificidades que, por si só, delimitam suas potencialidades em sala de aula?

Para desenvolver tal investigação, uma parte central do problema consiste em estabelecer parâmetros ou categorias de análise que permitam identificar essas especificidades. Ou seja, trata-se de, em uma primeira etapa, desenvolver um instrumento de análise que tenha potencial para explicitar os elementos considerados relevantes. A partir desses elementos, em uma segunda etapa, serão analisadas algumas reportagens de divulgação científica, de forma comparativa. Finalmente, nossa intenção é confrontar possíveis especificidades com as potencialidades de suas contribuições para o Ensino de Física.

Nesse sentido, para a construção das referências de análise, optamos por considerar conjuntamente as caracterizações de textos apresentadas por Silva e Almeida (2005) e por Nigro (2007). No primeiro caso, os autores comparam o discurso da divulgação científica com o discurso pedagógico, a partir da análise do discurso. No segundo, o autor compara diferentes aspectos de testes de leitura com características que identificou nos textos lidos; ou seja, tratou as características do texto como uma possível 'variável independente' (Nigro, 2007, p.120. Assim, o quadro que resulta de nossa articulação envolve uma terminologia presente no em ambos esses autores.

Uma vez construído o instrumento, optamos por analisar reportagens que foram publicadas pela Scientific American Brasil , construindo uma amostragem suficientemente diversificada. A escolha desse veículo se justifica por ele ter sua qualidade reconhecida pela comunidade científica, além das reportagens serem elaborada por cientistas e com tratamento editorial de especialistas.

As reportagens foram analisadas em três níveis, partindo-se de um mais geral para um mais específico, todos eles envolvendo Análise de Conteúdo (Bardin, 2002). Em um primeiro nível, foi realizada uma caracterização geral, pode-se dizer que quase uma descrição de como a reportagem se apresenta ao leitor, a partir da leitura de cada uma das reportagens. Em um segundo nível, utilizamos a análise de conteúdo com categorias definidas a priori pelo nosso instrumento, tal como descreveremos a seguir. E, em um terceiro nível, foi realizado um levantamento e classificação dos conceitos físicos utilizados.

## Estratégias de investigação e categorias para a matriz de análise

A natureza do conhecimento científico a ser construído pelos leitores depende do entendimento que o texto traz, seja através das formas de argumentação que utiliza, seja através dos níveis de compreensão dos conceitos que estão implícitos ou que visa promover. Nesse sentido, também o encaminhamento ou a intenção de promover tal entendimento é importante, o que pode ser identificado nas formas ou intenções de diálogo. A escolha das dimensões

de análise foi feita com o intuito de verificar as características do texto com relação a esses aspectos:

- (i) As possibilidades de entendimento, ou seja, elementos que explicitam a intenção do autor em ser compreendido ou dialogar com seus possíveis leitores
- (ii) Diálogo entre divulgador e leitor, ou seja, procura verificar qual é a relação que o texto estabelece com seu leitor, com a utilização de recursos de diálogos explícitos e referências a situações cotidianas.
- (iii) Imagem de ciência implícita, ou que poderia ser inferida pelo leitor (e que, portanto, estaria sendo sugerida pelo autor) a partir do texto,

Para cada uma dessas dimensões, foram estabelecidas diferentes categorias de análise. Assim, no total, foram estabelecidas nove categorias divididas em três grupos:

- a) Aspectos relacionados ao entendimento. Com este grupo de categorias procurou-se destacar aspectos relacionados à estrutura do texto que podem ser vistos como favorecendo ou dificultando a compreensão do texto. Os aspectos destacados foram: a forma de argumentação, os recursos linguísticos presentes no texto e a relação estabelecida com o leitor.

Com relação à forma de argumentação, procurou-se identificar se os argumentos apresentados para sustentar proposições feitas compunham-se do fornecimento de dados ou de evidências ou se os argumentos apresentados recorriam à autoridade como forma de sustentação das proposições feitas. Lidando, assim, com duas categorias para a caracterização dos textos:

- a1) argumentos baseado em evidências : argumentos presentes no texto são construídos a partir de experimentos, dados ou observações.
- a2) argumentos baseados na autoridade : a justificativa para uma proposição é estabelecida apenas com base em afirmações do tipo 'é sabido que…'', 'a ciência/ a física propõe...'
- Com relação aos recursos linguísticos presentes no texto, procurou-se identificar duas categorias para descrição dos textos:
- a3) questões ou afirmações com função introdutória ou de resumo . Uma forma de facilitar a leitura de um texto (e, portanto, a sua compreensão) é utilizar estratégias que permitam ao leitor rever as várias ideias apresentadas ao longo da leitura e, assim, cada ponto eventualmente destacado no texto.
- a4) analogia , a utilização de analogias tem sido considerada como uma estratégia importante para propiciar a compreensão de uma ideia e a sua utilização é reconhecida tanto em textos didáticos como em materiais jornalísticos.
- b) Aspectos relacionados à imagem da ciência que reconhece a presença de algumas características da produção do conhecimento científico, como trechos que apresentam o caráter histórico da ciência; que relatam alterações no conhecimento produzido, ou que relacionam a possibilidade de mudanças no conhecimento com as condições de sua construção técnicas e/ou históricas, e também, trechos que reconhecem a ciência como um produto coletivo, e não de

uma 'mente brilhante'. Este grupo é formado por três categorias apresentadas a seguir:

- b1) incerteza : essa categoria identifica trechos das reportagens que procuram reconhecer que a ciência não é construída apenas de grandes verdades imutáveis.
- b1) temporalidade : reconhecer a ciência como atividade humana significa reconhecer também sue caráter temporal e histórico.
- b3) diferentes vozes : podemos entender o conhecimento cientifico como o produto coletivo do trabalho de várias pessoas em diferentes épocas ou como o produto de ideias brilhantes de grandes gênios.
- c) Aspectos dialógicos do texto : este último grupo procura verificar qual é a relação que o texto estabelece com seu leitor. O grupo é composto por duas categorias:
- c1) diálogo com o leitor em que o texto se refere diretamente ao leitor do texto, utilizando verbos no imperativo e perguntas em segunda pessoa.
- c2) relação com o mundo do leitor outra forma de interagir com o leitor é a partir da utilização de elementos que façam parte de seu cotidiano.

## O discurso da revista - análise das reportagens

- A escolha das reportagens procurou abranger diversos aspectos e possibilidade de temas. Desta forma foram escolhidas com os seguintes critérios:
- I) Física de Fronteira , ou seja, reportagens que apresentam temas mais atuais da física. Foram selecionados dois artigos sobre um mesmo assunto (teoria de cordas) escrito por autores de nacionalidades diferentes: Cordas e Teoria M (ABDALA; CASALI, 2003) chamada, a partir daqui, de reportagem A e O panorama da teoria das cordas (BOUSSO; POLCHINSKI, 2004), reportagem B.
- II) Física de Fenômenos Básicos , ou seja, reportagens que procurassem explicar fenômenos que já estão bem estabelecidos do ponto de vista conceitual. Nesse caso, para verificar uma possível influência o momento histórico da produção do texto; procuramos observar se a data de produção do texto poderia de alguma forma marcar as suas possibilidades de leitura. Desta forma escolhemos as seguintes reportagens que representassem épocas distintas, e desta forma optamos por utilizar um texto da revista americana e outro publicado na edição brasileira: O refinado instrumento da voz (TITZE, 2008), chamada de reportagem C e The acoustics of the singing voice (SUNDBERG, 1977) que será chamado de reportagem D.
- III) Física Aplicada , ou seja, reportagem que usasse a Física aplicada a outra área do conhecimento. A primeira edição da revista, em junho de 2002, tinha como tema central, a nanotecnologia. A reportagem escolhida, reportagem E, foi Nanotecnologia e a dupla hélice (SEEMAN, 2008).

As categorias foram sistematizadas através da construção de uma tabela, com a frequência de cada categoria, apresentada a seguir. A unidade de análise utilizada foi o parágrafo, que foram agrupados nas colunas, enquanto as linhas apresentam a frequência de cada categoria. Essa tabela permite verificar como as categorias se comportam ao longo do texto. Ao mesmo tempo, colocando as informações em uma única tabela, é possível comparar os textos entre si, de acordo com as dimensões que estabelecemos anteriormente.

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Da análise dessa matriz podem ser inferidas algumas características comuns aos textos. Apresentamos a seguir os resultados da análise de cada dimensão estabelecida.

## a) Aspectos relacionados com o entendimento

Entre as reportagens A e B existe uma maior preocupação no B que se reflete no uso de analogias e de questões introdutórias ou resumos. Nas reportagens C e D a distribuição dessas categorias é diferente ao longo do texto, sendo que na D é uma ênfase nas questões introdutórias e de resumo. Na reportagem E, os aspectos relacionados ao entendimento se concentram em uma grande quantidade de analogias. E os demais aspectos relacionados ao entendimento não comparecem de forma significativa. Podemos perceber que não existe muita diferença entre as áreas (física de fronteira, física de fenômenos básicos e física aplicada). Isso indica que essa é uma característica da divulgação científica que independe da área abordada no texto.

## b) Aspectos relacionados à imagem da ciência

Os aspectos relacionados à imagem da ciência aparecem com grande frequência nas reportagens A, B e E. Já nas reportagens C e D esse aspecto está pouco contemplado. Nas reportagens A e b esse aspecto aparece na discussão da temporalidade e incerteza, e apenas na reportagem B, as diferentes vozes. Já na reportagem E a principal característica relacionada à imagem da ciência é a presença de diferentes vozes e temporalidade, não fazendo referência significativa à incerteza. Podemos perceber nesse caso uma diferença entre os temas de cada reportagem. E essa diferença é coerente quando pensamos na natureza dos temas. Se considerarmos que a reportagem E tem um caráter mais informativo e que as reportagens A e B serem de temas de fronteira, podemos entender porque os aspectos relacionados à incerteza do conhecimento científico aparecem apenas no segundo caso. E, além disso, as reportagens C e D, por tratarem de assuntos mais estabelecidos, não se preocupam tanto com esse aspecto.

## c) Aspectos dialógicos do texto

Em relação aos aspectos dialógicos do texto, podemos observar que este aspecto prevalece nas reportagens C e D de forma mais significativa do que os demais aspectos. Isso reflete o caráter mais didático dessas duas reportagens, que buscam explicar conhecimentos que hoje estariam bem estabelecidos. Esses aspectos não aparecem de forma tão significativa nas outras reportagens (A, B e E) o que indica mais uma vez, uma diferença entre as diferentes naturezas dos temas das reportagens.

## Conhecimento científico veiculado - diferentes perfis

A partir da análise realizada é possível identificar pelo menos quatro perfis de naturezas diferentes, quanto às intenções de comunicação do conhecimento científico ou quanto às formas pelas quais essa comunicação se estabelece. Estes perfis foram por nós designados, para permitir uma melhor caracterização, em: conhecimento conceitual, conhecimento relacional, conhecimento fantástico e conhecimento informativo. Apresentamos cada um deles a seguir.

- a) Conhecimento conceitual: nesse caso, a intenção é apresentar um conhecimento científico que permite, por si só, um aprendizado conceitual. Ou seja, um aprendizado a partir de conceitos básicos, com uma compreensão da relação entre grandezas físicas que possibilita sua utilização nas próprias situações dadas ou em outras, futuras, mesmo que em contextos diferentes. Seria o mais próximo de um aprendizado conceitual utilizado nos recursos didáticos, ainda que sob uma forma de comunicação diferente, mais amigável, explicitada, dialógica, com outra estrutura de apresentação e com significados novos, contextualizada em situações de interesse criadas pelos próprios textos. Até agora, essa contribuição seria aquela que mais comumente é discutida quando se fala de utilizar divulgação científica em sala de aula. Nesses textos, a forma de apresentação é completamente diferente daquela utilizada em textos didáticos, mas persiste a intenção de fazer aprender um conteúdo físico relevante, o que é permitido desde que o texto da reportagem seja analisado com atenção. Identificamos esse perfil com a reportagem D, The acoustics of singing voice . A utilização de gráficos, e a explicação de fórmulas e de conceitos fazem com que o texto tenha um caráter mais preocupado com um aprendizado conceitual.
- b) Conhecimento relacional: nesse caso, ainda que se apresente o conhecimento físico com a preocupação de explicitar suas relações, a contribuição apresentada não é suficiente, por si só, para um domínio científico propriamente dito do assunto tratado. E também não parece ser essa a intenção. Ou seja, os elementos não permitem uma apropriação do conteúdo, embora possam conter indicações suficientes para que o leitor faça o aprofundamento. São estabelecidas, sobretudo, as relações das questões que estão sendo abordadas com outras questões ou situações, por analogias, ou mesmo por correspondência. Parece existir a preocupação de situar uma explicação em uma rede maior de relações que, por si só, já se constituiria em significado. Algo que pode ser associado ao conhecimento em rede. Pode parecer, de certa forma, superficial, porque não se vai às explicações últimas e mais básicas, propriamente conceituais. Isso porque, talvez, a complexidade dos temas tratados seja grande e o limite do espaço não permita. Mas, pode ser também que isso não aconteça justamente porque não se acredita que isso seja necessário. Seria mais importante situar o conhecimento

tratado através de suas múltiplas características e peculiaridades do que aprofundálo completamente. De certa forma, trata-se de uma abordagem que encontra bastante ressonância com as possibilidades proporcionadas pela internet. De um site a outro, quando não se compreende, vai se buscando uma compreensão maior. Nesse caso, as relações que levam de uma situação à outra são mais importantes, porque apontam caminhos. Um exemplo deste perfil seria a reportagem C, O refinado instrumento da voz . Neste caso, a preocupação maior da reportagem estava em apresentar um conhecimento a partir de outro (o texto apresenta a idéia de que os fenômenos sonoros são provocados a partir de efeitos não-lineares), mas para isso, não apresenta elementos para que o leitor possa inferir outras situações a partir dos exemplos propostos.

- O contraste entre as reportagens C e D é bastante explicito, por trabalharem com um mesmo tema. O fato de terem sido produzidas em épocas muito diferentes, em um intervalo de 40 anos, pode, eventualmente indicar tendências mais contemporâneas da divulgação científica.
- c) Conhecimento fantástico: nesse caso, o grau de complexidade do tema tratado não permite uma compreensão clara nem mesmo das relações entre grandezas. Mas, a contribuição da reportagem é apresentar a própria colocação de uma questão ou problema e dos caminhos de sua investigação. Ou seja, talvez o foco seja fazer compreender o problema e, só muito vagamente, sua solução atual. Quer dizer, se ganha familiaridade com as características de um dado contexto e com certa terminologia correspondente. As palavras ou designações, ainda que não bem fundamentadas, passam a ser conhecidas e podem vir a ser reconhecidas em outros contextos. Ao contrário da contribuição anterior, não se estabelecem tantas relações com situações e contextos mais gerais, mesmo porque em temas mais específicos e de ponta isso não seria possível. Ao contrário do anterior, mesmo que o leitor queira se aprofundar, não conseguirá fazê-lo apenas com o texto, porque as limitações são maiores. Nos casos que analisamos, esse tipo de contribuição compareceu nos desenvolvimentos das teorias físicas. Por outro lado, a grande contribuição é sermos introduzidos a um novo vocabulário, ainda que o dicionário não esteja disponível. Esse aspecto parece ter uma função de cultivar ou estimular o leitor para questões abertas e misteriosas, para o fantástico mundo da ciência. A própria fala do editor, tanto nos editoriais, como durante a entrevista, chama atenção para esse aspecto de forma explícita. As reportagens que mais se adéquam a esse perfil são as reportagens A e B, que tratam de temas de fronteira da física. Um leitor não especializado entende pouco do texto, mas consegue se familiarizar com nomenclaturas de um conhecimento que está em construção.
- d) Conhecimento informativo: nesse caso, a função do texto é de apresentar informações sobre um assunto, sem a preocupação de explicá-lo profundamente. Por isso, identificamos esse perfil com textos interdisciplinares, que procuram relacionar conceitos de diferentes áreas e não apresentar conceitos novos. Nesse caso, entendemos a reportagem E como conhecimento informativo na medida em que procura relacionar aspectos da física e da biologia.

Não é nossa intenção pretender classificar os textos de divulgação cientifica nesses quatro perfis, nem mesmo afirmar que cada reportagem corresponda totalmente a uma dessas contribuições. Com a caracterização desses perfis pretendemos explicitar que as contribuições da divulgação científica são de naturezas diferentes, e apontar algumas dessas diferenças. É verdade que, nos

caso que analisamos, em cada reportagem predomina uma dessas abordagens do conhecimento. Mas essa condição certamente não se repetirá em todos os casos. Assim, acreditamos que seja possível encontrar em um mesmo texto contribuições de perfis diferentes.

Identificar características na forma de abordar o conhecimento científico diferentes, muito mais distantes da forma tradicional com que pensamos sua compreensão nos textos de ensino, talvez seja uma grande contribuição. Não se trata só de buscar, através dos meios de divulgação, uma linguagem diferente para o conhecimento científico. Trata-se, também, nessa divulgação, de buscar uma nova forma de fazer compreender, mais distanciada de princípios básicos e mais centrada em outras formas de abordagem que ainda têm pouco espaço.

Assim, trata-se de não desvalorizar essas formas, em certo sentido menos completas, mas, ao contrário, reconhecer nelas uma nova forma de aprendizado científico que não parte de conhecimentos fundamentais básicos, mas que se vai construindo por aproximações sucessivas, largamente possibilitadas pelas novas mídias de que dispomos hoje.

## Considerações Finais

Ainda que a análise realizada nesse trabalho possa ser aprimorada, foi possível reconhecer que existem, de fato, perfis diferentes para os textos de divulgação científica. A amostra escolhida permitiu diferentes aproximações que confirmam essa idéia.

Então, qual seria a contribuição para o ensino de ciências desses diferentes perfis? Para essa resposta, podemos relacionar os elementos já apresentados às quatro vertentes para a divulgação científica apontadas por Ribeiro (2007). A autora, a partir da comparação de diferentes discursos sobre a divulgação cientifica identificou quatro vertentes da divulgação científica para o ensino de física: mundo de leitura, leitura de mundo ; formação do espírito crítico ; Contextualização e atualidade e Olhar da sedução: encantamento e motivação.

Um aspecto importante da pesquisa feita por Ribeiro (2007) é que toda sua análise é baseada em uma concepção de educação claramente definida e apresentada: a concepção freiriana. As vertentes que ela reconhece para a divulgação científica como instrumento de ensino têm raízes e dialogam com essa concepção de educação.

A primeira vertente, denominada Mundo de leitura, leitura de mundo, é caracterizada pela possibilidade de leituras que a divulgação oferece. A segunda vertente reconhecida, Formação do espírito crítico , tal como o próprio nome sugere, vê o uso de divulgação cientifica no ensino como uma forma de 'estimular o olhar crítico para a realidade' (p. 103). Esta vertente implicaria no desenvolvimento de uma postura crítica diante da relação ciência-tecnologia-sociedade, bem como diante dos próprios meios de comunicação que realizam esta divulgação. A terceira vertente, Contextualização e atualidade , caracteriza o papel da divulgação científica no ensino na contextualização do conhecimento difundido, isto é, 'na necessidade de se dar sentido ao conhecimento que vai sendo construído, proporcionando uma aprendizagem efetiva (…) Contextualizar é tecer relações, é situar, é interação entre partes para dar origem a uma visão totalizada.' (p. 109).

Finalmente, a quarta vertente apontada por Ribeiro refere-se à produção de motivação para o aprendizado. Nomeada pela autora de Olhar da sedução: encantamento e motivação esta possibilidade da divulgação científica como instrumento de ensino permite 'estimular o olhar curioso para o mundo, a motivação para o aprendizado, o interesse por temas da ciência, a leitura de textos variados (literatura, divulgação, poesia, ficção etc.) é a principal ação abarcada por esta vertente. (p. 103).

Os resultados produzidos em nosso trabalho, com vistas a discutir as possibilidades de material de divulgação científica como recurso no ensino de física, poderiam ser relacionados com cada uma dessas vertentes. Além disso, acreditamos que esta última vertente conduz mais diretamente aos resultados produzidos e relacioná-los a ela poderia trazer um contexto mais significativo para nossa análise da revista Scientific American Brasil .

## Referências

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ALMEIDA, M. J. P. M, e GAMA L. C. Licenciandos em física e estudantes de jornalismo: posições sobre divulgação científica. In: XVI

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BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70. 2002

BOUSSO, R. &amp; POLCHISKI, J. O panorama da teoria das cordas, Scientific American Brasil , São Paulo, v. 29, p. 58 - 67, 2004.

MARANDINO, M. Transposição ou recontextualização? Sobre a produção de saberes na educação em museus de ciências. Revista Brasileira de Educação , v. 26, 2004.

NIGRO, R. G. Textos e leitura na educação em Ciências : contribuições para a alfabetização científica em seu sentido mais fundamental. 2007. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

RIBEIRO, R. Divulgação científica e ensino de física: intenções, funções e vertentes . 2007. Dissertação de mestrado (Mestrado em ensino de ciências) - Programa interunidades em ensino de ciências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

SARIEGO, J. C. Emprego de revistas de divulgação científica como instrumento na Educação Ambiental . 1995. Dissertação (Mestrado em educação) - Faculdade de educação Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 1995. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000094462 Acesso em 26 jul 2012

SEEMAN, N. C. A Nanotecnologia e a dupla hélice , Scientific American Brasil , São Paulo, v. 73, p. 28-35, 2008.

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ZAMBONI, L. M. S. Cientistas, jornalistas e a divulgação científica, subjetividade e heterogeneidade no discurso da divulgação científica, Editores Autores associados, Campinas. 2001

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